Passagens de Franz Kafka

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Frases, pensamentos e outras passagens de Franz Kafka para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Os bons vão ao passo certo; os outros ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa.

Depois de ter dado abrigo ao mal, ele não mais pedirá que você acredite nele.

Escrever com Integridade

N√£o escrevi muito sobre mim nestes dias, em parte por pregui√ßa (durmo tanto e t√£o profundamente durante o dia, tenho mais peso enquanto durmo), em parte tamb√©m por medo de trair o conhecimento que tenho de mim. Este medo justifica-se, porque uma pessoa s√≥ devia permitir fixar na escrita a sua autopercep√ß√£o quando o puder fazer com a maior integridade, com todas as consequ√™ncias secund√°rias e tamb√©m com toda a verdade. Porque se isto n√£o acontecer ‚ÄĒ e eu de qualquer maneira n√£o sou capaz de o fazer ‚ÄĒ o que est√° escrito ir√°, de acordo com a sua pr√≥pria finalidade e com o poder superior do que foi fixado, tomar o lugar daquilo que se sentia apenas vagamente, de tal modo que o sentimento verdadeiro desaparecer√° enquanto o n√£o valor do que foi anotado ser√° reconhecido tarde de mais.

A Pessoa de quem se Anda à Procura

Normalmente a pessoa de quem se anda √† procura vive mesmo ao lado. Isto n√£o √© f√°cil de explicar, temos de simplesmente aceit√°-lo como um facto. Tem ra√≠zes t√£o profundas que n√£o se pode fazer nada, mesmo com esfor√ßo. A raz√£o √© que n√≥s n√£o sabemos nada deste vizinho de quem andamos √† procura. Ou seja, n√£o sabemos que andamos √† procura dele nem que ele vive na casa ao lado, mas ent√£o ele vive mesmo na casa ao lado. √Č claro que podemos saber isto como um facto geral na nossa experi√™ncia; s√≥ que sab√™-lo n√£o tem qualquer import√Ęncia, mesmo que guardemos isso em mente.

Vida de Escritor

√Č f√°cil reconhecer em mim a concentra√ß√£o de todas as minhas for√ßas sobre a escrita. Quando se tornou claro no meu organismo que escrever era a direc√ß√£o mais produtiva que podia tomar o meu ser, tudo correu para esse lado e deixou-me vazio de todas as capacidades que se dirigiam para as alegrias do sexo, da comida, da bebida, da reflex√£o filos√≥fica e, acima de tudo, da m√ļsica. Eu atrofiava em todas estas direc√ß√Ķes. Isto era necess√°rio porque a totalidade das minhas for√ßas √© t√£o leve que s√≥ colectivamente √© que elas podiam semi-servir a finalidade da minha escrita. √Č claro que n√£o encontrei esta finalidade independentemente ou conscientemente, ela encontrou-se a si pr√≥pria e s√≥ o escrit√≥rio interfere com ela, e interfere completamente. De qualquer modo, eu n√£o me devia queixar pelo facto de n√£o conseguir ter uma namorada, de perceber exactamente tanto de amor como de m√ļsica e de ter de me resignar nos esfor√ßos mais superficiais de que posso lan√ßar m√£o, de na noite de fim de ano ter jantado escorcioneira e espinafres com um quarto de Ceres e de no domingo n√£o ter podido participar na leitura que Max fez dos seus trabalhos filos√≥ficos; a compensa√ß√£o de tudo isto √© clara como o dia.

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Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

N√£o se pode pagar o mal √†s presta√ß√Ķes ‚Äď e, no entanto, as pessoas tentam isso sem parar. Seria conceb√≠vel que Alexandre, o Grande, a despeito dos √™xitos guerreiros da sua juventude, do excelente ex√©rcito que formou, das for√ßas que sentia dentro de si para mudar o mundo, tivesse estacado √†s margens do Helesponto e jamais o tivesse atravessado, na verdade n√£o por medo, indecis√£o ou falta de energia, mas por causa da for√ßa da gravidade.

