Passagens sobre Pontos

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Frases sobre pontos, poemas sobre pontos e outras passagens sobre pontos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Homem Que Confessa os Seus Pecados Nunca é o Mesmo Que os Cometeu

Monstro, robot, escravo, ser maldito – pouco importa o termo utilizado para transmitir a imagem da nossa condi√ß√£o desumanizada. Nunca a condi√ß√£o da humanidade no seu conjunto foi t√£o ign√≥bil como hoje. Estamos todos ligados uns aos outros por uma igniminiosa rela√ß√£o de senhor e servo; todos presos no mesmo c√≠rculo vicioso entre julgar e ser julgado; todos empenhados em destruir-nos mutuamente quando n√£o conseguimos impor a nossa vontade. Em vez de sentirmos respeito, toler√Ęncia, bondade e considera√ß√£o, para j√° n√£o falar em amor, uns pelos outros, olhamo-nos com medo, suspeita, √≥dio, inveja, rivalidade e malevol√™ncia. O nosso mundo assenta na falsidade. Seja qual for a direc√ß√£o em que nos aventuremos, a esfera de actividade humana em que nos embrenhemos, n√£o encontramos sen√£o enganos, fraudes, dissimula√ß√£o e hipocrisia.
Conhecer do facto de que, por muito alto que estejam colocados, os homens n√£o conseguem, n√£o ousam, pensar livremente, independentemente, quase desespero de me fazer ouvir. E se falo ainda, se me arrisco a exprimir os meus pontos de vista sobre certas quest√Ķes fundamentais, √© porque estou convencido de que, por muito negro que seja o panorama, uma mudan√ßa dr√°stica √©, n√£o s√≥ poss√≠vel, mas at√© inevit√°vel. Sinto que √© meu direito e meu dever de ser humano promover essa mudan√ßa.

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Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos c√≥micos ou tr√°gicos, porque em ambos os casos, √© dominado pelo esp√≠rito da esp√©cie que o domina ao ponto de o arrancar a si pr√≥prio; os seus actos n√£o correspondem √† sua individualidade. Isto explica, nos n√≠veis superiores do amor, essa natureza t√£o po√©tica e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa eleva√ß√£o transcendente e hiperf√≠sica, que parece faz√™-lo afastar da finalidade meramente f√≠sica do seu amor. √Č porque o impelem ent√£o o g√©nio da esp√©cie e os seus interesses superiores.
Recebeu a miss√£o de iniciar uma s√©rie indefinida de gera√ß√Ķes dotadas de determinadas caracter√≠sticas e constitu√≠das por certos elementos que s√≥ se podem encontrar num √ļnico pai e numa √ļnica m√£e; s√≥ essa uni√£o pode dar exist√™ncia √† gera√ß√£o determinada que a objectiva√ß√£o da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunst√Ęncias de semelhantes transcend√™ncia, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si pr√≥prio, e tranforma-lhe os desejos f√≠sicos numa apar√™ncia de tal modo suprasens√≠vel, que o amor √© um acontecimento po√©tico, mesmo na exist√™ncia do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em rid√≠culo.

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Censura Amiga

A amizade penetra nos menores detalhes da nossa vida, o que torna frequentes as ocasi√Ķes de ofensas e melindres: o s√°bio deve evit√°-las, destru√≠-las ou suport√°-las quando necess√°rio for. A √ļnica ocasi√£o em que n√£o devemos deixar de ofender um amigo, √© quando se trata de lhe dizer a verdade e de lhe provar assim a nossa fidelidade. Porque n√£o devemos deixar de sobreavisar os nossos amigos, ainda quando se trate de os repreender. E n√≥s mesmos devemos levar isto em boa vontade, quando tais repreens√Ķes s√£o ditadas pelo bem querer.
Todavia, sou for√ßado a confess√°-lo, como disse o nosso Ter√™ncio no seu Adriana: ¬ęA benevol√™ncia gera a amizade; a verdade, o √≥dio¬Ľ. Sem d√ļvida a verdade √© molesta se produz o √≥dio, este veneno da amizade. Mas a magnanimidade √©-o ainda mais, porque para a indulg√™ncia culp√°vel, pelas faltas de um amigo, ela deixa-o precipitar-se nas suas ru√≠nas. Mas a falta mais grave √© a que despreza a verdade e se deixa conduzir ao mal pela adula√ß√£o. Este ponto reclama toda a nossa vigil√Ęncia e aten√ß√£o. Afastemos o √°cido das nossas advert√™ncias, a inj√ļria dos nossos reproches; que a nossa complac√™ncia (sirvo-me volunt√°rio da express√£o de Ter√™ncio) seja farta de urbanidade;

