Citação de

Trova do Vento que Passa

Para António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios n√£o me sossegam
levam sonhos deixam m√°goas.

Levam sonhos deixam m√°goas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no ch√£o.
Silêncio Рé tudo o que tem
quem vive na servid√£o.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento n√£o me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha p√°tria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes m√°goas).

H√° quem te queira ignorada
e fale p√°tria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento n√£o me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha p√°tria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas m√£os vazias do povo
vi minha p√°tria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas h√° sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
can√ß√Ķes no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servid√£o
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.