Textos sobre Elei√ß√Ķes

10 resultados
Textos de elei√ß√Ķes escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

As Fraquezas dos Sistemas Partid√°rios

Com os que se intitulam democracias parlamentares ou partid√°rias, quem quer, examinando o funcionamento efectivo das institui√ß√Ķes, podo constituir tr√™s grupos. O primeiro √© daqueles muito raros Estados em que os partidos pouco numerosos permitem a forma√ß√£o de maiorias homog√©neas, que se sucedem no poder, sem impedir de agir, quando na oposi√ß√£o, o governo quo governa. O segundo √© o daqueles em que a vida partid√°ria √© t√£o intensa e intolerante que as muta√ß√Ķes governamentais se fazem frequentemente por meio de revolu√ß√Ķes ou golpes de Estado, no fundo a nega√ß√£o do mesmo princ√≠pio em que pretendem apoiar-se. H√° um terceiro grupo em que a parcela√ß√£o partid√°ria e a exig√™ncia constitucional da maioria parlamentar se conjugam para ter em permanente risco os minist√©rios, precipitar as demiss√Ķes, alongar as crises, paralisar os governos, condenados √† inac√ß√£o e √†s f√≥rmulas de compromisso que nem sempre ser√£o as mais convenientes ao interesse nacional. Assim, uns esperam as elei√ß√Ķes; outros, a revolu√ß√£o; os √ļltimos, as crises, como possibilidades de governo.

Entendimento Influenciado pela Vontade

Na ci√™ncia de julgar, alguma vez √© desculp√°vel o erro do entendimento, o da vontade nunca; como se o entender mal n√£o fosse crime, erro sim; ou como se houvesse uma grande diferen√ßa entre o erro, e o crime: o entendimento pode errar, por√©m s√≥ a vontade pode delinquir. Assim se desculpam comummente os julgadores, mas √© porque n√£o v√™em, que o que dizem que procedeu do entendimento, se bem se ponderar, procedeu unicamente da vontade. √Č um parto suposto, cuja origem, n√£o √© aquela que se d√°. Querem os s√°bios enobrecer o erro, com o fazer vir do entendimento, e com lhe encobrir o v√≠cio que trouxe da vontade; mas quem √© que deixa de ver, que o nosso entendimento qu√°si sempre se sujeita ao que n√≥s queremos; e que o seu maior empenho, √© servir √† nossa inclina√ß√£o; por isso raras vezes se op√Ķe, e o mais em que se ocupa, √© em conformar-se de tal sorte ao nosso gosto, que ainda a n√≥s mesmos fique parecendo, que foi resolu√ß√£o do entendimento aquilo que n√£o foi sen√£o acto da vontade.
O entendimento é a parte que temos em nós mais lisonjeira; daqui vem que nem sempre segue a razão,

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Filosofia e Amor são completamente Antagónicos

Entre a filosofia e o amor não há possibilidade de convivência. A filosofia exila a mulher e a mulher exclui a filosofia. Os filósofos são todos cérebro sem coração nem testículos. Aqueles que tiveram mulheres e filhos são filósofos menores, em segunda mão. Os maiores são todos misóginos.
A filosofia tem relação com a castidade: quem se aproxima da mulher não pode alcançar o absoluto. Os filósofos foram eunucos, como Orígenes e Abelardo; ou virgens por eleição, como São Tomás e São Boaventura; ou eternos celibatários, como Platão, Espinosa, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, como todos os maiores. Quem teve mulher, como Sócrates, considerou-a empecilho e tortura.
São antes sodomitas, como Séneca e Bacon, ou onanistas, como Rousseau, Kierkegaard e Leopardi Рem todos os casos, antifemininos. A mulher é a vida e a filosofia uma espécie de morte; a dona é o primado do sentimento e a filosofia quer ser racionalismo puro; a mulher é capricho e novidade e a filosofia ordem e sistema.
No entanto, a filosofia n√£o se pode vangloriar de vencer, com a sua for√ßa, a tenta√ß√£o de Eros – √© verdade, ao inv√©s, que a frigidez e a impot√™ncia predisp√Ķem para a filosofia. Se virem um fil√≥sofo marido e pai feliz,

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O Sentido Tr√°gico do Amor

Todo o homem tende naturalmente para o amor. Acontece que o conceito comum de amor corresponde de forma quase universal a uma ideia genérica, ambivalente e, tantas vezes, errada, porque tão irreal.

