Textos Longos

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Textos longos sobre diversos assuntos para ler e compartilhar. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Desejo de Ser Sincero é Superficial

O desejo de ser sincero √© superficial. N√£o √© por acaso que muitos dos romances entre os √ļltimos aparecidos s√£o escritos na primeira pessoa, de modo a que o eu repetido e disseminado ao longo das p√°ginas produza uma sensa√ß√£o de algo muito pr√≥ximo a uma lembran√ßa, a uma confiss√£o, a um di√°rio. N√£o √© tamb√©m por acaso que neles se evita com muito cuidado o enredo ou de certa forma tudo o que possa parecer inven√ß√£o; e que se narre os factos com garra jornal√≠stica, como coisa que realmente tivesse acontecido. A sinceridade, no seu estrito sentido, n√£o suporta a narra√ß√£o objectiva que √© um princ√≠pio de artif√≠cio nem a inven√ß√£o que em todas as ocasi√Ķes pode parecer falsa.
A sinceridade parece-se muito com o mar em certos dias. H√° manh√£s de tanta bonan√ßa que se andamos de barco e nos inclinamos para contemplar a √°gua debaixo de n√≥s, tem-se a impress√£o de que estamos suspensos sobre transparentes e tang√≠veis precip√≠cios. A √°gua, por muito profunda que seja, n√£o se op√Ķe a que se olhe a prumo para baixo e se veja, numa claridade esverdeada, o fundo areoso espargido de seixos e de trigueiras c√©spedes. Nasce ent√£o uma esp√©cie de exalta√ß√£o,

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Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

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Deixar Sempre as Coisas a Meio

A grandeza, o verdadeiro luxo, est√° nessa displic√™ncia algo aristocr√°tica, n√£o na pior ace√ß√£o da palavra, de deixar sempre as coisas a meio: esse copo de conhaque que se abandona na varanda do bar, as moedas que nunca mais se acabam de recolher da bandejinha em que o criado nos trazia o troco, os pratos por limpar, as tardes inteiras de torpor e moleza, desperdi√ßadas sem culpa porque sobra vida, porque haver√° tempo. Essa √© a atitude que se op√Ķe √† do miser√°vel a quem a necessidade mais visceral e mesquinha faz ver poesia nesse sorver at√© √† √ļltima gota o que a vida lhe oferece. E n√£o deita nada fora, ent√£o, e guarda para amanh√£, e mesquinhamente esconde as sobras para as aproveitar depois como um c√£o saciado que enterra os ossos junto de uma √°rvore para n√£o desperdi√ßar nem um grama de alimento; e molha no chocolate todos os churros que fazem parte da dose, mesmo a rebentar de cheio, caibam ou n√£o dentro do seu est√īmago. E mil vezes prefer√≠vel deixar sempre qualquer coisa no prato, desdenhar com eleg√Ęncia de parte do festim; jantar, por exemplo, com uma senhora admir√°vel e permitir graciosamente que escape viva. E,

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Só Chegamos a Ser uma Parte Mínima do que Poderíamos Ser

A actividade de comprar conclui em decidir-se por um objecto; mas √© tamb√©m antes uma elei√ß√£o, e a elei√ß√£o come√ßa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. De onde resulta que a vida, no seu modo ¬ęcomprar¬Ľ, consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. Quando se fala de nossa vida s√≥i esquecer-se disto, que me parece essencial√≠ssimo: a nossa vida √© em todo o instante e antes que nada consci√™ncia do que nos √© poss√≠vel. Se em cada momento n√£o tiv√©ssemos √† nossa frente mais que uma s√≥ possibilidade, careceria de sentido cham√°-la assim. Seria apenas pura necessidade. Mas ai est√°: esse estranh√≠ssimo facto da nossa vida possui a condi√ß√£o radical de que sempre encontra ante si v√°rias sa√≠das, que por serem v√°rias adquirem o car√°cter de possibilidades entre as quais havemos de decidir. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos num ambiente de determinadas possibilidades. A este √Ęmbito costuma chamar-se ¬ęas circunst√Ęncias¬Ľ.

