Textos sobre Cobardia

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Textos de cobardia escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Preguiça como Obstáculo à Liberdade

A pregui√ßa e a cobardia s√£o as causas por que os homens em t√£o grande parte, ap√≥s a natureza os ter h√° muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e tamb√©m por que a outros se torna t√£o f√°cil assumirem-se como seus tutores. √Č t√£o c√≥modo ser menor.
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar.

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A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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A Tranquilidade do Assumir da Nossa Condição

Temos pelos nobres e para as pessoas de destaque um c√≠ume est√©ril, ou um √≥dio impotente que n√£o nos vinga de seu esplendor e eleva√ß√£o, e s√≥ faz acrescentar √† nossa pr√≥pria mis√©ria o peso insuport√°vel da felicidade alheia: que fazer contra uma doen√ßa de alma t√£o inveterada e contagiosa? Contentemo-nos com pouco e com menos ainda, se poss√≠vel; saibam perder na ocasi√£o; a receita √© infal√≠vel, e concordo em experiment√°-la: evito com isso ser empurrado na porta pela multid√£o de clientes ou cortes√£os que a casa de um ministro despeja diversas vezes por dia; penar na sala de audi√™ncia, pedir tremendo ou balbuciando uma coisa justa; suportar a gravidade do ministro, o seu riso amargo, e o seu laconismo. Ent√£o n√£o o odeio mais, e n√£o o invejo mais; ele n√£o me faz nenhuma s√ļplica, eu n√£o lhe fa√ßo nenhuma; somos iguais, a n√£o ser no facto dele n√£o estar tranquilo, e eu estar.
(…) Deve-se silenciar sobre os poderosos; h√° quase sempre adula√ß√£o ao dizer bem deles; h√° perigo em dizer mal enquanto vivem, e cobardia quando j√° morreram.

A Cobardia como Pilar da Civilização

Costuma-se jogar na cara dos marxistas, com a sua concep√ß√£o materialista da Hist√≥ria, que eles subestimam certas qualidades espirituais do homem que n√£o dependem de quanto ele ganhe ou deixe de ganhar. O argumento √© o de que essas qualidades colorem as aspira√ß√Ķes e actividades do homem civilizado tanto quanto s√£o coloridas pela sua condi√ß√£o material, tornando assim imposs√≠vel simplesmente
reduzir o homem a uma m√°quina econ√≥mica. Como exemplos, os antimarxistas citam o patriotismo, a piedade, o senso est√©tico e a vontade de conhecer Deus. Infelizmente, os exemplos s√£o mal escolhidos. Milh√Ķes de homens n√£o ligam para o patriotismo, a piedade ou o senso est√©tico, n√£o t√™m o menor interesse activo em conhecer Deus. Por que √© que os antimarxistas n√£o citam uma qualidade espiritual que seja verdadeiramente universal? Pois aqui vai uma. Refiro-me √† cobardia. De uma forma ou de outra, ela √© vis√≠vel em todo o ser humano; serve tamb√©m para separar o homem de todos os outros animais superiores. A cobardia, acredito, est√° na base de todo o sistema de castas e na forma√ß√£o de todas as sociedades organizadas, inclusive as mais democr√°ticas. Para escapar de ir √† guerra ele pr√≥prio, o campon√™s deva de m√£o beijada certos privil√©gios aos guerreiros ‚Äď e destes privil√©gios brotou toda a estrutura da civiliza√ß√£o.

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As Obras e os Mistérios do Amor

Quem ama não sente o amor no seu coração. Vive no coração do amor. O amor que nos oferece os sonhos mais belos e nos faz voar, é o mesmo que nos crava os espinhos mais duros na carne e se faz mar nas nossas lágrimas.

O amor faz o que quer, onde e quando alguém o aceita. Não tem outras mãos ou olhos senão os nossos. A força do amor é aquela de que nós formos capazes. Por isso, amar é, antes de tudo, aceitar.

Há quem entregue a sua vida por amor. Quem se abandone a si mesmo, deixando para trás aquilo que outros julgam ser o seu maior tesouro… A vida é para amar, quem não ama, apenas sobrevive.
H√° quem morra por amor. Mas esta vida √© apenas um peda√ßo de outra, maior, que s√≥ √© vivida pelos que tiverem a coragem imprudente de ser luz e calor na vida de algu√©m, aceitando-o como √©… e como quer ser. Sem o julgar. Respeitando sempre os seus espa√ßos e os seus tempos, o seu passado e o seu futuro. Amar √© corrigir e ajudar quem se ama a ser melhor, mas n√£o o obrigando aos nossos pensamentos e sentimentos,

