Passagens sobre Flores

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Frases sobre flores, poemas sobre flores e outras passagens sobre flores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Língua Portuguesa

√öltima flor do L√°cio, inculta e bela,
√Čs, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-se assim, desconhecida e obscura
Tuba de algo clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Cam√Ķes chorou, no ex√≠lio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

A Evidência da Morte

√Äs vezes ponho-me a pensar se a aceita√ß√£o calma da morte no homem da terra n√£o ser√° o resultado desta √≠ntima comunh√£o com o ritmo da natureza. No inverno, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno seguinte, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno a seguir… Eu bem sei que o homem da cidade tem por sua vez mil maneiras de notar este eterno retorno da vida e da morte. Parece-me √© que ali a coisa n√£o tem esta nitidez, esta evid√™ncia, esta fatalidade.

Creio que Irei Morrer

Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer n√£o me move,
Lembro-me que morrer n√£o deve ter sentido.
Isto de viver e morrer s√£o classifica√ß√Ķes como as das plantas.
Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo s√£o termos onde se define.

Hora Vermelha

Por que vieste, pensamento?
J√° me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
n√£o sei l√° bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

J√° me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se n√£o quer
dizer que n√£o.
Os braços longos estendidos.
A m√£o em concha sobre o sexo
que nem a V√©nus de Cam√Ķes.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua m√£o branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
P√īr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

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As m√£os pressentem…

As m√£os pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de p√°ssaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e s√°bias m√£os
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor h√ļmido das noites e tanta ignor√Ęncia
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Rimance

Onde é que dói na minha vida,
para que eu me sinta t√£o mal?
quem foi que me deixou ferida
de ferimento t√£o mortal?

Eu parei diante da paisagem:
e levava uma flor na m√£o.
Eu parei diante da paisagem
procurando um nome de imagem
para dar à minha canção.

Nunca existiu sonho t√£o puro
como o da minha timidez.
Nunca existiu sonho t√£o puro,
nem também destino tão duro
como o que para mim se fez.

Estou caída num vale aberto,
entre serras que não têm fim.
Estou caída num vale aberto:
nunca ninguém passará perto,
nem terá notícias de mim.

Eu sinto que n√£o tarda a morte,
e só há por mim esta flor;
eu sinto que n√£o tarda a morte
e não sei como é que suporte
tanta solid√£o sem pavor.

E sofro mais ouvindo um rio
que ao longe canta pelo ch√£o,
que deve ser límpido e frio,
mas sem dó nem recordação,
como a voz cujo murm√ļrio
morrer√° com o meu cora√ß√£o…

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Quem Dir√° aos Amantes

Quem dir√° aos amantes
o caminho
pelo qual os corpos v√£o
ao termo do que souberam?
E depois foi noção,
espaço, letra,
e n√£o quiseram o retorno?
Quem os aguardar√° do outro lado
onde o riso,
a aveia, s√£o o pre√Ęmbulo
da carícia no seio?

Quem dir√° aos
amantes que o amor h√°-de despir
o acontecido
e passar√° pela m√£o
como passou o frio
de flor em flor?

Ent√£o as plantas ter√£o flores mais belas, os passarinhos cantar√£o com vozes mais lindas e as feras se tornar√£o mansas a ponto de dormirem aninhados nos colos dos seres humanos.

O Teu Riso

Tira-me o p√£o, se quiseres,
tira-me o ar, mas
n√£o me tires o teu riso.

N√£o me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a √°gua que de s√ļbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que n√£o muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de s√ļbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso ser√° para as minhas m√£os
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha p√°tria sonora.

Ri-te da noite,

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Beleza

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
√Č lei da natureza:
Queres ser bela? – ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E est√°tua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura…
Mas Beleza é isso? РNão; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
– Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que est√£o por nascer ‚Äď
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! РO mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

√Č a luz divina
Que nunca mudou,
√Č luz… √© a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.

Os leitores extraem dos livros, consoante o seu car√°cter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno.

XXXI

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente…

Porque teu nome é para mim o nome
De uma p√°tria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e c√Ęndido suspira
No cora√ß√£o e o purifica e beija…
E o que ele, o coração, aspira, almeja
√Č o sonho que de l√°grimas delira.

√Č sempre sonho e tamb√©m √© piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!

Ode ao Amor

T√£o lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo √° flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e s√ļbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as m√£os,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
ah tu, senhor da sombra e da ilus√£o sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuport√°vel triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, j√° tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,

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