Textos sobre Preferência

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Textos de preferência escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Fal√°cia do Homem Livre

C√° entre n√≥s, a servid√£o, de prefer√™ncia sorridente, √© pois inevit√°vel. Mas n√£o o devemos reconhecer. Quem n√£o pode fugir a ter escravos, n√£o valer√° mais que os chame homens livres? Por princ√≠pio, em primeiro lugar, e depois para os n√£o desesperar. √Č-lhes bem devida esta compensa√ß√£o, n√£o acha? Deste modo eles continuar√£o a sorrir e n√≥s manter-nos-emos de consci√™ncia tranquila. Sem o que, ser√≠amos for√ßados a voltar-nos para n√≥s mesmos, ficar√≠amos loucos de dor, ou at√© modestos, tudo √© de temer.

O Domínio da Ira

Querer extinguir inteiramente a cólera é pretensão louca dos estóicos. A cólera deve ser limitada e confinada, tanto na extensão como no tempo. Diremos em primeiro lugar como a inclinação natural e o hábito adquirido para se encolerizar podem ser temperados e acalmados. Diremos, em segundo lugar, como os movimentos particulares da cólera podem ser reprimidos, ou pelo menos refreados, para que não façam mal. Diremos, em terceiro lugar, como suscitar ou apaziguar a cólera nas outras pessoas.
Quanto ao primeiro ponto. N√£o h√° outro caminho sen√£o o de meditar e ruminar muito bem os efeitos da c√≥lera, de ver quanto ela perturba a vida humana. E a melhor ocasi√£o de fazer isso, ser√° depois de o acesso ter passado, reflectindo sobre as desvantagens da c√≥lera. S√©neca disse muito bem que ¬ęa c√≥lera √© como uma ru√≠na que se quebra contra o que derruba¬Ľ. (…) Deve o homem cuidar de temperar a c√≥lera mais pelo desd√©m do que pelo temor, para que assim possa estar acima da inj√ļria e n√£o abaixo dela: o que ser√° coisa f√°cil, para quem quiser obedecer a esta lei.
Quanto ao segundo ponto. Há três causas e motivos principais da cólera. Primeiro, ser demasiado sensível ao toque,

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N√£o h√° Felicidade sem Verdadeira Vida Interior

A vida intelectual ocupará, de preferência, o homem dotado de capacida­des espirituais, e adquire, mediante o incremento inin­terrupto da visão e do conhecimento, uma coesão, uma intensificação, uma totalidade e uma plenitude cada vez mais pronunciadas, como uma obra de arte amadurecen­do aos poucos. Em contrapartida, a vida prática dos ou­tros, orientada apenas para o bem-estar pessoal, capaz de incremento apenas em extensão, não em profundeza, contrasta em tristeza, valendo-lhes como fim em si mesmo, enquanto para o homem de capacida­des espirituais é apenas um meio.
A nossa vida pr√°tica, real, quando as paix√Ķes n√£o a movimentam, √© tediosa e sem sabor; mas quando a movi¬≠mentam, logo se torna dolorosa. Por isso, os √ļnicos feli¬≠zes s√£o aqueles aos quais coube um excesso de intelec¬≠to que ultrapassa a medida exigida para o servi√ßo da sua vontade. Pois, assim, eles ainda levam, ao lado da vida real, uma intelectual, que os ocupa e entret√©m ininter¬≠ruptamente de maneira indolor e, no entanto, vivaz. Pa¬≠ra tanto, o mero √≥cio, isto √©, o intelecto n√£o ocupado com o servi√ßo da vontade, n√£o √© suficiente; √© necess√°rio um excedente real de for√ßa, pois apenas este capacita a uma ocupa√ß√£o puramente espiritual, n√£o subordinada ao ser¬≠vi√ßo da vontade.

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Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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O Jogo de Forças

A beleza come√ßou por ser uma explica√ß√£o que a sexualidade deu a si-pr√≥pria de prefer√™ncias provavelmentente de origem magn√©tica. Tudo √© um jogo de for√ßas, e na obra de arte n√£o temos que procurar ¬ębeleza¬Ľ ou coisa que possa andar no gozo desse nome. Em toda a obra humana, ou n√£o humana, procuramos s√≥ duas coisas, for√ßa e equil√≠brio de for√ßa – energia e harmonia.

