Textos sobre Sentidos

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Textos de sentidos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Avalia√ß√Ķes Precipitadas

Uma característica inata do homem e muito intimamente entrelaçada com a sua natureza reside no facto de a proximidade das coisas não lhe chegar para o conhecimento. E isso apesar de cada fenómeno de que nós próprios temos consciência ser nesse momento o que nos está mais próximo, podendo nós, portanto, se formos capazes de o penetrar com vigor, exigir-lhe que se explique a si mesmo.
Trata-se, contudo, de qualquer coisa que os homens n√£o aprendem porque vai contra a sua natureza. √Č assim que mesmo as pessoas de cultura n√£o podem deixar de relacionar uma dada verdade que acabam de constatar numa dada situa√ß√£o e lugar, n√£o apenas com um fen√≥meno pr√≥ximo, mas tamb√©m com fen√≥menos muito mais amplos e extremamente distantes, do que resultam erros ap√≥s erros. O fen√≥meno pr√≥ximo s√≥ se relaciona com um fen√≥meno distante no sentido em que todas as coisas se regem por um conjunto muito restrito de grandes leis que se manifestam por toda a parte.

Os Sábios Célebres

Todos vós, os sábios célebres, nunca fostes mais do que os servidores do povo e da superstição popular, e não os servidores da verdade. E é precisamente por isso que vos têm honrado.
E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque parecia uma brincadeira, um rodeio engenhoso que vos levava ao povo. Assim o amo dá maior liberdade aos seus escravos e regozija-se até com a sua presunção.
Mas aquele que o povo odeia, com o ódio do lobo pelos cães, é o espírito livre, inimigo das algemas, aquele que não adora, aquele que habita as florestas.
Persegui-lo at√© ao seu esconderijo, √© aquilo a que o povo, sempre chamou ter o ¬ęsentido de justi√ßa¬Ľ; e ainda por cima d√£o ca√ßa ao solit√°rio com os seus ferozes mastins.
‘Porque a verdade est√° onde o povo est√°! Ai daqueles que a procuram!’ – √© isto o que ecoa atrav√©s dos tempos.
Quer√≠eis assentar na raz√£o a piedade tradicional do vosso povo e √© a isso que chamais ¬ęa vontade de verdade¬Ľ, √≥ s√°bios c√©lebres!
E o vosso cora√ß√£o insiste em dizer para si pr√≥prio: ‘Eu vim do povo, foi tamb√©m do povo que me veio a voz de Deus.’

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A Felicidade Est√° Fora da Nossa Realidade

O amoroso apaixonado j√° n√£o vive em si, mas no que ama; quanto mais se afasta de si para se fundir no seu amor, mais feliz se sente. Assim, quando a alma sonha em fugir do corpo e renuncia a servir-se normalmente dos seus org√£os, podeis dizer com raz√£o que ele enlouquece. As express√Ķes correntes n√£o querem dizer outra coisa: ¬ęN√£o est√° em si… Volta a ti… Ele voltou a si.¬Ľ E quanto mais perfeito √© o amor, maior a loucura e mais feliz.
Quem ser√°, pois, essa vida no C√©u, √† qual aspiram t√£o ardentemente as almas piedosas? O esp√≠rito, mais forte e vitorioso, absorver√° o corpo; isto ser√° tanto mais f√°cil quanto mais purificado e extenuado tiver sido o corpo durante a vida. Por sua vez, o esp√≠rito ser√° absorvido pela suprema Intelig√™ncia, cujos poderes s√£o infinitos. Assim se encontrar√° fora de si mesmo o homem inteiro e a √ļnica raz√£o da sua felicidade ser√° de n√£o mais se pertencer, mas de submeter-se a este soberano inef√°vel, que tudo atrai a si.
Uma tal felicidade, é certo, só poderá ser perfeita no momento em que as almas, dotadas de imortalidade, retomem os antigos corpos. Mas, como a vida dos piedosos não é mais do que a meditação sobre a eternidade e como que a sombra dela,

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Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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Diferentes Caminhos para uma Felicidade Sempre Insuficiente

