Textos sobre Governo

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Textos de governo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Inconsistência Humana

Que todos os homens s√£o iguais √© uma proposi√ß√£o √† qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma opera√ß√£o perigosa n√£o age sob a presun√ß√£o de que t√£o bom √© um m√©dico como outro qualquer. Os editores n√£o imprimem todas as obras que lhes chegam √†s m√£os. E quando s√£o precisos funcion√°rios p√ļblicos, at√© os governos mais democr√°ticos fazem uma selec√ß√£o cuidadosa entre os seus s√ļbditos teoricamente iguais.
Em tempos normais, portanto, estamos perfeitamente certos de que os Homens não são iguais. Mas quando, num país democrático, pensamos ou agimos politicamente, não estamos menos certos de que os Homens são iguais. Ou, pelo menos Рo que na prática vem ser a mesma coisa Рprocedemos como se estivéssemos certos da igualdade dos Homens.
Identicamente, o piedoso fidalgo medieval que, na igreja acreditava em perdoar aos inimigos e oferecer a outra face, estava pronto, logo que mergia novamente à luz do dia, a desembainhar a sua espada à mínima provocação. A mente humana tem uma capacidade quase infinita para ser inconsistente.

O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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O Jugo da Maquinaria Política

Os interesses comuns do g√©nero humano s√£o enumer√°veis e ponder√°veis, por√©m a maquinaria pol√≠tica existente obscurece-os por causa da luta em torno do poder entre diferentes na√ß√Ķes e partidos. M√°quina diferente, que n√£o exigisse modifica√ß√Ķes legislativas ou constitucionais e que n√£o fosse muito dif√≠cil de criar, minaria a fortaleza da paix√£o nacional e partid√°ria e focalizaria a aten√ß√£o sobre medidas benfazejas a todos, em vez de concentr√°-la em prejudicar o inimigo. No meu entender, √© por esta directriz, e n√£o pelo governo nacionalmente partid√°rio, que se encontrar√° a sa√≠da dos perigos que actualmente amea√ßam a civiliza√ß√£o. O saber existe, e a boa vontade; ambos por√©m continuar√£o impotentes enquanto n√£o possuirem org√£os pr√≥prios para se fazerem ouvir.

As Fraquezas dos Sistemas Partid√°rios

Com os que se intitulam democracias parlamentares ou partid√°rias, quem quer, examinando o funcionamento efectivo das institui√ß√Ķes, podo constituir tr√™s grupos. O primeiro √© daqueles muito raros Estados em que os partidos pouco numerosos permitem a forma√ß√£o de maiorias homog√©neas, que se sucedem no poder, sem impedir de agir, quando na oposi√ß√£o, o governo quo governa. O segundo √© o daqueles em que a vida partid√°ria √© t√£o intensa e intolerante que as muta√ß√Ķes governamentais se fazem frequentemente por meio de revolu√ß√Ķes ou golpes de Estado, no fundo a nega√ß√£o do mesmo princ√≠pio em que pretendem apoiar-se. H√° um terceiro grupo em que a parcela√ß√£o partid√°ria e a exig√™ncia constitucional da maioria parlamentar se conjugam para ter em permanente risco os minist√©rios, precipitar as demiss√Ķes, alongar as crises, paralisar os governos, condenados √† inac√ß√£o e √†s f√≥rmulas de compromisso que nem sempre ser√£o as mais convenientes ao interesse nacional. Assim, uns esperam as elei√ß√Ķes; outros, a revolu√ß√£o; os √ļltimos, as crises, como possibilidades de governo.

A Miss√£o da Assembleia da Rep√ļblica

Se ontem se podia afirmar que a miss√£o hist√≥rica da Assembleia Constituinte consistia em dar viabilidade √† democracia em Portugal, hoje podemos dizer que sobre a Assembleia da Rep√ļblica recai o essencial da tarefa de a concretizar na pr√°tica do Estado que a recente Constitui√ß√£o reformulou. (…) A Assembleia da Rep√ļblica tem de vir a ser a consci√™ncia pol√≠tica vis√≠vel deste Povo, tornando-se num espelho fiel das suas necessidades e anseios, das suas dificuldades e esperan√ßas e, ao mesmo tempo, no centro impulsionador da ac√ß√£o colectiva. (…) A Assembleia da Rep√ļblica tem de ser o espa√ßo da cr√≠tica justa e l√ļcida ao Governo e √† administra√ß√£o p√ļblica e da den√ļncia oportuna das situa√ß√Ķes que intoleravelmente oprimem, exploram e alienam a pessoa humana, lembrando tamb√©m a cada momento o que, sendo exequ√≠vel, ainda n√£o foi feito no dom√≠nio da a√ß√£o do Estado e dos poderes locais.