Amar √© dar-se. Entregar a pr√≥pria ess√™ncia a um outro, lutando em favor dele. De forma pura e gratuita, sem esperar outra recompensa sen√£o a de saber que se conseguir√° ser o que se √©. Amar, ao contr√°rio do que julgam muitos, n√£o √© uma fonte de satisfa√ß√£o… Amar √© algo s√©rio, arrebatador e tremendamente desagrad√°vel. Quem ama sabe que isso mais se parece com uma esp√©cie de maldi√ß√£o do que com narrativas infantis de final invariavelmente feliz…

Cavaleiros valentes e princesas encantadas são, no entanto, excelentes metáforas que pretendem passar a ideia da coragem e da nobreza de carácter essenciais a quem ama. Ama-se quando se é capaz de se ser quem é, verdadeiramente.
Esta luta heróica pelo valor da essência do outro não está ao alcance de todos. A maior parte das pessoas são egocêntricas, alegram-se a entrançar os seus egoísmos em figuras improvisadas de resultado sempre disforme a que teimam chamar amor. Talvez porque assim consigam disfarçar o vazio que é a prova de quão frustrante,

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A Arte da Retórica Floresce nas Sociedades Decadentes

Um ret√≥rico do passado dizia que o seu of√≠cio era fazer que as coisas pequenas parecessem grandes e como tais fossem julgadas. Dir-se-ia um sapateiro que, para cal√ßar p√©s pequenos, sabe fazer sapatos grandes. Em Esparta ter-lhe-iam dado a experimentar o azorrague por professar uma arte trapaceira e mentirosa. E creio que Arquidamo, que foi seu rei, n√£o ter√° ouvido sem espanto a resposta de Tuc√≠dides, ao qual perguntara quem era mais forte na luta, se P√©ricles, se ele: ¬ęIsso ser√° dif√≠cil de verificar, pois quando o deito por terra, ele convence os espectadores que n√£o caiu, e ganha¬Ľ. Os que, com cosm√©ticos, caracterizam e pintam as mulheres fazem menos mal, pois √© coisa de pouca perda n√£o as ver ao natural, ao passo que estoutros fazem ten√ß√£o de enganar, n√£o j√° os olhos, mas o nosso ju√≠zo, e de abastardar e corromper a ess√™ncia das coisas. Os Estados que longamente se mantiveram em boa ordem e bem governados, como o cretense e o lacedem√≥nio, n√£o tinham em grande conta os oradores.
Aríston definiu sabiamente a retórica como a ciência de persuadir o povo; Sócrates e Platão, como a arte de enganar e lisonjear; e aqueles que isto negam na sua definição genérica,

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Só Chegamos a Ser uma Parte Mínima do que Poderíamos Ser

A actividade de comprar conclui em decidir-se por um objecto; mas √© tamb√©m antes uma elei√ß√£o, e a elei√ß√£o come√ßa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. De onde resulta que a vida, no seu modo ¬ęcomprar¬Ľ, consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. Quando se fala de nossa vida s√≥i esquecer-se disto, que me parece essencial√≠ssimo: a nossa vida √© em todo o instante e antes que nada consci√™ncia do que nos √© poss√≠vel. Se em cada momento n√£o tiv√©ssemos √† nossa frente mais que uma s√≥ possibilidade, careceria de sentido cham√°-la assim. Seria apenas pura necessidade. Mas ai est√°: esse estranh√≠ssimo facto da nossa vida possui a condi√ß√£o radical de que sempre encontra ante si v√°rias sa√≠das, que por serem v√°rias adquirem o car√°cter de possibilidades entre as quais havemos de decidir. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos num ambiente de determinadas possibilidades. A este √Ęmbito costuma chamar-se ¬ęas circunst√Ęncias¬Ľ.

