Textos sobre Ingratos

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Textos de ingratos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

As Saudades Curtas

Tamb√©m as vers√Ķes-formiga dos maiores sentimentos t√™m tanto direito ao respeito como os le√Ķes e as impalas. At√© por serem muito mais numerosas e frequentes, como est√° a multid√£o de insectos para com a pequena minoria dos vertebrados.
A minha formiguinha emocional são as saudades curtas que eu tenho da Maria João. Plenas não posso ter, graças a ela e a Deus, porque são poucos os momentos em que ela não está comigo. Mesmo não sendo muitas, essas faltas, por muito felizmente pequenas e provocadas pela necessidade, são suficientes para incutir em mim a dor, nem que seja por cinco minutos apenas, de estar separado dela.
Parecem est√ļpidas as saudades curtas. S√£o certamente insens√≠veis e solipsistas, perante as saudades longas e profundas, que n√£o t√™m cura nem, por serem insol√ļveis, t√™m a esperan√ßa de, um dia, deixarem de existir.
São saudades de uma hora, de um almoço perdido, de uma tarde interrompida. Parecem irracionais e ingratas, estas saudades curtas, de que sofrem as pessoas apaixonadas e felizes ou infelizes.
Mas n√£o s√£o. Daqui a um X n√ļmero de horas, vou morrer. Daqui a um Y n√ļmero de horas, vai morrer a Maria Jo√£o. Morra quem morra,

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Tenho Saudades de Ti

Os dias contigo são dias inteiros que passam num instante. Tenho saudades de ti quando acordo, antes de perceber que já estás ali ao meu lado. Tenho saudades de ti de manhã enquanto espero que desças do banho. Fico bem a ler enquanto te espero, mas leio melhor quando estás ao pé de mim, quando já não me apetece ler.

Hoje foi mais um dia contigo e, mais uma vez, dou comigo aqui à noite, separado de ti, para escrever sobre o dia que se passou. E a coisa principal que aconteceu foi ter saudades de ti outra vez.

Bem sei que sei onde est√°s e que eu estou aqui a cinco passos de ti. Mas a maior certeza que tenho √© que, apesar disso tudo, n√£o estou contigo nem tu est√°s comigo. √Č o que me basta para ter saudades de ti. N√£o preciso de mais: se mais tivesse, morreria.

√Č verdade que estive contigo durante uma pequena parte do dia: aquela a que as pessoas tristes e habituadas chamam vida. Mas estava t√£o apaixonado e t√£o feliz que nem dei por isso.

Pensei apenas: “Conseguimos! Conseguimos estar juntos! Nem acredito!”

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O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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O Socorro Contra as Nossas Perdas

O verdadeiro bem ‚ÄĒ a sabedoria e a virtude ‚ÄĒ √© seguro e eterno; √© este bem, ali√°s, a √ļnica coisa imortal que √© concedida aos mortais. Estes, por√©m, s√£o t√£o falhos, t√£o esquecidos do caminho que seguem, do termo para que cada dia os vai arrastando que se admiram quando perdem alguma coisa ‚ÄĒ eles que, mais tarde ou mais cedo, h√£o-de perder tudo! Tudo aquilo de que √©s considerado dono est√° √† tua m√£o, mas sem ser verdadeiramente teu; um ser inst√°vel nada possui de est√°vel, um ser ef√©mero nada possui de eterno e indestrut√≠vel. Perder √© t√£o inevit√°vel como morrer; se bem a entendermos, esta verdade √© uma consola√ß√£o para n√≥s. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo um dia morrer√°. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na mem√≥ria as coisas que perdemos sem deixar que o proveito que delas tiramos desapare√ßa tamb√©m com elas. Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possu√≠do. √Č extremamente ingrato quem pensa que j√° nada deve porque perdeu o empr√©stimo!

