Textos sobre Juízo

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Textos de juízo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

N√£o te Queixes

N√£o te queixes. Recolhe em ti a amargura, n√£o a disperses, n√£o a esbanjes com os outros. Ela √© tua, nasceu de ti, da tua mis√©ria, pertence-te como os ossos e as v√≠sceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque s√≥ se √© grande pelo sofrimento, n√£o pela futilidade do prazer. As pedras n√£o sofrem, Cristo esteve ¬ętriste at√© √† morte¬Ľ. Tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes ¬ęn√£o reza a hist√≥ria¬Ľ. S√≥ a dor pode medir o teu tamanho de excep√ß√£o, s√≥ ela pode medir o que tu vales. O sofrimento med√≠ocre n√£o d√° mais do que a com√©dia, mas a grandeza da trag√©dia s√≥ pode atribuir-se aos grandes. N√£o te aconselho a que v√°s ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. N√£o sucumbas aos seus golpes, aguenta-os at√© onde puderes. E se √©s homem de verdade, tu a aguentar√°s.
Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é imperceptível a quem o não é. Que juízo fazem de ti,

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Os Verdadeiros Burros e os Falsos Loucos

O mais esperto dos homens √© aquele que, pelo menos no meu parecer, espont√Ęneamente, uma vez por m√™s, no m√≠nimo, se chama a si mesmo asno…, coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje… nada disso. E a tal ponto tudo hoje est√° mudado que, valha-me Deus!, n√£o h√° maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um prop√≥sito.
Acabo de me lembrar, a prop√≥sito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois s√©culos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses constru√≠ram o primeiro manic√≥mio: ¬ęFecharam num lugar √† parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que t√™m ju√≠zo¬Ľ. Os Espanh√≥is t√™m raz√£o: quando fechamos os outros num manic√≥mio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito ju√≠zo. ¬ęX endoideceu…; portanto n√≥s temos o nosso ju√≠zo no seu lugar¬Ľ. N√£o; h√° tempos j√° que a conclus√£o n√£o √© l√≠cita.

O Amor Indómito

H√° casos de alucina√ß√£o, extasis incendiados de fantasia, em que o homem subjuga ao seu transporte as f√©rreas considera√ß√Ķes sociais, fazendo-as reflexivas de todo o brilho da sua alegria. √Č por isso que as grandes paix√Ķes est√£o em div√≥rcio com o ju√≠zo prudencial. No mar da vida o fanal do amor √© o que mais resplende. Cegam-se os olhos e entendimento ao que mais ansiosamente o fita. Com a mente fixa nesse clar√£o esperan√ßoso, que t√£o frouxas r√©steas de luz nos d√° em paga de tremendos trabalhos, transcuram-se vagas e baixios que nos assaltam o pobre baixel. O amor ind√≥mito, fremente e tempestuoso √© um naufr√°gio que se ama, uma dor com que se brinca, e, enfim, um del√≠rio honroso em qualquer criatura.

A Intuição é mais Forte que a Razão

Devemos sempre dominar a nossa impress√£o perante o que √© presente e intuitivo. Tal impress√£o, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, √© incomparavelmente mais forte; n√£o devido √† sua mat√©ria e ao seu conte√ļdo, ami√ļde bastante limitados, mas √† sua forma, ou seja, √† sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus prop√≥sitos. Pois o que √© presente e intuitivo, enquanto facilmente apreens√≠vel pelo olhar, faz efeito sempre de um s√≥ golpe e com todo o seu vigor. Ao contr√°rio, pensamentos e raz√Ķes requerem tempo e tranquilidade para serem meditados parte por parte, logo, n√£o se pode t√™-los a todo o momento e integralmente diante de n√≥s. Em virtude disso, deve-se notar que a vis√£o de uma coisa agrad√°vel, √† qual renunciamos pela pondera√ß√£o, ainda nos atrai. Do mesmo modo, somos feridos por um ju√≠zo cuja inteira incompet√™ncia conhecemos; somos irritados por uma ofensa de car√°cter reconhecidamente desprez√≠vel; e, do mesmo modo, dez raz√Ķes contra a exist√™ncia de um perigo caem por terra perante a falsa apar√™ncia da sua presen√ßa real, e assim por diante. Em tudo se faz valer a irracionalidade origin√°ria do nosso ser.