Toda a vida √© achar-se dentro da ¬ęcircunst√Ęncia¬Ľ ou mundo. Porque este √© o sentido origin√°rio da id√©ia (mundo). Mundo √© o repert√≥rio das nossas possibilidades vitais. N√£o √©, pois, algo √† parte e alheio √† nossa vida,

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Valem Mais as Vidas do que os Livros

Defende Cleantes a opini√£o de que em nada nos interessam as ideias dos homens e que acima de tudo devemos p√īr o seu car√°cter, a honestidade e a firmeza, a independ√™ncia e a lisura do seu procedimento. Se de pol√≠tica tratamos, Cleantes, que, por defini√ß√£o, √© honesto, sentir-se-√° muito bem representado ou muito bem governado n√£o por aquele que, incluindo nos seus programas de elei√ß√£o ou nas suas declara√ß√Ķes ideias que perfeitamente se harmonizam com as dele, depois aparece apenas como um membro de toda a ra√ßa infinita dos que sobem por fora, mas por aquele que, tendo-o porventua irritado com a sua maneira de pensar, em seguida vem habitar a ilha min√ļscula dos que sobem por dentro. Se de dois candidatos que se apresentam, um est√° no partido contr√°rio ao nosso mas √© um honesto, seguro cidad√£o, e o outro se proclama correligion√°rio, mas nos deixa d√ļvidas sobre a integridade moral, diz Cleantes que ningu√©m deve hesitar: o nosso voto deve ir para o que d√° garantias de uma fiscaliza√ß√£o s√©ria dos neg√≥cios e n√£o deixar√° que se maltrate a Justi√ßa. Sobretudo se formos moralistas, isto √©, se acreditarmos que o mundo se salvar√° pela moral; e, como cumpre a moralistas,

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O Grau da Nossa Emancipação

A esfera da consciência reduz-se na acção; por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr√≥prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t√£o suspeito como a minha especula√ß√£o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes√£o de fic√ß√Ķes, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog√≥nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh√£o dos actos, n√£o passo de um ac√≥lito do tempo, de um agente de universos caducos.
Empanturrados de sensa√ß√Ķes e do seu corol√°rio, o devir, somos seres n√£o libertos, por inclina√ß√£o e por princ√≠pio,

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Depois das Elei√ß√Ķes

Depois de uma campanha eleitoral animada, a grande vantagem de qualquer elei√ß√£o democr√°tica √© a de o povo sair, finalmente, da sala de estar dos pol√≠ticos. √Č uma sensa√ß√£o de al√≠vio que alguns eleitos descrevem como semelhante ao momento em que uma dor intensa, por qualquer raz√£o obscura, termina.
(…) Depois de qualquer elei√ß√£o a sensa√ß√£o dos pol√≠ticos – quer tenham perdido quer tenham ganho – √© a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltar√° apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a elei√ß√£o seguinte.
Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.

Gonçalo M.

Uma Democracia de Verdade

Eu acho que √© preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as actuais sociedades deste mundo √© uma fal√°cia, n√£o √© para atacar a democracia, longe disso. √Č para dizer que isto a que chamamos democracia n√£o o √©. E que, quando o for, aperceber-nos-emos da diferen√ßa. N√≥s n√£o podemos continuar a falar de democracia no plano puramente formal. Isto √©, que existam elei√ß√Ķes, um parlamento, leis, etc. Pode haver um funcionamento democr√°tico das institui√ß√Ķes de um pa√≠s, mas eu falo de um problema muito mais importante, que √© o problema do poder. E o poder, mesmo que seja uma trivialidade diz√™-lo, n√£o est√° nas institui√ß√Ķes que elegemos. O poder est√° noutro lugar.