Textos sobre Maior

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Textos de maior escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Duração da Vida em Perspectiva

A nossa religião não teve fundamento humano mais seguro do que o desprezo pela vida. Não somente o exercício da razão nos convida a isso, pois por que temeríamos perder uma coisa que perdida não pode ser lamentada; e, já que somos ameaçados por tantas formas de morte, não haverá maior mal em temê-las todas do que em suportar uma?
Que importa quando ela ser√°, pois que √© inevit√°vel? A algu√©m que dizia a S√≥crates: ¬ęOs trinta tiranos condenaram-te √† morte¬Ľ, respondeu ele: ¬ęE a natureza a eles¬Ľ. Que tolice nos atormentarmos sobre o momento da passagem para a isen√ß√£o de todo o tormento!
Assim como o nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim a nossa morte trará a morte de todas as coisas. Por isso, chorar porque daqui a cem anos não estaremos a viver é loucura igual a chorar porque há cem anos atrás não vivíamos. A morte é origem de uma outra vida. Assim choramos nós; assim nos custou entrar nesta aqui; assim nos despojamos do nosso antigo véu quando entramos naquela.
Não pode ser penoso algo que o é apenas uma vez. Será certo temer por tão longo tempo uma coisa de tão breve duração?

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Compreender e Unir

J√° s√£o em n√ļmero demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi poss√≠vel tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renova√ß√£o e de √≠ntimo aperfei√ßoamento.
Reservemos para n√≥s a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada cren√ßa n√£o o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abord√°vel, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um m√ļtuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflitamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal,

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A Vantagem dum Longo Treino

A vantagem de um longo treino e duma escrupulosa concentra√ß√£o no futuro: na hora das realiza√ß√Ķes estabelece-se um estado sonamb√ļlico intermedi√°rio entre o fazer e o deixar fazer, entre o agir e o ser objecto de ac√ß√£o. Isso requer tanto menos aten√ß√£o quanto √© certo que, a maior parte das vezes, a realidade exige de n√≥s muito menos do que imaginamos e, assim, encontramo-nos um pouco na situa√ß√£o do homem que, armado at√© aos dentes, ao travar uma luta, n√£o tem necessidade, para vencer, sen√£o de manejar ligeiramente uma √ļnica pe√ßa do seu arsenal. Com efeito, quem liga import√Ęncia a si mesmo exercita-se no que √© mais dif√≠cil para se tornar cada vez mais destro no que √© f√°cil e poder ter a satisfa√ß√£o de triunfar, usando dos meios mais delicados e discretos. Ele repele, ali√°s, os expedientes grosseiros e selvagens, n√£o se resolvendo a us√°-los sen√£o em casos de for√ßa maior.

Todo o Conhecimento Degenera em Probabilidade

A nossa raz√£o deve ser considerada como uma esp√©cie de causa cujo efeito natural √© a verdade; mas um efeito tal que pode ser facilmente evitado pela intrus√£o de outras causas e pela inconst√Ęncia das nossas faculdades mentais. Dessa maneira, todo o conhecimento degenera em probabilidade; essa probabilidade √© maior ou menor segundo a nossa experi√™ncia da veracidade ou da falsidade do nosso entendimento e segundo a simplicidade ou a complexidade da quest√£o.

Lidar com Jovens

Os jovens legalmente maiores t√™m tend√™ncia para a rebeldia e a libertinagem. Se os censuras num tom grave e sentencioso, mais n√£o far√°s do que agravar as suas inclina√ß√Ķes. De modo que, em geral, mais vale armar-se de paci√™ncia e esperar que se emendem sozinhos ou que se fartem dos seus erros. Mas, se souberes servir-te da tua autoridade t√£o habilmente que os devolvas ao bom caminho, evita passar bruscamente do rigor √† indulg√™ncia. Com os temperamentos pl√°cidos, mostra-te directo e, se for preciso, bate com o punho namesa, pois isso impressiona-os. Pelo contr√°rio, com √≠ndoles ardentes, mostra-te meigo e delicado.

O Provincianismo Liter√°rio

O provincianismo do querer fazer ¬ęcomo l√° fora¬Ľ n√£o √© pecha s√≥ portuguesa. A maior parte dos pa√≠ses s√£o importadores de cultura. No entanto, redimem-se no desafogo de casos geniais, como um Lorca em Espanha e como um Ghelderode na B√©lgica. Cito estes dois exemplos porque eles acusam o verdadeiro alcance que pode ter o universal quando mergulha nos mais √≠ntimos recessos do popular. Quer Lorca, quer o autor de Mademoiselle Jair, apreenderam na psique espanhola e flamenga algo que encerra o universal em bruto na sua forma mais primitiva e, por isso mesmo, de toda a gente. Entre n√≥s pratica-se o inverso. Tem-se horror do popular pelo grande embasbacamento em que se est√° perante uma cultura que n√£o sendo vivificada pela experi√™ncia, redunda em erudi√ß√£o.