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa Рcomo é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas t√™m de morrer; os amores de acabar. As pessoas t√™m de partir, os s√≠tios t√™m de ficar longe uns dos outros, os tempos t√™m de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. √Č preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem p√īr-se processos e ac√ß√Ķes de despejo a quem se tem no cora√ß√£o, fazer os maiores escarc√©us, entrar nas maiores peixeiradas, mas n√£o se podem despejar de repente. Elas n√£o saem de l√°. Est√ļpidas! √Č preciso aguentar. J√° ningu√©m est√° para isso, mas √© preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura √© aceitar-se que se est√° doente. √Č preciso paci√™ncia. O pior √© que vivemos tempos imediatos em que j√° ningu√©m aguenta nada. Ningu√©m aguenta a dor. De cabe√ßa ou do cora√ß√£o.

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Comparação de Obras de Arte

√Ä quest√£o de saber se se devem ou n√£o fazer compara√ß√Ķes quando se observam diferentes obras de arte gostar√≠amos de dar a resposta que se segue. O conhecedor que tem forma√ß√£o adequada deve comparar: a ideia paira √† sua frente, apreendeu o conceito relativo ao que pode e ao que deve ser produzido. O amador, que √© apanhado ainda no trajecto da sua forma√ß√£o, s√≥ tem a ganhar se n√£o fizer compara√ß√Ķes e se observar em separado cada realiza√ß√£o: √© assim que o seu gosto e o seu sentido do geral se ir√£o formando a pouco e pouco. Quanto √† compara√ß√£o levada a cabo pelo n√£o iniciado √© apenas uma solu√ß√£o de facilidade que dispensa qualquer ju√≠zo.

A Necessidade de Conversar

Nos jornais, em conversas, no escrit√≥rio, a impetuosidade da linguagem leva por vezes uma pessoa a perder-se, da√≠ a esperan√ßa, que salta da fraqueza tempor√°ria, de uma repentina e mais forte ilumina√ß√£o mesmo no momento seguinte, ou de uma forte confian√ßa em si pr√≥prio, ou mero desleixo, ou uma impress√£o forte e actual de que uma pessoa quer a todo o custo descarregar no futuro, portanto a opini√£o de que o verdadeiro entusiasmo no presente justifica toda e qualquer confus√£o futura, ou o deleite nas frases que se elevam no meio com um ou dois empurr√Ķes e que a pouco e pouco abrem completamente a boca mesmo que depois a deixem fechar com demasiada rapidez e tortuosidade, ou a leve possibilidade de um ju√≠zo claro e decisivo, ou o esfor√ßo para dar mais flu√™ncia ao discurso que realmente j√° acabou, ou o desejo de abandonar √† pressa o tema se assim tiver de ser, de rastos, ou o desespero que tenta encontrar uma sa√≠da para a sua pesada respira√ß√£o, ou o anseio por uma luz sem sombra ‚ÄĒ tudo isto pode levar uma pessoa a perder-se em frases como: ¬ęO livro que acabei agora mesmo √© o mais belo que jamais li¬Ľ ou ¬ę√© t√£o belo,

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Limitadores do Espírito

Cada vez que se liberta o esp√≠rito humano de uma hip√≥tese que o limitava de modo desnecess√°rio, que o for√ßava a ver errada ou parcialmente, a efectuar combina√ß√Ķes err√≥neas, a enveredar por sofismas em vez de articular ju√≠zos rigorosos, presta-se-lhe j√° um importante servi√ßo. Porque o esp√≠rito humano passa ent√£o a ver os fen√≥menos com maior liberdade, passa a encar√°-los noutras combina√ß√Ķes, em diferentes rela√ß√Ķes, ordena-os a seu modo, e recupera a possibilidade de errar por si pr√≥prio e √† sua maneira. Coisa que √© inestim√°vel, porque n√£o tardar√° que, na sequ√™ncia, o esp√≠rito humano consiga descobrir os seus pr√≥prios erros.

