Poemas sobre Ardor

33 resultados
Poemas de ardor escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Amor Sem Fruto, Amor Sem Esperança

Amor sem fruto, amor sem esperança
√Č mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas pris√Ķes seguro.
Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos… Vis amantes,
Cora√ß√Ķes inconstantes,
De s√≥rdidas paix√Ķes envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Raz√£o n√£o p√Ķe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilh√Ķes que arrasto;
T√£o limpos como o Sol, darei mil beijos.
Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.

Ignoto Deo

D. D. D.

Creio em Ti, Deus; a fé viva
De minha alma a Ti se eleva.
√Čs: – o que √©s n√£o sei. Deriva
Meu ser do Teu: luz… e treva,
Em que – indistintas! – se envolve
Este espírito agitado,
De Ti vem, a Ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o h√°-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que est√° sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és Tu, luz és Tu,
Verdade és Tu só. Não creio
Sen√£o em Ti; o olho nu
Do homem não vê na Terra
Mais que a d√ļvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor – o prazer
Que n√£o fatiga e n√£o gasta…
Só por Ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas v√£s e grosseiras
Sua alma, raz√£o, sentidos,
A Ti se d√£o, em Ti vida,
E por Ti vida têm.

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Deixai que a Vida sobre Vós Repouse

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que √ļnica seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se n√£o revela
sen√£o no ardor de n√£o supor iguais
seus olhos de pens√°-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que n√£o volta mais,
a ansiosa, inadi√°vel, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se n√£o procura.

Que Bem Sabe o Amor Constante

Até no carro te canto,
Fala a fala, seio a seio,
Espantado de um encanto
Que mais parece receio

De te perder à partida
Pra te ganhar à chegada,
Pois tu és a minha vida
Na ida e volta arriscada.

Vai o Godinho ao volante
Com seu ar de conde antigo
Que bem sabe o amor constante
Que me aparelha contigo.

Poupado na gasolina,
Discreto na confidência,
Navegador à bolina
Dos rumos da nossa ausência.

Leva-me à Embaixada, ao almoço:
Travou, mas n√£o sei que tenho:
Um resto de ardor de moço
Contigo no meu canhenho.

Toma l√° Cinco!

Encolhes os ombros, mas o tempo passa…
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava s√£o e agora n√£o,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração.
E na cara uma ruga que n√£o espera, que n√£o espera…

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu cr√Ęnio os pequeninos p√©s.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que n√£o √©s…

Talvez sejas de enredos f√°cil presa,
Eterno marido, amante de um s√≥ dia…
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas n√£o rias, rapaz, que o ano s√≥ agora principia…

Talvez lances de amor um foguet√£o sincero
Para algum cora√ß√£o a milh√Ķes de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior…

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e n√£o errar a pontaria…

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau h√°lito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis,

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À Morte

Tu que mísero vives
no vão dos braços
em s√ļbito furor

Tu de m√£os cativas
senhor dos ombros
indefeso dador

Tu que os dedos secas
no liso peito
armado amador

Tu no c√°rcere vivo
das horas idas
impune rumor

Tu rendida palavra
√≠ntimo tr√Ęnsito
do barco raptor

Tu que na minha pele
t√°ctil ardor

am√°vel me esperas

O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ou√ßo as dist√Ęncias dizerem coisas
que n√£o sei suportar sem um amigo,
que n√£o posso amar sem uma irm√£.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deix√°ssemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, ‚ÄĒ
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordin√°rio
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus advers√°rios
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.

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Saudação aos que Vão Ficar

Como ser√° o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,
j√° velhinhas ent√£o,
lembrar√£o com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
ter√° a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitar√£o os papais
cheios de mocidade?
Que diferença haverá
entre o av√ī e o neto?
Que novas rela√ß√Ķes e enganos
inventar√£o entre si
os seres desumanos?
Que lei impedir√°,
libertada a molécula
que o homem, cheio de ardor,
atravesse paredes,
buscando seu amor?
Que lei de tr√°fego impedir√° um inquilino
– ante o lugar que vence –
de voar para lugar distante
na casa que n√£o lhe pertence?
Haver√° mais l√°grimas
ou mais sorrisos?
Mais loucura ou mais juízo?
E o que será loucura? E o que será juízo?
A propriedade, ser√° um roubo?
O roubo, o que ser√°?
Poderemos crescer todos bonitos?
E o belo n√£o passar√° ent√£o a ser feiura?
Haverá entre os povos uma proibição
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta?
Mas a R√ļssia (v√° l√°,