Enfrentar-se a Si Próprio

√ďdio da introspec√ß√£o activa. Explica√ß√Ķes da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela raz√£o; hoje estou assim e assado, por qualquer outra raz√£o. N√£o √© verdade, nem por esta raz√£o nem por aquela raz√£o, e por isso tamb√©m nem assim nem assado.
Enfrentar-se a si pr√≥prio calmamente, sem precipita√ß√Ķes, viver como se tem de viver, n√£o andar √† ca√ßa do pr√≥prio rabo como o c√£o.
Adormeci nos arbustos. Um barulho acordou-me. Encontrei um livro nas minhas m√£os, que tinha estado a ler. Deitei-o fora e levantei-me de um salto. Passava pouco do meio-dia; em frente da colina em que eu estava estendia-se uma grande planura com aldeias e lagos e sebes todas iguais, altas, que pareciam feitas de junco. Pus as m√£os nas ancas, examinei tudo com o olhar, e ao mesmo tempo escutei o barulho.

O medo da loucura. Ver a loucura em todas as emo√ß√Ķes que se esfor√ßam sempre para a frente e que nos fazem esquecer de tudo o resto. Que √©, ent√£o, a n√£o loucura? A n√£o loucura √© ficar parado, de p√©, como um mendigo √† soleira da porta, ficar ao lado da entrada, apodrecer e cair.

A Necessidade de Conversar

Nos jornais, em conversas, no escrit√≥rio, a impetuosidade da linguagem leva por vezes uma pessoa a perder-se, da√≠ a esperan√ßa, que salta da fraqueza tempor√°ria, de uma repentina e mais forte ilumina√ß√£o mesmo no momento seguinte, ou de uma forte confian√ßa em si pr√≥prio, ou mero desleixo, ou uma impress√£o forte e actual de que uma pessoa quer a todo o custo descarregar no futuro, portanto a opini√£o de que o verdadeiro entusiasmo no presente justifica toda e qualquer confus√£o futura, ou o deleite nas frases que se elevam no meio com um ou dois empurr√Ķes e que a pouco e pouco abrem completamente a boca mesmo que depois a deixem fechar com demasiada rapidez e tortuosidade, ou a leve possibilidade de um ju√≠zo claro e decisivo, ou o esfor√ßo para dar mais flu√™ncia ao discurso que realmente j√° acabou, ou o desejo de abandonar √† pressa o tema se assim tiver de ser, de rastos, ou o desespero que tenta encontrar uma sa√≠da para a sua pesada respira√ß√£o, ou o anseio por uma luz sem sombra ‚ÄĒ tudo isto pode levar uma pessoa a perder-se em frases como: ¬ęO livro que acabei agora mesmo √© o mais belo que jamais li¬Ľ ou ¬ę√© t√£o belo,

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O Individuo Indestrutivel

Teoricamente, só há uma possibilidade perfeita de felicidade: acreditar no indestrutível em si sem a ele aspirar.
O indestrut√≠vel √© um; cada indiv√≠duo o √© ao mesmo tempo que √© comum a todos, da√≠ esse la√ßo indissol√ļvel entre os homens, que √© sem exemplo.

Para evitar um equívoco verbal: o que deve ser activamente destruído precisa antes ter sido sustentado com firmeza total; o que desmorona desmorona, mas não pode ser destruído.

A insensatez da juventude. Medo da juventude, medo da insensatez, do surgir sem sentido de uma vida inumana.

Quando me comporto como um ser humano durante umas horas, como fiz hoje com Max e mais tarde com Baum, fico cheio de orgulho antes de ir para a cama.

O caminho √© infinito, n√£o h√° nada a subtrair ou acrescentar e, no entanto, todos insistem na pr√≥pria medida infantil. ¬ęCertamente que precisas de percorrer mais esse c√īvado de caminho, isso n√£o te ser√° negado¬Ľ.

Os m√°rtires n√£o subestimam o corpo, deixam que ele seja erguido na cruz, e nisso est√£o de acordo com os antagonistas.

A verdade é indivisível, portanto não pode ter conhecimento de si mesma; quem quer que diga conhecê-la está-se a referir a uma mentira.