Passagens sobre Sonhos

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Frases sobre sonhos, poemas sobre sonhos e outras passagens sobre sonhos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Amor no Ch√£o

O vento da outra noite derrubou o Amor
Que, no mais misterioso recanto do parque,
Nos sorria, ao esticar malignamente o arco,
E cujo ar nos fez meditar com fervor!

O vento da outra noite derrubou-o! O m√°rmore
com o sopro da manh√£, disperso, gira. √Č triste
Olhar o pedestal, onde o nome do artista
Se lê com muito esforço à sombra de uma árvore,

√Č triste ver em p√©, sozinho, o pedestal!
Melancólicos vêm e vão pensamentos
No meu sonho, onde o mais profundo sofrimento
Evoca um solit√°rio futuro fatal.

√Č triste! ‚ÄĒ E mesmo tu, n√£o √©? ficas tocada
Plo cen√°rio dolente, embora te divirtas
Com a borboleta rubra e de oiro, que se agita
Sobre a alameda, além, de destroços juncada.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

N√£o o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

A Palavra

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda resson√Ęncia.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre h√° um ardor soberano.

Sou o fantasma de um rei

Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um pal√°cio abandonado…
Minha hist√≥ria n√£o sei…
Longe em mim, fumo de eu pens√°-la, morre
A ideia de que tive algum passado…

Eu n√£o sei o que sou.
N√£o sei se sou o sonho
Que algu√©m do outro mundo esteja tendo…
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa hist√≥ria que um deus est√° relendo…

Eu sou escravo do cora√ß√£o: √© este que me fala em nome de um anjo, e me promete uma felicidade, que nem eu sei conceb√™-la… √© um sonho o teu amor.

Torre de Névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que s√£o meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilus√Ķes, como ningu√©m,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! …‚ÄĚ

Calaram-se os poetas, tristemente …
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao c√©u! …

Perseverança

Não digas que o trabalho é desperdiçado,
Nem que o esforço falha ou parece, no fundo;
N√£o digas que aquele ao dever curvado
√Č um entre os tantos sonhos do mundo.

Pois não é em vão que em golpes seguidos,
Com pressa medida, em fragor crescente,
O mar actua nos rochedos batidos
E invade a praia, ruidosamente.

√Č certo que enfrentam suas investidas,
Do seu bater forte parecem troçar,
Esmagam com força as vagas erguidas
E em espuma fazem as ondas rasgar.

Mas ele bate e bate com força
Em dias, semanas, em meses e anos,
Até que apareça mossa sobre mossa
Que mostre seus gastos, pacientes ganhos.

E os anos passam, as gera√ß√Ķes v√£o,
E menores se quedam as rochas cavadas;
Mas ele, com lenta e firme precis√£o,
Bater√° na terra suas altas vagas.

Certo como o sol e despercebido
Como duma árvore é o seu crescer,
Trabalha, trabalha sem ser iludido
P’la tenaz imagem que se pode ver.

E quando o seu fim de todo obtém,
Em sonoro embate,

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Rimance

Onde é que dói na minha vida,
para que eu me sinta t√£o mal?
quem foi que me deixou ferida
de ferimento t√£o mortal?

Eu parei diante da paisagem:
e levava uma flor na m√£o.
Eu parei diante da paisagem
procurando um nome de imagem
para dar à minha canção.

Nunca existiu sonho t√£o puro
como o da minha timidez.
Nunca existiu sonho t√£o puro,
nem também destino tão duro
como o que para mim se fez.

Estou caída num vale aberto,
entre serras que não têm fim.
Estou caída num vale aberto:
nunca ninguém passará perto,
nem terá notícias de mim.

Eu sinto que n√£o tarda a morte,
e só há por mim esta flor;
eu sinto que n√£o tarda a morte
e não sei como é que suporte
tanta solid√£o sem pavor.

E sofro mais ouvindo um rio
que ao longe canta pelo ch√£o,
que deve ser límpido e frio,
mas sem dó nem recordação,
como a voz cujo murm√ļrio
morrer√° com o meu cora√ß√£o…

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Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus p√°lidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca n√£o aprende
Murm√ļrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o l√ļgubre arrepio
Das sensa√ß√Ķes estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mist√©rio…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode

Tenho dito tantas vezes, quanto sofro sem sofrer, que me canso dos revezes, que sonho só para os não ter.

LXXV

Como se moço e não bem velho eu fosse
Uma nova ilus√£o veio animar-me.
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas √Ęnsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha,
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do √°ureo sonho em sobressalto:
Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi t√£o alto…

Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um h√°lito de medo embaciando o vidrado
d√°-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a pr√≥pria voz do mar segue o risco de um disco…
N√£o cessa de tocar; n√£o cessa a sua voz.
Mas j√° ningu√©m pretende exp’rimentar-lhe o risco!

Os sonhos do acordado s√£o como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclina√ß√Ķes e das nossas recorda√ß√Ķes

L√ļcia

(Alfred de Musset)

Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a m√£o formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murm√ļrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as vol√ļpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite, entre-fechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os b√°lsamos;
A v√°rzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!

L√ļcia era loura e p√°lida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava ‚Äď e tanto ! ‚Äď
Era assim de um irm√£o o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos l√°bios;
Ela deixou as suas m√£os nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,

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O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e c√Ęndido suspira
No cora√ß√£o e o purifica e beija…
E o que ele, o coração, aspira, almeja
√Č o sonho que de l√°grimas delira.

√Č sempre sonho e tamb√©m √© piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!

A Exaltação da Pele

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da m√£o que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.