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Entender os Nossos Impulsos

O dom√≠nio de si pr√≥prio, embora eu n√£o negue de forma alguma a sua necessidade em muitas circunst√Ęncias, n√£o √© a melhor forma de conseguir que um ser humano se conduza bem. Tem o inconveniente de diminuir a energia e as faculdades criadoras. √Č como uma pesada armadura que ao mesmo tempo que impede o vosso bra√ßo de bater nos vossos vizinhos, o torna igualmente incapaz de um movimento √ļtil. Os que n√£o t√™m outro apoio al√©m da disciplina que se imp√Ķem a si pr√≥prios, tornam-se obstinados e timoratos com receio de si pr√≥prios.
Mas os impulsos aos quais eles não permitem qualquer saída, continuam a existir neles a tal como os rios represados, cedo ou tarde transbordarão. As forças a que nós contrariamos a função natural que é o desabrochar da nossa própria vida, ou se atrofiam ou acabam por ter uma saída perturbando a vida de outrem. Elas procurarão qualquer saída do género das que não representam nenhum perigo para nós, por exemplo, a tirania doméstica. Se essa saída não for suficiente, há outras que o podem ser. Há sempre condenados e párias a quem a sociedade permite torturar e isso não comporta nenhum risco.
Esses p√°rias,

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A Sa√ļde da Alma

A c√©lebre forma de medicina moral (a de Ar√≠ston de Chios), ¬ęa virtude √© a sa√ļde da alma¬Ľ, deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utiliz√°vel: ¬ęA tua virtude √© a sa√ļde da tua alma¬Ľ. Porque em n√≥s n√£o existe qualquer sa√ļde, e todas as experi√™ncias que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conhe√ßa o seu objectivo, o seu horizonte, as suas for√ßas, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a sa√ļde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, in√ļmeras sa√ļdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indiv√≠duo, a quem n√£o podemos comparar-nos, que levante a cabe√ßa, mais se desaprender√° o dogma da ¬ęigualdade dos homens¬Ľ, mais necess√°rio ser√° que os nossos m√©dicos percam a no√ß√£o de uma sa√ļde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doen√ßa. Ser√° s√≥ ent√£o que se poder√° talvez reflectir na sa√ļde e na doen√ßa da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta sa√ļde, que corre muito o risco de ser num o contr√°rio do que sucede com outro. Restar√° a grande quest√£o de saber se podemos dispensar a doen√ßa,

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A Vaidade Deforma a Alegria e a Tristeza

As virtudes humanas muitas vezes se comp√Ķem de melancolia, e de um retiro agreste. As mais das vezes √© humor o que julgamos raz√£o; √© temperamento o que chamamos desengano; e √© enfermidade o que nos parece virtude. Tudo s√£o efeitos da tristeza; esta obriga-nos a seguir os partidos mais violentos, e mais duros; raras vezes nos faz reflectir sobre o passado, qu√°si sempre nos ocupa em considerar futuros; por isso nos infunde temor, e cobardia, na incerteza de acontecimentos felizes, ou infaustos; e verdadeiramente a alegria nos governa em forma, que seguimos como por for√ßa os movimentos dela; e do mesmo modo os da tristeza.
Um √Ęnimo alegre disfar√ßa mal o riso, um cora√ß√£o triste encobre mal o seu desgosto: como h√°-de chorar quem est√° contente? E como h√°-de rir quem est√° triste? Se alguma vez se chora donde s√≥ se deve rir, ou se ri por aquilo por que se deve chorar, a alma ent√£o penetrada de dor, ou de prazer, desmente aquele exterior fingido, e falso. S√≥ a vaidade sabe transformar o gosto em dor, e esta em prazer, a alegria em tristeza, e esta em contentamento; por isso as feridas n√£o se sentem, antes lisonjeiam,

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O que é Dar a Vida?

Dar a vida √© amar. Abdicar de si… em favor de um outro. Vencer ego√≠smos e medos com a convic√ß√£o de que dar-se nunca √© um excesso nem uma cobardia.

Dar a vida √© perder-se para se encontrar. Entregar-se para se receber‚Ķ √Č aparecer, sair de si at√© ao ponto de se poder ver bem diante dos pr√≥prios olhos.

Dar a vida é vivê-la tal como ela é na essência: generosa! Ser mais vida na vida de outro alguém. Cuidar da existência do outro com a sua… dar a vida é ser outro. Melhor. Muito.
Dar a vida √© ser um sorriso apenas com um olhar. √Č oferecer l√°grimas a quem j√° perdeu as suas. Ser um sil√™ncio onde h√° paz‚Ķ e uma melodia que revela que o melhor do mundo repousa em n√≥s‚Ķ √† espera de n√≥s.

