Passagens sobre Cara

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Frases sobre cara, poemas sobre cara e outras passagens sobre cara para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Existe a Noite

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor n√£o mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim n√£o me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

A Salvação do Mundo

Os anjos levaram as igrejas…
Anjos envergonhados, de grandes asas tristes,
que fugiam, escondendo o rosto,
nas pregas dos mantos, que os incêndios enegreciam.
Levaram as igrejas, os santos e os milagres.
E os homens ficavam olhando o céu,
os homens que tinham deixado os anjos levar as igrejas,
de m√£os postas, ajoelhados.
As m√£os que eram para n√£o deixar os anjos levar as igrejas.
Mas os homens j√° n√£o sabiam,
e os anjos julgaram que eles n√£o queriam as igrejas para nada.

A terra vazia e os homens de m√£os postas, ajoelhados.

Então surgiram os anjos de extermínio.
E as longas espadas flamejantes
deceparam as cabeças dos homens ajoelhados,
que tinham fechado a porta das igrejas na cara da verdade.

O meu comportamento √© absurdo: n√£o sei defender-me, entrego-me a cada entrevista como se tivesse a vida em jogo. √Äs vezes parece-me surpreender na cara dos jornalistas uma express√£o de assombro. Imagino que estar√£o a pensar: ¬ęPor que tomar√° ele isto t√£o a peito?¬Ľ.

Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

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No Mundo Poucos Anos, E Cansados

No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me t√£o cedo a luz do dia escura,
que n√£o vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, n√£o quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
p√°tria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Ab√°ssia fera e avara,
t√£o longe da ditosa p√°tria minha!

Olhando para a cara das pessoas, tem-se a sensação de que há muito trabalho para fazer.

Soneto 568 Nazaretado

Uns dizem que de índia tinha cara;
a outros parecia um rapazelho.
Famoso mesmo foi o seu joelho,
além da voz, que mais se aveludara.

Veludo, mas cortante, coisa rara:
quer fosse a Lindonéia nosso espelho
ou fosse o Carcar√° bord√£o vermelho,
o fato é que, no mapa, a nata é Nara.

Da Bossa Nova é musa mais bem-quista.
Tropicalista diva, brilha quieta.
Rebelde mais serena n√£o se avista.

Foi ídolo, na luta, do poeta,
ao mesmo tempo olímpica e humanista,
pois Nara é nata, é nota, é gata, é neta.

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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Liberdade

Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de f√©, das persegui√ß√Ķes religiosas da Inquisi√ß√£o e do fundamentalismo isl√Ęmico, o Mediterr√Ęneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das amea√ßas dos Profetas: na barca da morte at√© √† outra vida, como acreditavam os eg√≠pcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebra√ß√£o de cada coisa: a ca√ßa, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e n√£o o terror da morte.

Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisi√ß√£o, antes dos massacres da Arg√©lia, o Mediterr√Ęneo ergueu uma civiliza√ß√£o fundada na celebra√ß√£o da vida, na beleza de todas as coisas e na toler√Ęncia dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto √© nosso e pertence-nos ‚Äď por uma √ļnica, breve e intensa passagem. √Č a isso que chamamos liberdade ‚Äď a grande heran√ßa do mundo do Mediterr√Ęneo.

(…) Sabes, quem n√£o acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e n√£o na dos sentimentos;

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Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Quem Me Mandou a Mim Querer Perceber?

Como quem num dia de Ver√£o abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
N√£o sei bem como nem o qu√™…
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Ver√£o me passa pela cara
A m√£o leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, √© que √© meu dever senti-lo…

Ora Até que Enfim

Ora at√© que enfim…, perfeitamente…
C√° est√° ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabe√ßa teve o sobressalto pela espinha acima…

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solu√ß√£o, e foi preciso o est√īmago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organiza√ß√£o de poemas relativos √† vastid√£o de cada assunto resolvido em v√°rios ‚ÄĒ
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim…
Tenho uma n√°usea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia,

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Pastor do Monte, T√£o Longe de Mim

Pastor do monte, t√£o longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade √© essa que pareces ter ‚ÄĒ a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
N√£o, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque n√£o sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

As Mulheres S√£o Profundamente Diferentes dos Homens

S√£o profundamente diferentes, felizmente. At√© o c√©rebro tem uma outra organiza√ß√£o. A mulher √© extraordin√°ria… Gosto muito da est√°tua da V√©nus de Milo, a√≠ √© que est√° o sentido. N√£o h√° nada dela que eu tire para o sexo. O sexo √© um prazer, um v√≠cio, como fumar, tomar caf√©, beber uma droga. A V√©nus de Milo: a gente n√£o sabe a posi√ß√£o das m√£os, mas o seio √© muito bonito, nada provocativo, nem a cara, que √© muito serena, muito feminina; mas o ventre √© o que sobressai mais. E √© o ventre onde se gera a humanidade. A Agustina Bessa-Lu√≠s diz mesmo que Cristo, Deus, nasceu do ventre da mulher. Veja a import√Ęncia que tem e que se n√£o d√° √† mulher: a de criar humanidade. E essa est√°tua, por coincid√™ncia, √© a mais conhecida de todas as do mundo ocidental.

Sigo à risca. Me descuido e vou ? Quebro a cara. Quebro o coração. Tropeço em mim. Me atolo nos cinco sentidos.