Poemas sobre Próprio

186 resultados
Poemas de próprio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual n√£o podemos contactar
sen√£o como amantes
de olhos fechados
e l√Ęmpadas nos dedos¬†¬†¬† e na boca

Um Renque de √Ārvores l√° Longe

Um renque de √°rvores l√° longe, l√° para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural √°rvores n√£o s√£o cousas, s√£o nomes.
Tristes das almas humanas, que p√Ķem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que p√Ķem letreiros com nomes nas √°rvores absolutamente
reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do
que isso!

O Amor

I

Eu nunca naveguei, pieguíssimo argonauta
Dans les fleuves du tendre, onde h√° naufr√°gios bons,
Conduzindo Florian na tolda a tocar frauta,
E cupidinhos d’oiro a tasquinhar bombons.
Nunca ninguém me viu de capa à trovador,
Às horas em que está já Menelau deitado,
A tanger o arrabil sob os balc√Ķes em flor
Dos castelos feudais de papel√£o doirado.
N√£o canto de Anfitrite as vaporosas fraldas,
(Eu não quero com isto, ó Vénus, descompor-te)
Nem costumo almo√ßar c’roado de grinaldas,
Nem nunca pastoreei enfim, vestido à corte,
De bordão de cristal e punhos de Alençon,
Borreguinhos de neve a tosar esmeraldas
Num lameiro qualquer de qualquer Trianon.
Eu não bebo ambrósia em taças cristalinas,
Bebo um vinho qualquer do Douro ou de Bucelas,
Nem vou interrogar as folhas das boninas,
Para saber o amor, o tal amor das Elas.
N√£o visto da poesia a t√ļnica incons√ļtil,
Pela simples raz√£o, sob o pretexto f√ļtil
De ter visto passar na rua uns pés bonitos;
Nem do meu coração eu fiz um paliteiro,
Onde venha o amor cravar os seus palitos.

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Surdo, Subterr√Ęneo Rio

Surdo, subterr√Ęneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a raz√£o de amar
– surdo, subterr√Ęneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

O Homem e o Mar

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre h√°s-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
√ď mar, ningu√©m conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E h√° s√©culos mil, s√©c’ulos inumer√°veis,
Que os dois vos combateis n’uma luta selvagem,
De tal modo gostais n’uma luta selvagem,
Eternos lutador’s √≥ irm√£os implac√°veis!

Tradução de Delfim Guimarães

M√£ezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
N√£o havia comboios, nem autom√≥veis, nem avi√Ķes, nem m√≠sseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam l√° na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, vi√ļvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, m√£es de filhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas pr√≥prias condi√ß√Ķes,
não têm que ser consideradas
nestas considera√ß√Ķes.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras raz√Ķes mais ou menos secretas,
n√£o se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detr√°s das cortinas
espreitando,

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O Sol na √Āgua Pousa

Alado, o sol na √°gua pousa
e dele treme a √°gua amedrontada,
que a ardente imagem lhe devolve em rosa
e em si própria um distante sonho ousa
de céu amargo, que não sonha nada.

Como se Morre de Velhice

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(J√° n√£o se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Vida

Três votos fará aquele
que n√£o ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

ser√° o segundo a vir
o de n√£o querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas

Est√£o todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se op√Ķem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Serm√Ķes e l√≥gicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torr√Ķes de barro
podem vir a ser l√Ęmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num √°pice ou numa flor
est√° o sentimento de um pelo outro,
e h√£o-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

As M√£os do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas j√° cor de terra
‚ÄĒ como s√£o belas as tuas m√£os ‚ÄĒ
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre c√≥lera dos justos…

Porque h√° nas tuas m√£os, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…

Vir√° dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas m√£os.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas m√£os nodosas…
essa chama de vida ‚ÄĒ que transcende a pr√≥pria vida…
e que os Anjos, um dia, chamar√£o de alma…

Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou n√£o seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manh√£ inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haver√° nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte m√°rio ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida

Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a √°gua e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Se a Vida Fosse Sempre Vida

Felizes, cujos corpos sob as √°rvores
Jazem na √ļmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.

Verta Eolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Netuno, em cheias m√£os, ao alto
As ondas estoirando.

Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a √°rvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,

N√£o sabe que os seus passos v√£o cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre vida, a glória
De uma beleza eterna.

O que √Č Perfeito n√£o Precisa de Nada

Sim, talvez tenham raz√£o.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na √°rvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das √°rvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes d√° a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
√Č um j√° dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes ser√£o os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que n√£o morrem porque s√£o iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem s√£o e quem s√£o,

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Além-Tédio

Nada me expira j√°, nada me vive –
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha c√īr!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
√Č que, de t√£o iguais e t√£o vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…

Quando é que o cativeiro

Quando é que o cativeiro
Acabar√° em mim,
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?

Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?

Quando, ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?

Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em v√£o.

O Ferrador de Cavalos

Em que língua falarei
ao ferrador de cavalos?
Por que, na minha língua
de assombro e vogal,
só falo a mim mesmo
‚ÄĒ ao meu nada e ao meu tudo ‚ÄĒ
e nem sequer disponho
do gesto dos mudos?
Se as palavras morrem
à míngua como os homens
e se o silêncio fala
seu próprio idioma
em que língua direi
ao homem diferente
que ele é meu semelhante
quando o vejo ferrar
o casco de um cavalo?
Empunhando o martelo
ele me conta histórias
de cravos perdidos
e cavalos mancos.
Palavras que se perdem
como ferraduras
no caminho do pasto.

Vilegiatura

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos c√£es de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro …
Ah, a opress√£o de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse
Com o zumbido ou murm√ļrio mon√≥tono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos c√£es polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar l√° em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como p√£o ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensa√ß√Ķes,
Isto…

(Tuas m√£os esguias, um pouco p√°lidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,

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Adolescentes

Exaustos, mudos, sempre que os vejo,
Nos bancos tristes que h√° na cidade,
Sobe em mim próprio como um desejo
Ou um remorso da mocidade…

E até a brisa, perfidamente
Lhes roça os lábios pelos cabelos
Quando a cidade, na sua frente
Rindo e correndo, finge esquecê-los!

Eles, no entanto, sentem-na bela.
(Deram-lhe sangue, pranto e suor).
Quantos, mais tarde se vingam dela
Por tudo o que hoje sabem de cor!

E essas paragens nos bancos tristes
(Aquela estranha meditação!)
Traz-lhes, meu Deus, só porque existes,
A garantia do teu perd√£o!