O objectivo para o qual o princ√≠pio do prazer nos impele ‚ÄĒ o de nos tornarmos felizes ‚ÄĒ n√£o √© ating√≠vel; contudo, n√£o podemos ‚ÄĒ ou melhor, n√£o temos o direito ‚ÄĒ de desistir do esfor√ßo da sua realiza√ß√£o de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser seguidos para isso; alguns dedicam-se ao aspecto positivo do objectivo, o atingir do prazer; outros o negativo, o evitar da dor. Por nenhum destes caminhos conseguimos atingir tudo o que desejamos. Naquele sentido modificado em que vimos que era ating√≠vel, a felicidade √© um problema de gest√£o da libido em cada indiv√≠duo. N√£o h√° uma receita soberana nesta mat√©ria que sirva para todos; cada um deve descobrir por si qual o m√©todo atrav√©s do qual poder√° alcan√ßar a felicidade. Toda a esp√©cie de factores ir√° influenciar a sua escolha. Depende da quantidade de satisfa√ß√£o real que ele ir√° encontrar no mundo externo, e at√© onde acha necess√°rio tornar-se independente dele. Por fim, na confian√ßa que tem em si pr√≥prio do seu poder de modificar conforme os seus desejos. Mesmo nesta fase, a constitui√ß√£o mental do indiv√≠duo tem um papel decisivo, para al√©m de quaisquer considera√ß√Ķes externas. O homem que √© predominantemente er√≥tico ir√° escolher em primeiro lugar rela√ß√Ķes emocionais com os outros;

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Os Livros Representam a Essência de um Espírito

As obras s√£o a quintess√™ncia de um esp√≠rito: por conseguinte, mesmo se este for o esp√≠rito mais sublime, elas sempre ser√£o, sem compara√ß√£o, mais ricas de cont√ļdo do que a sua companhia, e a substituir√£o tamb√©m na ess√™ncia – ou melhor, ultrapass√°-la-√£o em muito e a deixar√£o para tr√°s: At√© mesmo os escritos de uma cabe√ßa med√≠ocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque s√£o sua quintess√™ncia, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia n√£o nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias n√£o se encontraria nenhum prazer, e √© por essa raz√£o que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e n√£o na conversa com as pessoas.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imdediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos,

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A Racionalidade como Solução de Todos os Males do Mundo

A racionalidade pode ser definida como o h√°bito de considerar todos os nossos desejos relevantes, e n√£o apenas aquele que sucede ser o mais forte no momento. (…) A racionalidade completa √©, sem d√ļvida, ideal inating√≠vel; por√©m, enquanto continuarmos a classificar alguns homens como lun√°ticos, √© claro que achamos uns mais racionais que outros. Acredito que todo o progresso s√≥lido no mundo consiste de um aumento de racionalidade, tanto pr√°tica como te√≥rica. Pregar uma moralidade altru√≠stica parece-me um tanto in√ļtil, porque s√≥ falar√° aos que j√° t√™m desejos altru√≠sticos. Mas pregar racionalidade √© um tanto diferente, porque ela nos ajuda, de modo geral, a satisfazer os nossos pr√≥prios desejos, quaisquer que sejam. O homem √© racional na propor√ß√£o em que a sua intelig√™ncia orienta e controla os seus desejos.
Acredito que o controle dos nossos actos pela intelig√™ncia √©, afinal, o que mais importa e a √ļnica coisa capaz de preservar a possibilidade de vida social, enquanto a ci√™ncia expande os meios de que dispomos para nos ferir e destruir. O ensino, a imprensa, a pol√≠tica, a religi√£o – numa palavra, todas as grandes for√ßas do mundo – est√£o actualmente do lado da irracionalidade; est√£o nas m√£os dos homens que lisonjeiam Populus Rex com o fito de desencaminh√°-lo.

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O Mais Infalível Veneno é o Tempo

Tabaco, caf√©, √°lcool, √°cido pr√ļssico, estricnina ‚ÄĒ todos n√£o passam de po√ß√Ķes dilu√≠das: o mais infal√≠vel veneno √© o tempo. Essa ta√ßa, que a natureza nos p√Ķe nos l√°bios, possui uma propriedade maravilhosa que supera qualquer outra bebida. Ela abre os sentidos, adiciona poder e povoa-nos de sonhos exaltados, a que chamamos esperan√ßa, amor, ambi√ß√£o, ci√™ncia. Em particular, ela desperta o desejo por maiores doses de si. Mas aqueles que tomam as maiores doses ficam embriagados, perdem estatura, for√ßa, beleza e sentidos, e terminam em fantasia e del√≠rio. N√≥s adiamos o nosso trabalho liter√°rio at√© que tenhamos maturidade e t√©cnica para escrever, mas um dia descobrimos que o nosso talento liter√°rio n√£o passava de uma efervesc√™ncia juvenil que perdemos.

