Citação de

A Portugalite

Entre as afec√ß√Ķes de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma h√° t√£o generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite √© uma inflama√ß√£o nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. √Č altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e at√© hoje n√£o se descobriu cura.

A Portugalite √© contra√≠da por cada portugu√™s logo que entra em contacto com Portugal. √Č uma doen√ßa n√£o tanto ven√©rea como venal. Para compreend√™-la √© necess√°rio estudar a rela√ß√£o de cada portugu√™s com Portugal. Esta rela√ß√£o √© semelhante a uma outra que j√° √© cl√°ssica na literatura. Suponhamos ent√£o que Portugal √© fundamentalmente uma meretriz, mas que cada portugu√™s est√° apaixonado por ela. Est√° sempre a dizer mal dela, o que √© compreens√≠vel porque ela trata-o extremamente mal. Chega at√© a julgar que a odeia, porque n√£o acha uma √ļnica raz√£o para am√°-la. Contudo, existem cinco sinais ‚ÄĒ t√≠picos de qualquer grande e arrastada paix√£o ‚ÄĒ que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a l√≥gica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as ¬ębocas¬Ľ que mandam.

Em primeiro lugar, est√£o sempre a falar dela. Como cada portugu√™s √© um amante atrai√ßoado e desgra√ßado pela mesma mulher, √© natural que se junte aos demais para chorar a sua sorte e vilipendiar a causa comum de todos os seus males. Assim sempre se v√£o consolando uns aos outros. Bebem uns copos, chamam-lhes uns nomes, e confortam-se todos com o facto de n√£o sofrerem sozinhos. √Äs vezes, para acentuar a tristeza, recordam-se dos bons velhos tempos em que Portugal, hoje megera ingrata que se vende na via (e na vida) p√ļblica, era uma namorada graciosa e senhora respeitada em todos os continentes. E, quando dez milh√Ķes de l√°grimas caem para dentro do vinho tinto que seguram nas m√£os, todos abanam as cabe√ßas, dizendo em un√≠ssono ¬ęe hoje √© o que se sabe…¬Ľ.

N√£o √© s√≥ o facto de n√£o saberem nem poderem falar noutra coisa que prova a exist√™ncia duma paix√£o. Como qualquer apaixonado arrependido, o portugu√™s acha Portugal m√° como as cobras, mas… lind√≠ssima. O facto de ser t√£o bonita de cara (as paisagens, as aldeias, a claridade, o clima) s√≥ torna a paix√£o mais tr√°gica. O contraste entre a beleza √† superf√≠cie e a vileza subterr√Ęnea d√° maior acidez √†s l√°grimas. √Č por isso que s√≥ h√° um tabu naquilo que se pode dizer de Portugal. Pode dizer-se que √© b√°rbara e miser√°vel, trai√ßoeira e ingrata, e tudo o mais que h√° de aviltante que se queira. O que n√£o se pode dizer √© ¬ęPortugal √© um pa√≠s feio¬Ľ. Nunca. Tamb√©m neste aspecto se comprova a paix√£o.

Em terceiro lugar, os portugueses s√≥ deixam que outros portugueses digam mal de Portugal. S√≥ quem sofreu nos bra√ßos dela (e que ela vai tratando ignobilmente a seu bel-prazer, por saber que nunca lhe h√£o-de fugir), se pode legitimamente queixar. Isto porque Portugal, sendo uma lind√≠ssima meretriz, engata os estrangeiros descaradamente, desfazendo-se em encantos e sedu√ß√Ķes para com eles. Esta ideia exprime-se no dogma nacional que reza ¬ęIsto √© bom √© para os turistas¬Ľ, como quem diz ¬ęA viciosa da minha mulher a mim n√£o me d√° nada, mas atira-se a qualquer estranho que lhe apare√ßa √† frente¬Ľ. Qualquer estrangeiro que tenha a ousadia e o mau gosto de se fazer esquisito frente aos avan√ßos despudorados de Portugal est√° condenado ao maior desagrado de todos.