Regras de Conduta para Viver sem Sobressaltos

Vou indicar-te quais as regras de conduta a seguir para viveres sem sobressaltos. (…) Passa em revista quais as maneiras que podem incitar um homem a fazer o mal a outro homem: encontrar√°s a esperan√ßa, a inveja, o √≥dio, o medo, o desprezo. De todas elas a mais inofen¬≠siva √© o desprezo, tanto que muitas pessoas se t√™m sujeitado a ele como forma de passarem despercebidas. Quem despreza o outro calca-o aos p√©s, √© evidente, mas passa adiante; ningu√©m se afadiga teimosamente a fazer mal a algu√©m que despreza. √Č como na guerra: ningu√©m liga ao soldado ca√≠do, combate-se, sim, quem se ergue a fazer frente.
Quanto √†s esperan√ßas dos desonestos, bastar-te-√°, para evit√°-las, nada possu√≠res que possa suscitar a p√©rfida cobi√ßa dos outros, nada teres, em suma, que atraia as aten√ß√Ķes, porquanto qualquer objecto, ainda que pouco valioso, suscita desejos se for pouco usual, se for uma raridade. Para escapares √† inveja dever√°s n√£o dar nas vistas, n√£o gabares as tuas propriedades, saberes gozar discretamente aquilo que tens. Quanto ao √≥dio, ou derivar√° de alguma ofensa que tenhas feito (e, neste caso, bastar-te-√° n√£o lesares ningu√©m para o evitares), ou ser√° puramente gratuito, e ent√£o ser√° o senso comum quem te poder√° proteger.

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Esquecimento Esvaziante

A variedade das nossas emo√ß√Ķes torna claro que cada homem guarda dentro de si os celeiros do contentamento e do descontentamento: os jarros das coisas boas e m√°s n√£o est√£o depositados ¬ęna soleira de Zeus¬Ľ, mas na alma. O n√©scio negligencia e desdenha as coisas boas que l√° est√£o porque a sua imagina√ß√£o acha-se sempre voltada para o futuro; o sensato, por√©m, torna os factos pregressos vividamente presentes com record√°-los. O presente oferece-se ao toque da nossa m√£o apenas por um instante e logo nos ilude os sentidos; os tolos julgam que ele n√£o √© mais nosso, que n√£o mais nos pertence.
Há a pintura de um cordoeiro no inferno, com um asno a engolir toda a corda feita por ele, à medida que ele a entretece; assim é a multidão acometida e dominada pelo esquecimento insensato e ingrato, que apaga cada acto, cada sucesso, cada experiência aprazível de bem-estar, de camaradagem e de deleite.
O esquecimento n√£o consente √† vida desenvolver-se unitariamente, o passado entretecido com o presente, mas separa o ontem do hoje, como se fossem de diferente subst√Ęncia, e o hoje do amanh√£, como se n√£o fossem o mesmo; transforma toda a ocorr√™ncia em n√£o-ocorr√™ncia.

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A Portugalite

Entre as afec√ß√Ķes de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma h√° t√£o generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite √© uma inflama√ß√£o nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. √Č altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e at√© hoje n√£o se descobriu cura.

A Portugalite √© contra√≠da por cada portugu√™s logo que entra em contacto com Portugal. √Č uma doen√ßa n√£o tanto ven√©rea como venal. Para compreend√™-la √© necess√°rio estudar a rela√ß√£o de cada portugu√™s com Portugal. Esta rela√ß√£o √© semelhante a uma outra que j√° √© cl√°ssica na literatura. Suponhamos ent√£o que Portugal √© fundamentalmente uma meretriz, mas que cada portugu√™s est√° apaixonado por ela. Est√° sempre a dizer mal dela, o que √© compreens√≠vel porque ela trata-o extremamente mal. Chega at√© a julgar que a odeia, porque n√£o acha uma √ļnica raz√£o para am√°-la. Contudo, existem cinco sinais ‚ÄĒ t√≠picos de qualquer grande e arrastada paix√£o ‚ÄĒ que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a l√≥gica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as ¬ębocas¬Ľ que mandam.

