Textos sobre Leitura

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Textos de leitura escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Fraqueza do Idealismo

A arte idealista esquece que h√° no homem – nervos, fatalidades heredit√°rias, sujei√ß√Ķes √†s influ√™ncias determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc; irresist√≠veis teimas f√≠sicas, tend√™ncias de carnalidade fatais; resultantes l√≥gicas de educa√ß√£o; ac√ß√Ķes determinantes ao meio, etc,etc; a arte convencional, enfim, mutila o homem moral – como a ci√™ncia convencional mutila o homem f√≠sico; s√£o ambas aprovadas pelos Monsenhores arcebispos de Paris e dadas em leitura nos col√©gios; mas uma ensina falso, como a outra educa falso: ambas nocivas portanto.

As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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O Meu Primeiro Poema

T√™m-me perguntado muitas vezes quando escrevi o primeiro poema, quando nasceu a minha poesia. Tentarei record√°-lo. Muito para tr√°s, na minha inf√Ęncia, mal sabendo ainda escrever, senti uma vez uma intensa como√ß√£o e rabisquei umas quantas palavras semi-rimadas, mas estranhas para mim, diferentes da linguagem quotidiana. Passei-as a limpo num papel, dominado por uma ansiedade profunda, um sentimento at√© ent√£o desconhecido, misto de ang√ļstia e de tristeza. Era um poema dedicado √† minha m√£e, ou seja, √†quela que conheci como tal, a ang√©lica madrasta cuja sombra suave me protegeu toda a inf√Ęncia. Completamente incapaz de julgar a minha primeira produ√ß√£o, levei-a aos meus pais. Eles estavam na sala de jantar, afundados numa daquelas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo das crian√ßas e o dos adultos. Estendi-lhes o papel com as linhas, tremente ainda da primeira visita da inspira√ß√£o. O meu pai, distraidamente, tomou-o nas m√£os, leu-o distraidamente, devolveu-mo distraidamente, dizendo-me:
‚ÄĒ Donde o copiaste?

E continuou a falar em voz baixa com a minha mãe dos seus importantes e remotos assuntos. Julgo recordar que nasceu assim o meu primeiro poema e que assim tive a primeira amostra distraída de crítica literária.

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O Bom Escritor

Todos os bons livros assemelham-se no facto de serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente, e que, terminada a leitura de um deles, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu mesmo, que agora nos pertencem o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a mágoa, as pessoas e os lugares e o tempo que fez. Se conseguires dar essa sensação às pessoas, então és um bom escritor.

Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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Aprender a Escrita pela Leitura

Ao lermos um autor, não temos a capacidade de adquirir as suas eventuais qualidades, como o poder de convencimento, a riqueza de imagens, o dom da comparação, a ousadia, ou o amargor, ou a concisão, ou a graça, ou a leveza da expressão, ou o espírito arguto, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade e outras semelhantes. No entanto, podemos evocar em nós mesmos tais qualidades, tornarmo-nos conscientes da sua existência, caso já tenhamos alguma predisposição para elas, ou seja, caso as tenhamos potentia; podemos ver o que é possível fazer com elas, podemos sentir-nos confirmados na nossa tendência, ou melhor, encorajados a empregar tais qualidades; com base em exemplos, podemos julgar o efeito da sua aplicação e assim aprender o seu uso correcto; somente então as possuímos também actu.
Esta √©, portanto, a √ļnica maneira na qual a leitura nos torna aptos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer dos nossos pr√≥prios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a exist√™ncia destes. Por outro lado, sem esses dons, n√£o aprendemos nada com a leitura, excepto a maneira fria e morta, e tornamo-nos imitadores banais.

A Alma e o Génio

O que faz de um homem um homem de génio Рou melhor o que eles fazem Рnão são as ideias novas mas essa ideia, que nunca os larga, que o que já foi dito não o foi nunca suficientemente.
(…) O que tortura a minha alma √© a sua solid√£o. Quanto mais ela se dispersa pelos amigos e os prazeres comezinhos, mais esta me foge e se esconde na sua fortaleza. A novidade encontra-se no esp√≠rito que cria e n√£o na nautreza reproduzida.

