Textos sobre Transformação

31 resultados
Textos de transformação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Inconst√Ęncia no Amor e na Amizade

N√£o pretendo justificar aqui a inconst√Ęncia em geral, e menos ainda a que vem s√≥ da ligeireza; mas n√£o √© justo imputar-lhe todas as transforma√ß√Ķes do amor. H√° um encanto e uma vivacidade iniciais no amor que passa insensivelmente, como os frutos; n√£o √© culpa de ningu√©m, √© culpa exclusiva do tempo. No in√≠cio, a figura √© agrad√°vel, os sentimentos relacionam-se, procuramos a do√ßura e o prazer, queremos agradar porque nos agradam, e tentamos demonstrar que sabemos atribuir um valor infinito √†quilo que amamos; mas, com o passar do tempo, deixamos de sentir o que pens√°vamos sentir ainda, o fogo desaparece, o prazer da novidade apaga-se, a beleza, que desempenha um papel t√£o importante no amor, diminui ou deixa de provocar a mesma impress√£o; a designa√ß√£o de amor permanece, mas j√° n√£o se trata das mesmas pessoas nem dos mesmos sentimentos; mant√™m-se os compromissos por honra, por h√°bito e por n√£o termos a certeza da nossa pr√≥pria mudan√ßa.
Que pessoas teriam começado a amar-se, se se vissem como se vêem passados uns anos? E que pessoas se poderiam separar se voltassem a ver-se como se viram a primeira vez? O orgulho, que é quase sempre senhor dos nossos gostos,

Continue lendo…

O Delírio pelo Isolamento e pelo Convívio

O eremita volta as costas a este mundo; n√£o quer ter nada a ver com ele. Mas podemos fazer mais do que isso; podemos tentar recri√°-lo, tentar construir um outro em vez dele, no qual os componentes mais insuport√°veis s√£o eliminados e substitu√≠dos por outros que correspondam aos nossos desejos. Quem por desespero ou desafio parte por este carninho, por norma, n√£o chegar√° muito longe; a realidade ser√° demasiado forte para ele. Torna-se louco e normalmente n√£o encontra ningu√©m que o ajude a levar a cabo o seu del√≠rio. Diz-se contudo, que todos n√≥s nos comportamos em alguns aspectos como paran√≥icos, substituindo pela satisfa√ß√£o de um desejo alguns aspectos do mundo que nos s√£o insuport√°veis transportando o nosso del√≠rio para a realidade. Quando um grande n√ļmero de pessoas faz esta tentativa em conjunto e tenta obter a garantia de felicidade e protec√ß√£o do sofrimento atrav√©s de uma transforma√ß√£o ilus√≥ria da realidade, adquire um significado especial. Tamb√©m as religi√Ķes devem ser classificadas como del√≠rios em massa deste g√©nero. Escusado ser√° dizer que ningu√©m que participa num del√≠rio o reconhece como tal.

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

Continue lendo…

A Preguiça como Obstáculo à Liberdade

A pregui√ßa e a cobardia s√£o as causas por que os homens em t√£o grande parte, ap√≥s a natureza os ter h√° muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e tamb√©m por que a outros se torna t√£o f√°cil assumirem-se como seus tutores. √Č t√£o c√≥modo ser menor.
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar.

Continue lendo…

Narcisimo Passado e Futuro

Ninguém se trocaria por um dos seus semelhantes, mas todos se trocariam pelo seu sonho. Porque o homem quer conquistar, mas sem deixar de se possuir. Deseja a continuidade do eu e, juntamente, a sua metamorfose Рpretensão contraditória que constitui um dos episódios do eterno automatismo.
O homem ama-se e desama-se. Diante dos outros, mostra-se quase sempre satisfeito consigo – com medo de ser ultrapassado ou emulado -, mas quando est√° s√≥ com o seu eu, experimenta um t√©dio, uma repulsa, uma repugn√Ęncia, que em regra se transformam em desejo de transforma√ß√£o. Nem todos s√£o capazes de se contemplar sem adula√ß√£o at√© √†s √ļltimas ra√≠zes e reconhecer, ainda que no sigilo da alma, a sua mis√©ria, mas quase todos t√™m a sua sensa√ß√£o e, com frequ√™ncia, a certeza – o t√©dio de si pode notar-se mesmo sem as formas do ju√≠zo. E os outros instintos – soberba, gula do mais e do novo – ajudam a desejar a mudan√ßa. Existe com frequ√™ncia em n√≥s o narcisismo, mas o espelho √© sempre colocado no passado e no futuro – no presente, nunca.

