Textos sobre Forma

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Textos de forma escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade Provém da Plena Posse das Suas Faculdades

O √≥dio √† raz√£o, t√£o frequente nos nossos dias, √© devido em grande parte ao facto dos movimentos da raz√£o n√£o serem concebidos duma forma suficientemente fundamental. O homem dividido contra si mesmo procura est√≠mulos e distrac√ß√Ķes; ama as paix√Ķes fortes, n√£o por raz√Ķes profundas, mas porque moment√Ęneamente elas lhe permitem evadir-se de si pr√≥prio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.
Toda a paix√£o √© para ele uma forma de intoxica√ß√£o, e desde que n√£o pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxica√ß√£o parece-lhe o √ļnico al√≠vio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, √© o sintoma duma doen√ßa de ra√≠zes profundas. Quando n√£o h√° tal doen√ßa, a felicidade prov√©m da plena posse das suas faculdades. √Č nos momentos em que o esp√≠rito est√° mais activo, em que menos coisas s√£o esquecidas que se sentem alegrias mais intensas. Esta √©, sem d√ļvida, uma das melhores pedras de toque da felicidade. A felicidade que exige intoxica√ß√£o de n√£o importa que esp√©cie, √© falsa e n√£o d√° qualquer satisfa√ß√£o. A felicidade que satisfaz verdadeiramente √© acompanhada pelo completo exerc√≠cio das nossas faculdades e pela compreens√£o plena do mundo em que vivemos.

Ultrapassar o Medo

As pessoas vivem com medo. Tu tens medo. Todos temos. Uns mais outros menos, uns de uma forma consciente outros de uma forma inconsciente, uns enfrentam-no outros morrem nas suas m√£os. O medo, e repito o que j√° escrevi no ‚ÄúArrisca-te a Viver‚ÄĚ, √© a √ļnica emo√ß√£o que n√£o gera a√ß√£o. Se entrares em p√Ęnico foges, se sentires raiva bates ou gritas, se tiveres medo encolhes-te. O medo algema-te, tolda-te as possibilidades e faz de ti seu prisioneiro.
Porque √© que achas que o mundo, o pa√≠s e a tua pr√≥pria vida se encontram no estado em que est√£o? Medo. Muito medo. E nesta mat√©ria, permite-me ser assertivo, se tens medo seja do que for de nada te adianta comprar um c√£o, sabes porqu√™? Porque vais educ√°-lo baseado no medo, logo, vais estragar mais uma vida. N√£o te chegava a tua? Pobre do animal, merecia melhor sorte. Ora bem, uma educa√ß√£o alicer√ßada no medo far√° com que ele viva no pr√≥prio medo e tu com medo que ele te desobede√ßa. √Č uma desgra√ßa. Ser√°s incapaz de am√°-lo, assim como √©s incapaz de amar seja quem for, muito menos a ti. E se me disseres que n√£o est√°s de acordo com o que acabei de escrever,

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A Dist√Ęncia Entre Gera√ß√Ķes

A solu√ß√£o de continuidade entre as gera√ß√Ķes depende da impossibilidade de transmitir a experi√™ncia, de fazer evitar aos outros os erros j√° cometidos por n√≥s. A verdadeira dist√Ęncia entre duas gera√ß√Ķes √© dada pelos elementos que t√™m em comum e que obrigam √† repeti√ß√£o c√≠clica das mesmas experi√™ncias, como nos comportamentos das esp√©cies animais transmitidos pela heran√ßa biol√≥gica; ao passo que os elementos da verdadeira diversidade existente entre n√≥s e eles s√£o, pelo contr√°rio, o resultado das modifica√ß√Ķes irrevers√≠veis que cada √©poca traz consigo, ou seja, dependem da heran√ßa hist√≥rica que n√≥s lhes transmitimos, a verdadeira heran√ßa de que somos respons√°veis, mesmo que por vezes o sejamos de forma inconsciente. Por isso n√£o temos nada a ensinar: sobre aquilo que mais se parece com a nossa experi√™ncia n√£o podemos influir; naquilo que traz o nosso cunho, n√£o sabemos reconhecer-nos.