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Tremo Sempre Diante do Amor

Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no √ļltimo momento te pedi o n√ļmero do telefone e este endere√ßo de correio eletr√≥nico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido tamb√©m da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. H√°-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode at√© acontecer que j√° fa√ßam parte da tua biblioteca h√° anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde est√°s sentada enquanto me l√™s; e tamb√©m pode acontecer, na realidade n√£o me admiraria nada, que seja eu quem n√£o os tem nem os teve nunca. Durante o jantar n√£o conseguia tirar os olhos de ti, mas isso j√° tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, n√£o se tenham apercebido de at√© que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho j√° um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso n√£o fa√ßa com que seja mais f√°cil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto √© uma carta, n√£o √© verdade?

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Os Exemplos são Guias que nos Desencaminham com Frequência

Seja qual for a diferen√ßa que exista entre os bons e os maus exemplos, convenhamos que ambos d√£o mau resultado. Nem sequer sei se os crimes de Tib√©rio ou de Nero nos afastam mais dos v√≠cios do que os exemplos paradigm√°ticos dos grandes homens que supostamente nos encaminham para a virtude. Veja-se como a valentia de Alexandre produziu gabarolas! Veja-se at√© que ponto a gl√≥ria de C√©sar permitiu actos antip√°ticos! Repare-se como Roma e Esparta louvaram virtudes selvagens! Di√≥genes criou tantos fil√≥sofos importunos, C√≠cero citou tagarelas, Pomp√≥nio √Ātico citou pessoas med√≠ocres e pregui√ßosas, M√°rio e Sila, pessoas vingativas, Lucullus, pessoas voluptuosas, Alcib√≠ades e Ant√≥nio citaram debochados e Cap√£o citou pessoas teimosas! Todos estes famosos prot√≥tipos produziram um n√ļmero enorme de m√°s reprodu√ß√Ķes. As virtudes s√£o vizinhas dos v√≠cios. Os exemplos s√£o guias que nos desencaminham com frequ√™ncia e, como estamos t√£o cheios de mentiras, n√£o deixamos de us√°-las tanto para nos afastarmos do caminho da virtude como para segui-lo.

O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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O Mal Saltitante

A morte √© apenas uma consequ√™ncia da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensa√ß√£o em sensa√ß√£o. Os nossos pensamentos e as nossas sensa√ß√Ķes n√£o correm tranquilamente como um rio, ¬ęocorrem-nos¬Ľ, caem em n√≥s como pedras. Se te observares bem, sentir√°s que a alma n√£o √© algo que vai mudando de cor em grada√ß√Ķes progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensa√ß√£o, e no seguinte aparece outro, diferente, como que sa√≠do do nada. Se deres aten√ß√£o, at√© podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, √© para n√≥s o mesmo que a morte.
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. √Č por isso que temos esse medo rid√≠culo da morte irrevers√≠vel, porque ela √©, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insond√°vel em que ca√≠mos. Na verdade, ela √© a nega√ß√£o absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida,

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A Morte que Trazemos no Coração

√Č no cora√ß√£o que morremos. √Č a√≠ que a morte habita.

Nem sempre nos damos conta que a carregamos connosco, mas, desde que somos vida, ela segue-nos de perto. Enquanto n√£o somos tomados pela nossa, vamos assistindo e sentindo, em ritmo crescente ao longo da vida, √†s mortes de quem nos √© querido. A morte de um amigo √© como uma amputa√ß√£o: perdemos uma parte de n√≥s; uma fonte de amor; algu√©m que dava sentido √† nossa exist√™ncia… porque despertava o amor em n√≥s.

Mas não há sabedoria alguma, cultura ou religião, que não parta do princípio de que a realidade é composta por dois mundos: um, a que temos acesso direto e, outro, que não passa pelos sentidos, a ele se chega através do coração. Contudo, o visível e o invisível misturam-se de forma misteriosa, ao ponto de se confundirem e, como alguns chegam a compreender, não serem já dois mundos, mas um só.
Só as pessoas que amamos morrem. Só a sua morte é absoluta separação. Os estranhos, com vidas com as quais não nos cruzamos, não morrem, porque, para nós, de facto, não chegam sequer a ser.

Só as pessoas que amamos não morrem.

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EU te amo geometricamente e ponto zero no horizonte formando tri√Ęngulo contigo. O resultado √© um perfume de rosas maceradas.

Alma Humana, Formada de Coisa Nenhuma

Anjo:

Alma humana, formada
de nenh√ľa cousa, feita
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela fr√°goa perfeita,
gloriosa;
planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas,
e pera serdes tresposta
em a alta costa
onde se criam primores
mais que rosas;

planta sois e caminheira,
que ainda que estais, vos is
donde viestes.
Vossa p√°tria verdadeira
é ser herdeira
da glória que conseguis:
andai prestes.
Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
n√£o durmais;
um ponto n√£o esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.

