Textos sobre Ar

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Textos de ar escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Depender de Alguém

Depender de alguém, das ideias dos outros ou das filosofias das massas é negar a nossa própria existência, é abdicar totalmente do poder que nos foi concedido à nascença e a mais profunda ingratidão para com a oportunidade que nos foi dada de aqui estar. Como já o disse, cada um de nós é um ser especial e precioso, com responsabilidades pessoais e sociais diferentes de todos os outros. Cada um de nós pode fazer a diferença.
Quantas vezes já deixaste de arriscar porque não to permitiram? Quantas vezes já sonhaste com algo diferente daquilo que te foi imposto ou ensinado e por isso desististe? Quantas vezes foste feliz por depender de algo ou alguém?
Muitas pessoas optam, conscientemente, pela depend√™ncia por acharem que a vida se torna mais f√°cil nesse estado de submiss√£o. Na verdade n√£o lhes √© exigido que lutem por nada, por ningu√©m e, muito menos, por elas. Agora, pergunto eu, que interesse √© que isto tem? Esta gente, apesar de respirar e dar ares da sua gra√ßa, j√° morreu e s√≥ anda aqui a fazer figura de corpo presente, pois as suas vidas j√° n√£o s√£o desafiantes. Ser dependente √© ter medo de assumir o risco das suas paix√Ķes,

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Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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A Dieta do Génio

Os meios de que J√ļlio C√©sar se serviu para se defender das doen√ßas e das dores de cabe√ßa: grandes caminhadas, um modo de vida simpl√≠ssimo, perman√™ncia constante ao ar livre, fadigas cont√≠nuas ‚ÄĒ estas s√£o, em grandes tra√ßos, as regras de conserva√ß√£o e defesa geral contra a extrema vulnerabilidade dessa m√°quina subtil, e que trabalha a uma alt√≠ssima press√£o, chamada g√©nio.

O Amor Nunca Salva, mas alguém Tem uma Ideia Melhor?

Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros s√£o hist√≥rias de amor. S√≥ que as daninhas estavam t√£o bem disfar√ßadas que eu pr√≥prio n√£o tinha reparado. √Äs vezes, amo entre duas pessoas, outras de amor entre uma pessoa e uma ideia. Idalina enamora-se por ¬ęuma dan√ßa sem m√ļsica¬Ľ. Sam Espinosa apaixona-se por uma mulher uns anitos mais velha (duzentos, coisa pouca), Greg quase √© salvo da perdi√ß√£o por uma s√≥sia de Angelina Jolie. O amor est√° no ar e tamb√©m, como diria um poeta, o amor est√° no mar. O amor n√£o salva, nunca salva, mas algu√©m tem uma ideia melhor?
Tão sensacional descoberta levou-me a cogitar no seguinte: e qual será a melhor forma de amar? Carente de modelos reais na vida humana, decidi procurá-los na natureza. Com a ajuda da televisão, claro, Canal Odisseia, National Geographic, Canal Panda, essas coisas. Pode-se lá chegar à natureza, nos dias que correm, senão pela televisão! Três rolos modelos logo me saltaram à vista: o Amor do Louva-a-deus; o Amor do Cisne; o Amor do Urso Polar.
Após alguma esmiuçação, concluí que qualquer um me parece bem, e tem as suas vantagens e desvantagens.
No romance do louva-a-deus,

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Estou Completamente de Pernas para o Ar

Anais, tornaste-te uma parte t√£o vital de mim que estou completamente de pernas para o ar, se isto quer dizer algo. N√£o sei o que escrevo… S√≥ que te amo, que tenho de te ter exclusivamente, ferozmente, possessivamente. N√£o sei o que quero. Tenho demasiado, acho. Esmagaste-me e mimaste-me. Continuo a pedir-te coisas cada vez mais dif√≠ceis. Espero que fa√ßas milagres. N√£o sabes como sinto a falta daquelas noites que pass√°mos juntos… O quanto elas significaram para mim. Outras vezes √©s s√≥ um fantasma, um espectro. Chegas e fico doente de desejo, um desejo de te possuir, de te ter sempre √† minha volta, a falar comigo naturalmente, a mover-te como se fosses uma parte de mim.

√ď M√£e

√ď m√£e, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus l√°bios rebentavam de ternura. √ď m√£e, √≥ minha m√£e, √≥ rio de √°gua pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

√ď m√£e, que √©s m√£e de Deus, que √©s m√£e de mim e m√£e de Antero e de Cam√Ķes, e m√£e de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E s√£o assim uma esp√©cie de filhos de ningu√©m. Abre o teu ventre, m√£e. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais.