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Entre a Flor e o Tempo

Também de dor se morre pois é morte
o sentimento ausente. O ser feliz
é ser presente, sem que mais importe
esse profundo sulco e a cicatriz
que no corpo nos marca o sofrimento.
Assim é nossa vida, sempre o lance
de viver, mesmo em dor, e dos momentos
erguer templos, embora breve o alcance
em nós do tempo. E o que restar do ardor
com que se vive o amor enfim carrega
em rosa mais perfeita e em outro amor
sonhado da extens√£o de nossa entrega.
No impulso com que o espaço alcança o tempo
a vida se ergue além do sofrimento.

Memória

I

Na cristalina, líquida presença,
crescente lua no abismo enquanto
o mar se cala, desconheço a margem
onde me espera no desejo
esguio do poente a deusa branca…

À ínfima visão dum lírio encosto
o meu solu√ßo! O espa√ßo √© grande…
N√£o invoco o lugar mas a verdade
surge aqu√©m da espera…

Gaivotas sussurrantes, deixo a m√ļsica
morrer, pegadas frescas, desperdícios
quentes na relva da minha alma…

II

Quando se oculta julgando a noite
indefesa enorme, a fugidia
estrela me ilumina e desce!

Vem até mim, quebrada a natural
cad√™ncia do seu mundo, e cresce… cresce…
Tent√°culos de luz me envolvem. Comovido,
aperto em minhas m√£os o elanguescente
ardor do seu chegar…

III

Reconquisto agora o teu rosto, um horizonte,
silêncio de grito suspenso, labirinto,
mais desfeito
no h√°lito das nuvens…

Me surges t√£o sem ti
que envolve o dia a espessura deste longe…
E afogo assim na √≠ntima, na √ļnica
beleza do teu rasto,
o meu solu√ßo de √°gua…

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Em Horas inda Louras, Lindas

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde j√° n√£o torna!
E o tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.

E h√° nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos….
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.

pensar é uma palavra

pensar é uma palavra
primogénita
onde o ardor decanta das insígnias
os íntimos sinais
e o olhar é um silêncio enorme
e rumoroso

o delicado musgo
da memória
é a matéria-prima
do teu rosto

Adeus!

Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque n√£o te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu… tu nada perdeste;
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos t√£o daninhos
Que o seu poder só sei eu.

Oh! vai… para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa víbora medonha
Que por seu fatal cond√£o
H√°-de rasg√°-lo ao nascer:
H√°-de sim, ser√°s vingada,
E o meu castigo h√°-de ser
Ci√ļme de ver-te amada,
Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar – Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incêndio fatal!
Mais negro e feio no inferno
N√£o chameia o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!
N√£o sabes o que pediste.

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Anjo √Čs

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o h√°-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha raz√£o insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
N√£o vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o s√īfrego pudor
Vela os mist√©rios d’amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não têm. РQue anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeov√° ou Belzebu?

Não respondes Рe em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… – L√°grima? – Escaldou-me…
Queima,

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Ser ou n√£o ser

Qualquer coisa est√° podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as m√£os trazem a marca
se os fantasmas regressam e h√° homens de joelhos
qualquer coisa est√° podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque h√° sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e n√£o ser firmeza indecis√£o.

Até quando? Até quando?

J√° de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

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Balada de Sempre

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer…

Espero o momento da chegada
com os cansa√ßos e os ardores de todas as chegadas…

Rasgar√°s nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltar√°s ribeiros, mares, relevos…
– A tua alma n√£o morre
aos medos e às sombras!-

Mas…,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interroga√ß√Ķes na areia molhada…

Química

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim n√£o morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
N√£o caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

Hino da Manh√£

Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim p√Ķes-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irm√£ do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro n√£o palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal… a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem est√° j√° morto…

E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino…

Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paix√Ķes e das formas ilusorias,

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a teia do olhar

as duas m√£os no rosto

descrevo-te o silêncio sob os lábios
juntos
agora celebrando as delicadas sedes
e rindo sobre a haste
onde a saliva tarda

o tacto é uma arma onde o esplendor devora
os sinuosos dedos
e paira sobre o ardor
onde incendeio os pulsos

o amor é uma dança
a demolir-me o peito

A Palavra

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda resson√Ęncia.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre h√° um ardor soberano.