Passagens de Miguel Esteves Cardoso

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Frases, pensamentos e outras passagens de Miguel Esteves Cardoso para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O portugu√™s tem uma tend√™ncia rid√≠cula e cobarde para estar bem com todos. Em mais nenhuma parte do mundo existem tantos amigos de tanta gente. Por muito que se maldigam e traiam, seja em particular ou em p√ļblico, dois portugueses, quando se encontram, desfazem-se em desculpas, ¬ęAquilo foi um desentendimento… eu gosto muito de si, sabe?¬Ľ.

As L√°grimas e o Amor

As l√°grimas das raparigas refrescam-me. Levantam-me o moral. √Äs vezes lambo-as dos cantos dos olhos. S√£o mini-margaridas, sem √°lcool, inteiramente naturais. Dizer ¬ęN√£o chores¬Ľ funciona sempre, porque s√≥ mencionar o verbo ¬ęchorar¬Ľ emociona-as e liberta-as, dando-lhe a carta branca para chorar ainda mais. S√≥ intervenho com piadas e palavras de esperan√ßa e de amor quando elas v√£o longe demais e come√ßam, por exemplo, a pingar do nariz.

As raparigas, depois de chorar, ficam com vontade de fazer amor. √Č como se tivessem apanhado uma carga de chuva. Ficam todas molhadas. N√≥s somos a toalha que est√° mais √† m√£o. O turco maluco com que se embrulham e enxutam. √Č horr√≠vel, n√£o √©? Mas s√≥ um santo n√£o se aproveitaria.

E as raparigas que choram depois de se virem? Estarão assim tão arrependidas? Comovidas? Simplesmente agradecidas? Gostaria de pensar que sim. As três coisas, pelo menos. Elas próprias não sabem. Riem-se logo de seguida. As piores são as que se riem logo ao princípio. Mas as piores também são muito queridas.

N√£o se pode ser nem mole nem inconstante nas amizades e inimizades. √Č preciso ser-se sincero e malcriado. √Č preciso dizer-se ¬ęEu n√£o gosto de si¬Ľ. √Č preciso dizer-se ¬ęVoc√™ √© um verme¬Ľ. Os inimigos s√£o mais f√°ceis de criar que os amigos e √†s vezes s√£o mais √ļteis e d√£o-nos maior satisfa√ß√£o.

Mesquinho √© o caso de amor que pode ser amavelmente resolvido com proveito para ambas as partes. Quando homem e mulher ¬ęficam amigos¬Ľ √© porque nunca foram outra coisa. O amor verdadeiro √© um desespero constante. Os problemas mais espectaculares s√≥ se resolvem com mortes. N√£o h√° conselhos que lhes valham.

O amor come√ßa pelo amor. √Č o c√©u. O c√©u foi criado primeiro. A paix√£o √© um simples impulso f√≠sico, material, mensur√°vel, explic√°vel por todas as ci√™ncias da atrac√ß√£o. √Č o mar. O mar est√° mais perto de n√≥s. Podemos chegar ao fundo dele.

A Devida Educação

Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário Рou de outra coisa facilmente aprendida pela educação.
A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo.
Rouba-se mais aos que n√£o falam nem escrevem com os meios t√©cnicos de que precisam. Mas tamb√©m s√£o roubados aqueles, adequadamente educados, que n√£o podem ouvir ou ler os milh√Ķes de pessoas que s√≥ n√£o conseguem dizer plenamente o que querem, porque n√£o t√™m as ferramentas que t√™m as pessoas mais novas, com mais sorte.
Mete nojo a ideia de a educação ser uma coisa que se dá. Que o Estado ou o patrão oferece. Não é assim. A educação, de Platão para a frente, é mais uma coisa que se tira. Não educar é negativamente positivo: é como vendar os olhos ou cortar a língua.
O meu pai,

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Os Dias Zangados S√£o Dias de Amor

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe.
Não são como os dias tristes, que não conseguem habituar-se a uma realidade qualquer, que se revelou, sem querer, desiludindo-nos de uma ilusão que nós próprios inventámos, para mais facilmente podermos acreditar, falsamente, nela. Mas assemelham-se para mais bem nos poderem magoar. Depois. Quase ao mesmo tempo. Bem.
Quem não tem um dia zangado, em que ninguém ou nada corresponde ao que esperávamos? A felicidade é a excepção e o engano. Resulta mais de um esquecimento do que de uma lembrança.
Pouco h√° de certo neste mundo. S√£o muitos os pobres, mas n√£o s√£o poucos os ricos. As pessoas do sexo masculino n√£o se entendem nem com as pessoas do sexo masculino, nem com as do sexo feminino. As pessoas, sejam de que sexo e sexualidade forem, compreendem-se mal. D√£o-se mal, por muito bem que se d√™em. As mais apaixonadas umas pelas outras s√£o as que menos bem aceitam as diferen√ßas, as incompreens√Ķes, os dias zangados e as noites zangadas que apenas servem para nos relembrar que todos n√≥s nascemos e morremos sozinhos.