√ď m√£e, √≥ minha m√£e. √ď p√°tria. √ď minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. M√£e de Ulisses, de Guevara e m√£e de Helena. E m√£e da minha dor universal.

Deixemos a Humanidade à Sua Ordem Natural

N√£o aleijemos a pobre humanidade mais do que ela j√° est√° com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. N√£o sejamos t√£o crian√ßas que queiramos levantar ao ar a esfera pretendendo agarr√°-la apenas pelo hemisf√©rio da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisf√©rio superior, porque a √ļnica maneira de agarr√°-la bem t√£o-pouco √© p√īr-lhe as m√£os por baixo, nem ainda abra√ßando-a com os dois bra√ßos e os dedos metidos uns nos outros para n√£o deixar escapar as m√£os e com o pr√≥prio peito do lado de c√° a ajudar tamb√©m; a √ļnica maneira de equilibrar a esfera no ar √© deix√°-la estar no ar como a p√īs Deus Nosso Senhor, √°s voltas √† roda do sol, como a lua √† roda de n√≥s e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.

A Liberdade Nunca é Real

Se examinarmos um indiv√≠duo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus actos nos parecem livres. Mas se virmos a m√≠nima rela√ß√£o entre esse homem e quanto o rodeia, as suas rela√ß√Ķes com o homem que lhe fala, com o livro que l√™, com o trabalho que est√° fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objectos √† sua roda, verificamos que cada uma dessas circunst√Ęncias exerce influ√™ncia sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua actividade. E quantas mais influ√™ncias destas observamos mais diminui a ideia que fazemos da sua liberdade, aumentando a ideia que fazemos da necessidade a que est√° submetido.
(…) A grada√ß√£o da liberdade e da necessidade maiores ou menores depende do lapso de tempo maior ou menor desde a realiza√ß√£o do acto at√© √† aprecia√ß√£o desse mesmo acto. Se examino um acto que pratiquei h√° um minuto em condi√ß√Ķes quase as mesmas em que me encontro actualmente, esse acto parece-me absolutamente livre. Mas se aprecio um acto realizado h√° um m√™s, ao encontrar-me em circunst√Ęncias diferentes, a meu pesar, se n√£o tivesse realizado esse acto, n√£o existiriam muitas coisas in√ļteis, agrad√°veis e necess√°rias que derivam dele.

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Tremo Sempre Diante do Amor

Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no √ļltimo momento te pedi o n√ļmero do telefone e este endere√ßo de correio eletr√≥nico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido tamb√©m da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. H√°-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode at√© acontecer que j√° fa√ßam parte da tua biblioteca h√° anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde est√°s sentada enquanto me l√™s; e tamb√©m pode acontecer, na realidade n√£o me admiraria nada, que seja eu quem n√£o os tem nem os teve nunca. Durante o jantar n√£o conseguia tirar os olhos de ti, mas isso j√° tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, n√£o se tenham apercebido de at√© que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho j√° um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso n√£o fa√ßa com que seja mais f√°cil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto √© uma carta, n√£o √© verdade?

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A Consciência é um Produto Social

S√£o os homens os produtores das suas representa√ß√Ķes, das suas ideias, etc.; mas os homens reais agentes, tais como s√£o condicionados por um desenvolvimento determinado das suas for√ßas produtivas e das rela√ß√Ķes que lhes correspondem. (…) A consci√™ncia n√£o pode ser coisa diversa do ser consciente e o ser dos homens √© o seu processo de vida real.
(…) Desde o in√≠cio que pesa uma maldi√ß√£o sobre ¬ęo esp√≠rito¬Ľ, a de estar ¬ęmanchado¬Ľ por uma mat√©ria que se apresenta aqui sob a forma de camadas de ar agitadas, de sons, de linguagem em suma. A linguagem √© t√£o velha quanto a consci√™ncia – a linguagem √© a consci√™ncia real, pr√°tica, existente tamb√©m para outros homens, existente tamb√©m igualmente para mim mesmo pela primeira vez, e, tal como a consci√™ncia, a linguagem s√≥ aparece com a necessidade, a necessidade de comunica√ß√£o com os outros homens. (‚Ķ) A consci√™ncia √© portanto, desde in√≠cio, um produto social, e assim suceder√° enquanto existirem homens em geral.