Instinto de Rebanho

Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avalia√ß√£o e uma classifica√ß√£o hier√°rquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classifica√ß√Ķes e essas avalia√ß√Ķes s√£o sempre a express√£o das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: √© aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe √© √ļtil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve tamb√©m de medida suprema do valor de qualquer indiv√≠duo. A moral ensina a este a ser fun√ß√£o do rebanho, a s√≥ atribuir valor em fun√ß√£o deste rebanho. Variando muito as condi√ß√Ķes de conserva√ß√£o de uma comunidade para outra, da√≠ resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transforma√ß√Ķes essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades s√£o ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haver√° ainda morais muito divergentes. A moralidade √© o instinto greg√°rio no indiv√≠duo.

Ideias de Esquerda

Nunca disse que a esquerda era definitivamente est√ļpida, disse, sim, que agora mesmo n√£o vejo nada mais est√ļpido que a esquerda. Porqu√™? Porque h√° mais de cinquenta anos que n√£o produz uma √ļnica ideia que se diga de esquerda, porque, at√© quando parecia t√™-las, n√£o estava a fazer mais que remastigar ideias do passado sem se dar ao trabalho elementar de as fazer viver sob a luz da actualidade e das suas transforma√ß√Ķes. A esquerda tamb√©m √© est√ļpida porque √© incapaz de resistir √† tenta√ß√£o m√≥rbida que a leva a dividir-se e a subdividir–se sem parar.

A Luta do Antigo e do Novo

√Č sempre igual a luta do que √© antigo, do que j√° existe e procura subsistir, contra o desenvolvimento, a forma√ß√£o e a transforma√ß√£o. Toda a ordem acaba por dar origem √† pedanteria e para nos libertarmos dela destr√≥i-se a ordem. Depois, demora sempre algum tempo at√© que se ganhe consci√™ncia de que √© preciso voltar a estabelecer uma ordem. O cl√°ssico face ao rom√Ęntico, a obriga√ß√£o corporativa face √† liberdade profissional, o latif√ļndio face √† pulveriza√ß√£o da propriedade fundi√°ria: o conflito √© sempre o mesmo e h√°-de sempre dar origem a um novo conflito. Deste modo, a maior prova de entendimento por parte do governante seria regular essa luta de tal maneira que, sem preju√≠zo de cada uma das partes, conseguisse manter-se equidistante.
√Č, no entanto, uma possibilidade que n√£o foi dada aos homens, e Deus n√£o parecer querer que assim aconte√ßa.

A Cautela dos Espíritos Livres

Os homens de esp√≠rito livre, que vivem s√≥ para o conhecimento, em breve achar√£o ter alcan√ßado a sua definitiva posi√ß√£o relativamente √† sociedade e ao Estado e, por exemplo, dar-se-√£o de bom grado por satisfeitos com um pequeno emprego ou com uma fortuna que chega √† justa para viver; pois arranjar-se-√£o para viver de maneira que uma grande transforma√ß√£o dos bens materiais, at√© mesmo um derrube da ordem pol√≠tica, n√£o deite tamb√©m abaixo a sua vida. Em todas essas coisas eles gastam a menor energia poss√≠vel, de modo a poderem imergir, com todas as for√ßas reunidas e, por assim dizer, com um grande f√īlego, no elemento do conhecimento. Podem, assim, ter esperan√ßa de mergulhar profundamente e tamb√©m de, talvez, verem bem at√© ao fundo.
De um dado acontecimento, um tal esp√≠rito pegar√° de bom grado s√≥ numa ponta: ele n√£o gosta das coisas em toda a sua amplitude e superabund√Ęncia das suas pregas, pois n√£o se quer emaranhar nelas. Tamb√©m ele conhece os dias de semana da falta de liberdade, da depend√™ncia, da servid√£o. Mas, de tempos a tempos, tem de lhe aparecer um domingo de liberdade, sen√£o ele n√£o suportar√° a vida. √Č prov√°vel que mesmo o seu amor pelos seres humanos seja cauteloso e com pouco f√īlego,

