Passagens sobre Cabos

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Frases sobre cabos, poemas sobre cabos e outras passagens sobre cabos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Têm-se Deveres Conforme o Alcance do Espírito

Em quase todos os acontecimentos da vida, uma alma generosa v√™ a possibilidade duma ac√ß√£o de que uma alma comum n√£o tem a mesma ideia. No pr√≥prio instante em que a possibilidade dessa ac√ß√£o se torna vis√≠vel para a alma generosa, √© de seu interesse lev√°-la a cabo. Se n√£o executasse essa ac√ß√£o que acaba de lhe surgir no esp√≠rito, desprezar-se-ia a si pr√≥pria; seria infeliz. T√™m-se deveres conforme o alcance do esp√≠rito. (…) √Č contra a natureza do homem, √© imposs√≠vel para o homem n√£o fazer sempre, e em qualquer momento que se queira examin√°-lo, o que nesse momento √© poss√≠vel e lhe d√° prazer.

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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As Entranhas da Terra na Vida de um Homem

Ao fim dos primeiros dias de trabalho, deu por si de p√© no centro do corredor, percorrendo as divis√Ķes com o olhar, e julgou perceber melhor a massa de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam ‚ÄĒ e o que n√£o oxidava enchia-se de salitre, ressequia ao sol ou, sobrevivendo aos abalos de terra, tombava √† f√ļria do vento. E, no entanto, havia algo de belo nisso tamb√©m, como se ao cabo de uma s√≥ vida um homem pudesse dizer, sem grande esfor√ßo meton√≠mico, que as entranhas da Terra se revolviam no interior do seu pr√≥prio est√īmago.

N√£o Receeis Fazer Bem

Senhoras n√£o hajais medo
n√£o receeis fazer bem
tende o coração mui quedo
e vossas mercês verão cedo
qu√£o grandes bens do bem vem.
N√£o torvem vosso sentido
as cousas qu’haveis ouvido
porqu’√© lei de deos d’amor
bem, vertude nem primor
nunca jamais ser perdido.

Por verdes o galard√£o
que do amor recebeu
porque por ele morreu
nestas trovas saber√£o
o que ganhou ou perdeu.
N√£o perdeu sen√£o a vida
que pudera ser perdida
sem na ninguém conhecer
e ganhou por bem querer
ser sua morte t√£o sentida.

Ganhou mais que sendo dantes
nom mais que fermosa dama
serem seus filhos ifantes
seus amores abastantes
de deixarem tanta fama.
Outra mor honra direi:
como o príncepe foi rei
sem tardar mas mui asinha
a fez alçar por rainha
sendo morta o fez por lei.

Os principais reis d’Espanha
de Portugal e Castela
e emperador d’Alemanha
olhai que honra tamanha
que todos decendem dela.
Rei de Nápoles também
duque de Bregonha a quem
todo França medo havia
e em campo el rei vencia
todos estes dela vem.

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Tenta viver em contínua vertigem apaixonada; só os apaixonados levam a cabo obras verdadeiramente duradouras e fecundas.

Um Soneto Começo Em Vosso Gabo;

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
J√° este quartetinho est√° no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto j√° ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.

A Necessidade da Mentira

A imoralidade da mentira n√£o consiste na viola√ß√£o da sacrossanta verdade. Ao fim e ao cabo, tem direito a invoc√°-la uma sociedade que induz os seus membros compulsivos a falar com franqueza para, logo a seguir, tanto mais seguramente os poder surpreender. √Ä universal verdade n√£o conv√©m permanecer na verdade particular, que imediatamente transforma na sua contr√°ria. Apesar de tudo, √† mentira √© inerente algo repugnante cuja consci√™ncia submete algu√©m ao a√ßoite do antigo l√°tego, mas que ao mesmo tempo diz algo acerca do carcereiro. O erro reside na excessiva sinceridade. Quem mente envergonha-se, porque em cada mentira deve experimentar o indigno da organiza√ß√£o do mundo, que o obriga a mentir, se ele quiser viver, e ainda lhe canta: “Age sempre com lealdade e rectid√£o”.
Tal vergonha rouba a for√ßa √†s mentiras dos mais subtilmente organizados. Elas confundem; por isso, a mentira s√≥ no outro se torna imoralidade como tal. Toma este por est√ļpido e serve de express√£o √† irresponsabilidade. Entre os insidiosos pr√°ticos de hoje, a mentira j√° h√° muito perdeu a sua honrosa fun√ß√£o de enganar acerca do real. Ningu√©m acredita em ningu√©m, todos sabem a resposta. Mente-se s√≥ para dar a entender ao outro que a algu√©m nada nele importa,

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Pecador

Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta,
E, calmamente, o copo de veneno
Aos l√°bios frios sem tremer levanta.

