Exclamativos

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N’um Album

√Č esta vida um mar; e n’este mar
Qual é o astro que nos alumia?
Que norte, estrella ou bussola nos guia?
Um olhar de mulher! um terno olhar!

Bemdito Sejas

Bemdito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha d√īr,
Estremecendo, ac√≥rda…

A minha d√īr √© um le√£o
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e chóro amargamente;
Mas a d√īr, indiferente,
Contin√ļa…

Ent√£o,
Febríl, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
– E a minha d√īr adormece,
E o leão é socegado.

Quanto mais bêbo mais dórme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
√ď almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

– Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!

Qu√°si

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul Рeu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse √†quem…

Assombro ou paz? Em v√£o… Tudo esva√≠do
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – √≥ d√īr! – qu√°si vivido…

Qu√°si o amor, qu√°si o triunfo e a chama,
Qu√°si o princ√≠pio e o fim – qu√°si a expans√£o…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um come√ßo… e tudo errou…
– Ai a d√īr de ser-qu√°si, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elan√ßou mas n√£o voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ansias que foram mas que n√£o fixei…

Se me vagueio, encontro s√≥ indicios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades s√ībre os precip√≠cios…

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Outono

Com a carga de frutos maus maduros,
Nessa estação viril entrei do Outono.
Bradou-me o Desengano, de seu trono:
¬ęLarga os pomos que trazes, t√£o impuros!

¬ęN√£o soubeste colher outros mais puros,
¬ęDesgra√ßado mortal, frouxo colono?
¬ęIsso √© que h√°s-de oferecer da vida ao Dono?
¬ęUm mau agricultor tem maus futuros.

¬ęPois que inda tens vigor, tem mais juizo!¬Ľ
O Desengano amigo me dizia.
Mas eu, surdo me fiz ao s√°bio aviso,

As rédeas não colhi da fantasia,
Deixei corrê-la à solta, sem mais siso,
Pois isso frutos podres só colhia.

O Gosto pela Simplicidade

Cansado às vezes do artificialismo que domina hoje em todos os géneros, enfadado com os chistes, os lances espirituosos, com as troças e com todo esse espírito que se quer colocar nas menores coisas, digo comigo mesmo: se eu pudesse encontrar um homem que não fosse espirituoso, com quem não fosse preciso sê-lo, um homem ingénuo e modesto, que falasse somente para se fazer entender e para exprimir os sentimentos do seu coração, um homem que só tivesse a razão e um pouco de naturalidade: com que ardor eu correria para descansar na sua conversa ao invés do jargão e dos epigramas do resto dos homens! Como é que acontece perder-se o gosto pela simplicidade a ponto de não mais se perceber que ele foi perdido? Não há virtudes nem prazeres que dela não retirem encantos e as suas graças mais tocantes.

Porque é Tão Ansiosamente que Espero por Ti?

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?
Sabias ocultar entre os teus menores movimentos
a lembran√ßa de um corpo e de um ardor sem m√ļsica
nem esquecimento possível. Quantas cidades
atravess√°mos, quantos ¬ęgrandes s√£o os desertos e tudo √© deserto¬Ľ,
quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,
consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias
a m√ļsica, regressa ao lugar donde partiste. Pe√ßo-te,
regressa. Nós nunca acordamos conformes,
nenhuma cifra nos devolver√° o n√ļmero m√°gico,
vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas
fórmulas antigas. Da nossa idade
guard√°mos alguns emblemas, alguns maneirismos.
Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos
à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos
um inquietante rosnido entre as frestas do muro.
Regressemos, n√£o h√° √ćtaca poss√≠vel, os corpos desfizemo-los
na mesma eros√£o do seu m√°gico movimento.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti
se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?

Soneto XXV

O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa √°gua-furtada,
tinha sempre ger√Ęnios na sacada
e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores… Em cada
canto, a m√£o da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava… E eu te entrevia, √† luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E ent√£o, num s√ļbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!

N√£o Sei para que Vos Quero

N√£o sei para que vos quero,
pois me de olhos n√£o servis,
olhos a que eu tanto quis!

VOLTAS

Pera que me fostes dados,
vós só a chorar vos destes;
e, se eu tenho cuidados,
meus olhos, vós mos fizestes.
Desque neles me pusestes,
do descanso me fugis,
olhos a que eu tanto quis!

Quando vós primeiro vistes,
que não me era bom sabíeis,
mas, por gozar do que víeis,
em meu dano consentistes.
O que ent√£o me encobristes
agora mo descobris,
olhos a que eu tanto quis!

