Passagens de Arthur Schopenhauer

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Frases, pensamentos e outras passagens de Arthur Schopenhauer para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos c√≥micos ou tr√°gicos, porque em ambos os casos, √© dominado pelo esp√≠rito da esp√©cie que o domina ao ponto de o arrancar a si pr√≥prio; os seus actos n√£o correspondem √† sua individualidade. Isto explica, nos n√≠veis superiores do amor, essa natureza t√£o po√©tica e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa eleva√ß√£o transcendente e hiperf√≠sica, que parece faz√™-lo afastar da finalidade meramente f√≠sica do seu amor. √Č porque o impelem ent√£o o g√©nio da esp√©cie e os seus interesses superiores.
Recebeu a miss√£o de iniciar uma s√©rie indefinida de gera√ß√Ķes dotadas de determinadas caracter√≠sticas e constitu√≠das por certos elementos que s√≥ se podem encontrar num √ļnico pai e numa √ļnica m√£e; s√≥ essa uni√£o pode dar exist√™ncia √† gera√ß√£o determinada que a objectiva√ß√£o da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunst√Ęncias de semelhantes transcend√™ncia, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si pr√≥prio, e tranforma-lhe os desejos f√≠sicos numa apar√™ncia de tal modo suprasens√≠vel, que o amor √© um acontecimento po√©tico, mesmo na exist√™ncia do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em rid√≠culo.

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As Vantagens de se Ser um Pobre-Diabo

Para aquele que n√£o √© nobre, mas dotado de algum talento, ser um pobre-diabo √© uma verdadeira vantagem e uma recomenda√ß√£o. Pois o que cada um mais procura e aprecia, n√£o apenas na simples conversa√ß√£o, mas sobretudo no servi√ßo p√ļblico, √© a inferioridade do outro. Ora, s√≥ um pobre-diabo est√° convencido e compenetrado em grau suficiente da sua completa, profunda, decisiva, total inferioridade e da sua plena insignific√Ęncia e aus√™ncia de valor, tal como exige o caso. Apenas ele, portanto, inclina-se ami√ļde e por bastante tempo, e apenas a sua rever√™ncia atinge plenos noventa graus; apenas ele suporta tudo e ainda sorri; apenas ele conhece como obras-primas, em p√ļblico, em voz alta ou em grandes caracteres, as in√©pcias liter√°rias dos seus superiores ou dos homens influentes em geral; apenas ele sabe como mendigar; por conseguinte, apenas ele se pode tornar um iniciado, a tempo, portanto, na juventude, naquela verdade oculta que Goethe nos revelou nos seguintes termos:

Sobre a baixeza

Que ninguém se lamente:

Pois ela é a potência,

N√£o importa o que te digam.
Em contrapartida, quem já nasceu com uma fortuna que lhe garanta a existência irá posicionar-se, na maioria das vezes,

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A Boa Consciência, e a Vantagem na Limitação

Reflectir ponderadamente sobre alguma coisa antes de realiz√°-la; por√©m, uma vez realizada, e sendo previs√≠veis os seus resultados, n√£o se angustiar com reflex√Ķes cont√≠nuas a respeito dos seus poss√≠veis perigos. Em vez disso, libertar-se completamente do assunto, manter fechada a gaveta que o cont√©m, tranquilizando-se com a certeza de que tudo foi devidamente analisado a seu tempo. Se, ainda assim, o resultado √© negativo, √© porque todas as coisas est√£o submetidas ao acaso e ao equ√≠voco.

Limitar o próprio campo de acção; dessa maneira, cerceia-se a infelicidade; a limitação proporciona a felicidade etc.

H√° pessoas, de fato muitas, que se riem disso [das queixas a respeito da polui√ß√£o sonora], porque s√£o insens√≠veis ao barulho ‚Äď s√£o, contudo, justamente aquelas que tamb√©m s√£o insens√≠veis a raz√Ķes, a pensamentos, a poesias e a obras de arte, em suma: em rela√ß√£o a qualquer tipo de est√≠mulos ao esp√≠rito. Isso √© devido √† dura constitui√ß√£o e √† textura maci√ßa de sua massa cerebral.

As causas n√£o determinam o car√°cter da pessoa, mas apenas a manifesta√ß√£o desse car√°cter, ou seja, as ac√ß√Ķes.

Para vivermos entre os homens, temos de deixar cada um existir como é, aceitando-o na sua individualidade ofertada pela natureza, não importando qual seja.

A individualidade sobrep√Ķe-se em muito √† nacionalidade e, num determinado homem, aquela merece mil vezes mais considera√ß√£o do que esta.

