Citação de

Uma Grande parte da Arte é para Morrer

A pasmaceira dum domingo português, que até mesmo em Lisboa é de desiludir um pícnico (quanto mais um asténico!), levou-me ao abismo onde todo o provinciano que aqui chega tem de cair, se não quer esperar no café pelo comboio do regresso. Refiro-me, claro, à inevitável revista. E fez-me bem, porque assentei ideias sobre alguns problemas de literatura e arte.
Os risos desarticulados que pelo mundo a cabo desaguam nos muitos parques Meyer, o que são em verdade senão o prolongamento protoplásmico de certas farsas medievais? Revistas também daqueles atribulados tempos, as peças primitivas que até nós chegaram não têm outro mérito senão mostrar-nos que já então se dizia mal dos tiranos em trocadilhescas palavras e significativos gestos, ficando-nos ao cabo da sua penosa leitura a humana consolação de sabermos que o povo ria a bandeiras despregadas da própria miséria, e aliviava assim as suas penas.
Uma grande parte da arte √© para morrer, e a pedra de toque da sua caducidade est√° em ela falar apaixonadamente de pessoas e acontecimentos inteiramente esquecidos da lembran√ßa da Hist√≥ria. Poder-se-√° dizer que n√£o se trata de beleza pura, a qual tem uma perenidade que transcende o circunstancial. N√£o √© verdade. A beleza tamb√©m tem a sua moda, e desbota. Perenidade, s√≥ a do homem e das suas paix√Ķes eternamente renovadas e eternamente repetidas. Por isso, sorrimos ainda das pe√ßas medievais, e podemos justificar com essas ra√≠zes long√≠nquas uma arte que satisfa√ßa as necessidades do momento, de maneira a mitigar por uma hora a cruciante dor de quem a contempla.