Testemunhas Aparentes

N√£o me preocupa tanto qual eu seja para outrem como me preocupa qual eu seja em mim mesmo. Quero ser rico por mim, n√£o por empr√©stimo. Os estranhos v√™em apenas os acontecimentos e as apar√™ncias externas; cada qual pode ter um ar alegre exteriormente e por dentro estar cheio de febre e receio. Eles n√£o v√™em o meu cora√ß√£o; v√™em apenas o meu comportamento. Tem-se raz√£o em depreciar a hipocrisia que existe na guerra; pois o que √© mais f√°cil para um homem oportunista do que esquivar-se dos perigos e fazer-se de bravo, tendo o √Ęnimo repleto de frouxid√£o? H√° tantos meios de evitar as ocasi√Ķes de arriscar-se pessoalmente que teremos enganado o mundo mil vezes antes de encetarmos um passo perigoso; e mesmo ent√£o, vendo-nos entravados, nesse momento bem sabemos encobrir o nosso jogo com um ar alegre e uma palavra serena, embora a alma nos trema interiormente.
E se algu√©m pudesse usar o anel de Plat√£o, que tornava invis√≠vel quem o levasse no dedo e o virasse para a palma da m√£o, muitas pessoas ami√ļde se esconderiam quando mais √© preciso apresentar-se e se arrependeriam de estar colocadas num lugar t√£o honroso, no qual a necessidade as torna seguras: Quem pode alegrar-se com falsas honrarias e temer a cal√ļnia,

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A Consistência do Ser

Diz-se que quem modifica de tempos a tempos as suas ideias n√£o merece qualquer confian√ßa, porque faz supor que as suas √ļltimas afirma√ß√Ķes s√£o t√£o err√≥neas como as anteriores. E, por outro lado, quem mant√©m as suas primeiras ideias e n√£o as abandona facilmente, passa por teimoso e iludido. Perante estes dois ju√≠zos opostos da cr√≠tica, h√° s√≥ uma op√ß√£o a fazer: permanecer-se aquilo que se √©, e seguir-se apenas o pr√≥prio ju√≠zo.

Talento não é Sabedoria

Deixa-me dizer-te francamente o ju√≠zo que eu formo do homem transcendente em g√©nio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento √© sempre um mau homem. Alguns conhe√ßo eu que o mundo proclama virtuosos e s√°bios. Deix√°-los proclamar. O talento n√£o √© sabedoria. Sabedoria √© o trabalho incessante do esp√≠rito sobra a ci√™ncia. O talento √© a vibra√ß√£o convulsiva de esp√≠rito, a originalidade inventiva e rebelde √† autoridade, a viagem ext√°tica pelas regi√Ķes inc√≥gnitas da ideia. Agostinho, F√©nelon, Madame de Sta√ęl e Bentham s√£o sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron s√£o talentos.
Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os servi√ßos prestados √† humanidade por esses homens, e ter√°s encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque √© mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa espl√™ndida ta√ßa de brilhantes e ouro porque √© que cont√©m o fel, que abrasa os l√°bios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores √† cabe√ßa de uma mulher, ainda mesmo refor√ßada por duas d√ļzias de cabe√ßas acad√©micas !

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Os Juízos Ligeiros da Imprensa

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e j√° irradic√°vel h√°bito dos ju√≠zos ligeiros. Em todos os s√©culos se improvisaram estouvadamente opini√Ķes: em nenhum, por√©m, como no nosso, essa improvisa√ß√£o impudente se tornou a opera√ß√£o corrente e natural do entendimento. Com excep√ß√£o de alguns fil√≥sofos mais met√≥dicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. √Č com impress√Ķes que formamos as nossas conclus√Ķes. Para louvar ou condenar em pol√≠tica o facto mais complexo, e onde entrem factores m√ļltiplos que mais necessitem de an√°lise, n√≥s largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo ondeante do charuto.
O m√©todo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, √© o que adoptamos, com magn√≠fica inconsci√™ncia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que espl√™ndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: ¬ę√Č uma besta!