A Distorção do Entendimento

Que dif√≠cil √© propor um problema ao entendimento alheio sem corromper esse entendimento pela maneira de propor! Se dizemos: acho isto belo, acho obscuro, ou outra coisa semelhante, arrastamos a imagina√ß√£o para este ju√≠zo, ou irritamo-la, levando-a ao ju√≠zo contr√°rio. Mais vale nada dizer, e ent√£o o outro julga segundo o que √©, ou segundo o que √© naquele momento, e de acordo com o que as outras circunst√Ęncias, de que n√£o somos respons√°veis, l√° tiverem posto. Mas pelo menos n√≥s n√£o pusemos nada; a n√£o ser que o nosso sil√™ncio tenha tamb√©m o seu efeito, segundo o sentido e a interpreta√ß√£o que ele estiver disposto a atribuir-lhe, ou segundo o que depreende dos movimentos e da express√£o do rosto, ou do tom de voz, conforme for melhor ou pior fisionomista: t√£o dif√≠cil √© n√£o deslocar um entendimento da sua base natural, ou antes, t√£o pouco um entendimento tem de firme e est√°vel!

Sem Poesia N√£o H√° Humanidade

Sem Poesia n√£o h√° Humanidade. √Č ela a mais profunda e a mais et√©rea manifesta√ß√£o da nossa alma. A intui√ß√£o po√©tica ou orfaica antecede, como fonte original, o conhecimento euclidiano ou cient√≠fico. E nos d√° o sentido mais perfeito e harm√≥nico da vida. Aperfei√ßoando o ser humano, afasta-o do antrop√≥ide e aproxima-o dos antropos. Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma fotografia peculiar e uma esp√©cie de m√°quina de fazer pontap√©s, despreza o seu aperfei√ßoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar √† Selva a regressar ao Para√≠so. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que √© ser o cora√ß√£o e a consci√™ncia do Universo: o sagrado cora√ß√£o e o santo esp√≠rito. Eis o destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consci√™ncia √© a pr√≥pria Natureza numa autocontempla√ß√£o maravilhosa. Ou √© o pr√≥prio Criador numa vis√£o da sua obra, atrav√©s do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la, transfigurando-se em Redentor.

O Amor Era a Festa do Inimit√°vel

O amor, outrora, era a festa do individual, do inimit√°vel, a gl√≥ria do que √© √ļnico, do que n√£o suporta qualquer repeti√ß√£o. Mas o umbigo n√£o s√≥ n√£o se revolta contra a repeti√ß√£o, √© um apelo √†s repeti√ß√Ķes! Vamos viver, no nosso mil√©nio, sob o signo do umbigo. Sob este signo, somos todos, tanto um como outro, soldados do sexo, com o mesmo olhar fixo n√£o sobre a mulher amada mas sobre o mesmo pequeno buraco no meio da barriga que representa o √ļnico sentido, o √ļnico fim, o √ļnico futuro de todo o desejo er√≥tico.

Ah, a Moral!

Ah, a palavra ¬ęmoral¬Ľ! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confus√Ķes que este termo engendrou abarcam quase toda a hist√≥ria das persegui√ß√Ķes movidas pelo homem ao seu semelhante. Para al√©m do facto de n√£o existir apenas uma moral, mas muitas, √© evidente que em todos os pa√≠ses, seja qual for a moral dominante, h√° uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo √© permitido, tudo √© perdoado. Ou seja, tudo o que de abomin√°vel e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiat√≥rio, ¬ęn√£o t√™m moral¬Ľ.
Pensar-se-√° que, se realmente glorific√°ssemos a vida e n√£o a morte, se d√©ssemos valor √† cria√ß√£o e n√£o √† destrui√ß√£o, se acredit√°ssemos na fecundidade e n√£o na impot√™ncia, a tarefa suprema em que nos empenhar√≠amos seria a da elimina√ß√£o da guerra. Pensar-se-√° que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a ind√ļstria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diab√≥lico. Digo ¬ęassassinos¬Ľ, porque em √ļltima an√°lise esses homens n√£o s√£o outra coisa.

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A Minha Luta

A minha luta √© para encontrar o centro, o n√ļcleo de toda uma infinidade de justifica√ß√Ķes, que superficialmente parecem satisfazer-me e s√£o, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa √ļltima me conduz, que for√ßa polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida n√£o √© tr√°gica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que s√£o condi√ß√Ķes de exist√™ncia e n√£o condena√ß√Ķes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das m√£os a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que √© uma pura alucina√ß√£o dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece cr√©dito, e, sobretudo, da raz√£o, que sabe que a √ļnica consci√™ncia do mundo √© ela pr√≥pria, princ√≠pio e fim de si mesma.

