Passagens de Miguel Esteves Cardoso

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A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

O Segredo dos Dias

Quando h√° muito para fazer, que √© sempre, o melhor √© fazer como se nada houvesse para fazer e deixar tudo para o pouco tempo ‚Äď que infelizmente tem de ser medido ‚Äď que resta para faz√™-lo.
Nos dias de maior trabalho, permita-se o maior luxo. N√£o depois, mas antes. Ou melhor: antes para quem sente que roubou um pecado e tem de pag√°-lo e depois para quem sente que merece uma recompensa por ter trabalhado tanto.

Os seres humanos dividem-se entre os castigadores e os recompensadores. Talvez os primeiros sejam mais judeus e cat√≥licos e os segundos mais isl√Ęmicos e protestantes.
Para os castigadores o trabalho é o preço que se paga pelo prazer, pelo adiamento, pelo facto de não ter investido o tempo bastante para tentar urdir um resultado perfeito.
Para os recompensadores primeiro trabalha-se e depois celebra-se o ter trabalhado.

S√≥ agora me ocorre, tarde na vida, que ambas as atitudes s√£o oprimentes, tornando-nos em porquinhos-da-√≠ndia que comem conforme p√Ķem a roda que est√° na jaula em movimento.
√Č um erro equiparar o trabalho ao prazer, seja anterior ou posterior. O trabalho √© sempre um sofrimento, um esfor√ßo, uma coisa que,

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Quem nos quer, quer-nos ¬ęin toto¬Ľ, mas satisfaz-se com pouco. N√£o se pode dar mais. Um bocadinho tem que parecer bastante. E se dermos tudo, tem de parecer pouco. Ela nunca pode saber. Se n√£o perdemo-la. √Č preciso haver sempre uma parte que parece inacess√≠vel.

(O inimigo) faz-nos lembrar o quanto somos detest√°veis, pomposos, insignificantes ‚Äď enfim, iguais aos outros todos. O √≥dio √© destrutivo, mas h√° em n√≥s muito que ganha em ser destru√≠do.

As mulheres n√£o s√£o mais infi√©is do que os homens. Por muito que gostassem que assim fosse (e assim se pensasse), est√£o impedidas de ser mais infi√©is pela circunst√Ęncia de serem humanas.

√Č incr√≠vel que ainda haja quem finja que s√£o os programas e as ideias que decidem os votos. As pessoas votam em pessoas e em partidos e, se e quando coincidem os dois impulsos, maior e mais f√°cil √© a festa.

A f√© n√£o √© apenas um conforto, um apaziguamento, um consolo. √Č uma forma de aceita√ß√£o. √Č a desresponsabiliza√ß√£o mais bonita do mundo. √Č uma forma que a alma arranja de n√£o pedir explica√ß√Ķes √† vida.

Se Portugal teve valor na história do mundo, não foi no esforço da uniformização, igual a tantos outros. Não foi na imposição de uma língua, de uma religião, de uma raça. A glória do império português não foi o facto de ter sido português contra as nacionalidades que subjugou. Foi ter sido capaz de ser português sem deixar de ser outras coisas. No máximo, foi ter sido português por ter sido tudo menos português. Ou quase tudo.

Favorecemos sempre os próximos. Mas sempre mais os escolhidos do que os destinados. Ensinaram-me a minha mãe e o meu pai que tinha a liberdade de gostar de quem gostasse, fossem ou não de família.

Amar até Sempre

A Maria Jo√£o e eu vivemos juntos, todos os dias, a n√£o ser os poucos (mais do que quarenta) em que os hospitais nos desinstalaram, desde o primeiro dia de Janeiro do ano 2000.
Mas, mesmo que conte só a data do casamento Рno dia 30 deste mês, uma sexta-feira, alcançaremos 11 anos de casamento Рacho que prescindimos alegremente de qualquer crise. O meu amor por ela é cada vez maior. O amor dela por mim, de tanto ser amada, começa a ser uma possibilidade. Foram só menos de quatro mil dias Рuma pequena parte das nossas vidas Рmas foram quatro mil dias de amor, felicidade ou medo de não ser amado, mais a sorte de ter sido. Uma eternidade.
Assim aconselho os amantes e os apaixonados: a primeira coisa a reter, sejam quais forem as primeiras e segundas reac√ß√Ķes das pessoas amadas, √© que se est√° a espalhar e visitar uma sorte amorosa sobre elas. N√£o √© uma quest√£o de amor. √Č uma quest√£o de tempo. Esperar e n√£o reparar √© fundamental. Para quem ama, amanh√£, por muito improv√°vel que seja, √© melhor do que ontem. Mas hoje pode ser, quando se tem sorte,

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O sossegamento √© a forma mais precisa de liberdade. Mas n√£o √© uma liberdade negativa (estar livre de medos, de constrangimentos, de opress√Ķes), mas uma liberdade positiva ‚Äď uma liberdade para sentir o que se sente e confiar no que se sente, e ter tempo, e vontade, e confian√ßa no que se faz.

A confusão define a nossa vida, o nosso dia a dia, a nossa noite a noite. Nunca se sabe onde se vai, em que carro é que se vai chegar a casa, quem vai pagar as bebidas, como é que vai ser para acordar amanhã de manhã. Por muito que se combine, que se planeie, que se organize, é sempre a grande confusão.

Querer estar bem com todos é, quanto a mim, mais odioso que ter ódio a toda a humanidade. O amigalhaço é aquele que acaba por ser inimigo de todos, na maneira como se comporta, para ser amigo só de si mesmo, no resultado desse comportamento. A amizade só faz sentido quando traduz claramente uma escolha.

Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

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O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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Cada Português, por muito ignorante que seja nas matérias do mundo, faz e acontece como lhe apetece. Sente-se um pequeno deus, um criador de um mundo à sua medida.

Casar por Amor

Quando eu pensava que n√£o podia ser mais feliz, manh√£ ap√≥s manh√£ era mais, mas s√≥ um bocadinho mais do que o m√°ximo humanamente poss√≠vel; pensava eu ser absolutamente imposs√≠vel que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a pr√≥pria felicidade at√©. Mas, de repente, fui. Muito mais. Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre. E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser t√£o triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor neg√≥cio do s√©culo, por ela. Ela ficou minha. Eu fiquei dela. √Č ou n√£o √© estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livr√°mos de boa e fic√°mos a ganhar? √Č.

√Č sim. A minha mulher √© mais minha do que eu alguma vez fui meu ‚ÄĒ e eu antes n√£o podia ter sido mais para mim, felizmente. Por ter tudo agora para lhe dar. Que al√≠vio. Nunca mais me quero ver na vida.
A n√£o ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto ‚ÄĒ talvez o maior homem que j√° viveu, logo a seguir ao pai dela, claro. √Č um milagre como melhorei tanto.

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