Sociedade de Indivíduos Normalizados

O apagamento da personalidade acompanha as condi√ß√Ķes da exist√™ncia concretamente submetida √†s normas espectaculares da sociedade de consumo, e tamb√©m cada vez mais separada das possibilidades de conhecer experi√™ncias que sejam aut√™nticas e, atrav√©s delas, descobrir as suas prefer√™ncias individuais.
O indiv√≠duo, paradoxalmente, dever√° negar-se permanentemente se pretende ser um pouco considerado nesta sociedade. Esta exist√™ncia postula com efeito uma fidelidade sempre vari√°vel, uma s√©rie de ades√Ķes constantemente enganosas a produtos falaciosos. Trata-se de correr rapidamente atr√°s da inflac√ß√£o dos sinais depreciados da vida.
Em todas as esp√©cies de assuntos desta sociedade, onde a distribui√ß√£o dos bens est√° de tal maneira centralizada que se tornou propriet√°ria, de uma forma simultaneamente not√≥ria e secreta, da pr√≥pria defini√ß√£o do que poder√° ser o bem, acontece atribuir-se a certas pessoas qualidades, ou conhecimentos ou, por vezes, mesmo v√≠cios, perfeitamente imagin√°rios, para explicar atrav√©s de tais causas o desenvolvimento satisfat√≥rio de certas empresas; e isto com o √ļnico fim de esconder, ou pelo menos dissimular tanto quanto poss√≠vel, a fun√ß√£o de diversos acordos que decidem sobre tudo.

Desigualdade Natural e Desigualdade Institucional

√Č f√°cil de ver que, entre as diferen√ßas que distinguem os homens, muitas passam por naturais, quando s√£o unicamente a obra do h√°bito e dos diversos g√©neros de vida adoptados pelos homens na sociedade. Assim, num temperamento robusto ou delicado, a for√ßa ou a fraqueza que disso dependem, v√™m muitas vezes mais da maneira dura ou efeminada pela qual foi educado do que da constitui√ß√£o primitiva dos corpos. Acontece o mesmo com as for√ßas do esp√≠rito, e a educa√ß√£o n√£o s√≥ estabelece a diferen√ßa entre os esp√≠ritos cultivados e os que n√£o o s√£o, como aumenta a que se acha entre os primeiros √† propor√ß√£o da cultura; com efeito, quando um gigante e um an√£o marcham na mesma estrada, cada passo representa uma nova vantagem para o gigante. Ora, se se comparar a diversidade prodigiosa do estado civil com a simplicidade e a uniformidade da vida animal e selvagem, em que todos se nutrem dos mesmos alimentos, vivem da mesma maneira e fazem exactamente as mesmas coisas, compreender-se-√° quanto a diferen√ßa de homem para homem deve ser menor no estado de natureza do que no de sociedade; e quanto a desigualdade natural deve aumentar na esp√©cie humana pela desigualdade de institui√ß√£o.

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Os Ministros da Pena

Eu n√£o sei como n√£o treme a m√£o a todos os ministros de pena, e muito mais √†queles que sobre um joelho aos p√©s do rei recebem os seus or√°culos, e os interpretam, e estendem. Eles s√£o os que com um adv√©rbio podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que com uma cifra podem adiantar direitos, e atrasar prefer√™ncias; eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso √† balan√ßa da justi√ßa; eles os que com uma cl√°usula equ√≠voca ou menos clara, podem deixar duvidoso, e em quest√£o, o que havia de ser certo e efectivo; eles os que com meter ou n√£o meter um papel, podem chegar a introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem n√£o quiserem; eles, finalmente, os que d√£o a √ļltima forma √†s resolu√ß√Ķes soberanas, de que depende o ser ou n√£o ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, t√™m a sua virtude; mas as que est√£o mais chegadas √† fonte do poder s√£o as que prevalecem sempre a todas as outras. S√£o por of√≠cio, ou artif√≠cio, como as penas da √°guia, das quais dizem os naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem.

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A Guerra é Deus

Pouco interessa o que os homens pensam da guerra, disse o juiz. A guerra perdura. √Č o mesmo que perguntar-lhes o que acham da pedra. A guerra sempre esteve presente. Antes de o homem existir, a guerra j√° estava √† espera dele. O of√≠cio supremo a aguardar o seu supremo art√≠fice. Sempre foi assim e sempre assim ser√°. Assim e n√£o de outra forma.
(…) Os homens nasceram para jogar. Nada mais. Todo o garoto sabe que a brincadeira √© uma ocupa√ß√£o mais nobre do que o trabalho. Sabe tamb√©m que a excel√™ncia ou m√©rito de um jogo n√£o √© inerente ao jogo em si, mas reside, isso sim, no valor daquilo que os jogadores arriscam. Os jogos de azar exigem que se fa√ßam apostas, sem o que n√£o fazem sequer sentido. Os desportos implicam medir a destreza e a for√ßa dos advers√°rios e a humilha√ß√£o da derrota e o orgulho da vit√≥ria constituem em si mesmos aposta suficiente, pois traduzem o valor dos contendores e definem-nos. Por√©m, quer se trate de contendas cuja sorte se decide pelo azar quer pelo m√©rito, todos os jogos anseiam elevar-se √† condi√ß√£o da guerra, pois nesta aquilo que se aposta devora tudo,