O Irracional no Amor

Se √© rid√≠culo beijar uma mulher feia, tamb√©m √© rid√≠culo dar um beijo a uma beleza. A presun√ß√£o de que amando de uma certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar, n√£o vale mais do que a arrog√Ęncia de certo meio social. Tal soberba n√£o p√Ķe ningu√©m ao abrigo do c√≥mico universal, porque todos os homens se encontram na impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido √©, pretende tamb√©m convenc√™-los de que h√£o-de cumprir fielmente o juramento.
Que um homem rico, muito bem sentado na sua poltrona, acene com a cabe√ßa, ou volte a cara para a direita e para a esquerda, ou bata fortemente com um p√© no ch√£o, e que, uma vez perguntado pela raz√£o de tais actos, me responda: ¬ęn√£o sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento involunt√°rio¬Ľ, compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e as suas atitudes, se me dissesse que em tais actos consistia a sua maior felicidade,

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A Racionaliza√ß√£o das Emo√ß√Ķes

O ponto de vista feminino tem sido muito mais difícil de expressar que o masculino. Se assim me posso exprimir, o ponto de vista feminino não passa pela racionalização por que o intelecto do homem faz passar os seus sentimentos. A mulher pensa emocionalmente; a sua visão baseia-se na intuição. Por exemplo, ela pode ter um sentimento em relação a qualquer coisa que nem sequer é capaz de articular.
A princ√≠pio, achei extremamente dif√≠cil descrever como me sentia. Por√©m, se fazemos psican√°lise, a quest√£o √© sempre: ¬ęComo √© que se sentiu em rela√ß√£o a isso?¬Ľ e n√£o ¬ęO que √© que pensou?¬Ľ E como muito frequentemente a mulher n√£o deu o segundo passo, que √© explicar a sua intui√ß√£o – por que passos l√° chegou, o a-b-c daquilo – ela n√£o consegue ser t√£o articulada.
Ora eu tentei fazer isso (quer tenha conseguido quer n√£o), e, porque estava a escrever um di√°rio que pensava que ningu√©m leria, consegui anotar o que sentia acerca das pessoas ou o que sentia acerca do que via sem o segundo processo. O segundo processo veio atrav√©s da psican√°lise, que era igualmente um m√©todo de comunicar com o homem em termos de uma racionaliza√ß√£o das nossas emo√ß√Ķes de modo que pare√ßam fazer sentido ao intelecto masculino.

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A Racionalidade Irracional

Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a raz√£o a nossa esp√©cie. E o instinto serve melhor os animais porque √© conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terr√≠veis entre animais, o le√£o que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso cora√ß√£o sens√≠vel dir√° ¬ęque coisa t√£o cruel¬Ľ. N√£o: quem se comporta com crueldade √© o homem, n√£o √© o animal, aquilo n√£o √© crueldade; o animal n√£o tortura, √© o homem que tortura. Ent√£o o que eu critico √© o comportamento do ser humano, um ser dotado de raz√£o, raz√£o disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria s√™-lo e que n√£o o √©; o que eu critico √© a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.

Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos,

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A Pr√°tica Fomenta a Vontade

Se desejamos tornar-nos fortes, temos, primeiro, de comprender o que √© a vontade. A vontade n√£o √© nenhuma entidade m√≠stica, que presida aos outros elementos do car√°cter, qual mestre de banda – sim, a soma, a subst√Ęncia de todos os nossos impulsos e disposi√ß√Ķes. Essa energia formadora do car√°cter n√£o tem senhor a quem obede√ßa al√©m de si pr√≥pria; e √© gra√ßas a ela que algum poderoso impulso pode vir a dominar e unificar o complexo. Isto forma a ¬ęfor√ßa de vontade¬Ľ – um supremo desejo que se ergue acima dos mais para arrast√°-los num mesmo sentido ou para uma dada meta. Se n√£o descobrimos essa meta n√£o alcan√ßaremos a unidade – e seremos simples pedra de que outro homem se utiliza nas suas constru√ß√Ķes.
Vem daí a inutilidade da leitura de livros que apontam as estradas reais do carácter. Tenho diante de mim um volume de um tal Leland (Londres, 1912), intitulado Tendes a Vontade Forte? ou Como Desenvolver Qualquer Faculdade do Espírito pelo Fácil Processo do Auto-Hipnotismo. Existem centenas destas obras-primas ao alcance dos simplórios de todas as cidades. Mas o caminho é mais penoso e longo.
Esse caminho é o caminho da vida. Vontade, isto é,