Meus olhos, por muitas vias
usais comigo cruezas;
tomais as minhas tristezas
pera vossas alegrias.
Entram noites, entram dias,
olhos, nunca me dormis,
olhos a que eu tanto quis!

Ando-vos a vós buscando
cousas que vos dêem prazer,
e vós, quanto podeis ver,
tristezas me andais tornando.
Agora vou-vos cantando,
vós a mim chorando me is,
olhos a que eu tanto quis!

Poeminha Sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria
√Č como um fio telegr√°fico da estrada
Aonde v√™m pousar as andorinhas…
De vez em quando chega uma
E canta
(N√£o sei se as andorinhas cantam, mas v√° l√°!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A √ļltima que passou
Limitou-se a fazer coc√ī
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Corro Após este Bem que não se Alcança

Oh como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e v√£o discurso humano!

Minguando a idade vai, crescendo o dano;
Perdeu-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
De vista se me perde, e da esperança.

Despondency

Deix√°-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade…
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram…

Deix√°-la ir, a vela, que arrojaram
Os tuf√Ķes pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul levantaram…

Deix√°-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
√Ä morte queda, √† morte silenciosa…

Deix√°-la ir, a nota desprendida
D’um canto extremo… e a √ļltima esperan√ßa…
E a vida… e o amor… Deix√°-la ir, a vida!

Psiquetipia

Símbolos. Tudo símbolos
Se calhar, tudo √© s√≠mbolos…
Serás tu um símbolo também?

Olho, desterrado de ti, as tuas m√£os brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti…
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar √©…
E por que n√£o h√° de ser?

S√≠mbolos…
Estou cansado de pensar…
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando…

Meu Deus! e n√£o sabes…
Eu pensava nos s√≠mbolos…
Respondo fielmente √† tua conversa por cima da mesa…
“It was very strange, wasn‚Äôt it?”
“Awfully strange. And how did it end?”
“Well, it didn’t end. It never does, you know.”
Sim, you know… Eu sei…
Sim eu sei…
√Č o mal dos s√≠mbolos, you know.
Yes, I know.
Conversa perfeitamente natural… Mas os s√≠mbolos?
N√£o tiro os olhos de tuas m√£os… Quem s√£o elas?
Meu Deus! Os s√≠mbolos… Os s√≠mbolos…

O Amor n√£o Acontece. Decide-se.

H√° quem julgue que o amor √© alheio √† vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz‚Ķ e que quase nada se pode fazer perante tamanha for√ßa. Isso √© uma mera paix√£o no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece… Ao contr√°rio, amar √© estar acima das paix√Ķes e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.

O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar.

O amor aut√™ntico √© raro e extraordin√°rio, embora o seu nome sirva para quase tudo… a maior parte das vezes designa ego√≠smos entrela√ßados, cada vez mais comuns. S√£o poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se disp√Ķem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceber√£o o que fazem, o seu porqu√™ e o para qu√™.
O amor n√£o sup√Ķe reciprocidade. Amar √© dar-se por completo e aceitar tudo… n√£o se contabilizam ganhos e perdas,

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Saberei Conquistá-la Através de Todos os Sacrifícios

Perdoe-me se me apaixonei a este ponto de si. Mas n√£o passarei daqui, nem ningu√©m me ver√°! Fechado num quarto da pousada, espero a sua resposta. Esperarei seis horas por umas linhas suas e depois volto para Paris. J√° nem sei viver, vagueio por a√≠, ferido de morte. Prefiro cansar-me em longos passeios a cavalo, a consumir-me na solid√£o, ou no meio de pessoas que deixaram de me entender… Ordene-me que parta e n√£o tornar√° a ser atormentada por um homem a quem um m√™s bastou para perder a raz√£o.
Muito gostaria de surpreender o seu primeiro pensamento ao acordar; n√£o posso descrever-lhe o reconhecimento que me enche o cora√ß√£o, este cora√ß√£o que reclama apenas a sua amizade, que saber√° conquist√°-la atrav√©s de todos os sacrif√≠cios, que √© completamente vosso at√© ao seu √ļltimo alento.
N√£o me conformo com a ideia de ser abandonado. O seu interesse √©-me mil vezes mais preciso do que a pr√≥pria vida, mas saberei moderar a express√£o dos meus sentimentos e n√£o terei outras aspira√ß√Ķes do que as que me forem permitidas; tamb√©m saberei esconder-lhe os meus temores; respeitarei o seu repouso – mas v√™-la-ei, e nunca mais haver√° felicidade na minha vida se n√£o puder consagrar-lha inteiramente.