Continue lendo…

Utopia

Uma utopia √© mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade n√£o ser uma realidade significa apenas que as circunst√Ęncias com as quais a primeira est√° articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais n√£o seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas depend√™ncias e puder desenvolver-se, nasce a utopia. √Č um processo semelhante √†quele que se verifica quando um investigador observa a transforma√ß√£o de um elemento num composto para da√≠ tirar as suas conclus√Ķes. A utopia √© a experi√™ncia na qual se observam a possibilidade de transforma√ß√£o de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fen√≥meno composto a que chamamos vida.

A Avaliação de uma Civilização

Quando j√° se viveu por muito tempo numa civiliza√ß√£o espec√≠fica e com frequ√™ncia se tentou descobrir quais foram as suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se √†s vezes tentado a voltar o olhar para outra dire√ß√£o e indagar qual o destino que a espera e quais as transforma√ß√Ķes que est√° fadada a experimentar. Logo, por√©m, se descobre que, desde o in√≠cio, o valor de uma indaga√ß√£o desse tipo √© diminu√≠do por diversos fatores, sobretudo pelo facto de apenas poucas pessoas poderem abranger a actividade humana em toda a sua amplitude. A maioria das pessoas foi obrigada a restringir-se a somente um ou a alguns dos seus campos. Entretanto, quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro ter√° de mostrar-se o seu ju√≠zo sobre o futuro. E h√° ainda uma outra dificuldade: a de que precisamente num ju√≠zo desse tipo as expectativas subjectivas do indiv√≠duo desempenham um papel dif√≠cil de avaliar, mostrando ser dependentes de factores puramente pessoais de sua pr√≥pria experi√™ncia, do maior ou menor optimismo da sua atitude para com a vida, tal como lhe foi ditada pelo seu temperamento ou pelo seu sucesso ou fracasso. Finalmente, faz-se sentir o facto curioso de que,

Continue lendo…

A Realidade n√£o Est√° nos Livros

Como toda a gente, s√≥ disponho de tr√™s meios para avaliar a exist√™ncia humana: o estudo de n√≥s pr√≥prios, o mais dif√≠cil e o mais perigoso, mas tamb√©m o mais fecundo dos m√©todos; a observa√ß√£o dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os t√™m; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes √ļltimos serem considerados fr√≠volos, e devo-lhes talvez mais informa√ß√Ķes do que as que recebi das situa√ß√Ķes bastante variadas da minha pr√≥pria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes im√≥veis das est√°tuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia,

Continue lendo…

Apenas nas Crises Atingimos as Nossas Profundezas

Tudo o que o nosso corpo faz, excepto o exerc√≠cio dos sentidos, escapa √† nossa percep√ß√£o. N√£o damos conta das fun√ß√Ķes mais vitais (circula√ß√£o, digest√£o, etc.). O mesmo se passa com o esp√≠rito: ignoramos todos os seus movimentos e transforma√ß√Ķes, as suas crises, etc., que n√£o sejam a superficial idea√ß√£o esquematizante.
Só uma doença nos revela as profundezas funcionais do nosso corpo. Do mesmo modo, pressentimos as do espírito quando estamos em crise.