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A Distorção do Entendimento

Que dif√≠cil √© propor um problema ao entendimento alheio sem corromper esse entendimento pela maneira de propor! Se dizemos: acho isto belo, acho obscuro, ou outra coisa semelhante, arrastamos a imagina√ß√£o para este ju√≠zo, ou irritamo-la, levando-a ao ju√≠zo contr√°rio. Mais vale nada dizer, e ent√£o o outro julga segundo o que √©, ou segundo o que √© naquele momento, e de acordo com o que as outras circunst√Ęncias, de que n√£o somos respons√°veis, l√° tiverem posto. Mas pelo menos n√≥s n√£o pusemos nada; a n√£o ser que o nosso sil√™ncio tenha tamb√©m o seu efeito, segundo o sentido e a interpreta√ß√£o que ele estiver disposto a atribuir-lhe, ou segundo o que depreende dos movimentos e da express√£o do rosto, ou do tom de voz, conforme for melhor ou pior fisionomista: t√£o dif√≠cil √© n√£o deslocar um entendimento da sua base natural, ou antes, t√£o pouco um entendimento tem de firme e est√°vel!

Parcialidade na Apreciação

Para saberes o que uma pessoa pensa, de facto, da tua pol√≠tica, pede a um homem de confian√ßa que exprima diante dela as tuas pr√≥prias opini√Ķes, fazendo-as passar por suas. Ou ent√£o, l√™ um texto que tu mesmo redigiste, mas dizendo que prov√©m de outra fonte, e observa a sua reac√ß√£o.
Muitas vezes a amizade torna-nos demasiado benevolentes, confundindo a nossa clareza de ideias. N√£o que os nossos amigos n√£o sejam sinceros quando nos elogiam ou nos encorajam nos nossos empreendimentos, mas a sua boa vontade est√° muito longe do verdadeiro ju√≠zo, que consiste em felicitar o interessado depois de nos termos informado a seu respeito e ter estudado em pormenor as suas ac√ß√Ķes e os seus m√©todos.

O Esforço pelo Conhecimento da Verdade

Devemos escolher como finalidade independente do nosso esforço o conhecimento da verdade ou, exprimindo-nos mais modestamente, a compreensão do mundo inteligível por meio do pensamento lógico? Ou devemos subordinar esse esforço pelo conhecimento racional de qualquer espécie a outros objectivos, por exemplo, a objectivos práticos? O simples pensamento não pode resolver esta questão. A decisão tem, pelo contrário, uma influência decisiva na nossa maneira de pensar e julgar, partindo-se do princípio de que tem o carácter de convicção inabalável. Permitam-me que confesse: para mim, o esforço pelo conhecimento é um daqueles objectivos independentes, sem os quais uma afirmação consciente da vida me parece impossível ao homem de pensamento.
Uma das características do esforço pelo conhecimento é que ele tende a abranger tanto a multiplicidade da experiência como a simplicidade e redução das hipóteses fundamentais. O acordo final desses objectivos é, devido ao estádio primitivo da investigação, uma questão de fé. Sem essa fé, a convicção do valor independente do conhecimento não seria para mim forte e inabalável.
Esta atitude, por assim dizer, religiosa do cientista perante a verdade não deixa de ter influência sobre a sua personalidade. Pois, além daquilo que resulta da experiência e além das leis do pensamento,

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Quer-te Muito a Tua Mulherzinha

Recebi ontem à noite o telegrama que mandaste da Foz. Desejo que tivesses encontrado tudo bem na nossa casinha. Espero com ansiedade a primeira cartinha tua que já cá devia estar. Estou a escrever-te sentada a uma janela com o papel em cima dum livro e o tinteiro no chão; é 1 hora e meia, a hora de ir até às galinhas a ver se já havia algum ovo.