A Cólera dos Bondosos e a Cólera das Almas Fracas

Podemos distinguir duas esp√©cies de c√≥lera: uma que √© muito s√ļbita e se manifesta muito no exterior, mas mesmo assim tem pouco efeito e pode facilmente ser apaziguada; e outra que inicialmente n√£o aparece tanto, por√©m corr√≥i mais o cora√ß√£o e tem efeitos mais perigosos. Os que t√™m muita bondade e muito amor s√£o mais sujeitos √† primeira. Pois ela n√£o prov√©m de um √≥dio profundo, e sim de uma s√ļbita avers√£o que os surpreende, porque, sendo levados a imaginar que as coisas devem desenrolar-se da forma como julgam ser a melhor, t√£o logo acontece de forma diferente; eles ficam admirados e frequentemente se ofendem com isso, mesmo que a coisa n√£o os atinja pessoalmente, porque, tendo muita afei√ß√£o, interessam-se por aqueles a quem amam, da mesma forma que por si mesmos. Assim, o que para outra pessoa seria apenas motivo de indigna√ß√£o √© para eles um motivo de c√≥lera. E como a inclina√ß√£o que t√™m para amar faz que tenham muito calor e muito sangue no cora√ß√£o, a avers√£o que os surpreende n√£o pode impelir para este t√£o pouca bile que isso n√£o cause inicialmente uma grande emo√ß√£o no sangue. Mas tal emo√ß√£o pouco dura, porque a for√ßa da surpresa n√£o se prolonga e porque,

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O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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O Ideal da Amizade

A camaradagem, o companheirismo, √†s vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situa√ß√Ķes humanas que s√£o semelhantes √† amizade. E as pessoas tamb√©m fogem da solid√£o, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade √© uma esp√©cie de amizade. Naturalmente, nesses casos n√£o se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade √© um servi√ßo. O amigo, assim como o namorado, n√£o espera recompensa pelos seus sentimentos. N√£o quer contrapartidas, n√£o considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequ√™ncias. Isso seria o ideal.

Liberdade e Eternidade

A liberdade que √†s vezes sentia n√£o vinha de reflex√Ķes n√≠tidas, mas de um estado como feito de percep√ß√Ķes por demais org√Ęnicas para serem formuladas em pensamentos. √Äs vezes no fundo da sensa√ß√£o tremulava uma ideia que lhe dava leve consci√™ncia de sua esp√©cie e de sua cor.

O estado para onde deslizava quando murmurava: eternidade. O pr√≥prio pensamento adquiria uma qualidade de eternidade. Aprofundava-se magicamente e alargava-se, sem propriamente um conte√ļdo e uma forma, mas sem dimens√Ķes tamb√©m. A impress√£o de que se conseguisse manter-se na sensa√ß√£o por mais uns instantes teria uma revela√ß√£o ‚ÄĒ facilmente, como enxergar o resto do mundo apenas inclinando-se da terra para o espa√ßo. Eternidade n√£o era s√≥ o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de n√£o poder cont√™-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e tamb√©m era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstracto. Sobretudo dava ideia de eternidade a impossibilidade de saber quantos seres humanos se sucederiam ap√≥s seu corpo, que um dia estaria distante do presente com a velocidade de um b√≥lido.

Definia eternidade e as explica√ß√Ķes nasciam fatais como as pancadas do cora√ß√£o. Delas n√£o mudaria um termo sequer,

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Somos aquilo que Pensamos

Os nossos pensamentos determinam aquilo que somos. A nossa atitude mental √© o factor X que determina o nosso destino. Emerson disse: ¬ęUm homem √© aquilo em que pensa o dia inteiro¬Ľ. Como poderia ser outra coisa qualquer? Estou convencido, sem qualquer sombra de d√ļvida, que o maior problema que temos de enfrentar – na realidade, trata-se praticamente do √ļnico problema que temos de enfrentar – √© a escolha dos pensamentos certos. Se conseguirmos, estaremos no caminho certo para resolver todos os nossos problemas. Marco Aur√©lio, o grande fil√≥sofo que governou o Imp√©rio Romano, resumiu esta quest√£o em onze palavras ‚ÄĒ onze palavras que podem determinar o seu destino: ¬ęA nossa vida √© aquilo que os nossos pensamentos fazem dela¬Ľ.