Nao há Virtude sem Agitação Desordenada

Os choques e abalos que a nossa alma recebe pelas paix√Ķes corporais muito podem sobre ela; por√©m podem mais ainda as suas pr√≥prias, pelas quais est√° t√£o fortemente dominada que talvez possamos afirmar que n√£o tem nenhuma outra velocidade e movimento que n√£o os do sopro dos seus ventos, e que, sem a agita√ß√£o destes, ela permaneceria sem ac√ß√£o, como um navio em pleno mar e que os ventos deixassem sem ajuda. E quem sustentasse isso, seguindo o partido dos peripat√©ticos, n√£o nos causaria muito dano, pois √© sabido que a maior parte das mais belas ac√ß√Ķes da alma procedem desse impulso das paix√Ķes e necessitam dele. A valentia, diz-se, n√£o se pode cumprir sem a assist√™ncia da c√≥lera.

Ajax sempre foi valente, mas nunca o foi tanto como na sua loucura (Cícero)

Nem investimos contra os maus e os inimigos com tanto vigor se n√£o estivermos encolerizados; e pretende-se que o advogado inspire a c√≥lera nos ju√≠zes para deles obter justi√ßa. As paix√Ķes excitaram Tem√≠stocles, excitaram Dem√≥stenes e impeliram os fil√≥sofos para trabalhos, vig√≠lias e peregrina√ß√Ķes; conduzem-nos √† honra, √† ci√™ncia, √† sa√ļde – fins √ļteis. E essa falta de vigor da alma para suportar o sofrimento e os desgostos serve para alimentar na consci√™ncia a penit√™ncia e o arrependimento,

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Dependência do Governo

Diz-se geralmente que, em Portugal, o p√ļblico tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclus√£o que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independ√™ncia. A nossa pobreza relativa √© atribu√≠da a este h√°bito pol√≠tico e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as m√£os e os olhos para ele como para uma Provid√™ncia sempre presente.

O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

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A Tirania Intelectual do N√ļmero

¬ęUma das mais estranhas ideias do vulgo, previu Henry Maine, √© que o sufr√°gio universal pode promover e promover√° progresso, criando novas ideias, novas inven√ß√Ķes, novas artes. Mas as probabiblidades s√£o para que s√≥ produza uma forma nociva de conservantismo¬Ľ. Temos de admitir, com os ingleses ricos em preconceitos, que a democracia √© hostil ao g√©nio e √† arte. Porque ela s√≥ d√° valor ao que cabe dentro da compreens√£o dos esp√≠ritos m√©dios; quando v√™ erguer-se o pal√°cio de um cinema, julga tratar-se do P√°rtenon; ¬ęse dependesse da assembleia ateniense nunca o mundo teria a Acr√≥pole¬Ľ (Plutarco, Vida de P√©ricles).
A tirania intelectual do n√ļmero pode tornar-se t√£o torturante como a dos monarcas; em alguns estados americanos o conhecimento acima de um certo limite j√° √© considerado coisa perigosa. A desconfian√ßa que a democracia tem da individualidade decorre da teoria da igualdade; desde que todos s√£o iguais, basta a contagem dos narizes para a descoberta da verdade ou a santifica√ß√£o de um costume. E a democracia n√£o √© apenas uma filha da era da m√°quina que governa por meio de ¬ęm√°quinas¬Ľ; ainda encerra em si a potencialidade da mais terr√≠vel das m√°quinas – a compuls√£o dos ignorantes contra a diferen√ßa,

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Ver Claro é não Agir

O governo do mundo come√ßa em n√≥s mesmos. N√£o s√£o os sinceros que governam o mundo, mas tamb√©m n√£o s√£o os insinceros. S√£o os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e autom√°ticos; essa sinceridade constitui a sua for√ßa, e √© ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem √© a primeira qualidade do estadista. S√≥ aos poetas e aos fil√≥sofos compete a vis√£o pr√°tica do mundo, porque s√≥ a esses √© dado n√£o ter ilus√Ķes. Ver claro √© n√£o agir.

Democracia Representativa

Democracia representativa significa o funcionamento de √≥rg√£os de soberania eleitos e o pleno respeito pela a√ß√£o da oposi√ß√£o parlamentar. Mas significa, tamb√©m, que n√£o se transigir√° com quaisquer tentativas de, por meios n√£o parlamentares, derrubar o Governo, sejam elas o apelo √† insurrei√ß√£o, √† desobedi√™ncia e ao desrespeito da lei, sejam elas as tentativas de provocar afrontamentos entre √≥rg√£os de soberania, sejam elas as manipula√ß√Ķes dos leg√≠timos direitos dos trabalhadores.