Insensibilidade Experiente

Envolve-me lentamente uma carapa√ßa de insensibilidade; verifico-o sem me queixar. √Č tamb√©m um desfecho natural, um modo de come√ßar a tornar-me anorg√Ęnico. A isto costuma chamar-se, segundo creio, a serenidade da idade. √Č algo que sem d√ļvida deve estar ligado a uma viragem decisiva nas rela√ß√Ķes entre as duas puls√Ķes cuja exist√™ncia supus. A transforma√ß√£o que a acompanha n√£o √© talvez excessivamente forte; permanece cheio de interesse tudo quanto tinha outrora, mas h√° um certo eco que falta; eu, que n√£o sou m√ļsico, represento-me esta diferen√ßa como uma quest√£o de usar ou n√£o o pedal. A press√£o sens√≠vel e incessante de uma enorme quantidade de sensa√ß√Ķes importunas deve ter apressado este estado prematuro, esta disposi√ß√£o a sentir tudo sub specie aeternitatis.

Indivíduo e Colectividade

Uma antiquada concep√ß√£o, cuja carreira n√£o terminou de todo em Portugal, faz constituir a hist√≥ria na evoca√ß√£o dos homens e dos eventos singulares, faustosa galeria de retratos e pain√©is de batalhas, a que se acrescenta quando muito o quadro das institui√ß√Ķes. Dir-se-ia desta sorte que os factos de ocupa√ß√£o do solo e agrupamento da popula√ß√£o, as varia√ß√Ķes do regime econ√≥mico, a elabora√ß√£o de um esp√≠rito colectivo, os movimentos e transforma√ß√Ķes da massa, isto √©, os factos pr√≥priamente sociais n√£o t√™m import√Ęncia na vida da sociedade. Longe de n√≥s negar a parte da cria√ß√£o individual na hist√≥ria. Mas todas as na√ß√Ķes, antes de atingirem a sua defini√ß√£o pol√≠tica suprema, atravessam um demorado per√≠odo de forma√ß√£o, onde ocultam quase exclusivamente esses factos gerais.
A consci√™ncia de uma solidariedade e de um ideal colectivo, o sentimento e a ideia de uma p√°tria elaboram-se lentamente atrav√©s desses movimentos de grupos e das lutas entre eles suscitadas. E por via de regra os grandes homens s√£o tanto mais representativos quanto melhor encarnam e orientam as aspira√ß√Ķes colectivas.

No Amor Começa-se Sempre a Zero

Fazer um registo de propriedade √© chato e dif√≠cil mas fazer uma declara√ß√£o de amor ainda √© pior. Ningu√©m sabe como. N√£o h√° minuta. N√£o h√° sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declara√ß√Ķes de amor t√™m de ser feitas pelo pr√≥prio. A experi√™ncia n√£o serve de nada ‚ÄĒ por muitas declara√ß√Ķes que j√° se tenham feito, cada uma √© completamente diferente das anteriores. No amor, ali√°s, a experi√™ncia s√≥ demonstra uma coisa: que n√£o tem nada que estar a demonstrar cois√≠ssima nenhuma. √Č verdade ‚ÄĒ come√ßa-se sempre do zero. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa √† suprema inoc√™ncia, in√©pcia e barb√°rie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das cal√ßas nas pernas e quando damos por n√≥s estamos de cal√ß√Ķes. A experi√™ncia n√£o serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas no meio de um inc√™ndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma delas virar-se para a outra e dizer: ¬ęOuve l√°, tu que tens experi√™ncia de queimaduras do primeiro grau…¬Ľ

Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos,

Continue lendo…

Aprender a Ceder

Aos sonhos, como aos pesadelos, chega sempre a hora de acordar. √Č essencial compreender a realidade, viver de olhos abertos, acolher a simplicidade da vida antes de querer resolver a complexidade do mundo.

Cada um de n√≥s tem o seu lugar no mundo, talvez a ningu√©m caiba o do centro. Nas nossas rela√ß√Ķes com o mundo, com os outros e connosco, √© mais s√°bio aceitar do que impor, admirar do que exibir, amar do que procurar ser amado…
Viver √© aprender a ceder. A libertarmo-nos de n√≥s mesmos. S√≥ o nosso esp√≠rito nos pode soltar porque s√≥ ele nos aprisiona. Ser autenticamente feliz depende de uma transforma√ß√£o na forma de olharmos o mundo, aceitando-o sem grandes condi√ß√Ķes e agindo sem precipita√ß√Ķes. Cedendo. Cedendo, sempre. Pois que √© melhor manter um amigo do que ficar com a raz√£o, mas sozinho. H√° que abrir espa√ßos em n√≥s para que a serenidade que assim se alcan√ßa convide a felicidade a fazer do nosso esp√≠rito morada sua.