Toda a vida √© achar-se dentro da ¬ęcircunst√Ęncia¬Ľ ou mundo. Porque este √© o sentido origin√°rio da id√©ia (mundo). Mundo √© o repert√≥rio das nossas possibilidades vitais. N√£o √©, pois, algo √† parte e alheio √† nossa vida,

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O Fim da Civilização

Quando se extinguir√° esta sociedade corrompida por todas as devassid√Ķes, devassid√Ķes de esp√≠rito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hip√≥crita a que se chama civiliza√ß√£o, haver√° sem d√ļvida alegria sobre a terra; abandonar-se-√° o manto real, o ceptro, os diamantes, o pal√°cio em ru√≠nas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da √©gua e da loba.
Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.
Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensid√£o deve acabar por cansar-se desse gr√£o de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de m√£os e de corromper, o outro esgotar-se-√°; este vapor de sangue abrandar√°, o pal√°cio desmoronar-se-√° sob o peso das riquezas que oculta,

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Amar Alguém

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho Рmas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.

Amar √© um casamento de solid√Ķes que, gozando o prazer da juntid√£o, mesmo assim n√£o prescinde dos prazeres de duas solid√Ķes juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.

Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.

Amar e ser amado √© a melhor sorte que se pode ter. N√£o s√£o milagres que aconte√ßam por acaso. √Č preciso trabalhar com leviandade – por muito cheio de amor que o cora√ß√£o esteja – para que esses milagres, fac√≠limos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.

Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.

Amar alguém é um baluarte contra o mundo,

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O Amor Exige a Verdade

A maioria das pessoas hoje em dia n√£o considera o amor como relacionado de alguma forma com a verdade. O amor √© visto como uma experi√™ncia associada com o mundo das emo√ß√Ķes fugazes, e n√£o com a verdade. Mas √© esta uma descri√ß√£o adequada do amor? O amor n√£o pode ser reduzido a uma emo√ß√£o ef√©mera. √Č verdade que estimula a nossa afectividade, mas, a fim de o abrir para o amado e, assim, abrir o caminho que conduz longe do egocentrismo e em dire√ß√£o √† outra pessoa, a fim de construir um relacionamento duradouro, o amor visa a uni√£o com o amado. Aqui come√ßamos a ver como o amor exige a verdade. S√≥ na medida em que o amor √© fundamentado na verdade pode ser suportado ao longo do tempo, pode transcender o momento passageiro e ser suficientemente s√≥lido para sustentar uma viagem compartilhada. Se o amor n√£o est√° vinculado √† verdade, √© uma presa emo√ß√Ķes inconstantes e n√£o pode resistir ao teste do tempo. Amor verdadeiro, por outro lado, unifica todos os elementos da nossa pessoa e torna-se uma nova luz que aponta o caminho para uma vida grande e realizada. Sem a verdade, o amor √© incapaz de estabelecer um v√≠nculo firme;

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As Saudades que Sinto de Ti

Meu Bebé, meu Bebezinho querido:

Sem saber quando te entregarei esta carta, estou escrevendo em casa, hoje, domingo, depois de acabar de arrumar as coisas para a mudan√ßa de amanh√£ de manh√£. Estou outra vez mal da garganta; est√° um dia de chuva; estou longe de ti ‚ÄĒ e √© isto tudo o que tenho para me entreter hoje, com a perspectiva da ma√ßada da mudan√ßa amanh√£, com chuva talvez e comigo doente, para uma casa onde n√£o est√° absolutamente ningu√©m. Naturalmente (a n√£o ser que esteja j√° inteiramente bom e arranje as coisas de qualquer modo, o que fa√ßo √© ir pedir guarida c√° na Baixa ao Marianno Sant‚ÄôAnna, que, al√©m de ma dar de bom grado, me trata da garganta com compet√™ncia, como fez no dia 19 deste m√™s quando eu tive a outra angina.

N√£o imaginas as saudades de ti que sinto nestas ocasi√Ķes de doen√ßa, de abatimento e de tristeza. O outro dia, quando falei contigo a prop√≥sito de eu estar doente, pareceu-me (e creio que com raz√£o) que o assunto te aborrecia, que pouco te importavas com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de sa√ļde, pouco te rales com o que os outros sofrem,

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Considera√ß√Ķes Sobre a Amizade

