Passagens de Miguel Esteves Cardoso

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Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

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O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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Cada Português, por muito ignorante que seja nas matérias do mundo, faz e acontece como lhe apetece. Sente-se um pequeno deus, um criador de um mundo à sua medida.

Casar por Amor

Quando eu pensava que n√£o podia ser mais feliz, manh√£ ap√≥s manh√£ era mais, mas s√≥ um bocadinho mais do que o m√°ximo humanamente poss√≠vel; pensava eu ser absolutamente imposs√≠vel que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a pr√≥pria felicidade at√©. Mas, de repente, fui. Muito mais. Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre. E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser t√£o triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor neg√≥cio do s√©culo, por ela. Ela ficou minha. Eu fiquei dela. √Č ou n√£o √© estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livr√°mos de boa e fic√°mos a ganhar? √Č.

√Č sim. A minha mulher √© mais minha do que eu alguma vez fui meu ‚ÄĒ e eu antes n√£o podia ter sido mais para mim, felizmente. Por ter tudo agora para lhe dar. Que al√≠vio. Nunca mais me quero ver na vida.
A n√£o ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto ‚ÄĒ talvez o maior homem que j√° viveu, logo a seguir ao pai dela, claro. √Č um milagre como melhorei tanto.

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O amor √© uma coisa, a vida √© outra. O amor n√£o √© para ser uma ajudinha. N√£o √© para ser o al√≠vio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso ¬ęd√° l√° um jeitinho¬Ľ sentimental.

Num momento, num olhar, o cora√ß√£o apanha-se para sempre. Ama-se algu√©m. Por muito longe, por muito dif√≠cil, por muito desesperadamente. O cora√ß√£o guarda o que se nos escapa das m√£os. E durante o dia e durante a vida, quando n√£o est√° l√° quem se ama, n√£o √© ela que nos acompanha ‚Äď √© o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Havendo amor, tudo se torna num prazer ou numa preparação para ele. Fazermos as coisas juntos torna-se numa extensão de fazermos amor.

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa Рcomo é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas t√™m de morrer; os amores de acabar. As pessoas t√™m de partir, os s√≠tios t√™m de ficar longe uns dos outros, os tempos t√™m de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. √Č preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem p√īr-se processos e ac√ß√Ķes de despejo a quem se tem no cora√ß√£o, fazer os maiores escarc√©us, entrar nas maiores peixeiradas, mas n√£o se podem despejar de repente. Elas n√£o saem de l√°. Est√ļpidas! √Č preciso aguentar. J√° ningu√©m est√° para isso, mas √© preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura √© aceitar-se que se est√° doente. √Č preciso paci√™ncia. O pior √© que vivemos tempos imediatos em que j√° ningu√©m aguenta nada. Ningu√©m aguenta a dor. De cabe√ßa ou do cora√ß√£o.

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A √ļnica coisa √© a vida. A √ļnica coisa √© a vida de cada um. Sem vida, nada feito. Viver n√£o √© a melhor coisa que h√°: √© a √ļnica coisa. Cada momento da vida n√£o √© √ļnico. Mas h√° momentos √ļnicos. A nossa felicidade n√£o √© pass√°-los como quisermos. √Č dar por ela a aproveit√°-los.

Porque √© que precisamos de inimigos? Para que haja quem n√£o goste de n√≥s. √Č saud√°vel. Reduz-nos ao nosso tamanho natural. Mant√©m o nosso ego dentro das propor√ß√Ķes desej√°veis.

Buscam-se as consola√ß√Ķes onde se acham, conforme se v√£o encontrando. √Č um ditado irland√™s ou uma f√≥rmula cat√≥lica; j√° n√£o sei dizer. Tamb√©m n√£o me lembro quem foi o grande pessimista que, quando lhe perguntaram, j√° velho, se havia alguma coisa que ajudava a suportar o peso e a amargura da vida, respondeu que n√£o, que n√£o havia – que s√≥ restava a consola√ß√£o da m√ļsica.

O ser humano, por natureza, prefere o passado ao futuro ou vice-versa, sempre à custa do presente. Tanto a ideia que as coisas vão melhorar (não podem piorar mais) como a ideia que não vão piorar (é triste ficar na mesma).

O amor √© um processo cont√≠nuo de conhecimento e aceita√ß√£o. N√£o √© um arrebatamento. N√£o √© uma loucura. √Č um acto de intelig√™ncia, de curiosidade e de carinho sem fim. N√£o pode amar, nem ser devidamente amado, quem n√£o pode suportar a verdade ou for incapaz de resigna√ß√£o.

Pode ser-se giro e inteligente ao mesmo tempo e √© por saber e exigir isso que as raparigas s√£o mais inteligentes que os rapazes. A ideia de que ¬ęou se √© giro ou se √© inteligente¬Ľ, ¬ęou se √© desportista ou se √© intelectual¬Ľ √© tipicamente uma ideia de rapaz.

Os rapazes n√£o andam √† procura de uma rapariga ideal. Ali√°s, para falar verdade, o ideal de um rapaz √© ter uma data de raparigas √† procura dele. E quanto menos ideais, melhor. √Č por isso que os rapazes s√£o mais est√ļpidos que as raparigas.

Algu√©m que tenha a coragem de ter m√£o em n√≥s. A democracia liberal √© obviamente o √ļnico sistema pol√≠tico que √© aceit√°vel, tem in√ļmeras qualidades, mas tamb√©m s√£o inumer√°veis os defeitos. √Č, na verdade, a express√£o institucional do ser humano. O pior √© que os seres humanos, fora algumas excep√ß√Ķes, s√£o fracos, vol√ļveis, ego√≠stas, vaidosos, influenci√°veis e maus.

Maior que qualquer esperan√ßa, mais poderoso que todos os sonhos, √© a felicidade de querer que as coisas se mantenham como est√£o. Como quem tem a certeza que n√£o podem melhorar ‚Äď por muito m√°s que estejam. √Č essa a ess√™ncia absoluta de amar.