Tu que sabes que o novo existe sempre, mostra-o aos outros – no que eles nunca souberam ver. Faz-lhes compreender que nunca tinham ouvido falar do rouxinol, do espect√°culo do mar imenso ou de tudo aquilo que os seus grosseiros √≥rg√£os s√≥ se encontram em condi√ß√Ķes de desfrutar depois de se ter tido o trabalho de sentir por eles.
E não faças da língua um empecilho, porque se cuidares da tua alma ela arranjará forma de se dar a entender. Criará uma nova linguagem que valerá os hemistíquios deste ou a prosa daquele. O quê?, diz-me que se considera uma pessoa original e fica insensível à leitura de Byron ou de Dante?

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O Que Sou e o Que Faço Neste Mundo

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e at√© junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma rela√ß√£o qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: por que √© que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substitu√≠do a f√© pela ci√™ncia, n√£o sofriam por isso mesmo moralmente? N√£o seriam sinceros? Ou compreendiam melhor do que ele as respostas que a ci√™ncia proporciona a essas quest√Ķes perturbadoras? E punha-se ent√£o a estudar, quer os homens, quer os livros, que poderiam proporcionar-lhe as solu√ß√Ķes t√£o desejadas.
(…) Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele. Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos √ļltimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso √† aldeia, Plat√£o e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes fil√≥sofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele pr√≥prio encontrava ent√£o argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava – quer atrav√©s das leituras das suas obras, quer atrav√©s dos racioc√≠nios que estas lhe inspiravam – a solu√ß√£o do famoso problema,

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A Leitura n√£o Deve Substituir o Pensamento

Enquanto a leitura for para n√≥s a iniciadora cujas chaves m√°gicas nos abrem no fundo de n√≥s pr√≥prios a porta das habita√ß√Ķes onde n√£o ter√≠amos conseguido penetrar, o papel dela na nossa vida ser√° salutar. √Č perigoso ao inv√©s quando, em vez de nos despertar para a vida pessoal do esp√≠rito, a leitura tende a substitu√≠-la, quando a verdade deixa de nos surgir como um ideal que s√≥ podemos realizar atrav√©s do progresso √≠ntimo do nosso pensamento e do esfor√ßo do nosso cora√ß√£o, mas como uma coisa material, depositada eritre as folhas dos livros como um mel preparado pelos outros e que s√≥ temos de nos dar ao trabalho de alcan√ßar nas prateleiras das estantes e de saborear em seguida passivamente num perfeito repouso de corpo e de esp√≠rito.

A Inutilidade de Guerras e Revolu√ß√Ķes

As guerras e as revolu√ß√Ķes – h√° sempre uma ou outra em curso – chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar n√£o horror mas t√©dio. N√£o √© a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrif√≠cio de todos os que morrem batendo-se, ou s√£o mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: √© a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente in√ļtil.
Todos os ideais e todas as ambi√ß√Ķes s√£o um desvairo de comadres homens. N√£o h√° imp√©rio que valha que por ele se parta uma boneca de crian√ßa. N√£o h√° ideal que mere√ßa o sacrif√≠cio de um comboio de lata. Que imp√©rio √© √ļtil ou que ideal prof√≠cuo?
Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma Рvariável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca Рque pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver,

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Sentidos Inconscientes

Nada consola mais o autor de um romance do que descobrir as leituras nas quais n√£o havia pensado e que lhe s√£o sugeridas pelos leitores… N√£o digo que o autor n√£o possa descobrir uma leitura que lhe pare√ßa aberrante, mas em todos os casos deveria calar-se: que os outros a contestem, texto em punho. De resto, a grande maioria dos leitores faz-nos descobrir efeitos de sentidos nos quais n√£o hav√≠amos pensado.

A Leitura Depara-se com uma Série de Obstáculos

A leitura depara-se com uma série de obstáculos, é muito mais fácil sentarmo-nos no sofá a ver televisão do que a ler um jornal até. E a questão parece ser esta sociedade de facilistismo em que deixou de se perceber que as coisas que dão algum trabalho também são as que dão mais prazer, porque são conquistadas. A leitura dá algum trabalho e temos de conquistar um espaço para ela na nossa vida, temos de nos empenhar para absorvê-la completamente, para que faça sentido. Isso é que se perdeu um pouco de vista, mas penso que quem procura acabará por encontrar e tenho esperança de que as pessoas não deixem de procurar, não desistam, porque baixar os braços é ficar sempre no mesmo sítio.