√Č a insufici√™ncia do nosso ser que faz nascer a amizade, e √© a insufici√™ncia da pr√≥pria amizade que a faz perecer. Est√°-se sozinho, sente-se a pr√≥pria mis√©ria, sente-se necessidade de apoio, procura-se quem lhe favore√ßa os gostos, um companheiro nos prazeres e nos pesares; quer-se um homem de quem se possa possuir o cora√ß√£o e o pensamento. Ent√£o a amizade parece ser o que de mais doce h√° no mundo; tem-se o que se desejou, logo se muda de ideia. Quando se v√™ de longe algum bem, ele fixa de in√≠cio os nossos desejos, e quando se chega a ele, sente-se o seu nada. A nossa alma, de que ele prendia a vista na dist√Ęncia, n√£o pode repousar-se nele quando v√™ mais adiante: assim a amizade, que de longe limitava todas as nossas pretens√Ķes, cessa de limit√°-las de perto; n√£o preenche o vazio que prometera preencher; deixa-nos necessidades que nos distraem e nos levam a outros bens.
Ent√£o a gente torna-se negligente, dif√≠cil, exige-se logo como um tributo as complac√™ncias que de in√≠cio eram recebidas como um dom. √Č do car√°cter dos homens apropriar-se a pouco e pouco at√© das gra√ßas de que beneficiam; uma longa posse acostuma-os naturalmente a olhar as coisas que possuem como sendo deles;

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A Castração da Personalidade

O homem √© um animal greg√°rio. Pol√≠tico, dizia Arist√≥teles, ou seja, membro da cidade. Mas n√£o s√≥ da cidade – de todas as greis espont√Ęneas ou artificiais, est√°veis ou prec√°rias, onde quer que se encontre. N√£o pode suportar a ideia de estar s√≥, consigo – quer ser unidade e n√£o individualidade. Tem necessidade de se sentir cotovelo com cotovelo, pele com pele, no calor de uma multid√£o, ligado, seguro, uniforme, conforme. Se o le√£o anda s√≥, em n√≥s predomina o instinto ovino, do rebanho – os pr√≥prios individualistas, para afirmar o seu individualismo, congregam-se: sempre segundo a pr√°tica ovina.

O homem, quando s√≥, sente-se incompleto – tem medo. Opor-se √† grei significa separar-se, permanecer s√≥, morrer. Os conceitos do bem e do mal nascem da necessidade de conviv√™ncia. √Č bem o que aproveita ao grupo, mal o que o prejudica ou n√£o beneficia. O rebanho n√£o quer que cada ovelha pense demasiado em si, e como a privilegiada √© a que obt√©m a boa opini√£o das outras, v√™-se for√ßada, ainda que contra os seus gostos e interesses, a agir no sentido do bem supremo do rebanho. H√° que pagar, com a castra√ß√£o da personalidade, a seguran√ßa contra o medo.

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A Felicidade

A felicidade √© um estado permanente que n√£o parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo cont√≠nuo que n√£o permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda √† nossa volta. N√≥s pr√≥prios tamb√©m mudamos e ningu√©m pode estar certo de amar amanh√£ aquilo que hoje ama. √Č por isso que todos os nossos projectos de felicidade nesta vida s√£o quimeras.
Aproveitemos a alegria do esp√≠rito quando a possu√≠mos; evitemos afast√°-la por nossa culpa, mas n√£o fa√ßamos projectos para a conservar, porque esses projectos s√£o meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes cora√ß√Ķes contentes e de todos os objectos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma consequ√™ncia natural do poder das sensa√ß√Ķes sobre os meus sentimentos. A felicidade n√£o tem sinais exteriores; para a conhecer seria necess√°rio ler no cora√ß√£o do homem feliz; mas a alegria l√™-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe.

Ser Amigo

O cora√ß√£o de um amigo √© uma coisa que sempre quer. Ser amigo √© estar ao lado de quem n√£o tem raz√£o, contra qualquer inimigo que tenha, e apare√ßa, dizendo com toda a justi√ßa que o amigo n√£o a tem. N√£o √© suspender a raz√£o – √© us√°-la friamente, aplic√°-la, estar sempre consciente dela. E, contudo, n√£o diz√™-la, n√£o mostr√°-la, ficar sempre acima dela. Ser amigo √© ter raz√£o e n√£o querer saber dela. Ser amigo √© pensar duas vezes quando a √ļltima vez pertence ao que repensa o cora√ß√£o.

O amigo discordava dele. Dizia: Queres tu dizer que para se ser um bom amigo é preciso, às vezes, ser-se muito má pessoa? Sim, respondia ele, era isso que ele queria dizer. Porque ser amigo tem de ser uma coisa que custa. Às vezes é um trabalho, muitas horas, muitas dores; um trabalho que é o contrário do que seria natural, e do que apetece. Ser má pessoa para se ser um bom amigo (ou um bom português, ou um bom professor), é fazer fé que um outro fim faz valer o desconforto, faz valer o arrependimento, acaba por se abater sobre a vergonha. E sofrer bastante para que o outro nada sofra,

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Nunca Me Tinha Apaixonado Verdadeiramente

Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois,

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Estado Frenético de Tagarelice

Assola o pa√≠s uma puls√£o coloquial que p√Ķe toda a gente em estado fren√©tico de tagarelice, numa multiplica√ß√£o ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os p√≠ncaros de Castro Laboreiro ao Ilh√©u de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paci√™ncia de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falat√≥rio √© causa de in√ļmeros despaut√©rios, frouxas produtividades e m√°s-cria√ß√Ķes.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e décibeis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
(…) Telefones m√≥veis! Soturna apoquenta√ß√£o! Um pa√≠s tagarela tem, de um momento para o outro, dez milh√Ķes de √≠ncolas a querer saber onde √© que os outros param, e a transmitir pensamentos √† dist√Ęncia.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas deleas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria,

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Conhecer-se a Si Próprio

Conhece-te a ti pr√≥prio – eis o que √© dif√≠cil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo n√£o consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros fa√ßo ideia mais ou menos aproximada, de mim n√£o fa√ßo ideia nenhuma.
H√° uma disparidade entre mim e mim. H√° em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que l√° dentro sonha, grita e √© capaz, por insignific√Ęncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma cat√°strofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que √© razo√°vel – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser n√£o √© aquele que compus, recalcando l√° para o fundo os instintos e as paix√Ķes; o meu verdadeiro ser √© uma √°rvore desgrenhada – √© o fantasma que nos momentos de exalta√ß√£o me leva a rasto para actos que reprovo. S√≥ a custo o contenho. Parece que est√° morto, e est√° mais vivo que o histri√£o que represento. Asseguro este simulcaro at√© √† cova com os h√°bitos de compress√£o que adquiri. N√£o sei se a maior parte dos homens √© assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

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Tudo Est√° ao Nosso Alcance

A vida traz a cada um a sua tarefa e, seja qual for a ocupa√ß√£o escolhida, √°lgebra, pintura, arquitectura, poesia, com√©rcio, pol√≠tica ‚ÄĒ todas est√£o ao nosso alcance, at√© mesmo na realiza√ß√£o de miraculosos triunfos, tudo na depend√™ncia da selec√ß√£o daquilo para que temos aptid√£o: comece pelo come√ßo, prossiga na ordem certa, passo a passo. √Č t√£o f√°cil retorcer √Ęncoras de ferro e talhar canh√Ķes como entrela√ßar palha, t√£o f√°cil ferver granito como ferver √°gua, se voc√™ fizer tudo na ordem correcta. Onde quer que haja insucesso √© porque houve titubeio, houve alguma supersti√ß√£o sobre a sorte, algum passo omitido, que a natureza jamais perdoa. Condi√ß√Ķes felizes de vida podem ser obtidas nos mesmos termos. A atrac√ß√£o que elas suscitam √© a promessa de que est√£o ao nosso alcance. As nossas preces s√£o profetas. √Č preciso fidelidade; √© preciso ades√£o firme. Qu√£o respeit√°vel √© a vida que se aferra aos seus objectivos! As aspira√ß√Ķes juvenis s√£o coisas belas, as suas teorias e planos de vida s√£o leg√≠timos e recomend√°veis: mas voc√™ ser√° fiel a eles? Nem um homem sequer, receio eu, naquele p√°tio repleto de gente, ou n√£o mais que um em mil. E, se tentar cobrar deles a trai√ß√£o cometida,

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Disputas Empobrecedoras

As disputas deviam ser regulamentadas e punidas como outros crimes verbais. Que defeitos n√£o suscitam e acumulam em n√≥s, reguladas e governadas como s√£o pela c√≥lera! Come√ßamos por ser inimigos das raz√Ķes e acabamos por o ser dos homens. S√≥ aprendemos a discutir para contraditar, e, √† for√ßa de se contraditar e ser-se contraditado, vem a acontecer que o fruto do discutir √© perder e aniquilar-se a verdade. Assim, Plat√£o, na Rep√ļblica, pro√≠be o seu exerc√≠cio aos esp√≠ritos ineptos e mal formados.
Porque nos havemos de p√īr a caminho, para descobrir a verdade, com quem n√£o tem passo nem andamento que sirvam? N√£o se prejudica o assunto quando o deixamos para procurar o meio de o tratarmos; n√£o falo dos meios escol√°sticos e artificiais, falo dos meios naturais, dum entendimento s√£o. Que suceder√° por fim? Cada um puxa para o seu lado; perdem de vista o essencial, p√Ķem-no de parte na confus√£o do acess√≥rio.
No fim de uma hora de tormenta j√° n√£o sabem o que procuram; um est√° em cima, outro em baixo, outro para o lado. Uns demoram-se com as palavras e com as compara√ß√Ķes; outros n√£o entendem o que se lhes objecta, tanto se entusiasmam: s√≥ pensam neles,

