Cita√ß√Ķes de Conde de Lautr√©amont

12 resultados
Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Conde de Lautr√©amont para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Presunção e Glória

Somos tão pouco presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos da terra, mesmo das pessoas que vierem quando nós já cá não estivermos. Somos tão pouco vãos que a estima de cinco pessoas, vá lá seis, nos diverte e nos honra.
(…) A mod√©stia √© t√£o natural no cora√ß√£o do homem que um oper√°rio tem o cuidado de n√£o se gloriar e quer ter os seus admiradores. Os fil√≥sofos querem-nos. Os poetas mais do que ningu√©m! Os que escrevem em louvor da gl√≥ria querem ter a gl√≥ria de ter escrito bem. Os que l√™em querem a gl√≥ria de ter lido. Eu, que escrevo isto, glorio-me de ter esse desejo. Aqueles que o lerem h√£o-de gloriar-se tamb√©m.

O Preço da Imagem

N√£o nos contentamos com a vida que temos em n√≥s. Queremos viver na ideia dos outros, de uma vida imagin√°ria. Esfor√ßamo-nos por parecer tais quais somos. Fazemos por conservar aquele ser imagin√°rio, que n√£o √© outro sen√£o o verdadeiro. Se tivermos generosidade, fidelidade, apressamo-nos a n√£o o dar a conhecer, para ligarmos as suas virtudes a esse ser. Somos valentes para adquirir a reputa√ß√£o de que n√£o somos poltr√Ķes. √Č um sinal da capacidade do nosso ser o de n√£o estar satisfeito com uma coisa sem a outra, o de n√£o renunciar nem a uma nem a outra. O homem que n√£o vivesse para conservar a sua virtude seria infame.

O pl√°gio √© necess√°rio. √Č o progresso que o implica. Ele analisa de perto a frase de um autor, serve-se das suas express√Ķes, apaga uma ideia errada, substitui-a pela correcta.

O Amor pela Humanidade Começa

As paix√Ķes diminuem com a idade. O amor, que n√£o deve ser classificado entre as paix√Ķes, diminui da mesma maneira. O que perde por um lado recupera por outro. J√° n√£o √© severo para o objecto dos seus desejos, fazendo justi√ßa a si mesmo: a expans√£o √© aceite. Os sentidos j√° n√£o possuem o seu aguilh√£o para excitar os sexos da carne. O amor pela humanidade come√ßa. Nesses dias em que o homem sente que se torna um altar ornado pelas suas virtudes, feitas as contas de cada dor que se revelou, a alma, num rec√īndito do cora√ß√£o onde tudo parece ter origem, sente qualquer coisa que j√° n√£o palpita. Referi-me √† recorda√ß√£o.

A An√°lise dos Sentimentos

Os sentimentos experimem a felicidade, fazem sorrir. A an√°lise dos sentimentos exprime a felicidade, pondo de parte toda a personalidade; faz sorrir. Aqueles elevam a alma, dependentemente do espa√ßo, do tempo, at√© √† concep√ß√£o da humanidade considerada em si mesma, nos seus membros ilustres! Esta eleva a alma, independentemete do tempo, do espa√ßo, at√© √† concep√ß√£o da humanidade considerada na sua mais alta express√£o, a vontade! Aqueles tratam dos v√≠cios, das virtudes; esta trata apenas das virtudes. Os sentimentos n√£o conhecem a ordem da sua marcha. A an√°lise dos sentimentos ensina a faz√™-la conhecer, aumenta o vigor dos sentimentos. Com eles, tudo √© incerteza. S√£o a express√£o da felicidade e da infelicidade, dois extremos. Com ela, tudo √© certeza. Ela √© a express√£o daquela felicidade que resulta, em determinado momento, de nos sabermos conter no meio das paix√Ķes boas ou m√°s.
Ela utiliza a sua calma para fundir a descri√ß√£o dessas paix√Ķes num princ√≠pio que circula atrav√©s das p√°ginas: a n√£o-exist√™ncia do mal. Os sentimentos choram quando lhes √© preciso, tanto como quando lhes n√£o √©. A an√°lise dos sentimentos n√£o chora. Possui uma sensibilidade latente, que apanha desprevenido, arrasta por cima das mis√©rias, ensina a dispensar guia, fornece uma arma de combate.