√Č verdade, se pensarmos em coisas felizes, seremos felizes. Se pensarmos em desgra√ßas, seremos uns desgra√ßados. Se pensarmos em coisas assustadoras, viveremos com medo. Se pensarmos em doen√ßas, ficaremos provavelmente doentes. Se pensarmos em falhar, √© certo que falhamos. Se ficarmos mergulhados em autocomisera√ß√£o, v√£o todos afastar-se de n√≥s e evitar-nos. Norman Vincent Peale afirmou: ¬ęTu n√£o √©s o que pensas que √©s; tu √©s o que tu pensas¬Ľ.

Estarei eu a defender uma típica atitude de Pollyanna (clássico de Eleane H.

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A Convicção é Sempre Cega

O intelecto humano, quando assente numa convic√ß√£o (ou por j√° bem aceite e acreditada porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior n√ļmero, n√£o observa a for√ßa das inst√Ęncias contr√°rias, despreza-as, ou, recorrendo a distin√ß√Ķes, p√Ķe-nas de parte e rejeita, n√£o sem grande e pernicioso preju√≠zo. Gra√ßas a isso, a autoridade daquelas primeiras afirma√ß√Ķes permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufr√°gio, instado a dizer se ainda se recusava a a√≠ reconhecer a provid√™ncia dos deuses, indagou por sua vez:¬ęE onde est√£o pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?¬Ľ Essa √© a base de praticamente toda a supersti√ß√£o, trate-se de astrologia, interpreta√ß√£o de sonhos, aug√ļrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predi√ß√£o se cumpre; quando falha – o que √© bem mais frequente – negligenciam-nos e passam adiante.
Esse mal insinua-se de maneira muito mais subtil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceite tudo impregna e reduz o que se segue, até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos,

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Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

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O √ďdio liga mais os Indiv√≠duos que a Amizade

O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa ligam muitas vezes mais dois indiv√≠duos um ao outro do que o podem fazer o amor e a amizade. Pois est√° em causa a comunidade de interesses interiores ou exteriores e a alegria que se sente nessa comunidade – onde √© muitas vezes determinada a ess√™ncia das rela√ß√Ķes positivas entre os indiv√≠duos: o amor e a amizade – √© sempre relativa e n√£o √© em nenhum caso um estado de alma permanente; mas as rela√ß√Ķes negativas, essas s√£o, a maior parte das vezes, absolutas e constantes. O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa t√™m, poder-se-ia dizer, o sono mais ligeiro do que o amor. O menor sopro os desperta, enquanto que o amor e a amizade continuam tranquilamente a dormir, mesmo sob o trov√£o e os rel√Ęmpagos.

A Mentira é a Base da Civilização Moderna

√Č na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civiliza√ß√£o moderna. Ela firma-se, como t√£o claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira pol√≠tica, na mentira econ√≥mica, na mentira matrimonial, etc… A mentira formou este ser, √ļnico em todo o Universo: o homem antip√°tico.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens s√£o s√ļbditos desta omnipotente Majestade. Derrub√°-la do trono; arrancar-lhe das m√£os o ceptro ensaguentado, √© a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direc√ß√£o dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. …
E os oper√°rios que t√™m trabalhado na obra da Justi√ßa e do Bem, foram os p√°rias da √ćndia, os escravos de Roma, os miser√°veis do bairro de Santo Ant√≥nio,

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A Moral Pura

A moral pura √© √ļnica e universal: n√£o sofreu altera√ß√Ķes ao longo dos tempos, nem altera√ß√Ķes nem melhorias. N√£o depende de factores hist√≥ricos, econ√≥micos, sociol√≥gicos ou culturais, ou seja, n√£o depende do que quer que seja. N√£o √© determin√°vel mas determinante. N√£o √© condicionada, √© condicionante. Para ser mais claro, √© um absoluto. Uma moral observ√°vel √© sempre, na pr√°tica, o resultado da mistura, em propor√ß√Ķes vari√°veis, de elementos de moral pura e elementos de origem mais obscura, quase sempre religiosa. Quanto maior √© a propor√ß√£o de elementos de moral pura, tanto mais longa e feliz ser√° a exist√™ncia de uma sociedade que suporte essa moral. Se fosse poss√≠vel imaginar uma sociedade que se regesse pelos princ√≠pios puros da moral universal, ent√£o essa sociedade duraria o que dura o mundo.