Qualidades de Sentimento

¬ęUm charco¬Ľ, pensou, ¬ęd√°-nos muitas vezes, e de forma mais intensa, a impress√£o de profundidade do que o oceano, pela simples raz√£o de que a viv√™ncia dos charcos √© muito mais frequente do que a dos oceanos: era, segundo ele, o que acontecia com o sentimento, e pela mesma raz√£o os sentimentos mais banais passavam por ser os mais profundos. De facto, a prefer√™ncia que se d√° ao sentir, mais do que ao sentimento, que √© a marca de todas as pessoas sens√≠veis √†s emo√ß√Ķes, conduz, tal como o desejo de fazer sentir e de ser levado a sentir, comum a todas as institui√ß√Ķes postas ao servi√ßo do sentimento, a uma diminui√ß√£o do n√≠vel e da ess√™ncia do sentimento face √† sua manifesta√ß√£o instant√Ęnea como estado de ordem pessoal, e finalmente √†quela superficialidade, inibi√ß√£o e total insignific√Ęncia para as quais n√£o faltam exemplos. ¬ę√Č natural que um ponto de vista como este¬Ľ, pensou Ulrich, completando a sua observa√ß√£o, ¬ęchoque todos aqueles que se sentem bem nos seus sentimentos, como o galo nas suas penas, e que ainda por cima estejam convencidos de que a eternidade recome√ßa com cada “personalidade”!¬Ľ Tinha a n√≠tida percep√ß√£o de estar perante um erro monstruoso, √† dimens√£o de toda a humanidade,

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Prazer com Virtude

Que dizer do facto de tanto os homens bons como os maus terem prazer, e de os homens infames terem tanto gosto em cometer actos vergonhosos como os homens honestos t√™m nas suas ac√ß√Ķes excelentes? √Č por isso que os antigos prescreveram que se procurasse a vida melhor, n√£o a mais agrad√°vel, de forma a que o prazer fosse, n√£o o guia, mas um companheiro da vontade recta e boa. Na verdade, a natureza deve ser o nosso guia: a raz√£o observa-a e consulta-a. Por isso, viver feliz √© o mesmo que viver de acordo com a natureza. Passo a explicar o que quer isto dizer: se conservarmos os nossos dons corporais e as nossas aptid√Ķes naturais com dilig√™ncia, mas tamb√©m com impavidez, tomando-os como bens ef√©meros e fugazes; se n√£o nos tornarmos servos deles, nem nos submetermos a coisas exteriores; se as coisas que s√£o circunstanciais e agrad√°veis ao corpo forem para n√≥s como auxiliares e tropas ligeiras num castro (que obedecem, n√£o comandam); nesta medida, todas estas coisas ser√£o √ļteis √† mente.
N√£o se deixe o homem corromper pelas coisas externas e inalcan√ß√°veis, e admire-se apenas a si pr√≥prio, confiando no seu √Ęnimo e mantendo-se preparado para tudo,

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O Desejo e a Posse

Um homem n√£o se sente totalmente privado dos bens aos quais nunca sonhou aspirar, mas fica muito satisfeito mesmo sem eles, enquanto outro que possua cem vezes mais do que o primeiro sente-se infeliz quando lhe falta uma √ļnica coisa que tenha desejado. A esse respeito, cada um tem tamb√©m um horizonte pr√≥prio daquilo que lhe √© poss√≠vel atingir, e as suas pretens√Ķes t√™m uma extens√£o semelhante a esse horizonte. Quando determinado objecto, situado dentro desses limites, se lhe apresenta de modo que o fa√ßa acreditar na possibilidade de alcan√ß√°-lo, o homem sente-se feliz; em contrapartida, sentir-se-√† infleliz quando eventuais dificuldades lhe tirarem tal possibilidade. Tudo o que estiver situado externamente a esse campo visual n√£o agir√° de forma alguma sobre ele. Por esse motivo, as grandes propriedades dos ricos n√£o perturbam o pobre, e, por outro lado, para o rico cujos prop√≥sitos tenham fracassado, serve de consolo as muitas coisas que j√° possui. (A riqueza assemelha-se √† √°gua do mar; quanto mais dela se bebe, mais sede se tem. O mesmo vale para a gl√≥ria).