Perdoar e Esquecer

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experi√™ncias adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos liga√ß√£o ou conv√≠vio nos faz algo de desagrad√°vel ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos √© ou n√£o valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequ√™ncia semelhante tratamento, e at√© de maneira mais grave. Em caso afirmativo, n√£o h√° muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos √† sua repeti√ß√£o. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispens√°-lo. Pois, quando a situa√ß√£o se repetir, ser√° inevit√°vel que ele fa√ßa exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente an√°logo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contr√°rio de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o pr√≥prio ser, pois o car√°cter √© absolutamente incorrig√≠vel e todas as ac√ß√Ķes humanas brotam de um princ√≠pio √≠ntimo, em virtude do qual, o homem, em circunst√Ęncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e n√£o o que √© diferente. (…) Por conseguinte,

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Coerção e Autocoerção

Os casos e acontecimentos que nos dizem respeito aparecem e entrecruzam-se isoladamente, sem ordem nem rela√ß√£o uns com os outros, no mais vivo contraste e sem nada em comum, a n√£o ser justamente o facto de se relacionarem connosco. Dessa maneira, para corresponder a esses casos e acontecimentos, os nossos pensamentos e cuidados t√™m igualmente de estar desligados uns dos outros. Como consequ√™ncia, quando empreendemos algo, temos de nos abstrair de tudo o resto, para ent√£o tratar cada coisa a seu tempo, fru√≠-la e senti-la, sem demais preocupa√ß√Ķes. Precisamos ter, por assim dizer, compartimentos para os nossos pensamentos e abrir apenas um deles, enquanto os outros permanecem fechados. Desse modo, conseguimos impedir que uma preocupa√ß√£o muito grave roube cada pequeno prazer do presente, despojando-nos de toda a tranquilidade.
Conseguimos ainda fazer com que uma pondera√ß√£o n√£o reprima a outra, que a preocupa√ß√£o com um caso importante n√£o produza a neglig√™ncia de muitos de menor relev√Ęncia, e assim por diante. Mas sobretudo o homem capaz de considera√ß√Ķes elevadas e nobres nunca pode deixar o seu esp√≠rito ser totalmente possu√≠do e absorvido por casos pessoais e preocupa√ß√Ķes triviais, a ponto de impedir o acesso √†s altas considera√ß√Ķes, pois isso, de facto,

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Pensar Com Cabeça Alheia

Ler significa pensar com cabeça alheia em vez de pensar com a própria. O furor que a maioria dos eruditos sente ao ler constitui uma espécie de fuga vacui do vazio de pensamentos da sua própria cabeça, que faz força para atrair para dentro de si o que lhe é estranho: para terem pensamentos, precisam de aprender nos livros da mesma forma que os corpos inanimados recebem movimento apenas do exterior, enquanto os dotados de pensamento próprio são como os corpos vivos, que se movem por si mesmos.
Em rela√ß√£o √† nossa leitura, a arte de n√£o ler √© extremamente importante. Ela consiste em n√£o aceitar o que o p√ļblico mais amplo sempre l√™, como planfletos pol√≠ticos ou liter√°rios, romances, poesias e similares, que s√≥ fazem rumor naquele momento e at√© atingem muitas edi√ß√Ķes no seu primeiro e √ļltimo ano de vida.
Exigir que um indivíduo conserve na sua mente tudo o que já leu é como querer que ele ainda traga dentro de si tudo o que já comeu na vida.

O Homem – Uma Fera Domesticada

√Č preciso ler hist√≥rias de crimes e descri√ß√Ķes de situa√ß√Ķes an√°rquicas para saber do que o homem √© realmente capaz no que diz respeito √† moral. Esses milhares de indiv√≠duos que, diante dos nossos olhos, empurram-se desordenadamente uns aos outros no tr√Ęnsito pacif√≠co devem ser vistos como tigres e lobos, cujos dentes s√£o protegidos por fortes focinheiras.

Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os génios, os iluminadores do mundo e os promotores do género humano são aqueles que leram directamente no livro do mundo.

O mundo no qual cada um vive depende da maneira de concebê-lo, que varia, por conseguinte, segundo a diversidade das mentes.

Só o Presente é Verdadeiro e Real

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na propor√ß√£o correcta com a qual dedicamos a nossa aten√ß√£o em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um n√£o estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: s√£o os levianos; outros vivem em demasia no futuro: s√£o os medrosos e os preocupados. √Č raro algu√©m manter com exactid√£o a justa medida. Aqueles que, por interm√©dio de esfor√ßos e esperan√ßas, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que h√£o-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, s√£o, apesar dos seus ares petualentes, compar√°veis √†queles asnos da It√°lia, cujos passos s√£o apressados por um feixe de feno que, preso por um bast√£o, pende diante da sua cabe√ßa. Desse modo, os asnos v√™em sempre o feixe de feno bem pr√≥ximo, diante de si, e esperam sempre alcan√ß√°-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado,

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Sabedoria de Vida é Usufruir o Presente