A humildade e a simplicidade s√£o formas de ser, n√£o de parecer.

Um erro comum √© querer ser tudo j√°. Nunca nada chega… e s√£o tantas vezes as saudades a revelarem-nos o verdadeiro valor dos instantes vividos mas j√° passados.

Continue lendo…

Os que Morrem por Amor

Os que morrem por amor continuam a pertencer √† lenda. Os seus funerais arrastam uma multid√£o piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, h√° seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante f√°ceis, a pr√°tica er√≥tica da juventude era muito mais modesta. Reflectindo melhor, √© de crer que a pr√≥pria licen√ßa produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afectiva; o que, se n√£o √© virtude, algo se parece. Este orgulho da pr√≥pria intimidade conduz a uma atitude hostil em rela√ß√£o a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. H√° um soci√≥logo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocr√°tico no amor moderno. √Č poss√≠vel. E quando aparecem os contestat√°rios dessa esp√©cie de burocracia, como s√£o os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afectos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Atrav√©s de inqu√©ritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transforma√ß√Ķes que se efectuam no √Ęmbito das rela√ß√Ķes afectivas, deparam-se declara√ß√Ķes bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experi√™ncia e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do s√©culo.

Continue lendo…

Dificuldade de Prever o Comportamento de qualquer Pessoa, o Nosso Inclusivamente

Sendo vari√°vel o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ, que √© dependente das circunst√Ęncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, n√£o variando as circunst√Ęncias, o procedimento do indiv√≠duo observado n√£o mudar√°. O chefe de escrit√≥rio que j√° redige h√° vinte anos relat√≥rios honestos, continuar√° sem d√ļvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre n√£o o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunst√Ęncias, se uma paix√£o forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe amea√ßar o lar, o insignificante burocrata poder√° tornar-se um celerado ou um her√≥i.
As grandes oscila√ß√Ķes da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da intelig√™ncia, elas s√£o muito fracas. Um imbecil permanecer√° sempre imbecil.
As poss√≠veis varia√ß√Ķes da personalidade, que impedem de conhecermos a fundo os nossos semelhantes, tamb√©m obstam a que cada qual se conhe√ßa a si pr√≥prio. O ad√°gio ‚ÄúNosce te ipsum‚ÄĚ dos antigos fil√≥sofos constitui um conselho irrealiz√°vel. O ‚Äúeu‚ÄĚ exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empr√©stimo, mentirosa. Assim √©, n√£o s√≥ porque atribu√≠mos a n√≥s mesmos muitas qualidades e n√£o reconhecemos absolutamente os nossos defeitos, como tamb√©m porque o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ cont√©m uma pequena por√ß√£o de elementos conscientes, conhec√≠veis em rigor, e, em grande parte,

Continue lendo…

Interpretar o Progresso

Sup√Ķe-se que o progresso social consiste na maior e mais variada produ√ß√£o dos objectos necess√°rios √† satisfa√ß√£o das nossas necessidades, na crescente seguran√ßa pessoal e da propriedade e na amplitude concedida √† liberdade de ac√ß√£o. Todavia, o progresso social, rigorosamente entendido, consiste nas transforma√ß√Ķes de estrutura do organismo social, causa donde derivam as consequ√™ncias que se observam. A ideia comum √© teleol√≥gica. Os fen√≥menos consideram-se apenas na sua rela√ß√£o com a felicidade humana; e pensa-se que s√≥ devem reputar-se progressivas aquelas transforma√ß√Ķes que, directa ou indirectamente, tendem a aumentar esta felicidade, fazendo, por conseguinte, depender o seu car√°cter, na rela√ß√£o a que nos circunscrevemos, da referida tend√™ncia. N√£o obstante, para bem se compreender o progresso, devemos investigar a natureza de tais transforma√ß√Ķes, com absoluta independ√™ncia da nossa individualidade.