O Espírito em Transe

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade.

O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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Nada Pode Haver de mais Belo

Amigo Bernardo, dos desertos do Ronc√£o d‚Äôel-Rei, na mais bela po√©tica noite de luar que ver se possa, te escreve este teu amigo. Nada pode haver de mais belo; os rouxin√≥is cantam √† desgarrada, o ar rescende dos milhares de loendros (laurier-rose) que cobrem as encostas alcantiladas do Guadiana. Que maravilha, que encanto, que tristeza (tu, com certeza, aqui choravas)! Neste momento, houve-se o sinistro roncar da coruja e o long√≠nquo uivar dos lobos, misturado com o forte ladrar dos rafeiros e os nossos cavalos relincham inquietos nas quadras… √Č √† luz dum prosaico casti√ßal (uma garrafa com uma vela) que te escrevo estas sentidas regras, que espraio sobre este branco papel as ondas da minha melancolia. E como n√£o estar melanc√≥lico se acabamos de fazer dezasseis l√©guas a cavalo em oito horas e n√£o descans√°mos e n√£o dormimos a noite passada sen√£o uma m√≠sera hora e vemos apenas diante de n√≥s umas velhas esteiras, as nossas mantas, e os aparelhos dos nossos cavalos como travesseiros, para passarmos umas noites.

Só o Presente é Verdadeiro e Real

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na propor√ß√£o correcta com a qual dedicamos a nossa aten√ß√£o em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um n√£o estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: s√£o os levianos; outros vivem em demasia no futuro: s√£o os medrosos e os preocupados. √Č raro algu√©m manter com exactid√£o a justa medida. Aqueles que, por interm√©dio de esfor√ßos e esperan√ßas, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que h√£o-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, s√£o, apesar dos seus ares petualentes, compar√°veis √†queles asnos da It√°lia, cujos passos s√£o apressados por um feixe de feno que, preso por um bast√£o, pende diante da sua cabe√ßa. Desse modo, os asnos v√™em sempre o feixe de feno bem pr√≥ximo, diante de si, e esperam sempre alcan√ß√°-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado,

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As Pernas Pesadas

Hoje, temos as pernas pesadas com o nosso peso. Andamos a ver onde pomos os pés, a acautelarmo-nos para não cair, porque se partíssemos uma perna era a nossa morte. Sentimos uma tremura invisível nas pernas, e hoje avançou essa tremura para o dobro, e já se nota ao olhar. Os ossos não se dobram da mesma maneira. Até o respirar é muito diferente do que já foi. Dantes, era corrido, era uma coisa em que não reparávamos. Hoje, é precisa mais força para sorver o ar e, quando o sopramos, soltamos um ruído de asma, como se tivéssemos o pescoço meio entupido ou tivéssemos engolido uma gaita enferrujada.

Os Germes da Natureza

Numa floresta, as árvores, justamente pelo facto de que uma tenta arrebatar da outra o ar e o sol, esforçam-se à porfia por se ultrapassarem umas às outras e, portanto, crescem belas e erectas. Porém, pelo contrário, as que lançam em liberdade os seus ramos segundo a sua vontade, afastadas de outras árvores, crescem mirradas, contorcidas e curvadas. Toda a cultura, toda a arte, que ornamentam a humanidade, assim como a ordem social mais bela, são frutos da falta de sociabilidade, que é forçada por si mesma a disciplinar-se e a desabrochar com isso por completo, impondo-se tal artifício, os germes da natureza.

Saber Terminar uma Amizade Indesej√°vel

Sucede, tamb√©m, como por calamidade, que algumas vezes √© necess√°rio romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos s√°bios √†s liga√ß√Ķes vulgares. Muitas vezes quando os v√≠cios se revelam num homem, os seus amigos s√£o as suas v√≠timas como todos os outros: contudo √© sobre eles que recai a vergonha. √Č preciso, pois, desligar-se de tais amizades ‚ÄĒ, afrouxando o la√ßo pouco a pouco e, como ouvi dizer a Cat√£o, √© necess√°rio descoser antes que despeda√ßar, a menos que se n√£o haja produzido um esc√Ęndalo de tal modo intoler√°vel, que n√£o fosse nem justo nem honesto, nem mesmo poss√≠vel, deixar de romper imediatamente.