N√£o permitir a manifesta√ß√£o de grande j√ļbilo ou grande lamento em rela√ß√£o a qualquer acontecimento, uma vez que a mutabilidade de todas as coisas pode transform√°-lo completamente de um instante para o outro; em vez disso, usufruir sempre o presente da maneira mais serena poss√≠vel: isso √© sabedoria de vida. Em geral, por√©m, fazemos o contr√°rio: planos e preocupa√ß√Ķes com o futuro ou tamb√©m a saudade do passado ocupam-nos de modo t√£o cont√≠nuo e duradouro, que o presente quase sempre perde a sua import√Ęncia e √© negligenciado; no entanto, somento o presente √© seguro, enquanto o futuro e mesmo o passado quase sempre s√£o diferentes daquilo que pensamos. Sendo assim, iludimo-nos uma vida inteira.
Ora, para o eudemonismo, tudo isso √© bastante positivo, mas uma filosofia mais s√©ria faz com que justamente a busca do passado seja sempre in√ļtil, e a preocupa√ß√£o com o futuro o seja com frequ√™ncia, de modo que somente o presente constitui o cen√°rio da nossa felicidade, mesmo se a qualquer momento se vier a transformar-se em passado e, ent√£o, tornar-se t√£o indiferente como se nunca tivesse existido.

A Import√Ęncia de Aprender v√°rias L√≠nguas

Pessoas com poucas capacidades n√£o conseguir√£o realmente assimilar com facilidade uma l√≠ngua estrangeira: embora aprendam as suas palavras, empregam-nas apenas no significado do equivalente aproximado da sua l√≠ngua materna e continuam a manter as constru√ß√Ķes e frases pr√≥prias desta √ļltima. Com efeito, esses indiv√≠duos n√£o conseguem assimilar o esp√≠rito da l√≠ngua estrangeira, que depende essencialmente do facto do seu pensamento n√£o se dar por meios pr√≥prios, mas, em grande parte, de ser emprestado pela l√≠ngua materna, cujas frases e locu√ß√Ķes habituais substituem os seus pr√≥prios pensamentos. Eis, portanto, a raz√£o de eles sempre se servirem, tamb√©m na pr√≥pria l√≠ngua, de express√Ķes idiom√°ticas desgastadas, combinando-as de modo t√£o in√°bil, que logo se percebe qu√£o pouco se d√£o conta do seu significado e qu√£o pouco todo o seu pensamento supera as palavras, de modo que tudo se reduz a um palrat√≥rio de papagaios. Pela raz√£o oposta, a originalidade das locu√ß√Ķes e a adequa√ß√£o individual de cada express√£o usada por algu√©m s√£o o sintoma inequivoc√°vel de um esp√≠rito preponderante.
Por conseguinte, de tudo isso resultam os seguintes factores: no aprendizado de toda a língua estrangeira, são formados novos conceitos para dar significado a novos signos; certos conceitos separam-se uns dos outros, enquanto antes constituíam juntos um conceito mais amplo e,

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Ser√° genu√≠na sabedoria de vida de quem possui algo de justo em si mesmo, se, em caso de necessidade, souber limitar as pr√≥prias car√™ncias, a fim de preservar ou ampliar a sua liberdade, isto √©, se souber contentar-se com o menos poss√≠vel para a sua pessoa nas rela√ß√Ķes inevit√°veis com o universo humano.

Atenção aos Detalhes do Comportamento dos Outros

Devemos ter muito cuidado para n√£o emitir uma opini√£o demasiado favor√°vel de um homem que acabamos de conhecer; pelo contr√°rio, na maioria das vezes, seremos desiludidos, para nossa pr√≥pria vergonha ou at√© para nosso dano. A esse respeito, uma senten√ßa de S√©neca merece ser mencionada: Podem-se obter provas da natureza de um car√°cter tamb√©m a partir de miudezas. Justamente nestas √© que o homem, quando n√£o se procura conter, √© que revela o seu car√°cter. Nas ac√ß√Ķes mais insignificantes, em simples maneiras, pode-se ami√ļde observar o seu ego√≠smo ilimitado, sem a menor considera√ß√£o para com os outros e que, em seguida, embora dissimulado, n√£o se desmente nas grandes coisas.
N√£o se deve perder semelhante oportunidade. Quando algu√©m procede sem considera√ß√£o nos pequenos acontecimentos e circunst√Ęncias da vida di√°ria, intentando obter vantagens ou comodidade, em preju√≠zo de outrem, nas coisas em que se aplica a m√°xima de a lei n√£o se ocupa com ninharias, ou ainda apropriando-se do que existe para todos, etc., podemos convencer-nos de que no cora√ß√£o de tal indiv√≠duo n√£o reside justi√ßa alguma; ele ser√° um patife tamb√©m nas grandes situa√ß√Ķes, caso as suas m√£os n√£o sejam atadas pela lei e pela autoridade. N√£o lhe permitamos, pois,

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