Cita√ß√Ķes de Manuel Alegre

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Manuel Alegre para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Trova do Vento que Passa

Para António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios n√£o me sossegam
levam sonhos deixam m√°goas.

Levam sonhos deixam m√°goas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no ch√£o.
Silêncio Рé tudo o que tem
quem vive na servid√£o.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento n√£o me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha p√°tria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

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Abaixo el-rei Sebasti√£o

√Č preciso enterrar el-rei Sebasti√£o
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado j√° n√£o pode vir.
√Č preciso quebrar na ideia e na can√ß√£o
a guitarra fant√°stica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que est√° morto.
Deixai em paz el-rei Sebasti√£o
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem pal√°cios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa Рbranca e rota
a blusa de seu povo – essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as √°guas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa est√£o voltadas
contra as m√£os desarmadas – povo armado
de vento revoltado violas astros
Рmeu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das pris√Ķes tem velas rios
dentro das m√£os navios prisioneiros
ai olhos marinheiros – mar aberto
– com Lisboa t√£o longe em Lisboa t√£o perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa s√£o seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada m√£o
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde h√° versos que s√£o cravos vermelhos
Lisboa que ninguem ver√° de joelhos.

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O Cavaleiro

Talvez o espere ainda a Incomeçada
aquela que louv√°mos uma noite
quando o abril rompeu em nossas veias.
Talvez o espere a avó o pai amigos
e a mãe que disfarça às vezes uma lágrima.
Talvez o próprio povo o espere ainda
quando subitamente fica melancólico
propenso a acreditar em coisas misteriosas.

Algures dentro de nós ele cavalga
algures dentro de nós
entre mortos e mortos.
√Č talvez um impulso quando chega maio
ou as primeiras aves partem em setembro.

Cargas e cargas de cavalaria.
E cercos. Conquistas. Naufr√°gios naufr√°gios.
Quem sabe porquê. Quem sabe porquê.
Entre mortos e mortos
algures dentro de nós.

Quem pode retê-lo?
Quem sabe a causa que sem cessar peleja?
E cavalga cavalga.

Sei apenas que às vezes estremecemos:
é quando irrompe de repente à flor do ser
e nos deixa nas m√£os
uma espada e uma rosa.

A Breve Passagem na Vida

Por vezes sentado sozinho na sala, apenas com o cão por companhia, pensava que, contrariamente ao que ele supunha, não eram precisas palavras para entendermos o essencial: que tudo é uma breve passagem e que não há outra eternidade senão a da solidão partilhada.
Ou no amor, ou na camaradagem das grandes batalhas, ou no silêncio de uma sala entre um leitor e um cão. Talvez estivéssemos a ficar parecidos e até nos imitássemos um ao outro.

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que j√° foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Balada de Lisboa

Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
T√£o perto de mim t√£o longe
T√£o fora de seres presente

Esta e a cidade onde est√°s
Como quem n√£o volta mais
T√£o dentro de mim t√£o que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
T√£o doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem est√° de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
T√£o longe de mim t√£o perto
Ninguém assim por ninguém

Coração Polar

N√£o sei de que cor s√£o os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que h√° um corpo nunca encontrado algures
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus l√°bios de espuma e de salsugem
os teus naufr√°gios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua h√° uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
h√° uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e n√£o te encontro
h√° um √Ęngulo ao contr√°rio
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
h√° um mar imagin√°rio aberto em cada p√°gina
n√£o me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas m√£os
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num sem√°foro
todos os poentes me dizem quem tu és.

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Letra para um hino

√Č poss√≠vel falar sem um n√≥ na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar n√£o tenhas medo: canta.

√Č poss√≠vel andar sem olhar para o ch√£o
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer n√£o grita comigo: n√£o.

√Č poss√≠vel viver de outro modo. √Č
possível transformares em arma a tua mão.
√Č poss√≠vel o amor. √Č poss√≠vel o p√£o.
√Č poss√≠vel viver de p√©.

N√£o te deixes murchar. N√£o deixes que te domem.
√Č poss√≠vel viver sem fingir que se vive.
√Č poss√≠vel ser homem.
√Č poss√≠vel ser livre livre livre.

Lusíada Exilado

Nem batalhas nem paz: obscura guerra.
Dói-me um país neste país que levo.
Sou este povo que a si mesmo se desterra
meu nome são três sílabas de trevo.

H√° nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E h√° um naufr√°gio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

Trago no rosto a marca do chicote.
Cicatrizes as minha condecora√ß√Ķes.
Nas minhas mãos é que é verdade D. Quixote
trago na boca um verso de Cam√Ķes.

Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como a vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a m√°goa como se lavrar
n√£o fosse mais do que a perdida guerra
entre o n√£o ser na terra e o ser no mar.

Eu que parti e que fiquei sempre presente
eu que tudo mandava e nunca fui senhor
eu que ficando estive sempre ausente
eu que fui marinheiro sendo lavrador.

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Como Ulisses te busco e desespero

Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te n√£o tendo tudo s√£o castigos.

Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar – P√°tria Sereia
Penélope que não te rendes Рtu

que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco
como Ulisses por ti nesta Odisseia.

Canção tão simples

Quem poder√° domar os cavalos do vento
quem poder√° domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poder√° calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que n√£o se diz
a f√ļria em riste
do meu país?

Quem poder√° proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
p√°tria vi√ļva
a dor que passa?

Quem poder√° prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que s√£o precisas?

Flores para Coimbra

Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas n√£o)
onde mil flores com espadas s√£o cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas n√£o.

Natal

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela m√ļsica acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de √°gua turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulc√£o. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.

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Amor de fixação

“A experi√™ncia √© madre das coisas
e por ela soubemos radicalmente
a verdade”.

Duarte Pacheco Pereira, “Esmeraldo”
Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
H√° um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.

H√° um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti. Há um saber pela experiência
o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência

que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)

naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.

Teoria do Amor

Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.

√öltima P√°gina

Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro p√°gina branca
onde morri onde nasci algumas vezes.

Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.

N√£o voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor n√£o viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.

Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.

Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da p√°tria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a p√°gina. Adeus.

Ser ou n√£o ser

Qualquer coisa est√° podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as m√£os trazem a marca
se os fantasmas regressam e h√° homens de joelhos
qualquer coisa est√° podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque h√° sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e n√£o ser firmeza indecis√£o.

Até quando? Até quando?

J√° de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

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