O facto de que o nosso humor habitual não resulte muito diferente do anterior após a perda de uma riqueza ou do bem-estar,

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O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

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Os Pr√°ticos e os Contemplativos

T√™m sentido de humor os que t√™m sentido pr√°tico. Quem descuida a vida, embevecido numa ing√©nua contempla√ß√£o (e todas as contempla√ß√Ķes s√£o ing√©nuas), n√£o v√™ as coisas com desprendimento, dotadas de livre, complexo e contrastante movimento, que forma a ess√™ncia da sua comicidade. O t√≠pico da contempla√ß√£o √©, pelo contr√°rio, determo-nos no sentimento difuso e vivaz que surge em n√≥s ao contacto com as coisas. √Č aqui que reside a desculpa dos contemplativos: vivem em contacto com as coisas e, necessariamente, n√£o lhes sentem as singularidades e caracter√≠sticas; sentem-nas, pura e simplesmente.
Os práticos Рparadoxo Рvivem distantes das coisas, não as sentem, mas compreendem o mecanismo que as faz funcionar. E só ri de uma coisa quem está distante dela. Aqui está, implícita, uma tragédia: habituamo-nos a uma coisa afastando-nos dela, quer dizer, perdendo o interesse. Daqui, a corrida afanosa.
Naturalmente, de um modo geral, ninguém é contemplativo ou prático de forma total, mas, como nem tudo pode ser vivido, resta sempre, mesmo aos mais experimentados, o sentimento de qualquer coisa.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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Segue o Teu Coração

Lembrar-me que inevitavelmente terei que morrer √© a mais importante ferramenta que eu alguma vez encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida. Porque praticamente tudo – todas as nossas expectativas externas, todo o nosso orgulho, todo o nosso medo do embara√ßo ou fracasso – todas estas coisas simplesmente caem em face da morte, deixando apenas aquilo que √© realmente importante. Lembrares-te que mais cedo ou mais tarde vais morrer √© a melhor forma que eu conhe√ßo de evitar a armadilha de que temos alguma coisa a perder. N√≥s j√° estamos n√ļs. N√£o existe nenhuma raz√£o para n√£o seguirmos o nosso cora√ß√£o.

A Invisibilidade √© a Condi√ß√£o para a Eleg√Ęncia

Parece-me que a invisibilidade √© a condi√ß√£o para a eleg√Ęncia. A eleg√Ęncia acaba se for notada. Sendo a poesia a eleg√Ęncia por excel√™ncia, n√£o sabe ser vis√≠vel. Ent√£o, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a v√™? Ningu√©m. O que a n√£o impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a gl√≥ria. A gl√≥ria √© absurda por resultar de um ajuntamento. A multid√£o cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o at√© se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre h√°bitos adquiridos e h√°bitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo h√°bito for adquirido, o acidente deixar√° de ser acidente. Far-se-√° cl√°ssico e perder√° a virtude de choque. Por isso uma obra nunca √© compreendida. √Č admitida. Se n√£o me engano, a observa√ß√£o pertence a Eug√®ne Delacroix: ¬ęNunca se √© compreendido, √©-se admitido¬Ľ. Matisse repete com frequ√™ncia esta frase.

A Ira é uma Loucura Breve

Alguns s√°bios afirmaram que a ira √© uma loucura breve; por n√£o se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obriga√ß√Ķes, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da raz√£o, inquieta-se por causas v√£s, incapaz de discernir o que √© justo e verdadeiro, semelhante √†s ru√≠nas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que est√£o loucos aqueles que est√£o possu√≠dos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, s√£o claros ind√≠cios de loucura a express√£o ardente e amea√ßadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as m√£os trementes, a mudan√ßa de cor, a respira√ß√£o forte e acelerada, ind√≠cios que est√£o tamb√©m presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do cora√ß√£o, os l√°bios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eri√ßam-se, a respira√ß√£o √© ofegante e ruidosa, as articula√ß√Ķes retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreens√≠veis, as m√£os entrechocam-se constantemente, os p√©s batem no ch√£o e todo o corpo se agita amea√ßador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que h√° de pior neste v√≠cio √© ele ser detest√°vel ou t√£o disforme.