Coerção e Autocoerção

Os casos e acontecimentos que nos dizem respeito aparecem e entrecruzam-se isoladamente, sem ordem nem rela√ß√£o uns com os outros, no mais vivo contraste e sem nada em comum, a n√£o ser justamente o facto de se relacionarem connosco. Dessa maneira, para corresponder a esses casos e acontecimentos, os nossos pensamentos e cuidados t√™m igualmente de estar desligados uns dos outros. Como consequ√™ncia, quando empreendemos algo, temos de nos abstrair de tudo o resto, para ent√£o tratar cada coisa a seu tempo, fru√≠-la e senti-la, sem demais preocupa√ß√Ķes. Precisamos ter, por assim dizer, compartimentos para os nossos pensamentos e abrir apenas um deles, enquanto os outros permanecem fechados. Desse modo, conseguimos impedir que uma preocupa√ß√£o muito grave roube cada pequeno prazer do presente, despojando-nos de toda a tranquilidade.
Conseguimos ainda fazer com que uma pondera√ß√£o n√£o reprima a outra, que a preocupa√ß√£o com um caso importante n√£o produza a neglig√™ncia de muitos de menor relev√Ęncia, e assim por diante. Mas sobretudo o homem capaz de considera√ß√Ķes elevadas e nobres nunca pode deixar o seu esp√≠rito ser totalmente possu√≠do e absorvido por casos pessoais e preocupa√ß√Ķes triviais, a ponto de impedir o acesso √†s altas considera√ß√Ķes, pois isso, de facto,

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Escravizados ao Além

Acabar com a morte como agonia di√°ria da humanidade √© talvez o maior bem que se pode fazer hoje ao homem. O cristianismo transformou a vida numa cruz, porque lhe p√īs a consci√™ncia da morte √† cabeceira. E crentes e ateus vivem no mesmo terror. Ora a ideia terr√≠fica do fim n√£o √© uma condi√ß√£o fisiol√≥gica, nem mesmo intelectual do homem. Nem os Gregos, nem os Romanos, por exemplo, sentiam a morte com a irrepar√°vel ang√ļstia que nos r√≥i. √Č for√ßoso, pois, que se arranquem as ra√≠zes desta dor, custe o que custar. Escravizados ao al√©m, os nossos dias aqui n√£o podem ter liberdade nem alegria. Qualquer doutrina que nega ao homem o direito de ser pleno na sua f√≠sica dura√ß√£o, √© uma doutrina de castra√ß√£o e de aniquilamento. Ir buscar ao post-mortem as leis que devem limitar a expans√£o abusiva da personalidade, √© o artif√≠cio mais desgra√ßado que se podia inventar. Pregue-se e exija-se do indiv√≠duo medida e disciplina, mas que nas√ßam da sua pr√≥pria harmonia. Institua-se uma √©tica com ra√≠zes no mesmo ch√£o onde o homem caminha.

A Vida Raramente depende da Inciativa dos Homens

Poucas pessoas saber√£o, a meio da vida, como chegaram a ser o que s√£o, aos seus prazeres, √† sua vis√£o do mundo, √† sua mulher, ao seu car√°cter, √† sua profiss√£o e aos seus √™xitos; mas sentem que a partir da√≠ as coisas j√° n√£o ir√£o mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque n√£o se consegue descobrir em lugar nenhum a raz√£o suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente poss√≠vel ter acontecido de outra forma. O que acontece, ali√°s, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunst√Ęncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida est√° ainda √† nossa frente como uma manh√£ inesgot√°vel, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa pr√≥pria vida, mas que √© t√£o surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de n√≥s e constatamos que √© completamente diferente do que hav√≠amos imaginado.
Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso;

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N√£o h√° Fortuna sem Vaidade

A maior parte da vida passamos em buscar a fortuna, e a que vemos nos outros, √© a que nos engana a n√≥s; por√©m √© feliz o engano, que nos anima sempre. Que maior desgra√ßa que o viver indiferente, e sem ac√ß√£o; e que maior ventura que a esperan√ßa com que a buscamos! O conceito, que fazemos de qualquer bem, sempre excede ao mesmo bem, e assim perdemos quando o alcan√ßamos; de sorte que a fortuna parece que n√£o est√° tanto em possui-la, como em desej√°-la. As fortunas humanas, ou consistem na abund√Ęncia, ou no poder, ou no respeito: estas s√£o as mesmas fontes donde nasce a vaidade, e com efeito se h√° vaidade sem fortuna, n√£o h√° fortuna sem vaidade.