Tonto, no escuro pantanal terreno
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,
Nem assim, miser√°vel e pequeno,
Com t√£o grandes remorsos se quebranta.

Fecha a vergonha e as l√°grimas consigo…
E, o coração mordendo impenitente,
E, o coração rasgando castigado,

Aceita a enormidade do castigo,
Com a mesma face com que antigamente
Aceitava a delícia do pecado.

Soneto XXIIII

De ua esperança vã suspenso mouro,
Mas quando a fortes cabos mais me amarro,
Então vou através, então desgarro,
Como barca no Tejo, ou rio Douro.

Ah’ quem fora um pastor que seu tesouro
Tem no leve cortiço e tosco tarro,
E de ledo e contente os pés de barro
Julga consigo por cabeça de ouro.

Mas aquele que tem de ouro a cabeça
E pés que são de barro em cima sente,
Como não sintirá tanta desgraça.

Viva ufano, porém viva contente:
Quebra o barro, por mais que se endureça,
O imortal ouro mil idades passa.

Ver Correr a Esperança

De bru√ßos sobre o lavat√≥rio, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperan√ßa, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez s√£o mais humanos e mais fundos. √Č a respira√ß√£o do ralo, que s√≥ ent√£o dou conta de que est√° dentro de mim, por uma dessas distor√ß√Ķes a que √© costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no pr√≥prio espelho, que, apesar de se encontrar √† minha frente, n√£o consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solid√°rios com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um c√©u azul, desanuviado, e que jamais me d√£o do esp√≠rito vis√Ķes onde n√£o se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade Рpenso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar,

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Felizes

Felizes. Porque, ao fundo de si mesmos,
cheios andam de quanto v√£o pensando.
E, disso cheios,
nada mais sabem. D√£o para aquele lado
onde o mundo acabou, mas resta o eco
de o haverem pensado até ao cabo
e irem agora criar o movimento
que subsiste no tempo
de o mundo ainda estar a ser criado.
Por isso s√£o felizes. Foram sendo
até, perdido o tempo, só em memória o estarem
[habitando.

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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A História da Humanidade em Três Palavras

Felipe lembrou-se da hist√≥ria do Rei do Oriente que, desejando conhecer a hist√≥ria da humanidade, recebeu de um s√°bio quinhentos volumes; ocupado com neg√≥cios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o s√°bio voltou e a sua hist√≥ria ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, j√° velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o s√°bio, velho e encanecido, trouxe um √ļnico volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, por√©m, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. A√≠ o s√°bio deu-lhe a hist√≥ria da humanidade numa √ļnica linha: “Nasceram, sofreram, morreram”.

O Constante Desejo de Mudança Cega o Progresso

Penso, baseando-me em todos os dados que de h√° um ano para c√° nos saltam aos olhos, que se pode afirmar que qualquer progresso deve acarretar necessariamente n√£o um avan√ßo ainda maior mas, ao fim e ao cabo, a nega√ß√£o do progresso e o retorno ao ponto de partida. A hist√≥ria do g√©nero humano prova-o. No entanto, a confian√ßa cega desta gera√ß√£o, e da que a precedeu, nas ideias modernas, no advento de n√£o sei que era da humanidade que deveria marcar uma profunda transforma√ß√£o – mas que, no meu entender, para influenciar o destino de cada um deveria antes de mais afect√°-lo na pr√≥pria natureza do homem -, esta confian√ßa no futuro, que nada nos s√©culos que nos precederam justifica, constitui seguramente a √ļnica garantia desses bens futuros, dessas revolu√ß√Ķes t√£o desejadas pela vontade dos homens.
N√£o ser√° evidente que o progresso, ou seja a marcha progressiva das coisas – tanto para o bem como para o mal -, acabou, hoje, por conduzir a sociedade √† beira de um abismo, onde ela poder√° facilmente vir a cair para dar lugar √† mais completa barb√°rie? E a raz√£o disso, a √ļnica raz√£o para que isso suceda, n√£o residir√° nessa lei que neste mundo imp√Ķe a todas as outras: isto √©,

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Lisboa

De certo, capital alguma n’este mundo
Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo,
Mais collinas azues, rio d’aguas mais mansas,
Mais tristes prociss√Ķes, mais pallidas crean√ßas,
Mais graves cathedraes – e ruas, onde a esteira
Seja em tardes d’estio a flor de larangeira!