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Nua E Crua

Doire a Poesia a escura realidade
E a mim a encubra! Um vision√°rio ardente
Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,
Do √°ureo manto despoja a divindade;

O estema da perpétua mocidade
Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,
Inteiramente nua e inteiramente
Crua, como a Verdade! E era a Verdade!

Fita-a em seguida, e at√īnito recua…
– √ď Musa! exclama ent√£o, magoado e triste,
Traja de novo a louçainha tua!

Veste outra vez as roupas que despiste!
Que olhar se apraz em ver-te assim t√£o nua?…
À nudez da Verdade quem resiste?!

A Cidade Bela

Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos
Quanto é grande, magnífico o prospecto!
Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Qu√£o denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a esp√°dua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.
Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A l√ļcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cer√ļleas ondas.

Terra – 3

Eles subiram o monte com o povo arrebanhado
e padre-nossos nos l√°bios.
Eles subiram o monte e eram negros, grandiosos e medonhos.
Vinham de longe e diziam duma verdade nos l√°bios firmes e finos.
Vinham de longe, de Miss√Ķes do cabo do mundo;
– da √Āfrica? dos Brasis? ‚Äď vinham de longe…
E ficou aquela cruz branca e esguia
erguida na serra.
Serm√Ķes na igreja, comunh√£o geral
e prociss√£o na rua.
Cristo, na cruz do alto, protegendo a freguesia ‚Äď Hosana!
Terra e gente ficaram santos nesse dia ‚Äď Hosana!
Hoje, todos sentem aqueles olhos parados l√° do cimo
– caminheiros da serra, viajante da estrada –
todos sentem os olhos l√° do cimo
Рolhar imóvel e indiferente
daqueles que subiram o monte.

Controlar a Ansiedade

Quando receamos algum mal, o pr√≥prio facto de o recearmos atormenta-nos enquanto o aguardamos: teme-se vir a sofrer alguma coisa e sofre-se com o medo que se sente! Tal como nas doen√ßas f√≠sicas h√° certos sintomas que pressagiam a mol√©stia – incapacidade de movimento, lassid√£o completa mesmo quando se n√£o faz nenhum esfor√ßo, sonol√™ncia, calafrios por todo o corpo -, tamb√©m um esp√≠rito d√©bil se sente abalado, mesmo antes de qualquer mal se abater sobre ele: como que adivinha o mal futuro, e deixa-se vencer antes do tempo. H√° coisa mais insensata do que nos angustiarmos com o futuro em vez de deixarmos chegar a hora da afli√ß√£o, e atrairmos sobre n√≥s todo um c√ļmulo de tormentos? Quando n√£o √© poss√≠vel livrarmo-nos por completo da ang√ļstia, pelo menos adiemo-la tanto quanto pudermos. Queres ver como √© verdade que ningu√©m deve atormentar-se com o futuro?
Imagina um homem a quem tenha sido dito que depois dos cinquenta anos ser√° submetido a graves supl√≠cios: ele permanece imperturb√°vel enquanto n√£o passa a metade desse espa√ßo de tempo, altura em que come√ßa a aproximar-se da ang√ļstia prometida para a segunda metade da sua vida. Por um processo semelhante sucede tamb√©m que certos esp√≠ritos doentes sempre em busca de motivos para sofrer se deixam tomar de tristeza por factos j√° remotos e esquecidos.

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Amo-te Tanto

Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?

Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!

Indiferente
quero-te assim.
РSê bem de mim,
de toda a gente…

Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.

Paix√£o √önica

Quem me dera poder ver-te!
Ai! quem me dera dizer-te,
Que pude amar-te, e perder-te,
Mas olvidar-te… isso n√£o!
Que no ardor de outros amores,
Através de mil dissabores,
Senti vivas sempre as dores
Duma remota paix√£o.

Com que dorida saudade
Penso nessa mocidade,
Nessa vaga ansiedade,
Que soubeste compreender!
E tu só, só tu soubeste,
Que, num mundo, como este,
Qual florinha em penha agreste,
Pode a flor da alma morrer.

Orvalhaste-a quando ainda,
Ao nascer, singela e linda,
Respirava a esperança infinda,
Que consigo a inf√Ęncia tem.
Amparaste-a, quando o norte
Das paix√Ķes, soprando forte,
Lhe quiz dar r√°pida morte
Como √† c√Ęndida cecem!

E, depois, nuvem escura
Lá no céu desta ventura
Enlutou-me a aurora pura
Dos meus anos infantis.
Houve nesta vida um espaço,
Onde nunca dei um passo,
Em que não deixasse um traço
De paix√Ķes torpes e vis !

E não tenho outra memória
Que me inspire altiva gloria,
Nem outro nome na historia
De meus delírios fatais.

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