(…)

Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela [Alma], e diz o Diabo:

Tão depressa, ó delicada,
alva pomba, pera onde is?
Quem vos engana,
e vos leva t√£o cansada
por estrada,
que somente n√£o sentis
se sois humana?
N√£o cureis de vos matar,
que ainda estais em idade
de crecer.
Tempo h√° i pera folgar
e caminhar…
Vivei à vossa vontade,

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O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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O Valor dado pela Vaidade

A fortuna nos disp√Ķe para a alegria, mas n√£o √© s√≥ o que causa; a desgra√ßa conduz para a tristeza, por√©m n√£o √© s√≥, o que a motiva; antes parece que h√° uma certa por√ß√£o de alegria, e de tristeza, que h√°-de passar por n√≥s precisamente; a fortuna, e a desgra√ßa n√£o a produz, s√≥ a desperta. Tudo nos √© dado como por conta: a vida, a fortuna, a desgra√ßa, a alegria, e a tristeza; em tudo h√° um ponto certo, e fixo; a vaidade que governa todas as paix√Ķes, em umas aumenta a actividade, em outras diminui; e todas recebem o valor, que a vaidade lhes d√°.
Estamos no mundo para ser alvos do tempo; e deste todas as mudanças não se dirigem a nós, dirigem-se à nossa vaidade: os sucessos fazem efeito em nós, porque primeiro o fazem na nossa vaidade; de sorte que um homem sem vaidade seria o mesmo que um homem insensível; o prazer, e o desgosto, que não vêm das primeiras leis da natureza, são vãos em si mesmos, de instituição política, e unicamente criadoras de vaidade.

Coerção e Autocoerção

Os casos e acontecimentos que nos dizem respeito aparecem e entrecruzam-se isoladamente, sem ordem nem rela√ß√£o uns com os outros, no mais vivo contraste e sem nada em comum, a n√£o ser justamente o facto de se relacionarem connosco. Dessa maneira, para corresponder a esses casos e acontecimentos, os nossos pensamentos e cuidados t√™m igualmente de estar desligados uns dos outros. Como consequ√™ncia, quando empreendemos algo, temos de nos abstrair de tudo o resto, para ent√£o tratar cada coisa a seu tempo, fru√≠-la e senti-la, sem demais preocupa√ß√Ķes. Precisamos ter, por assim dizer, compartimentos para os nossos pensamentos e abrir apenas um deles, enquanto os outros permanecem fechados. Desse modo, conseguimos impedir que uma preocupa√ß√£o muito grave roube cada pequeno prazer do presente, despojando-nos de toda a tranquilidade.
Conseguimos ainda fazer com que uma pondera√ß√£o n√£o reprima a outra, que a preocupa√ß√£o com um caso importante n√£o produza a neglig√™ncia de muitos de menor relev√Ęncia, e assim por diante. Mas sobretudo o homem capaz de considera√ß√Ķes elevadas e nobres nunca pode deixar o seu esp√≠rito ser totalmente possu√≠do e absorvido por casos pessoais e preocupa√ß√Ķes triviais, a ponto de impedir o acesso √†s altas considera√ß√Ķes, pois isso, de facto,

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Nunca aguento muito tempo numa casa. Passado uns tempos, come√ßo a ficar cansado. N√£o sei o que √© e, sobretudo, n√£o sei at√© que ponto √© que quando estou a dizer que estou farto desta casa, n√£o posso estar a dizer ‘estou farto de mim’.

O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

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A Ilusão da Consistência da Obra do Escritor

O homem n√£o √© permanentemente igual a si mesmo. A velha concep√ß√£o dos car√°cteres rectil√≠neos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imut√°veis abriu fal√™ncia. Tudo muda, no espa√ßo e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista som√°tico – √© transformar-se. Quando come√ßamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, n√£o h√° um n√≥s apenas um escritor; h√°, ou houve, escritores sucessivos, m√ļltiplos e diversos, representando estados de evolu√ß√£o da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabiliza√ß√£o se opera, olhamos para tr√°s, e muitas das nossas pr√≥prias obras parecem-nos escritas por um estranho, t√£o longe se encontram j√°, n√£o apenas dos nossos processos liter√°rios, mas do nosso esp√≠rito, das nossas tend√™ncias, da nossa orienta√ß√£o, dos nossos pontos de vista √©ticos e est√©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos Рobras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixão -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vícios da linguagem, as carências da técnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audácias, as incoerências, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.

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