Cita√ß√Ķes de Jos√© Afonso

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Jos√© Afonso para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Sopra o Sonho

Sopra o sonho por dentro
Das p√°lpebras em viagem
Enceta o curso habitual nocturno
Num corredor sombrio de pestanas

Antes porém cumprimenta
Toda a matéria viva em que tropeça
Sabe o segredo do corpo tem uma p√°tria
Bioquímica extremamente embrionária

A morte j√° habita os seus tecidos
Quando os outros de guarda se abastecem
Pronta ao assalto das células
Como se dormisse

A que fins se destina e a que estranhos
bul√≠cios suas √ļltimas vontades?

N√£o o sabemos

Só mesmo o oceano o incomoda

Prosema II

Para iludir a d√ļvida, privado de equipagens, nenhum dos habituais pontos de refer√™ncia vem em meu aux√≠lio. Procuro um ancoradouro distante, fora do estreito mundo em que me movo.
In√ļtil: bichos, objectos min√ļsculos, paredes brancas pontilhadas, o bot√£o da campainha √† minha esquerda. A mem√≥ria retira-me a sua cobertura instant√Ęnea. Tento galgar esta padiola dentro da minha cabe√ßa e da√≠ lan√ßar-me √† desfilada sobre uma estepe daninha ou cair do alto da montanha onde guardo o meu ninho de √°guia. Digo-vos que s√≥ pretendo A Grande Casa Alugada da Minha Inf√Ęncia, o vapor ronceiro em que apenas um velho mission√°rio se lembrara de que uma crian√ßa existia. O velho desapareceu inesperadamente num pequeno porto do Zaire e deixou-me s√≥.

(

Se Te Disserem

Se te disserem que um gorila salvou a tua irm√£
E que não é bonito pensares a todo o momento
Na caixa de correio vazia
Pensa bem, mano, na fórmula que adoptaste
Para uma sociedade sem classes
Onde n√£o adianta patinar na relva como os ursos.
Só eles possuem o dom do peso
Aliado à levitação,
Mas a um qualquer é permitido rir
E falar alto como se acordasse em forma.
Fora do orabolas em que foste criado
Há muita coisa à espera de ser vista
Pela primeira vez
Se guardi√£o-centauro de crespas unhas
Pronto ao disparo da saliva
Em vez de balas.
Não te rias de quem sofre à beira de água
Porque deles é também o reino da luta.
Na feira onde o loureiro medra ao qu√Įl√≥metro dezassete
E se afoga a virtude em c√Ęntaros de √°gua
Não há lugar para a débil panaceia de risos.
As √°rvores crescem e tu com todas
Fora do ped√ļnculo
Junto à terra

√Č j√° mis√©ria doirada
Ver comida boa e farta
E pagar uma fortuna
Por um quilo de batata.

Daqui fala o monopólio
Daqui fala o capital
Diga c√° senhor ministro
Quanto custa Portugal?

Que amor n√£o me engana

Que amor n√£o me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor n√£o se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irm√£ cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

A velhice n√£o se enjeita
Como o lixo da calçada
País que os velhos rejeita
Não é país, não é nada.

Quando uma lancha se afunda
Nunca a culpa é do patrão
√Č sempre de quem se amola
L√° no fundo do por√£o.

Tenho debaixo da língua
O princípio duma trova
Hei-de encontrar uma rima
Dedicada à gente nova.

Prosema I

Com a devida vénia me reparto junto do tampo de mármore meu secretário tão certo. Desde quando deixara eu de ouvir esta palavra? Logrei substituí-la numa manhã óptima mas não esta em que a mola salta reprimida sabe-se lá donde, algures na hipófise.
Na confraria dos reclusos outras quimeras se aventam como Sol, M√£e, Amada, at√© que o tempo nosso inimigo se distancie e nos abandone por instantes. Na laje j√° sobre a qual o papel branco me obedece sem que o habitem outros sinais, pequeninos veios avolumam-se em √°reas mais densas, configurando p√°ssaros de porcelana chinesa. Afundo-me neste fundo para descobrir-lhes um sentido, branco, amarelo, de novo branco, cada cent√≠metro um fuso de seres min√ļsculos, buscando reorganizar-se, perder-se, reagrupar-se.
De anacoreta nada tenho, s√≥ de multid√Ķes entre Cacilhas, Piedade e o Barreiro. E Campo de Ourique, que digo! A minha m√£o move-se, o pensamento p√°ra, descubro as uvas pendentes como se fora Ver√£o e o Sol ferisse como se o olhara de frente. Nem o ru√≠do dos p√°ssaros habituais junto √† janela nos veio dar os bons dias, o funcion√°rio impreter√≠vel vir√° √† hora impreter√≠vel. Muito longe fora de portas um galo ou a sua aus√™ncia. Tenho uma toalha,

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O emigra verga a mola
Num país que não é seu
Produz fortunas alheias
Com as m√£os que Deus lhe deu.

Os ricos mentem ao povo
Com artes de feiticeiro
Dizem que s√£o pela P√°tria
Mas só pensam em dinheiro.

Faz falta aqui uma trova
Duma criança oprimida;
Ela que fale da fome,
Ela que fale da vida

Ela que fale da pomba
Que tem a asa ferida;
Ela que fale da nuvem
Que encobre a terra poluída.

Traz outro amigo também

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
N√£o percas tempo que o vento
√Č meu amigo tamb√©m

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

Hoje os tempos est√£o mudados
Mal vai para quem trabalha
Sai das tuas tamanquinhas
E luta contra o canalha.

Alegria da criação

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado
a palavra rompeu
Cresceu como a baleia
no silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar esta√ß√Ķes
Soprar a ventania
Brilhar de novo o sol
sobre a baía
Fui um bom engenheiro
Um bom castor
Amei a minha amada
Com amor
De nada me arrependo
Só a vida
me ensinou a cantar
esta cantiga

Verdade e Mentira

Neste livro do mundo
Quase perfeito
Preto e branco irmanados
De igual jeito
Quem n√£o foi a tribunal
Quem teve m√£o
Nos juizes da Santa Inquisição?

Em menino te ensinaram
Mentiras que a morte leva
Para outra morte bem longe
De pensares que outra contr√°ria
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida o Infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
Que na fogueira o lançava
Aquela verdade brilha
A morte à morte diziam
Os que n√£o adivinhavam
Que era verdade a mentira
Até o Mar se acomoda
E paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
Só não mente quem não sente
Que o mistério não tem fundo

Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
N√£o do lobo mas irm√£o
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
Lança o teu
Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que n√£o negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Ser√° que existe
L√° para as margens do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?