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Humanismo e Liberalismo

O termo humanismo √© infelizmente uma palavra que serve para designar as correntes filos√≥ficas, n√£o somente em dois sentidos, mas em tr√™s, quatro, cinco ou seis. Toda a gente √© humanista na hora que passa, at√© mesmo certos marxistas que se descobrem racionalistas cl√°ssicos, s√£o humanistas num enfadonho sentido, derivado das ideias liberais do √ļltimo s√©culo, o dum liberalismo refractado atrav√©s de toda a crise actual. Se os marxistas podem pretender ser humanistas, as diferentes religi√Ķes, os crist√£os, os hindus, e muitos outros afirmam-se tamb√©m antes de mais humanistas, como por sua vez o existencialista, e de um modo geral, todas as filosofias. Actualmente muitas correntes pol√≠ticas se reivindicam igualmente um humanismo. Tudo isso converge para uma esp√©cie de tentativa de restabelecimento duma filosofia que, apesar da sua pretens√£o, recusa no fundo comprometer-se, e recusa comprometer-se, n√£o somente no ponto de vista pol√≠tico e social, mas tamb√©m num sentido filos√≥fico profundo.

Se o cristianismo se pretende antes de tudo humanista, √© porque ele n√£o pode comprometer-se, quer dizer participar na luta das for√ßas progressivas, porque se mant√©m em posi√ß√Ķes reaccion√°rias frente a esta revolu√ß√£o. Quando os pseudomarxistas ou os liberais se reclamam da pessoa antes do mais, √© porque eles recuam diante das exig√™ncias da situa√ß√£o presente no mundo.

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A Nossa Maior Crueldade é o Tempo

A nossa maior crueldade √© o tempo. Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, tamb√©m n√≥s inventamos o tempo e nunca temos tempo. Os nossos rel√≥gios nunca dormem. Quantas vezes o tempo √© a nossa desculpa para desinvestir da vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela? Como n√£o temos diante de n√≥s os s√©culos, renunciamos √† aud√°cia de viver plenamente o breve instante. A imagem de crono, devorando aquilo que gera, obsidia-nos. O tempo consome-nos sem nos encaminhar verdadeiramente para a consuma√ß√£o da promessa. Nesse sentido, o consumo desenfreado n√£o √© outra coisa que uma bolsa de compensa√ß√Ķes. As coisas que se adquirem s√£o naquele momento, obviamente, mais do que coisas: s√£o promessas que nos acenam, s√£o protestos impotentes por uma exist√™ncia que n√£o nos satisfaz, s√£o fic√ß√Ķes do nosso teatro interno, s√£o uma corrida contra o tempo. A verdade √© que precisamos reconciliar-nos com o tempo. N√£o nos basta um conceito de tempo linear, ininterrupto, mecanizado, puramente hist√≥rico. O continuum homog√©neo do tempo que a teoria do progresso desenha n√£o conhece a rutura trazida pela novidade surpreendente. E a reden√ß√£o √© essa novidade. Precisamos identificar uma dupla significa√ß√£o no instante presente.

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A Ilus√£o Pol√≠tica das Grandes Manifesta√ß√Ķes Populares

Nisto de manifesta√ß√Ķes populares, o mais dif√≠cil √© interpret√°-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada √© como se d√°. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. √Č costume dizer-se que contra factos n√£o h√° argumentos. Ora s√≥ contra factos √© que h√° argumentos. Os argumentos s√£o, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A l√≥gica √© o nosso crit√©rio de verdade, e √© nos argumentos, e n√£o nos factos, que pode haver l√≥gica.
Nisto de manifesta√ß√Ķes ‚ÄĒ ia eu dizendo ‚ÄĒ o dif√≠cil √© interpret√°-las. Porque, por exemplo, uma manifesta√ß√£o conservadora √© sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifesta√ß√Ķes liberais sucede o contr√°rio. A raz√£o √© simples. O temperamento conservador √© naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifesta√ß√£o conservadora vai s√≥ um reduzido n√ļmero da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio ps√≠quico dos liberais √©, ao contr√°rio, expansivo e associador; as manifesta√ß√Ķes dos “avan√ßados” englobam, por isso, os pr√≥prios indiferentes de sa√ļde,

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