Em primeiro lugar, estão sempre a falar dela. Como cada português é um amante atraiçoado e desgraçado pela mesma mulher,

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Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que voc√™ perde em viver, escrevinhando sobre a vida. N√£o apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem voc√™, porque com voc√™ n√£o √© poss√≠vel contar. Voc√™ esperando que os outros vivam, para depois coment√°-los com a maior cara-de-pau (“com isen√ß√£o de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divaga√ß√£o descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei propriet√°rio do universo, que escolhe para o seu jantar de not√≠cias um terremoto, uma revolu√ß√£o, um adult√©rio grego ‚ÄĒ √†s vezes nem isso, porque no painel imenso voc√™ escolhe s√≥ um besouro em campanha para verrumar a madeira.

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A Razão é Contrária à Felicidade

Quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento; e daí provém que em muitas pessoas, e nomeadamente nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau de misologia, quer dizer de ódio à razão. E isto porque, uma vez feito o balanço de todas as vantagens que elas tiram, não digo já da invenção de todas as artes do luxo vulgar, mas ainda das ciências (que a elas lhes parecem no fim e ao cabo serem também um luxo do entendimento), descobrem contudo que mais se sobrecarregaram de fadigas do que ganharam em felicidade, e que por isso finalmente invejam mais do que desprezam os homens de condição inferior que estão mais próximos do puro instinto natural e não permitem à razão grande influência sobre o que fazem ou deixam de fazer. E até aqui temos de confessar que o juízo daqueles que diminuem e mesmo reduzem a menos de zero os louvores pomposos das vantagens que a razão nos teria trazido no tocante à felicidade e ao contentamento da vida, não é de forma alguma mal-humorado ou ingrato para com a vontade do governo do mundo,

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O Ingrato e o seu Oposto

O ingrato tortura-se e aflige-se a si mesmo; odeia os benef√≠cios que recebe por ter de retribu√≠-los, procura reduzir a sua import√Ęncia e, pelo contr√°rio, agigantar enormemente as ofensas que lhe foram causadas. H√° algu√©m mais miser√°vel do que um homem que se esquece dos benef√≠cios para s√≥ se lembrar das ofensas? A sabedoria, pelo contr√°rio, valoriza todos os benef√≠cios, fixa-se na sua considera√ß√£o, compraz-se em record√°-los continuamente. Os maus s√≥ t√™m um momento de prazer, e mesmo esse breve: o instante em que recebem o benef√≠cio; o s√°bio, pelo seu lado, extrai do benef√≠cio recebido uma satisfa√ß√£o grande e perene. O que lhe d√° prazer n√£o √© o momento de receber, mas sim o facto de ter recebido o benef√≠cio; isto √© para ele algo de imortal, de permanente. O s√°bio n√£o tem sen√£o desprezo por aquilo que o lesou; tudo isso ele esquece, n√£o por inc√ļria, mas voluntariamente. N√£o interpreta tudo pelo pior, n√£o procura descobrir o culpado do que lhe sucedeu, preferindo atribuir os erros dos homens √† fortuna.
N√£o atribui m√°s inten√ß√Ķes √†s palavras ou aos olhares dos outros, antes procura dar do que lhe fazem uma interpreta√ß√£o benevolente. Prefere lembrar-se do bem que lhe fizeram,

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Abandonar a Zona de Conforto

Ningu√©m adquire confian√ßa na rotina. √Č imposs√≠vel. √Č mais do mesmo, todos os dias para o resto das suas vidas. √Č uma esp√©cie de piloto autom√°tico programado para embater, a qualquer momento, na montanha mais alta e √© uma agoniante e pasmacenta viagem √† ingratid√£o e ao pior dos h√°bitos da ra√ßa humana: a pregui√ßa. Viv√™-la √© morrer todos os dias. A rotina, essa resigna√ß√£o perante a putrefa√ß√£o, √©, portanto, para os desistentes, para os ingratos e fracos de esp√≠rito. Na verdade, por que motivo querer√£o eles confiar em si mesmos se j√° pereceram? N√£o faz sentido, certo? Deixai-os estar, ap√°ticos como eles gostam, pois ainda que deambulem de um lado para o outro, a verdade √© que n√£o passam de voltas e viravoltas dentro das suas pr√≥prias urnas.