A Cidade √© formosa e esbelta de manh√£! –
√Č mais alegre ent√£o, mais limpida, mais s√£;
Com certo ar virginal ostenta suas graças,
Ha vida, confusão, murmurios pelas praças;
– E, √°s vezes, em roup√£o, uma violeta bella
Vem regar o craveiro e assoma na janella.

A Cidade é beata Рe, ás lucidas estrellas,
O Vicio √° noute sae √°s ruas e √°s viellas,
Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros;
E á triste e dubia luz dos baços candieiros,
– Em bairos sepulchraes, onde se d√£o facadas –
Corre ás vezes o sangue e o vinho nas calçadas!

As mulheres s√£o v√£s; mas altas e morenas,
D’olhos cheios de luz, nervosas e serenas,
Ebrias de devo√ß√Ķes, relendo as suas Horas;
– Outras fortes, crueis, os olhos c√īr d’amoras,

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Da √ćndole dos Homens

A √≠ndole √©, muitas vezes, ocultada; outras, subjugada; quase nunca extinta. A for√ßa faz a √≠ndole mais violenta, em repres√°lia; a doutrina e o discurso tornam-a menos importuna; somente o costume alcan√ßa alter√°-la e refre√°-la. √Äquele que busca vencer a sua pr√≥pria √≠ndole n√£o se deve propor tarefas nem muito grandes nem muito pequenas; as primeiras tornar-le-√£o desalentado ante os sucessivos fracassos; as outras, devido √†s repetidas vit√≥rias, tornar-le-√£o convencido. A princ√≠pio, deve-se adestrar com aux√≠lios, como o fazem os nadadores com bexigas ou corti√ßas; mas ao cabo de certo tempo, √© mister se adestre com desvantagens, como os dan√ßarinos com sapatos pesados. Chega-se a grande perfei√ß√£o quando a pr√°tica √© mais √°rdua do que o uso. Quando a √≠ndole √© pujante e, por consequ√™ncia, dif√≠cil de vencer, o primeiro passo ser√° resistir-lhe e deter-lhe os √≠mpetos a tempo, a exemplo daquele que, quando estava irado, repetia as vinte e quatro letras do alfabeto; em seguida, racion√°-la em quantidade, como o que, proibido de beber vinho, passou dos repetidos brindes a um trago nas refei√ß√Ķes; por fim, anul√°-la de todo.
Não erra o antigo preceito em recomendar que, para endireitar a índole, se a encurve até ao extremo contrário,

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Eu aconselho o casamento a todo o homem que vive dezoite mezes com uma mulher, e ao cabo desta eternidade de amor, ainda diz sem impostura: amo-a. Mulher que se ama, depois da convivência de dezoito meses, ama-se toda a vida, quer seja amante, quer seja esposa.

Aprende a Ser como os Outros

N√£o precisamos de ler, estudar ou conhecer ningu√©m, quando produzimos n√≥s pr√≥prios. Pois n√£o basta que produzamos n√≥s pr√≥prios? E gostemos de n√≥s pr√≥prios? Que nos pode dar o esp√≠rito alheio, quando sobre o pr√≥prio nosso desceu em l√≠nguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade √© que nem precisamos n√≥s pr√≥prios de produzir (toda a produ√ß√£o √© uma limita√ß√£o), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor. (…) Aprende a contar uma anedota; duas anedotas; tr√™s anedotas; quatro anedotas… uma anedota diverte muita gente; quatro anedotas divertem muito mais… aprende a polvilhar de blague todas essas ideias s√©rias, pesadas, profundas, obscuras, – ao cabo simplesmente ma√ßadoras – com que pretendes sufocar (…); aprende a cultivar aquele subtil esp√≠rito de futilidade que ligeiramente embriaga como um champanhe, e a toda a gente agrada, lisonjeia todos, por a todos nos dar a reconfortante impress√£o de pertencermos ao mesmo meio… estarmos ao mesmo n√≠vel; n√£o queiras ser nem sobretudo sejas mais inteligente ou mais sens√≠vel, mais honesto ou mais sincero, mais trabalhador ou mais culto, mais profundo ou mais agudo… numa palavra: superior. Sim, homem! aprende a ser como os outros, dizendo bem ou mal de tudo e todos –

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