A Tirania Individual e a Tirania Colectiva

As diverg√™ncias de opini√£o n√£o resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instru√ß√£o daqueles que as manifestam. Elas notam-se, com efeito, em indiv√≠duos dotados de intelig√™ncia e de instru√ß√£o equivalentes. Disso se convencer√° quem percorrer as respostas aos grandes inqu√©ritos colectivos destinados a elucidar certas quest√Ķes bem definidas.
Entre os in√ļmeros exemplos fornecidos pela leitura das suas actas, mencionarei apenas um, muito t√≠pico, publicado nos Anais de Psicologia do sr. Binet. Querendo informar-se quanto aos efeitos da redu√ß√£o do programa de hist√≥ria da filosofia nos liceus, enviou um question√°rio a todos os professores incumbidos desse ensino. As respostas foram nitidamente contradit√≥rias, pois uns declaravam desastroso o que os outros julgavam excelente. ¬ęN√£o se compreende¬Ľ, conclui o Sr. Binet com melancolia, ¬ęque uma reforma que consterna um professor, pare√ßa excelente a um dos seus colegas. Que li√ß√£o para eles sobre a relatividade das opini√Ķes humanas, mesmo entre pessoas competentes!¬Ľ.
Contradi√ß√Ķes da mesma esp√©cie invariavelmente se manifestaram em todos os assuntos e em todos os tempos. Para chegar √† ac√ß√£o, o homem teve, entretanto, de escolher entre essas opini√Ķes contr√°rias. Como operar tal escolha, sendo a raz√£o muito fraca para a determinar?
Somente dois m√©todos foram descobertos at√© hoje: aceitar a opini√£o da maioria ou a de um √ļnico,

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Besta Célere

H√° quem lhe chame, por brincadeira, besta c√©lere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por m√©dia) desse produto cultural (agora √© tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edi√ß√Ķes. O best-seller √© um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de ¬ęmarketing¬Ľ editorial e livreiro. √Č para se vender – muito e depressa – que o best-seller √© constru√≠do com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundant√≠ssimos, nem vale a pena enumer√°-los. Conv√©m n√£o confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com ¬ętopes¬Ľ de venda. Embora seja cabe√ßa de lista, o best-seller tem, em rela√ß√£o aos livros ¬ęnormais¬Ľ, uma caracter√≠stica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campe√£o de vendas. A sua raz√£o de ser √© essa e s√≥ essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido s√©rio, que ¬ęo resto √© literatura¬Ľ.
Estou a pensar em bestas c√©leres como Love Story ou O Aeroporto. N√£o estou a pensar em ¬ętopes¬Ľ de venda como O Nome da Rosa ou Mem√≥rias de Adriano. estes √ļltimos s√£o boa, excelente literatura que, por raz√Ķes pontuais e,

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Não Peças o que na Realidade não Pretendes Obter

“N√£o te ponhas a pedir o que n√£o pretendes obter!” √Č que sucede muitas vezes n√≥s pedirmos com empenho coisas que recusar√≠amos se algu√©m no-las oferecesse. Por ligeireza? Por excesso de gentileza? Seja qual for a raz√£o, apliquemos-lhe um castigo: acedamos largamente ao pedido. Muitas coisas n√≥s desejamos parecer querer quando de facto as n√£o queremos. Numa leitura p√ļblica, um autor levou uma vez uma obra hist√≥rica enorme, escrita em letra miudinha, num volume dens√≠ssimo, e, depois de ler a maior parte, disse: “Se querem, fico por aqui.” Ora os auditores, embora o seu √ļnico desejo fosse que o homem se calasse imediatamente, gritaram em coro: “Continua a leitura, continua!” Muitas vezes, tamb√©m, queremos uma coisa mas escolhemos outra, e nem sequer aos deuses confessamos a verdade; o que vale √© que os deuses ou n√£o nos atendem ou t√™m pena de n√≥s!