Dar a vida √© reconhecer a beleza que h√° neste mundo. No outro e no mundo do outro. √Č contribuir para o equil√≠brio e ficar em harmonia‚Ķ com tudo e com cada coisa, compreendendo que a verdadeira alegria √© a coisa mais s√©ria da vida.

Dar a vida é guardar-se para o momento oportuno,

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A Verdadeira Generosidade

Observo em n√≥s apenas uma √ļnica coisa que nos pode dar justa raz√£o para nos estimarmos, a saber: o uso do nosso livre-arb√≠trio e o dom√≠nio que temos sobre as nossas vontades. Pois as ac√ß√Ķes que dependem desse livre-arb√≠trio s√£o as √ļnicas pelas quais podemos com raz√£o ser louvados ou censurados, e ele torna-nos de alguma forma semelhante a Deus ao fazer-nos senhores de n√≥s mesmos, desde que por cobardia n√£o percamos os direitos que nos d√°.
Assim, creio que a verdadeira generosidade, que faz um homem estimar-se a si mesmo no mais alto grau em que pode legitimamente estimar-se, consiste somente, por uma parte, em que ele sabe que não há algo que realmente lhe pertença a não ser essa livre disposição das suas vontades, nem por que ele deva ser louvado ou censurado a não ser porque faz bom ou mau uso dela; e, por outra parte, em que ele sente em si mesmo uma firme e constante resolução de fazer bom uso dela, isto é, de nunca deixar de ter vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar serem as melhores. Isso é seguir perfeitamente a virtude.

Nota: O latim generosus designa o homem ou animal que é de boa raça.

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Vícios de Corpo e Alma

Se descobrires em ti um ponto fraco, em vez de o dissimulares reduz-te √†s tuas pr√≥prias dimens√Ķes e corrige-te. Ah!, se a alma tivesse de combater s√≥ o corpo ?! Porque ela tamb√©m tem as suas inclina√ß√Ķes viciosas e √© necess√°rio que uma das suas partes – a mais pequena, mas ao mesmo tempo a mais divina – combata a outra, sem cessar. Todas as paix√Ķes do corpo s√£o vis. As da alma, que s√£o vis, tornam-se verdadeiros cancros: a inveja, etc. A cobardia √© t√£o vil que deve ser comum a ambos.

Os Piores Inimigos

Os teus piores inimigos não são de modo nenhum aqueles que têm um ponto de vista diferente do teu; são, pelo contrário, aqueles que têm o mesmo mas que, por diversos motivos, prudência, desejo de ter razão, cobardia, estão impedidos de a ele aderir.

Saber Zangar-se

O que me parece √© que as pessoas, em geral, como que deixaram de saber zangar-se. Deixaram de saber zangar-se com aquilo que consideram errado ‚Äď e, pior ainda, deixaram de saber diz√™-lo na cara umas das outras. A n√£o ser, naturalmente, que haja uma agenda.

Ainda nos zangamos muito, √© verdade. Mas zangamo-nos mal. Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstractos, como ¬ęo Governo¬Ľ, ¬ęo capitalismo selvagem¬Ľ ou mesmo apenas ¬ęa crise¬Ľ. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho e na vida em geral (afinal, os nossos ¬ęsuperiores¬Ľ acabam de p√īr-nos a pata em cima. algu√©m vai ter de pagar a conta). Com aqueles que est√£o, de alguma forma, em ascendente sobre n√≥s, j√° n√£o nos zangamos: amuamos, que √© a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente n√£o dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado est√°, afinal, um pobre diabo, t√£o pobre que nem sequer merece uma zanga ‚Äď e, quando enfim nos zangamos, √© para dar-lhe um tiro na cabe√ßa, como todos os dias nos mostram os jornais.

A impress√£o com que eu fico √© que tudo isto vem dessa mania das social skills e do team building e dos demais chav√Ķes moderninhos que os gurus dos livros de Economia nos enfiaram pela garganta abaixo,

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A Não-Violência e a Cobardia não Têm nada a Ver uma com a outra

A n√£o-viol√™ncia e a cobardia n√£o t√™m nada a ver uma com a outra. Acredito que um homem armado dos p√©s √† cabe√ßa seja um cobarde no seu cora√ß√£o. A posse de armas pressup√Ķe um factor de medo, para n√£o dizer de cobardia. Mas a verdadeira n√£o-viol√™ncia √© imposs√≠vel sem a posse de uma aut√™ntica aus√™ncia de medo. (…) A n√£o-viol√™ncia nunca deveria ser utilizada como escudo da cobardia. √Č uma arma destinada aos valentes.