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Nós os portugueses temos de fazer duas coisas: 1. acordar e 2. aprender a sonhar com o que está ao nosso alcance. O mal da nossa classe política é só conhecer dois registos: a utopia megalómana e a banalidade mesquinha. O nosso sonho ou é o Quinto Império ou então chegar ao fim do mês e conseguir pagar a conta da luz.

Na arte funciona mais o manifesto do artista, por muito parvo que seja, do que a crítica do crítico, por muito inteligente que possar ser.

Os Dias Ricos

√Č bom ter um dia complicado se formos n√≥s a complic√°-lo, √† medida que vamos andando. S√£o os dias ricos. Nunca sabemos o que vamos fazer a seguir mas fazemos sempre qualquer coisa a seguir, para n√£o interromper a cadeia.

Em vez de jantarmos em casa ou jantarmos fora, entramos num restaurante onde costumamos jantar e comemos apenas um petisco, um aperitivo. Os anfitri√Ķes tamb√©m apreciam a mudan√ßa. √Č como ir cumpriment√°-los.

Metemos conversa com um casal que s√≥ nos parece japon√™s porque queremos que seja, para lhes perguntar como preparam a massa Shirataki, que tem zero calorias. Perguntamos de onde s√£o? Da Holanda, respondem. Os preconceitos, no sentido de pr√©-ju√≠zos ou pensamentos j√° feitos (na verdade, substitutos e obst√°culos do conhecimento), s√£o cada vez mais in√ļteis.

Os hábitos são diferentes. Para celebrá-los, nem é preciso esquecê-los ou trocá-los por alternativas, felizes ou desagradáveis. O melhor é interrompê-los e acrescentar-lhes desvios espontaneamente decididos que enaltecem, através da diversão, a felicidade subjacente.

Os dias ricos levam outro dia inteiro a contar. Só fazer a lista do que se fez cansa tão bem como nadar um quilómetro, devagarinho, num oceano vivo que nos consente.

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N√£o se pode controlar excessivamente ningu√©m porque a experi√™ncia demonstra que quem se convence que est√° preso decide, por alguma absurda raz√£o, fugir. √Č a natureza humana.

Quando se quer realmente, dar-se-ia tudo por ter. A coisa ou a pessoa que se quer têm o valor imediato igual a todas as coisas e pessoas que já se têm.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Os Velhos S√£o os Verdadeiros Rebeldes

Os velhos s√£o os verdadeiros rebeldes. Os jovens, por muiro rasgados que estejam os blus√Ķes de cabedal, querem sempre conformar-se com qualquer coisa. Querem fazer parte dum movimento. Querem fazer parte de uma revolu√ß√£o ou de uma comunidade. Os velhos s√≥ querem fazer partes. De prefer√™ncia gagas. Os velhos n√£o t√™m nada a perder. Podem dizer e fazer o que lhes apetece. √Č por isso que os velhos, mais do que os novos, dizem quase sempre a verdade. N√≥s √© que podemos n√£o querer ouvi-la. H√°-de reparar-se que aquilo que os velhos dizem √© que ¬ęa vida √© uma chatice¬Ľ. N√≥s dizemos que eles est√£o senis. Mas eles √© que t√™m raz√£o.

As √ļnicas coisas √†s quais os Portugueses chegam cedo s√£o, em primeiro lugar, aos desafios de futebol e, em segundo lugar, √† conclus√£o que n√£o vale a pena chegar cedo a seja o que for.

Por muito que se goste de chorar o passado ou preferir o presente, a Hist√≥ria demonstra, em tra√ßos largos, que o futuro √© sempre melhor para a maioria das pessoas. A sensa√ß√£o do dia-a-dia de estar tudo cada vez pior perde sempre quando √© comparada com as condi√ß√Ķes h√° apenas um s√©culo atr√°s. Nem √© preciso recuar no tempo – basta ver a facilidade com que se morre nos pa√≠ses muito mais pobres do que o nosso, que s√£o muito mais do que metade dos que existem. Nos mais pobres, a expectativa m√©dia de vida √© igual √† nossa h√° dois s√©culos atr√°s.

N√£o h√° Dicas para Namorar e Casar

Nunca me ensinaram as coisas realmente √ļteis: como √© que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se √© preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel tamb√©m. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodu√ß√£o, sobre o prazer e a sedu√ß√£o, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como √© que eu fa√ßo?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e n√£o encontrei uma √ļnica obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobi√≥tica, descobrir o ¬ęponto G¬Ľ da minha companheira para ajud√°-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aqu√°rio, criar m√≠scaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um ¬ęd√©pliant¬Ľ. Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva n√£o fa√ßo a mais pequena ideia.

Porque √© que o Minist√©rio da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascist√≥ide dos Descobrimentos) e an√ļncios rid√≠culos (como aqueles ¬ęYa meu,

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√Č f√°cil gostar de labregos e da companhia que os labregos podem fazer. Durante dez ou onze minutos, num contexto buc√≥lico, chegam a reconciliar-nos com a terra. S√£o honestos. S√£o despretensiosos. Respeitam as outras pessoas. Acima de tudo, s√£o verdadeiros.