Exclamativos

2657 resultados
Exclamativos para ler e compartilhar. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A um Corpo Perfeito

Nenhum corpo mais lacteo e sem defeito
Mais roseo, esculptural e femenino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Immovel, n√Ļ, sobre o comprido leito! –

Nada te eguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matal-a, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D’aquelle corpo sem rival, perfeito.

Por isso √© muito altiva e apetecida; –
E o goso sensual de a vêr vencida
Ha de ser forte, extranho e singular…

Como o das cousas dignas de castigo;
– Ou d’um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d’um altar.

Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

Continue lendo…

Amar é Raro

Amar √© dar, derramar-me num vaso que nada ret√©m e sou um fio de cana por onde circulam ventos e mar√©s. Amar √© aspirar as for√ßas generosas que me rodeiam, o sol e os lumes, as fontes ub√©rrimas que v√™m do fundo e do alto, √°gua e ar, e derram√°-las no corpo irm√£o, no cadinho que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equil√≠brio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas. Dar tudo ao outro, dar-lhe tanta verdade quanta ele possa suportar, e mais e mais; obrigar o outro a elevar-se a um grau superior de emin√™ncia, fulgura√ß√£o, mas n√£o tanto que o fira ou destrua em overdose que o leve a romper o contrato ‚ÄĒ o dif√≠cil equil√≠brio dos amantes! Amar √© raro porque poucos somos capazes de respirar as vastas plan√≠cies com a metade do seu pulm√£o; e amar √© raro porque poucos aceitam a presen√ßa do seu g√©meo, a boca insaci√°vel de um irm√£o que todos os dias o vento esculpe e destr√≥i.

Hora Vermelha

Por que vieste, pensamento?
J√° me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
n√£o sei l√° bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

J√° me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se n√£o quer
dizer que n√£o.
Os braços longos estendidos.
A m√£o em concha sobre o sexo
que nem a V√©nus de Cam√Ķes.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua m√£o branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
P√īr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

Continue lendo…

O Fim da Civilização

Quando se extinguir√° esta sociedade corrompida por todas as devassid√Ķes, devassid√Ķes de esp√≠rito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hip√≥crita a que se chama civiliza√ß√£o, haver√° sem d√ļvida alegria sobre a terra; abandonar-se-√° o manto real, o ceptro, os diamantes, o pal√°cio em ru√≠nas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da √©gua e da loba.
Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.
Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensid√£o deve acabar por cansar-se desse gr√£o de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de m√£os e de corromper, o outro esgotar-se-√°; este vapor de sangue abrandar√°, o pal√°cio desmoronar-se-√° sob o peso das riquezas que oculta,

Continue lendo…

Torre de Névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que s√£o meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilus√Ķes, como ningu√©m,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! …‚ÄĚ

Calaram-se os poetas, tristemente …
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao c√©u! …

De Saudades vou Morrendo

De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu am√īr, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca t√£o linda,
√ď alegrias cantae!
Mas, quem se lembra d’um louco?
– Enchei-vos d’agua, meus olhos,
Enchei-vos d’agua, chorae!

Olhar Eterno

Aquele olhar t√£o triste,
Onde ia, feito em lagrima, o que eu sou,
Isto é, tudo o que existe,
No instante em que pousou,
Relampago do Além,
Sobre ti, meu querido e pobre Anjinho,
J√° deitado na cama e t√£o doentinho,
Cercado da afflicção de tua Mãe;
Esse olhar fez-se eterno,
Em meus olhos ficou: é luz do inferno
Que tudo me alumia…

Parece a luz do dia!

N√£o Calar

H√° uma regra fundamental quando se vive como n√≥s estamos a viver ‚Äď em sociedade, porque somos uns animais greg√°rios ‚Äď que √© simplesmente n√£o calar. N√£o calar! Que isso possa custar em comunidades v√°rias a perda de emprego ou m√°s interpreta√ß√Ķes j√° o sabemos, mas tamb√©m n√£o estamos aqui para agradar a toda a gente. Primeiro, porque √© imposs√≠vel, e segundo, porque se a consci√™ncia nos diz que o caminho √© este ent√£o sigamo-lo e quanto √†s consequ√™ncias logo veremos.

Domínio

Hoje, tu já não coras se te abraço,
hoje, tu j√° n√£o foges ao meu beijo…
Sabes que √©s minha… e o que desejo e fa√ßo
√© o que faz e deseja o teu desejo…

Ficas mais bela no desembaraço
da suave intimidade em que te vejo…
Nada negas – e dando-me o que almejo
tudo me dás Рquando o teu corpo enlaço!

quando o teu corpo junto ao meu se aninha…
Vives pelo prazer de seres minha,
e és dócil e flexível como uma haste,

No abandono total em que te enleias,
quem diria, que um dia, j√° negaste
com a mesma boca com que agora anseias!

Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus p√°lidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca n√£o aprende
Murm√ļrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o l√ļgubre arrepio
Das sensa√ß√Ķes estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mist√©rio…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Insónia

N√£o durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo in√ļtil do comprimento do mundo.

N√£o durmo; n√£o posso ler quando acordo de noite,
N√£o posso escrever quando acordo de noite,
N√£o posso pensar quando acordo de noite ‚ÄĒ
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

N√£o durmo, jazo, cad√°ver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
‚ÄĒ Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me n√£o sucederam
‚ÄĒ Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que n√£o s√£o nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasi√£o qualquer em que eu pudesse sentir.

Continue lendo…

No Mundo Poucos Anos, E Cansados

No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me t√£o cedo a luz do dia escura,
que n√£o vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, n√£o quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
p√°tria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Ab√°ssia fera e avara,
t√£o longe da ditosa p√°tria minha!

Noturno Do Morro Do Encanto

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que te voz. O encanto
Que deu nome a este morro, p√Ķe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo.
Urdir a lenta eternidade. Enquanto
Fátima ao pó de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia do seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que n√£o tem so nem cor, e eu, miserando,
N√£o sei mais como ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar… Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que j√° morri quando o que eu fui morria.

Da Minha Idéia do Mundo

Da minha idéia do mundo
Ca√≠…
Vácuo além do profundo,
Sem ter Eu nem Ali…

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser…
Escada absoluta sem degraus…
Vis√£o que se n√£o pode ver…

Al√©m-Deus! Al√©m-Deus! Negra calma…
Clar√£o do Desconhecido…
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido…

Bicarbonato de Soda

S√ļbita, uma ang√ļstia…
Ah, que ang√ļstia, que n√°usea do est√īmago √† alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma ang√ļstia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os bra√ßos ao sol-p√īr do esfor√ßo…
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que √© que me falta, que o sinto faltar-me no est√īmago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
N√£o: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir …

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas est√£o todas abertas!
Que ver√£o agrad√°vel dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

Continue lendo…

Soneto 351 K√°rmico

Quinhentas e cinq√ľenta e cinco pe√ßas
perfazem as sonatas de Scarlatti.
Nivelam-se, em altíssimo quilate,
à Nona, à Mona Lisa, qualquer dessas.

Farei tantos sonetos? Não mo peças!
√Č meta muito herc√ļlea para um vate!
Recorde desse porte n√£o se bate:
no máximo se iguala, e nunca às pressas.

J√° fiz mais que Cam√Ķes, mais que Petrarca:
dois, dois, dois; três, três, três; de pouco em pouco,
que a lira tamb√©m broxa… √Č porca. √Č parca.

Poeta que for cego, mudo ou mouco
compensa a privação com a fuzarca:
diverte-se sofrendo. √Č glauco. √Č louco.

Desprezo e Receio

J√° notei que a maior parte dos homens se sente a√ßulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos √† ternura e ao afecto. √Č v√™-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos √† viol√™ncia ou √† dureza. Ra√ßa detest√°vel! Tal preceito mant√©m-se praticamente inalter√°vel no que respeita ao amor.
Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata.

Porto inseguro

A liberdade bate à minha porta,
t√£o carente de mim, pedindo abrigo.
Quero ampar√°-la e penso que consigo
detê-la, mas seria tê-la morta.

Livre para pairar num céu sem peias,
na solid√£o de um v√īo sem destino,
por que perder, nos olhos de √°guia, o tino,
vindo a quem se agrilhoa sem cadeias?

Deusa das asas! Seu vagar escapa
a meus sentidos, seu desejo alcança
tudo que a mim se esconde atr√°s da capa.

V√° embora daqui! Siga seu rumo!
Sou prisioneiro, um órfão da esperança
e arrasto um v√īo cego em ch√£o sem prumo.

5A E 6A Sombras – C√Ęndida E Laura

Como no tanque de um pal√°cio mago,
Dous alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas √°guas que o barqueiro frisa,
Dous nen√ļfares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago
Dous lírios roxos que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago….

Quais dous planetas na cer√ļlea esfera,
Como os primeiros p√Ęmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,
Crian√ßas que trazeis-me a primavera…
Crian√ßas que lembrais-me as andorinhas! …