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Amor e Amizade Afectam Sempre Terceiros

Pretende-se sempre obter a mesma prefer√™ncia que se conce¬≠de; o amor deve ser rec√≠proco. Para se conseguir ser amado, √© pre¬≠ciso ser-se am√°vel; para se ser preferido, √© preciso ser-se mais am√°vel que outro, mais am√°vel que todos os outros, pelo menos aos olhos do objecto amado. Da√≠, os primeiros olhares sobre os nossos semelhantes; da√≠, as primeiras compara√ß√Ķes com eles, da√≠ a emu¬≠la√ß√£o, as rivalidades, o ci√ļme. Um cora√ß√£o penetrado de um sen¬≠timento que transborda gosta de se expandir: da necessidade de uma amada, em breve nasce a de um amigo. Aquele que experi¬≠menta a do√ßura de ser amado quereria s√™-Io por todos, e todos n√£o poderiam pretender ser preferidos, sem que houvesse muitos des¬≠contentes. Com o amor e a amizade, nascem as desaven√ßas, a an¬≠tipatia, o √≥dio. Do seio de tantas paix√Ķes diferentes, vejo a opini√£o que, para si mesma, erige um trono firme, e os est√ļpidos mortais, sujeitos ao seu dom√≠nio, basearam a sua exist√™ncia nos ju√≠zos de outr√©m.

Ser Sensível

N√£o se √© obrigado a fazer do homem um fil√≥sofo, em lugar de fazer dele um homem; os seus deveres para com outrem n√£o lhe s√£o ditados unicamente pelas tardias li√ß√Ķes da sabedoria; e, enquanto n√£o resistir ao impulso interior da comisera√ß√£o, jamais far√° mal a outro homem, nem mesmo a nenhum ser sens√≠vel, excepto no caso leg√≠timo em que, achando-se a conserva√ß√£o interessada, √© obrigado a dar prefer√™ncia a si mesmo. Por esse meio, terminam tamb√©m as antigas disputas sobre a participa√ß√£o dos animais na lei natural; porque √© claro que, desprovidos de luz e de liberdade, n√£o podem reconhecer essa lei; mas, unidos de algum modo √† nossa natureza pela sensibilidade de que s√£o dotados, julgar-se-√° que devem tamb√©m participar do direito natural e que o homem est√° obrigado, para com eles a certa esp√©cie de deveres. Parece, com efeito, que, se sou obrigado a n√£o fazer nenhum mal ao meu semelhante, √© menos porque ele √© um ser racional do que porque √© um ser sens√≠vel, qualidade que, sendo comum ao animal e ao homem, deve ao menos dar a um o direito de n√£o ser maltratado inutilmente pelo outro.

Qualidades de Sentimento

¬ęUm charco¬Ľ, pensou, ¬ęd√°-nos muitas vezes, e de forma mais intensa, a impress√£o de profundidade do que o oceano, pela simples raz√£o de que a viv√™ncia dos charcos √© muito mais frequente do que a dos oceanos: era, segundo ele, o que acontecia com o sentimento, e pela mesma raz√£o os sentimentos mais banais passavam por ser os mais profundos. De facto, a prefer√™ncia que se d√° ao sentir, mais do que ao sentimento, que √© a marca de todas as pessoas sens√≠veis √†s emo√ß√Ķes, conduz, tal como o desejo de fazer sentir e de ser levado a sentir, comum a todas as institui√ß√Ķes postas ao servi√ßo do sentimento, a uma diminui√ß√£o do n√≠vel e da ess√™ncia do sentimento face √† sua manifesta√ß√£o instant√Ęnea como estado de ordem pessoal, e finalmente √†quela superficialidade, inibi√ß√£o e total insignific√Ęncia para as quais n√£o faltam exemplos. ¬ę√Č natural que um ponto de vista como este¬Ľ, pensou Ulrich, completando a sua observa√ß√£o, ¬ęchoque todos aqueles que se sentem bem nos seus sentimentos, como o galo nas suas penas, e que ainda por cima estejam convencidos de que a eternidade recome√ßa com cada “personalidade”!¬Ľ Tinha a n√≠tida percep√ß√£o de estar perante um erro monstruoso, √† dimens√£o de toda a humanidade,