(…) A prova de fogo da n√£o-viol√™ncia est√° em n√£o deixar para tr√°s nenhum tipo de rancor durante um conflito n√£o-violento e, no final, em fazer com que os inimigos se convertam em amigos.

A Acção Mais Degradada

A ac√ß√£o mais degradada √© a daquele que n√£o age e passa procura√ß√£o a outrem para agir – a dos frequentadores dos espect√°culos de luta e a dos consumidores da literatura de viol√™ncia. Ser her√≥i e atrav√©s de outrem, ser corajoso em imagina√ß√£o, √© o limite extremo da ac√ß√£o gratuita, do orgulho ou da vaidade que n√£o ousa. Corre-se o risco sem se correr, experi¬≠menta-se como se se experimentasse, colhe-se o prazer do triunfo sem nada arriscar. E √© por isso que os fIlmes de guerra, do hero√≠smo policial, de espionagem, t√™m de acabar bem. Por¬≠que o que a√≠ se procura √© justamente o sabor do triunfo e n√Ęo apenas do risco. O gosto do risco procura-o o her√≥i real, o jogador que pode perder. Mas o espectador da sua luta, degra¬≠dado na sedu√ß√£o da ac√ß√£o, acentua a sua mediocridade no n√£o poder aceitar a derrota, no fingir que corre o risco mesmo em fic√ß√£o, mas com a certeza pr√©via de que o risco √© vencido. O que ele procura √© a pequena lisonja √† sua vaidade pequena, a figura√ß√£o da coragem para a sua cobardia, e s√≥ a vit√≥ria do her√≥i a quem passou procura√ß√£o o pode lisonjear.
E se o herói morre em grandeza,

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Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

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Quem Aprendeu a Morrer Desaprendeu de Servir

Os homens v√£o, v√™m, andam, dan√ßam, e nenhuma not√≠cia de morte. Tudo isso √© muito bonito. Mas, tamb√©m quando ela chega, ou para eles, ou para as suas mulheres, filhos e amigos, surpreendendo-os imprevistamente e sem defesa, que tormentos, que gritos, que dor e que desespero os abatem! J√° vistes algum dia algo t√£o rebaixado, t√£o mudado, t√£o confuso? √Č preciso preparar-se mais cedo para ela; e essa despreocupa√ß√£o de animal, caso pudesse instalar-se na cabe√ßa de um homem inteligente, o que considero inteiramente imposs√≠vel, vende-nos caro demais a sua mercadoria. Se fosse um inimigo que pud√©ssemos evitar, eu aconselharia a adoptar as armas da cobardia. Mas, como isso n√£o √© poss√≠vel, como ele vos alcan√ßa fugitivo e poltr√£o tanto quanto corajoso, De facto ele persegue o cobarde que lhe foge, e n√£o poupa os jarretes e o dorso poltr√£o de uma juventude sem coragem (Hor√°cio), e que nenhuma ilus√£o de coura√ßa vos encobre, In√ļtil esconder-se prudentemente sob o ferro e o bronze: a morte saber√° fazer-se exp√īr √† cabe√ßa que se esconde (Prop√©rcio), aprendamos a enfrent√°-lo de p√© firme e a combat√™-lo. E, para come√ßar a roubar-lhe a sua maior vantagem contra n√≥s, tomemos um caminho totalmente contr√°rio ao habitual.

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A Amizade Exercita-se

√Č um erro desejar ser compreendido antes de se ser elucidado por si mesmo a seus pr√≥prios olhos. √Č procurar prazeres na amizade, e n√£o m√©ritos. √Č qualquer coisa de mais corruptor ainda do que o amor. Venderias a tua alma por amor.
Aprende a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade √© um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. √Č preciso recus√°-la para se ser digno de a receber: ela √© da categoria da gra√ßa (¬ęMeu Deus, afastai-vos de mim…¬Ľ). √Č dessas coisas que s√£o dadas por acr√©scimo. Toda a ilus√£o de amizade merece ser destru√≠da. N√£o √© por acaso que nunca foste amado… Desejar escapar √† solid√£o √© uma cobardia. A amizade n√£o se procura, n√£o se imagina, n√£o se deseja; exercita-se (√© uma virtude). Abolir toda esta margem de sentimento, impura e enevoada. Schluss!
Ou melhor (pois n√£o √© necess√°rio desbastar-se a si mesmo rigorosamente), tudo o que, na amizade, n√£o passe por altera√ß√Ķes efectivas deve passar por pensamentos ponderados. √Č absolutamente in√ļtil privar-se da virtude inspiradora da amizade. O que deve ser severamente proibido, √© sonhar com os prazeres do sentimento.

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