Toquei-te? De alguma forma te pareci violento nestas √ļltimas linhas?
Se sim, fant√°stico; mas n√£o, esta forma de me expressar nada tem a ver com agressividade ou viol√™ncia. √Č apenas dizer, letrinha a letrinha, o que penso e sinto a este respeito e a isso chama-se ser assertivo.

O Medo de Magoar os Outros

O medo de magoar os outros √© uma inven√ß√£o da nossa mente. √Č o pior dos dois mundos: nem tu vives em liberdade de express√£o, nem os outros sabem o que te passa no cora√ß√£o e na cabe√ßa acerca deles. J√° pensaste que a verbaliza√ß√£o daquilo que sentes pode ser tudo o que a outra pessoa tamb√©m sente mas n√£o √© capaz de dizer? J√° idealizaste que aquilo que sentes pode ser a tomada de consci√™ncia que o outro precisa para refor√ßar aquilo em que j√° acredita e mudar de comportamento? J√° imaginaste que a materializa√ß√£o daquilo que sabes a teu respeito pode ser profundamente inspirador para quem te ou√ßa ou tenha o privil√©gio de te ver em a√ß√£o? Quem te diz a ti que empregar as palavras certas, as palavras que carregam a tua verdade, olhos nos olhos do outro n√£o √© algo de absolutamente vantajoso para ambas as partes? Quem? E sim, ainda que possa doer um pouco. A verdade d√≥i quase sempre. O crescimento dos dentes tamb√©m, certo? E no entanto √© vital, n√£o √©? Assim se passa com a mente. A evolu√ß√£o da mente de mentirosa para potenciadora passa pela dor, por ouvir certas verdades a nosso respeito,

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A Dependência é a Raiz de Todos os Males

O que deve um c√£o a um c√£o, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende do seu semelhante. Tendo por√©m o homem recebido o raio da Divindade a que se chama raz√£o, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto √©, se em toda parte os homens encontrassem subsist√™ncia f√°cil e certa e clima apropriado √† sua natureza, imposs√≠vel teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o mundo de frutos salutares. N√£o fosse ve√≠culo de doen√ßas e morte o ar que contribui para a exist√™ncia humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito al√©m do dos gansos e cabras monteses, n√£o teriam os Gengis C√£s e Tamerl√Ķes vassalos sen√£o os pr√≥prios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxili√°-los na velhice.
No estado natural de que gozam os quadr√ļpedes, aves e r√©pteis, t√£o feliz como eles seria o homem, e a domina√ß√£o, quimera, absurdo em que ningu√©m pensaria: para qu√™ servidores se n√£o tiv√©sseis necessidade de nenhum servi√ßo? Ainda que passasse pelo esp√≠rito de algum indiv√≠duo de bofes tir√Ęnicos e bra√ßos impacientes por submeter o seu vizinho menos forte que ele,

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Vale Mais Ser Amado ou Temido?

Vale mais ser amado ou temido (na chefia)? O ideal √© ser as duas coisas, mas como √© dif√≠cil reunir as duas coisas, √© muito mais seguro – quando uma delas tiver que faltar – ser temido do que amado. Porque, dos homens em geral, se pode dizer o seguinte: que s√£o ingratos, vol√ļveis, fingidos e dissimulados, fugidios ao perigo, √°vidos do ganho. E enquanto lhes fazeis bem, s√£o todos vossos e oferecem-vos a fam√≠lia, os bens pessoais, a vida, os descendentes, desde que a necessidade esteja bem longe. Mas quando ela se avizinha, contra v√≥s se revoltam. E aquele pr√≠ncipe que tiver confiado naquelas promessas, como fundamento do ser poder, encontrando-se desprovido de outras precau√ß√Ķes, est√° perdido. √Č que as amizades que se adquirem atrav√©s das riquezas, e n√£o com grandeza e nobreza de car√°cter, compram-se, mas n√£o se pode contar com elas nos momentos de adversidade. Os homens sentem menos inibi√ß√£o em ofender algu√©m que se fa√ßa amar do que outro que se fa√ßa temer, porque a amizade implica um v√≠nculo de obriga√ß√Ķes, o qual, devido √† maldade dos homens, em qualquer altura se rompe, conforme as conveni√™ncias. O temor, por seu turno, implica o medo de uma puni√ß√£o,