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O Vento que Decidirmos Ser

Uma das mais importantes escolhas que cada um de nós deve fazer é a de escolhermos qual o foco prin-cipal da nossa atenção e cuidado. Se o mundo à nossa volta, a fim de o mudar, ou se o interior de nós mesmos.

Quase todos os bens e males da nossa existência partem do nosso interior, pelo que será aí que importa aperfeiçoar, de forma profunda, tudo o que existe no nosso íntimo.

Um dos trabalhos mais importantes de cada um de nós será o de saber bem o que queremos. O segredo da felicidade pode estar aí: alterar em nós o que nos possa estar a causar desnecessárias ansiedades. Quantas vezes desejamos algo que está fora da nosso controlo?
Existem três tipos de coisas: as que dependem apenas de nós; as que escapam por completo à nossa decisão; e, aquelas sobre as quais temos algum controlo, mas não total.

Se fizermos a nossa alegria depender de algo que não está na nossa mão, então será fácil que nos sinta-mos roubados de algo que, na verdade, nunca foi nosso. Mesmo nos casos em que o conseguimos obter, a ansiedade associada à posse, até pela iminência de o perder da mesma forma que o ganhámos,

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A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que n√£o √©s ainda um s√°bio. O s√°bio aut√™ntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturb√°vel; vive em p√© de igualdade com os deuses. Analisa-te ent√£o a ti pr√≥prio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperan√ßa te aflige o √Ęnimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mant√©m igual a si mesma, isto √©, plena de eleva√ß√£o e contente de si pr√≥pria, ent√£o conseguiste atingir o m√°ximo bem poss√≠vel ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, n√£o buscas sen√£o o prazer, fica sabendo que t√£o longe est√°s da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falhar√°s o alvo se pensas vir a alcan√ß√°-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso ser√° o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da ang√ļstia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfa√ß√£o e prazer, s√£o apenas motivos para futuras dores.
Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfa√ß√£o das ambi√ß√Ķes, na multid√£o ass√≠dua dos clientes;

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A Liberdade só Existe com Lei e Poder

Liberdade e lei (pela qual a liberdade √© limitada) s√£o os dois eixos em torno dos quais gira a legisla√ß√£o civil. Mas, a fim de que a lei seja eficaz, em vez de ser uma simples recomenda√ß√£o, deve ser acrescentado um meio-termo, o poder, que, ligado aos princ√≠pios da liberdade, garanta o sucesso dos da lei. √Č poss√≠vel conceber apenas quatro formas de combina√ß√£o desse √ļnico elemento com os dois primeiros:
A. Lei e liberdade sem poder (Anarquia).
B. Lei e poder sem liberdade (Despotismo).
C. Poder sem liberdade nem lei (Barb√°rie).
D. Poder com liberdade e lei (Rep√ļblica).

A Mentira Perfeita

A mentira, a mentira perfeita, acerca das pessoas que conhecemos, sobre as rela√ß√Ķes que com elas tivemos, sobre o nosso m√≥bil em determinada ac√ß√£o formulado por n√≥s de uma forma completamente diferente, a mentira acerca do que somos, acerca do que amamos, acerca do que sentimos pela criatura que nos ama e que julga ter-nos tornado semelhante a ela porque passa o dia a beijar-nos, essa mentira √© das √ļnicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em n√≥s sentidos adormecidos para a contempla√ß√£o do universo que nunca ter√≠amos conhecido.