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A Escolha Inteligente

Uma vida bem sucedida depende das escolhas que fizermos. Temos de saber o que √© ou n√£o importante para n√≥s. A escolha inteligente implica um sentido realista dos valores e um sentido realista das propor√ß√Ķes. Este processo de escolha – de aceita√ß√£o por um lado e de rejei√ß√£o pelo outro – come√ßa na inf√Ęncia e continua pela vida fora. N√£o podemos ter tudo o que ambicionamos. O homem de neg√≥cios que procura o sucesso financeiro tem muitas vezes de abandonar os seus interesses de ordem desportiva ou cultural. Os que preferem servir os interesses espirituais, culturais ou pol√≠ticos da sociedade – sacerdotes, escritores, artistas, militares, homens de estado e funcion√°rios p√ļblicos em geral – t√™m quase sempre de relegar para segundo plano o bem-estar financeiro.
Com uma vida limitada não podemos ser ou fazer tudo. Estamos constantemente a ter de escolher com que e com quem passar o nosso tempo. Cultivar amizades toma tempo. Às vezes temos de recusar encontros e desapontar muitas pessoas para termos tempo de alcançar os nossos fins. Todos os dias temos de escolher entre as coisas que estão à venda. Não podemos ter o mundo inteiro, tal como uma criança não pode comprar todos os rebuçados da doçaria se tiver apenas um tostão.

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A Minha √ļnica Felicidade √©s Tu

At√© agora ainda nada te disse da nossa vida de fam√≠lia. Devo dizer-te algumas palavras para que saibas com que contar. Temos uma vida muito tranquila, vida que sempre desejei e a que estou realmente habituado. A m√ļsica ou o teatro v√™m por vezes interromper a monotonia desta vida quase mon√°stica. Quando vieres faremos mais ou menos a mesma vida interrompendo no entanto a monotonia pelo teatro, pequenos ser√Ķes musicais e mesmo dan√ßantes se isso te agradar. Sem isso passaremos os nossos ser√Ķes ao lado um do outro a conversar e a dar gra√ßas ao bom Deus pela nossa felicidade. Devo tamb√©m falar-te dos meus gostos e das minhas qualidades tanto quanto posso conhec√™-los. Sou um grande fumador, um ca√ßador bastante bom, apaixonado pela m√ļsica e dan√ßarino med√≠ocre. Quanto √†s qualidades e aos defeitos, j√° que todos os temos, tenho mais dificuldade em falar deles, j√° que ningu√©m √© bom juiz em causa pr√≥pria. Contudo todas as minhas qualidades se fundir√£o numa s√≥, a de te adorar e n√£o amar a mais ningu√©m no mundo, anjo da minha vida. Quando estivermos unidos, s√≥ viveremos juntos, onde um ir√°, o outro seguir√°, o que um quiser o outro tamb√©m h√°-de querer.

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O Verdadeiro Homem

√Č evidente que a natureza se preocupa bem pouco com o que o homem tem ou n√£o no esp√≠rito. O verdadeiro homem √© o homem selvagem, que se relaciona com a natureza tal como ela √©. Assim que o homem agu√ßa a sua intelig√™ncia, desenvolve as suas ideias e a forma de as exprimir, ou adquire novas necessidades, a natureza op√Ķe-se aos seus des√≠gnios em toda a linha. S√≥ lhe resta violent√°-la, continuamente. Ela, pelo seu lado, tamb√©m n√£o fica quieta. Se ele suspende por momentos o trabalho que se impusera, ela torna-se de novo dominadora, invade-o, devora-o, destr√≥i ou desfigura a sua obra; dir-se-ia que acolhe com impaci√™ncia as obras-primas da imagina√ß√£o e da per√≠cia do homem.

Que importam √† ronda das esta√ß√Ķes, ao curso dos astros, dos rios e dos ventos, o Part√©non, S√£o Pedro de Roma e tantas outras maravilhas da arte? Um tremor de terra ou a lava de um vulc√£o reduzem-nos a nada; os p√°ssaros far√£o os seus ninhos nas suas ru√≠nas; os animais selvagens ir√£o buscar os ossos dos construtores aos seus t√ļmulos entreabertos.