Ser Português, Ainda

Para ser portugu√™s, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperan√ßas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portugu√™s, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoli√ß√£o. T√≠nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era p√°tria, doce e atrevida, se afasta √† medida que olhamos para ela, tal √© a √Ęnsia de apagamento e de perdi√ß√£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
√Č preciso defender violentamente as institui√ß√Ķes: a Universidade, o Parlamento,

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Vantagens e Desvantagens dos H√°bitos

Os pensamentos dos homens s√£o muito concordantes com as suas inclina√ß√Ķes; as suas palavras e os seus discursos concordam com as suas opini√Ķes infusas ou apreendidas; mas as suas ac√ß√Ķes resultam daquilo a que est√£o acostumados. Eis porque, como Maquiavel muito bem notou (ainda que num exemplo mal inspirado), ningu√©m deve confiar na for√ßa da natureza, nem na jact√Ęncia das palavras, se n√£o estiverem corroboradas pelo h√°bito. O exemplo que ele apresenta √© que, na execu√ß√£o de uma conspira√ß√£o ousada, ningu√©m se deve fiar na ferocidade aparente ou nas promessas resolutas de qualquer pessoa, e que o empreendimento deve ser confiado a quem tiver j√° alguma vez manchado as suas m√£os com sangue.
(…) A predomin√Ęncia do costume √© por toda a parte vis√≠vel; de tal maneira que ficar√≠amos admirados de ouvir os homens declarar, protestar, prometer, fazer solenes juramentos, e depois v√™-los proceder como tinham feito antes: como se fossem imagens mortas ou engenhos movidos apenas pelas rodas do costume. Vemos tamb√©m o que √© o reino ou a tirania do costume.
(…) J√° que o costume √© o principal magistrado da vida humana, deve o homem por todos os meios prover √† obten√ß√£o de bons costumes.

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A Vaidade Cega a Sabedoria

Os s√°bios da terra n√£o s√£o os mais pr√≥prios para o governo dela. As Rep√ļblicas, que se fundaram, ou se quiseram governar por s√°bios, perderam-se, acabaram-se; temos not√≠cia delas pelo que foram, e n√£o pelo que s√£o. (…) As maiores crueldades, ou foram feitas, ou aconselhadas pelos S√°bios; estes quando persuadem o mal, √© com tanta veem√™ncia, e t√£o eficazmente, que as gentes na boa f√©, buscam, e particam esse mal, como por entusiasmo, e sem advertirem nele. A impiedade, √© uma das coisas que a ci√™ncia ensina; n√£o porque seja o seu objecto, ou instituto, mas porque quando a impiedade √© √ļtil, √† for√ßa de a ornar, se lhe tira o horror. A vaidade das ci√™ncias n√£o consente, que haja cousa de que ela n√£o possa, nem se saiba aproveitar.
Os erros comummente s√£o partos da sabedoria humana; o errar propriamente √© dos s√°bios, porque o erro sup√Ķe conselho, e premedita√ß√£o; os ignorantes qu√°si que obram por instinto; a ci√™ncia sabe legitimar o erro, a ignor√Ęncia n√£o; por isso nesta n√£o h√° perigo de que ningu√©m o aprove; ao passo que naquela h√° o perigo de que a multid√£o o siga. O erro na m√£o de um s√°bio √© como uma lan√ßa penetrante,

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Cada Cabeça, Cada Sentença

A ideia de ningu√©m ter raz√£o (haja ou n√£o haja p√£o) √© portugues√≠ssima. Sobre qualquer assunto, Portugal garante-nos sempre pelo menos dez milh√Ķes de raz√Ķes, cada uma com a sua diferen√ßazinha, cada uma com a sua insolenciazeca do “eu c√° √© que sei”. N√£o h√° neste aben√ßoado territ√≥rio um √ļnico sujeito, seja eu ou ele cego, surdo e mudo, que n√£o reclame a sua inobjectiv√°vel subjectividade. L√° diz o raio do povo, por tratar-se da √ļnica coisa em que o povo todo est√° de acordo, ¬ęCada cabe√ßa, cada senten√ßa¬Ľ. Basta fazer-se uma reuni√£o ou um j√ļri, um governo ou uma comiss√£o, para assistir-se ao milagre da multiplica√ß√£o das opini√Ķes.