Há quanto tempo isso foi! Escreve para cá só até ao dia 23 ou 24 porque dia 26 pela manhã partimos para Vila Viçosa. O carnaval é dia 8 e já vejo que para minha desgraça o vou passar no covil enjaulada como as feras perigosas. Pouca sorte a da pobre Bela! Não posso ainda hoje falar com o advogado nem amanhã que é domingo, de forma que só segunda-feira te poderei dizer qualquer coisa a esse respeito. Há só um comboio dia sim dia não para Lisboa de forma que não estranhes nem te inquietes por alguma pequena demora na correspondência.
A√≠ vai um belo soneto que as saudades tuas me trouxeram ontem; s√≥ quando estou triste sei fazer versos com jeito como esses. Provavelmente n√£o gostas…

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A Minha Família é a Minha Casa

A solid√£o absoluta √© n√£o ter ningu√©m a quem dizer um simples: ‚Äútenho vontade de chorar‚ÄĚ. N√£o precisamos de muito para viver bem ‚Äď para ser feliz basta uma fam√≠lia e pouco mais.

A fam√≠lia √© a casa e a paz. O ref√ļgio onde uma vontade de chorar n√£o √© motivo de julgamento, apenas e s√≥ uma necessidade s√ļbita de… fam√≠lia. De um equil√≠brio para o qual o outro √© essencial… assim tamb√©m se passa com a vontade de sorrir que, em fam√≠lia, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais dif√≠cil encontrar gente capaz de ser fam√≠lia. Os ego√≠smos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se n√£o houvesse espa√ßo para o amor. Dizem que amar √© arriscado, que √© coisa de loucos…
Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de n√≥s √© uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos tamb√©m est√°, de alguma forma, connosco. O amor √© o que existe entre n√≥s e nos enla√ßa os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar √© um sinal de que h√° algo em mim que √© maior do que eu…

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Sou um Verdadeiro Solit√°rio

O meu sentido ardente de justi√ßa social e de dever social estiveram sempre em estranho desacordo com uma marcada car√™ncia de necessidade directa de liga√ß√£o com os homens e com as comunidades humanas. Sou um verdadeiro solit√°rio (¬ęEinsp√§nner¬Ľ), que nunca pertenceu inteiramente e de todo o cora√ß√£o ao Estado, √† P√°tria, ao c√≠rculo dos amigos ou at√© mesmo √† fam√≠lia mais chegada, mas antes pelo contr√°rio experimentou sempre, em rela√ß√£o a todas essas liga√ß√Ķes, um sentimento indom√°vel de estranheza e de √Ęnsia de isolamento, um sentimento que com a idade mais se intensifica. Apercebemo-nos nitidamente, mas sem o lamentarmos, que nos √© limitada a conviv√™ncia em sociedade com outros seres humanos. Um homem desta natureza perde, de certo modo, uma parte da sua maneira de ser inocente e despreocupada mas ganha em se sentir largamente independente das opini√Ķes, dos h√°bitos e ju√≠zos dos homens, e n√£o cai na tenta√ß√£o de estabelecer o seu equil√≠brio numa base t√£o pouco s√≥lida.

A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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Apreciação Imparcial

H√° poucos indiv√≠duos a quem √© dado contemplar uma obra de arte como espectadores tranquilos; mas √© dif√≠cil encontrar um que seja capaz ou tenha a vontade, ao mesmo tempo que deixa a obra penetr√°-lo, e escuta as suas impress√Ķes ou as palavras de outro, de permanecer simples observador. Sem se dar conta disso, torna-se cr√≠tico, procurando mostrar a sua for√ßa de ju√≠zo, exercer o seu humor e avaliar a sua pr√≥pria pessoa.
O ing√©nuo f√°-lo inicialmente, √© certo, sem a menor inten√ß√£o mal√©vola; mas mesmo nele, as propriedades naturais do indiv√≠duo n√£o tardam a imp√īr os seus direitos – vaidade e pedantice, desejo de ser superior aos seus pr√≥prios olhos e aos olhos dos outros – de tal modo que depressa estar√° mais decidido a desvelar as fraquezas de uma obra do que a aceitar os seus lados positivos.