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A Recompensa de Todas as Virtudes Reside na Sua Pr√°tica

Devemos fazer tudo no sentido de sermos t√£o gratos quanto poss√≠vel. A gratid√£o √© um bem que nos pertence a n√≥s, assim como a justi√ßa (ao contr√°rio do que vulgarmente se cr√™) tira o seu valor mais de si mesma do que da aplica√ß√£o aos outros. Cada um de n√≥s ao ser √ļtil aos outros, √© √ļtil a si mesmo. N√£o digo isto no sentido de cada um pretender ajudar quando √© ajudado, proteger quando √© protegido, ou no sentido de que um bom exemplo acaba por redundar em benef√≠cio do seu autor (tal como os maus exemplos recaem nos seus autores – e por isso ningu√©m tem pena das v√≠timas de inj√ļrias que as pr√≥prias v√≠timas, por tamb√©m as fazerem, mostram ser poss√≠veis); quero, sim, dizer √© que a recompensa de todas as virtudes reside na sua pr√°tica! N√£o √© com vista a obter uma recompensa que n√≥s as praticamos: o pr√©mio de uma ac√ß√£o correcta √© essa mesma ac√ß√£o! Eu n√£o me mostro grato para que um outro, levado pelo meu exemplo, me fa√ßa um favor de melhor vontade, mas porque a gratid√£o provoca um sentimento da mais pura e bela alegria. N√£o me mostro grato porque isso me possa ser √ļtil,

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Insiste no Benefício

Queixas-te de teres dado com um ingrato! Se √© a primeira vez que isso te sucede bem podes agradecer √† tua sorte… ou √† tua prud√™ncia. Mas esta √© uma quest√£o em que a prud√™ncia apenas far√° de ti um homem azedo, pois se pretenderes evitar o perigo da ingratid√£o nunca mais far√°s benef√≠cios a ningu√©m. Quer dizer, para que os teus benef√≠cios n√£o sejam em v√£o, privas-te de faz√™-los. A verdade √© que √© prefer√≠vel proporcionar benef√≠cios mesmo sem contrapartida do que renunciar a beneficiar os outros: h√° que voltar a semear, mesmo depois de uma m√° colheita! As sementeiras perdidas por uma prolongada estirilidade de um terreno pouco f√©rtil podem ser compensadas pela abund√Ęncia de uma √ļnica messe. Para encontrarmos um s√≥ homem grato vale bem a pena sujeitarmo-nos √† ingratid√£o de muitos.
Ao distribuir benef√≠cios ningu√©m tem a m√£o t√£o certeira que n√£o se possa com frequ√™ncia enganar: pois sejam em v√£o esses benef√≠cios, desde que uma ou outra vez sejam bem aplicados! N√£o √© um naufr√°gio que p√Ķe termo √† navega√ß√£o, como n√£o √© a presen√ßa de um falido que impede o usur√°rio de montar banca no foro. Em breve a nossa vida se transformar√° num torpor inutilmente ocioso se pretendermos eximir-nos √† m√≠nima contrariedade.

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Os Prazeres Nunca Parecem Ser Suficientes

Parece-me que a natureza trabalhou para ingratos: somos felizes, mas os nossos discursos são tais que parecemos nem sequer suspeitar disso. No entanto, encontramos prazeres em toda a parte: estão ligados ao nosso ser, e os pesares não passam de acidentes. Os objectos parecem em toda a parte preparados para os nossos prazeres: quando o sono nos chama, as trevas nos aguardam; e, quando acordamos, a luz do dia nos arrebata. A natureza é enfeitada de mil cores; os nossos ouvidos são lisonjeados pelos sons; as iguarias têm gosto agradável; e, como se a felicidade da existência não fosse suficiente, é ainda necessário que a nossa máquina precise de ser incessantemente reparada para os nossos prazeres.