Governos Apostados em Errar

Entre n√≥s tem-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar, errar de prop√≥sito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. H√° per√≠odos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento hist√≥rico a que cheg√°mos, por√©m, cada erro, por mais pequeno, √© um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edif√≠cio das institui√ß√Ķes; mas ao mesmo tempo tal √© a inquieta√ß√£o que todos temos do futuro e do desconhecido que cada acerto, cada bom acerto √© uma estaca mais, s√≥lida e duradoura, para esteiar as institui√ß√Ķes. Toda a d√ļvida est√° em saber se ainda h√° ou se j√° n√£o h√°, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecus√°vel verdade.

Um Ser Humano não é Grande Coisa

N√£o tenhamos ilus√Ķes: um ser humano n√£o √© grande coisa. De facto, h√° tantos que os governos n√£o sabem o que fazer com eles. Seis mil milh√Ķes de humanos √† face da Terra e apenas seis ou sete mil tigres de Bengala – ora digam l√° qual das esp√©cies necessita de mais prote√ß√£o, de cuidados especiais. Sim, escolham voc√™s mesmos. Um negro, um chin√™s, um escoc√™s, ou um belo tigre que cai v√≠tima de um ca√ßador. Um tigre, com a sua pelagem listrada de cores incompar√°veis e os seus olhos coruscantes, √© bastante mais belo do que um velhote cheio de varizes como eu. Que diferen√ßa de porte. Comparem a agilidade de um com a in√©pcia do outro. Vejam como se movem. Metam-nos em jaulas do jardim zool√≥gico, lado a lado. Diante da jaula do velho concentram-se as crian√ßas que riem ao v√™-lo catar-se e p√īr-se de c√≥coras para defecar; diante da do tigre, arregalam os olhos de admira√ß√£o. Acabou essa ilus√£o segundo a qual o homem √© o centro do universo. √Č verdade que no animal humano distinguimos os gestos, os rostos e as vozes, o que estimula a nossa empatia, mas tamb√©m distinguimos caracter√≠sticas particulares, que associamos a sentimentos,

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Seguir o Nosso Caminho Doa a quem Doer

Siga o governo firme na sua miss√£o de bem governar, que me encontrar√° sempre firme e pronto a coadjuv√°-lo e a dar-lhe for√ßa em tudo quanto seja necess√°rio. H√° muita coisa a fazer e creio que se pode e deve fazer e temos que seguir o nosso caminho doa a quem doer. As dificuldades que encontrarmos no nosso caminho n√£o devem ser para nos assustar ou fazer recuar, mas sim para as encarar com calma e firmeza. Com calma, firmeza e boa vontade, e essas qualidades creio que as temos, vencer-se-√° esta campanha e se o fizermos, como confiadamente acredito, poderemos ent√£o descansar um pouco com a consci√™ncia de termos feito alguma coisa √ļtil e de termos bem servido o nosso Pa√≠s. Eu bem sei que seria mais f√°cil, e menos penoso para n√≥s, o tratar de agradar a todos, mas espero tamb√©m que um dia a opini√£o p√ļblica, que felizmente n√£o √© sempre a opini√£o que se publica, saber√° fazer-nos justi√ßa.

Em Portugal cada um Quer Tudo

E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho.
(…) Em nenhuns reis do mundo se v√™ isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das tr√™s partes do mundo a na√ß√Ķes estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito f√°cil e muito felizmente; mas repartir tr√™s palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfa√ß√£o deles,

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As Liberdades Essenciais

As liberdades essenciais s√£o tr√™s: liberdade de cultura, liberdade de organiza√ß√£o social, liberdade econ√≥mica. Pela liberdade de cultura, o homem poder√° desenvolver ao m√°ximo o seu esp√≠rito cr√≠tico e criador; ningu√©m lhe fechar√° nenhum dom√≠nio, ningu√©m impedir√° que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organiza√ß√£o social, o homem interv√©m no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos √† medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidad√£o n√£o √© uma cabe√ßa de rebanho; √© como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, atrav√©s dos regimes poss√≠veis. Pela liberdade econ√≥mica, o homem assegura o necess√°rio para que o seu esp√≠rito se liberte de preocupa√ß√Ķes materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ningu√©m deve, pela posse dos meios de produ√ß√£o e de transporte, que permitem explorar, p√īr em perigo a sua liberdade de Esp√≠rito ou a liberdade de Esp√≠rito dos outros. No Reino Divino, na organiza√ß√£o humana mais perfeita, n√£o haver√° nenhuma restri√ß√£o de cultura, nenhuma coac√ß√£o de governo,

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