Mas se o car√°cter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento pol√≠tico separar dois amigos (n√£o falo mais, repito-o, das amizades dos s√°bios, mas das afei√ß√Ķes vulgares), √© preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, n√£o a substituir logo pelo √≥dio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo.
(…) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pare√ßa antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela n√£o se transforme em √≥dio violento,

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Os Doentes S√£o o Maior Perigo da Humanidade

Se t√£o normal √© o homem em estado morboso, tanto mais de devem estimar os raros exemplos de pot√™ncia f√≠sica e corpural, os acidentes felizes da esp√©cie humana, e tanto mais devem ser preservados do ar infecto os seres robustos. Faz-se assim ?…
Os doentes s√£o o maior perigo para os s√£os; daqueles v√™m todos os males. J√° se reparou suficientemente nisto?… Decerto se n√£o deve desejar que diminua a viol√™ncia entre os homens; porque esta viol√™ncia obriga os homens a serem fortes, e mant√©m na sua integridade o tipo do homem robusto. O tem√≠vel e desastroso √© o grande t√©dio do homem e a sua grande compaix√£o. Se algum dia estes elementos se unirem, dar√£o √° luz irremissivelmente a monstruosa ¬ę√ļltima¬Ľ vontade, a sua vontade do nada, o niilismo.
E efectivamente tudo est√° j√° preparado para este fim. Os que t√™m olhos, ouvidos, nariz, percebem por todos os lados a atmosfera de um manic√≥mio e de um hospital, em todas as partes do mundo civilizado, europeizado. Os doentes s√£o o maior perigo da humanidade; n√£o os maus, n√£o as ¬ęferas de rapina¬Ľ. Os desgra√ßados, os vencidos, os impotentes, os fracos s√£o os que minam a vida e envenenam e destroem a nossa confian√ßa.

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Memória Personalizada

N√£o acontece apenas que certas pessoas t√™m mem√≥ria e outras n√£o (…), mas, mesmo com mem√≥rias iguais, duas pessoas n√£o se lembram das mesmas coisas. Uma ter√° prestado pouca aten√ß√£o a um facto do qual a outra guardar√° um grande remorso, e em contrapartida ter√° apanhado no ar como sinal simp√°tico e caracter√≠stico uma palavra que a outra ter√° deixado escapar quase sem pensar. O interesse de n√£o nos termos enganado quando emitimos um progn√≥stico falso abrevia a dura√ß√£o da lembran√ßa desse progn√≥stico e permite-nos afirmar em breve que n√£o o emitimos. Enfim, um interesse mais profundo, mais desinteressado, diversifica as mem√≥rias das pessoas, de tal modo que o poeta que esqueceu quase tudo dos factos que outros lhe recordam ret√©m deles uma impress√£o fugidia.
De tudo isso, resulta que, passados vinte anos de aus√™ncia, encontramos, em lugar de esperados rancores, perd√Ķes involunt√°rios, inconscientes, e, em contrapartida, tantos √≥dios cuja raz√£o n√£o conseguimos explicar (porque esquecemos tamb√©m a m√° impress√£o que caus√°mos). At√© da hist√≥ria das pessoas que conhecemos melhor esquecemos as datas.

Corpo e Espírito

A maior parte das pessoas tem um corpo que, ou √© desleixado, formado e deformado pelo acaso, e que parece quase n√£o ter rela√ß√£o com o seu esp√≠rito e o seu car√°cter, ou ent√£o √© recoberto pela m√°scara do desporto que lhe d√° o aspecto daquelas horas em que ele tirou f√©rias de si pr√≥prio. Essas s√£o aquelas horas em que um homem desfia o sonho diurno da sua boa figura, que foi buscar √†s revistas do grande mundo da eleg√Ęncia e da beleza. Todos esses jogadores de t√©nis, cavaleiros e corredores de autom√≥veis, bronzeados e musculosos, com ares de baterem todos os recordes, apesar de, em geral, dominarem apenas razoavelmente a sua especialidade, essas damas bem vestidas ou bem despidas, sonham sonhos diurnos, e s√≥ se distinguem do comum dos mortais que t√™m sonhos despertos porque o seu sonho n√£o permanece encerrado no c√©rebro, mas sai para o ar livre, como projec√ß√£o da alma das massas, configurada de forma corp√≥rea, dram√°tica, quase apetecia dizer, na linguagem de fen√≥menos ocultos mais que suspeitos, ideopl√°stica. Mas t√™m em comum com os vulgares construtores de fantasias uma certa banalidade dos seus sonhos, tanto no que se refere ao conte√ļdo como √† proximidade do estado de vig√≠lia.

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