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A Filosofia é Essencial para Compreender a Vida

Bem longe de se assustar ou mesmo de enrubescer com o nome de fil√≥sofo, n√£o existe ningu√©m no mundo que n√£o devesse possuir fortes laivos de filosofia. Ela conv√©m a todos; a sua pr√°tica √© √ļtil em todas as idades, para todos os sexos e para todas as condi√ß√Ķes: ela consola-nos da felicidade do outro, das prefer√™ncias indignas, dos fracassos, do decl√≠nio das nossas for√ßas ou da nossa beleza; arma-nos contra a pobreza, a velhice, a doen√ßa e a morte, contra os tolos e os maus zombeteiros; faz-nos viver sem uma mulher ou faz-nos suportar aquela com quem vivemos!

O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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O Homem e a Mulher

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefenível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema; A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A raz√£o convence e as l√°grimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa;

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Símios Aperfeiçoados II

A trag√©dia √© a cristaliza√ß√£o da massa humana, t√£o perigosa como a estagna√ß√£o do esp√≠rito do homem que se torna acad√©mico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro pr√≥ximo – em rela√ß√Ķes antropol√≥gicas o pr√≥ximo leva geralmente centenas de anos – transformar-se-√° num novo espect√°culo de jardim zool√≥gico. Em vez de jaula e aldeias de s√≠mios, ele ter√° balne√°rios p√ļblicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dar√° palmas em del√≠rio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto m√°ximo de intelig√™ncia paquid√©rmica. Ter√° circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o t√©dio da fam√≠lia aos domingos, circular√° repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem √© diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes,

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O Grau da Nossa Emancipação

A esfera da consciência reduz-se na acção; por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr√≥prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t√£o suspeito como a minha especula√ß√£o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes√£o de fic√ß√Ķes, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog√≥nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh√£o dos actos, n√£o passo de um ac√≥lito do tempo, de um agente de universos caducos.
Empanturrados de sensa√ß√Ķes e do seu corol√°rio, o devir, somos seres n√£o libertos, por inclina√ß√£o e por princ√≠pio,

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Lembrar ou Recordar

A recorda√ß√£o n√£o tem apenas que ser exacta; tem que ser tamb√©m feliz; √© preciso que o aroma do vivido esteja preservado, antes de selar-se a garrafa da recorda√ß√£o. Tal como a uva n√£o deve ser pisada em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmag√°-la tem grande influ√™ncia no vinho, tamb√©m o que foi vivido n√£o est√° em qualquer momento ou em qualquer circunst√Ęncia pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na interioridade da recorda√ß√£o.
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.
A diferença é reconhecível logo nas diferentes idades da vida. O ancião perde a memória, que aliás é a primeira capacidade a perder-se. Contudo, o ancião tem em si algo de poético; de acordo com a representação popular ele é profeta, é divinamente inspirado. A recordação é afinal também a sua melhor força, a sua consolação: consola-o com esse alcance da visão poética.
A inf√Ęncia, pelo contr√°rio,

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Os Velhos S√£o os Verdadeiros Rebeldes

Os velhos s√£o os verdadeiros rebeldes. Os jovens, por muiro rasgados que estejam os blus√Ķes de cabedal, querem sempre conformar-se com qualquer coisa. Querem fazer parte dum movimento. Querem fazer parte de uma revolu√ß√£o ou de uma comunidade. Os velhos s√≥ querem fazer partes. De prefer√™ncia gagas. Os velhos n√£o t√™m nada a perder. Podem dizer e fazer o que lhes apetece. √Č por isso que os velhos, mais do que os novos, dizem quase sempre a verdade. N√≥s √© que podemos n√£o querer ouvi-la. H√°-de reparar-se que aquilo que os velhos dizem √© que ¬ęa vida √© uma chatice¬Ľ. N√≥s dizemos que eles est√£o senis. Mas eles √© que t√™m raz√£o.

N√£o h√° Dicas para Namorar e Casar

Nunca me ensinaram as coisas realmente √ļteis: como √© que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se √© preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel tamb√©m. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodu√ß√£o, sobre o prazer e a sedu√ß√£o, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como √© que eu fa√ßo?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e n√£o encontrei uma √ļnica obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobi√≥tica, descobrir o ¬ęponto G¬Ľ da minha companheira para ajud√°-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aqu√°rio, criar m√≠scaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um ¬ęd√©pliant¬Ľ. Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva n√£o fa√ßo a mais pequena ideia.

Porque √© que o Minist√©rio da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascist√≥ide dos Descobrimentos) e an√ļncios rid√≠culos (como aqueles ¬ęYa meu,

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