Esta atitude √© l√≥gica, porque s√≥ h√° uma coisa pior do que se ser atrai√ßoado por quem se ama ‚ÄĒ √© n√£o se ser atrai√ßoado s√≥ porque o outro a acha feia e n√£o a quer. √Ä trai√ß√£o da mulher junta-se o insulto do outro, ao n√£o ach√°-la sequer digna de um pequenino adult√©rio. √Č como dizer-nos: ¬ęN√£o s√≥ est√°s apaixonado por uma pega, como ela √© feia como breu.¬Ľ

Os estrangeiros que nos visitam nunca compreendem isto. L√™em e ouvem dizer por todo o lado as maiores inf√Ęmias acerca de Portugal e n√£o percebem porque √© que todos lhe caem em cima no momento em que ele se atreve a dizer que um pastel de nata n√£o est√° fresco, ou que tem a impress√£o de ter sido enganado no troco por um motorista de t√°xi.

Em quarto lugar, apesar do portugu√™s passar o tempo a resmungar e a queixar-se quando est√° perto de Portugal, sabe-se o que lhe acontece quando est√° h√° muito tempo longe dela. Os grunhidos transformam-se em gemidos e as piscadelas de olho j√° n√£o vencem sen√£o l√°grimas. E pensa invariavelmente: ¬ęPortugal √© uma bruxa, mas antes mal tratada por ela do que bem por outra donzela…¬Ľ

Em quinto e √ļltimo lugar (e o ¬ęQuinto¬Ľ n√£o √© fortuito), temos a derradeira prova da paix√£o do portugu√™s por Portugal. Tem a ver com a ideia que ele tem do que Portugal podia ser. Para cada portugu√™s, ¬ęisto podia ser o melhor pa√≠s do mundo se…¬Ľ (Segue-se uma condi√ß√£o invariavelmente imposs√≠vel de se cumprir). A miragem deste pa√≠s potencial √© um para√≠so que agrava substancialmente o inferno que os portugueses j√° sup√Ķem aturar. Isto porque os portugueses gra√ßas a Deus, t√™m expectativas elevad√≠ssimas. Nada abaixo do Quinto-Imp√©rio pode garantir satisfaz√™-los. Nenhum portugu√™s se contenta, por exemplo, s√≥ com pertencer √† Europa. Ali√°s, s√≥ come√ßaria a contentar-se caso fosse a Europa toda a pertencer a Portugal. (E mesmo assim, qual n√£o seria o portugu√™s, com um cepticismo que prov√©m de um longo e civilizad√≠ssimo cansa√ßo cultural, que n√£o desconfiasse logo que ¬ęisto agora da Europa pertencer a Portugal traz √°gua no bico, com certeza…?¬Ľ)

Estas expectativas insaci√°veis revelam-se na saud√°vel mania que t√™m os portugueses de comparar Portugal s√≥ com a pequena minoria de pa√≠ses que se encontram em muito melhor situa√ß√£o. Para um portugu√™s, Portugal √© o pa√≠s mais pobre do mundo. Isto √©, do mundo ¬ęque interessa¬Ľ. Se lhe falarmos nos demais 75% que est√£o piores que n√≥s, diz logo: ¬ęEst√° bem, mas isso nem se fala…¬Ľ Nem √© preciso ser a Nicar√°gua ou o Bangladesh ‚ÄĒ basta mencionar a Gr√©cia ou a Turquia para ele se virar para n√≥s com ar despeitoso e incr√©dulo e dizer: ¬ę√ď filho, est√° bem, mas isso…¬Ľ

√Č curioso notar que a Espanha goza de um estatuto especial nestas compara√ß√Ķes. Nem conta como ¬ęmelhor¬Ľ nem ¬ępior¬Ľ. A Espanha √© sempre at√©, e a frase ¬ęAt√© na Espanha…¬Ľ tem o significado precioso de chamar a aten√ß√£o para um pa√≠s reconhecidamente rasca onde, neste ou naquele aspecto, j√° est√£o escandalosamente melhores do que em Portugal. De qualquer modo, os espanh√≥is n√£o s√£o como n√≥s. Acham, por exemplo, que √© motivo de orgulho ser-se espanhol. Nisso pelo menos, est√£o muito piores que n√≥s. Entretanto, compreende-se que o dif√≠cil n√£o √© amar Portugal ‚ÄĒ o dif√≠cil √© deixar de am√°-lo, tamb√©m porque √© sempre dif√≠cil n√≥s sermos felizes.