Continue lendo…

O Conhecimento da Verdade

Nada √© menos estranho que as contradi√ß√Ķes que se descobrem no homem. Ele √© feito para conhecer a verdade. Procura-a. Quando trata de a agarrar, deslumbra-se e confunde-se de tal maneira que n√£o d√° motivo a que lhe disputem a posse dela. Uns querem arrebatar ao homem o conhecimento da verdade, outros querem garantir-lho. Cada um deles usa motivos t√£o dissemelhantes, que destroem o embara√ßo do homem. N√£o h√° outra luz al√©m da que se encontra na natureza.

O Fim Justifica o Meio

Os meios virtuosos e bonacheir√Ķes n√£o levam a nada. √Č preciso utilizar alavancas mais en√©rgicas e mais s√°bios enredos. Antes de te tornares c√©lebre pela virtude e de atingires o teu objectivo, haver√° cem que ter√£o tempo de fazer piruetas por cima das tuas costas e de chegar ao fim da corrida antes de ti, de tal modo que deixar√° de haver lugar para as tuas ideias estreitas. √Č preciso saber abarcar com mais amplitude o horizonte do tempo presente.
Nunca ouviste falar, por exemplo, da gl√≥ria imensa que as vit√≥rias alcan√ßam? E, no entanto, as vit√≥rias n√£o surgem sozinhas. √Č preciso que o sangue corra, muito sangue, para serem geradas e depostas aos p√©s dos conquistadores. Sem os cad√°veres e os membros esparsos que v√™s na plan√≠cie onde se desenrolou sabiamente a carnificina, n√£o haver√° guerra, e sem guerra n√£o haver√° vit√≥ria. Est√£o a ver que, quando algu√©m se quer tornar c√©lebre, tem que mergulhar graciosamente em rios de sangue, alimentados com carne para canh√£o. O fim justifica o meio.

Divertimento Enganador

Os homens, tendo podido curar-se da morte, da mis√©ria, da ignor√Ęncia, lembraram-se, para se tornarem felizes, de n√£o pensar nisso. Foi tudo quanto inventaram para se consolarem de t√£o poucos males. Consola√ß√£o riqu√≠ssima. N√£o se dirige a curar o mal. Esconde-o por um pouco. Escondendo-o, faz com que se pense em cur√°-lo. Por uma leg√≠tima desordem da natureza do homem, n√£o se acha que o t√©dio, que √© o seu mal mais sens√≠vel, seja o seu maior bem. Pode contribuir mais do que qualquer outra coisa para lhe fazer procurar a sua cura. Eis tudo. O divertimento, que ele olha como o seu maior bem, √© o seu √≠nfimo mal. Aproxima-o, mais do que todas as outras coisas, de procurar o rem√©dio para os seus males. Um e outro s√£o contraprova da mis√©ria, da corrup√ß√£o do homem, excepto da sua grandeza. O homem aborrece-se, procura aquela multid√£o de ocupa√ß√Ķes. Tem a ideia da felicidade que conquistou; felicidade que, encontrando em si, procura nas coisas exteriores. Contenta-se.

Um Estado Desacostumado

N√£o √© imposs√≠vel assistir a um desvio anormal no funcionamento latente ou vis√≠vel das leis da natureza. Efectivamente, se qualquer um se der ao engenhoso trabalho de interrogar as diversas fases da sua exist√™ncia (sem esquecer qualquer delas, porque talvez fosse essa a que estava destinada a fornecer a prova do que afirmo), n√£o ser√° sem um certo espanto, que noutras circunst√Ęncias seria c√≥mico, que se recordar√° de que em determinado dia, para come√ßar a falar de coisas objectivas, foi testemunha de qualquer fen√≥meno que parecia ultrapassar, e positivamente ultrapassava, as no√ß√Ķes conhecidas fornecidas pela observa√ß√£o e pela experi√™ncia, como, por exemplo, as chuvas de sapos, cujo m√°gico espect√°culo n√£o foi a princ√≠pio compreendido pelos s√°bios. E de que, noutro dia, para falar em segundo e √ļltimo lugar de coisas subjectivas, a sua alma apresentou ao olhar investigador da psicologia, n√£o vou ao ponto de dizer uma aberra√ß√£o da raz√£o (que, no entanto, n√£o deixaria de ser curiosa; pelo contr√°rio, ainda o seria mais), mas, pelo menos, para n√£o me fazer rogado perante certas pessoas frias, que nunca perdoariam as locubra√ß√Ķes flagrantes do meu exagero, um estado desacostumado, muitas vezes grav√≠ssimo, que significa que o limite concedido pelo bom-senso √† imagina√ß√£o √©,

Continue lendo…