O Estilo é um Reflexo da Vida

Qual a causa que provoca, em certas √©pocas, a decad√™ncia geral do estilo ? De que modo sucede que uma certa tend√™ncia se forma nos esp√≠ritos e os leva √† pr√°tica de determinados defeitos, umas vezes uma verborreia desmesurada, outras uma linguagem sincopada quase √† maneira de can√ß√£o? Porque √© que umas vezes est√° na moda uma literatura altamente fantasiosa para l√° de toda a verosimilhan√ßa, e outras a escrita em frases abruptas e com segundo sentido em que temos de subentender mais do que elas dizem? Porque √© que nesta ou naquela √©poca se abusa sem restri√ß√Ķes do direito √† met√°fora? Eis o rol dos problemas que me p√Ķes. A raz√£o de tudo isto √© t√£o bem conhecida que os Gregos at√© fizeram dela um prov√©rbio: o estilo √© um reflexo da vida! De facto, assim como o modo de agir de cada pessoa se reflecte no modo como fala, tamb√©m sucede que o estilo liter√°rio imita os costumes da sociedade sempre que a moral p√ļblica √© contestada e a sociedade se entrega a sofisticados prazeres. A corrup√ß√£o do estilo demonstra plenamente o estado de dissolu√ß√£o social, caso, evidentemente, tal estilo n√£o seja apenas a pr√°tica de um ou outro autor,

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A Ociosidade

Assim como vemos as terras em repouso, se n√©dias e f√©rteis, dar origem √† prolifera√ß√£o de cem mil esp√©cies de ervas selvagens e in√ļteis, sendo necess√°rio, para as manter cultiv√°veis, dom√°-las e destin√°-las a certas sementes por forma a que delas tiremos proveito; e assim como vemos as mulheres, que por si s√≥s produzem informes amontoados e peda√ßos de carne, terem, para proporcionar uma boa e natural gera√ß√£o, de ser fecundadas por outra semente, assim vemos que se passa o mesmo com os nossos esp√≠ritos. Se n√£o os ocuparmos com algum objecto que os freie e constranja, lan√ßar-se-√£o eles, desregrados, a percorrer √† toa os campos bravios da imagina√ß√£o:

Tal como a √°gua que tremula em vasilhas de bronze reflecte a luz do sol ou a imagem radiante da lua, cintila√ß√Ķes voando pelos ares e atingindo os artesoados tectos – Virg√≠lio, Eneida

E não há loucura ou desvario que eles não produzam em tal agitação:

Inventam irreais apari√ß√Ķes como nos sonhos dos doentes – Hor√°cio, Ars Poetica

A alma que não tem um ponto de mira perde-se, pois, como sói dizer-se, é não estar em parte nenhuma em todo o lado estar.

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O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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A Tua Import√Ęncia na Tua Vida

√Č fundamental reconheceres a tua import√Ęncia na tua vida. Por algum motivo nasceste, aprendeste a respirar e tiveste direito a um nome, nome esse que, em conjunto com as tuas caracter√≠sticas, te identificar√° eternamente como um ser individual, √ļnico e livre. Haver√° algo mais especial e precioso que isso? Estou em crer que n√£o; ainda assim, encontro muitas pessoas a quererem ser outras e outras ainda a querer acabar com elas pr√≥prias na esperan√ßa de, imediatamente, poderem vir a ser outro algu√©m. √Č o teu caso? Se for deve ser uma chatice, mas, tamb√©m, se n√£o te d√°s qualquer import√Ęncia, que import√Ęncia te darei eu? J√° calculaste o perigo em que incorres por pensar desta maneira? Em menos de nada, estar√°s sozinho ou rodeado de gente como tu, ausente e que meteu f√©rias no inferno para sempre. Bom, mas alegrem-se os cora√ß√Ķes porque acredito que n√£o lerias estas linhas iniciais se nada estivesse a borbulhar a√≠ dentro, se n√£o existisse, pelo menos, uma fugaz esperan√ßa e uma enorme vontade de mudar. Est√° atento, o passado s√≥ influencia o presente se mantiveres o mesmo comportamento, por isso liberta-te dessa dor por uns instantes e l√™ em voz alta a pr√≥xima frase tantas vezes quantas achares necess√°rio.

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