A Verdadeira Leitura

As obras dos grandes poetas até hoje não foram lidas pela humanidade, porque só grandes poetas podem lê-las. Só foram lidas como a multidão lê as estrelas, quando muito astrologicamente, e não astronomicamente. A maioria dos homens aprendeu a ler tendo em vista a utilidade mesquinha, do mesmo modo que aprendeu a calcular para tomar nota das receitas e despesas e não ser trapaceado nos negócios; mas da leitura como exercício intelectual nobre, pouco ou nada sabe; contudo isso é que é leitura em accepção elevada, não aquela que nos embala como um luxo e adormenta as nossas mais nobres faculdades, e sim a que nos mantém expectantes e à qual devotamos as nossas horas mais alertas e despertas.

√Ālvaro

… Diabo de homem, este √Ālvaro… Agora chama-se √Ālvaro de Silva… Vive em Nova Iorque… Passou quase toda a vida na selva nova-iorquina… Imagino-o a comer laranjas a horas ins√≥litas, queimando com o f√≥sforo o papel dos cigarros, fazendo perguntas vexat√≥rias a toda a gente… Foi sempre um mestre desordenado, possuidor de uma brilhante intelig√™ncia, intelig√™ncia inquiridora que parecia n√£o o levar a pparte nenhuma, excepto a Nova Iorque. Era em 1925…

Entre as violetas que se lhe escapavam da m√£o quando corria para as entregar a uma transeunte desconhecida, com a qual queria logo ir deitar-se, sem saber como ela se chamava nem donde era, e as suas intermin√°veis leituras de Joyce, revelou-me a mim e a muitos outros insuspeitadas opini√Ķes, pontos de vist-a de grande cidad√£o que vive dentro da urbe, na sua cova, e sai a explorar a m√ļsica, a pintura, os livros, a dan√ßa… Sempre a comer laranjas, a descascar ma√ß√£s, insuport√°vel diet√©tico, assombrosamente intrometido em tudo, v√≠amos nele, por fim, o sonhado antiprovinciano que todos n√≥s, os provincianos, t√≠nhamos querido ser, sem as etiquetas coladas nas malas, antes circulando dentro de si pr√≥prio, com uma mistura de pa√≠ses e concertos, de caf√©s ao alvorecer,

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Regra Essencial de Leitura

Uma regra da leitura consiste em reduzir a poucas palavras a intenção e a ideia principal do autor e em apossar-se delas sob essa froma. Quem lê assim, fica ocupado e lucra. Existe uma espécie de leitura, na qual o espírito nada ganha e perde muito: é a leitura sem comparação com os próprios conhecimentos e sem integração com o próprio sistema de pensar.

Abordar um Texto Poético

Abordar um texto po√©tico, qualquer que seja o grau de profundidade ou amplitude da leitura, pressup√Ķe, e ouso dizer que pressupor√° sempre, uma certa incomodidade de esp√≠rito, como se uma consci√™ncia paralela observasse com ironia a inanidade relativa de um trabalho de desoculta√ß√£o que, estando obrigado a organizar, no complexo sistema capilar do poema, um itiner√°rio cont√≠nuo e uma univocidade coerente, ao mesmo tempo se obriga a abandonar as mil e uma probabilidades oferecidas pelos outros itiner√°rios, apesar de estar ciente de antem√£o de que s√≥ depois de os ter percorrido a todos, a esses e √†quele que escolheu, √© que acederia ao significado √ļltimo do texto, podendo suceder que a leitura alegadamente totalizadora assim obtida viesse s√≥ a servir para acrescentar √† rede sangu√≠nea do poema uma ramifica√ß√£o nova, e impor portanto a necessidade de uma nova leitura. Todos carpimos a sorte de S√≠sifo, condenado a empurrar pela montanha acima uma sempiterna pedra que sempiternamente rolar√° para o vale, mas talvez que o pior castigo do desafortunado homem seja o de saber que n√£o vir√° a tocar nem a uma s√≥ das pedras ao redor, in√ļmeras, que esperam o esfor√ßo que as arrancaria √† imobilidade.
N√£o perguntamos ao sonhador por que est√° sonhando,

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Aprendendo a Viver

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos s√≥ pouparem e economizarem para um futuro long√≠nquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas ¬ęmelhore o momento presente¬Ľ, exclamava. E acrescentava: ¬ęEstamos vivos agora.¬Ľ E comentava com desgosto: ¬ęEles ficam juntando tesouros que as tra√ßas e a ferrugem ir√£o roer e os ladr√Ķes roubar.¬Ľ
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.

Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer.

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