Passagens de Augusto dos Anjos

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Ouvi, Senhora, O C√Ęntico Sentido

Ouvi, senhora, o c√Ęntico sentido
Do cora√ß√£o que geme e s’estertora
N’√Ęnsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, p√°lidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.

E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,

Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!

Mater Originalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quase impalp√°vel gelatina,
Nos estados prodr√īmicos da vida;

O hierofante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota uni√£o ou nenhum nexo
A conting√™ncia org√Ęnica do sexo
A tua estacion√°ria alma prendeu…

Ah! de ti foi que, aut√īnoma e sem normas,
Oh! M√£e original das outras formas,
A minha forma l√ļgubre nasceu!

A Dança Da Psiquê

A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!

√Č ent√£o que a vaga dos instintos presos
– M√£e de esterilidades e cansa√ßos –
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emo√ß√Ķes extraordin√°rias sinto…

Arranco do meu cr√Ęnio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

Revelação

I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
-Mãe promíscua do amor e do ódio insano!

Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de ac√ļstica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!

No abstrato abismo equóreo, em que me Inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a ódio dos cérebros medonhos,

Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminui√ß√£o din√Ęmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

√Č a subvers√£o universal que amea√ßa
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E p√Ķe todos os astros na desgra√ßa!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federa√ß√Ķes sid√©ricas quebradas…
E eu s√≥, o √ļltimo a ser, pelo orbe adeante,

Espião da cataclísmica surpresa
A √ļnica luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!

Anseio

Que sou eu, neste erg√°stulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
– Trinta trili√Ķes de c√©lulas vencidas,
Nutrindo uma efeméride inferior.

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,
A √°urea m√£o taumit√ļrgica do Amor
Traça, nas minhas formas carcomidas,
A estrutura de um mundo superior!

Alta noite, esse mundo incoerente
Essa elementaríssima semente
Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal…

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,
E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto
N√£o poder dar-lhe vida material!

Sofredora

Cobre-lhe a fria palidez do rosto
O sendal da tristeza que a desola;
Chora – o orvalho do pranto lhe perola
As faces maceradas de desgosto.

Quando o ros√°rio de seu pranto rola,
Das brancas rosas do seu triste rosto
Que rolam murchas como um sol j√° posto
Um perfume de l√°grimas se evola.

Tenta às vezes, porém, nervosa e louca
Esquecer por momento a m√°goa intensa
Arrancando um sorriso à flor da boca.

Mas volta logo um negro desconforto,
Bela na Dor, sublime na Descrença.
Como Jesus a soluçar no Horto!

Noivado

Os namorados ternos suspiravam,
Quando h√° de ser o venturoso dia?!
Quando h√° de ser!? O noivo ent√£o dizia
E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.

E a mesma frase o noivo repetia;
Fora no campo p√°ssaros trinavam,
Quando h√° de ser!? E os p√°ssaros falavam;
H√° de chegar, a brisa respondia.

Vinha rompendo a aurora majestosa,
Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo
E a luz do sol vibrava esplendorosa.

Chegara enfim o dia desejado,
Ambos unidos soluçara um beijo,
Era o supremo beijo de noivado!

Guerra

Guerra √© esfor√ßo, √© inquietude, √© √Ęnsia, √© transporte…
E a dramatização sangrenta e dura
Vir Deus num simples gr√£o de argila errante,
Da avidez com que o Espírito procura

√Č a Subconsci√™ncia que se transfigura
Em voli√ß√£o conflagradora… E a coorte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!

√Č a obsess√£o de ver sangue, √© o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
A irracionalidade primitiva…

√Č a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que est√° viva!

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva f√ļlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradia√ß√Ķes intensas
Cintila√ß√Ķes de l√Ęmpadas suspensas
E as ametistas e os flor√Ķes e as pratas.

Como os velhos Templ√°rios medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gl√°dios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Caput Immortale

Na din√Ęmica aziaga das descidas,
Aglomeradamente e em turbilh√£o
Solucem dentro do Universo anci√£o,
Todas as urbes siderais vencidas!

Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas,
Sobre a pancosmológica exaustão
Reste apenas o acervo √°rido e v√£o
Das muscularidades consumidas!

Ainda assim, a animar o cosmos ermo,
Morto o comércio físico nefando,
Oh! Nauta aflito do Subliminal,

Como a √ļltima express√£o da Dor sem termo,
Tua cabeça há de ficar vibrando
Na negatividade universal!

O Sarcófago

Senhor da alta hermenêutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… √Č frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente.
Que o sarcófago, ereto e imóvel sente
Em sua própria sombra sepultado!

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível
Que em toda a sua m√°scara se expande,
√Ä humana como√ß√£o impondo-a, inteira…

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!

Versos A Um C√£o

Que for√ßa pode, adstricta a ambri√Ķes informes,
Tua garganta est√ļpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solid√Ķes enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.

C√£o! – Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais. . .

E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da ang√ļstia heredit√°ria dos seus pais!

Vencido

No auge de atordoadora e √°vida sanha
Leu tudo, desde o mais prístino mito,
Por exemplo: o do boi √Āpis do Egito
Ao velho Niebelungen da Alemanha.

Acometido de uma febre estranha
Sem o esc√Ęndalo f√īnico de um grito,
Mergulhou a cabeça no Infinito,
Arrancou os cabelos na montanha!

Desceu depois à gleba mais bastarda,
Pondo a áurea insígnia heráldica da farda
A vontade do v√īmito plebeu…

E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria
O vencido pensava que cuspia
Na célula infeliz de onde nasceu.

A Noite

A nebulosidade ameaçadora
Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios
E urde amplas teias de carv√Ķes sombrios
No ar que √°lacre e radiante, h√° instantes, fora.

A √°gua transubstancia-se. A onda estoura
Na negrid√£o do oceano e entre os navios
Troa b√°rbara zoada de ais bravios,
Extraordinariamente atordoadora.

A custódia do anímico registro
A planet√°ria escurid√£o se anexa…
Somente, iguais a espi√Ķes que acordam cedo,

Ficam brilhando com fulgor sinistro
Dentro da treva omnímoda e complexa
Os olhos fundos dos que est√£o com medo!

Adeus, Adeus, Adeus!

Pareceu-me inda ouvir o nome dela
No badalar monótono dos sinos.
Hermeto Lima

Adeus, adeus, adeus! E, suspirando,
Saí deixando morta a minha amada,
Vinha o luar iluminando a estrada
E eu vinha pela estrada soluçando.

Perto, um ribeiro claro murmurando
Muito baixinho como quem chorava,
Parecia o ribeiro estar chorando
As l√°grimas que eu triste gotejava.

S√ļbito ecoou do sino o som profundo!
Adeus! – eu disse. Para mim no mundo
Tudo acabou-se, apenas restam m√°goas.

Mas no mistério astral da noute bela
Pareceu-me inda ouvir o nome dela
No marulhar monótono das águas!

Tempos Idos

N√£o enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tê-las ao meu lado!

N√£o, n√£o quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que n√£o se enterra assim sem compaix√£o
Os escombros benditos de um Passado!

Ai! N√£o me arranques d’alma este conforto!
РQuero abraçar o meu passado morto,
– Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

Deixa ao menos que eu suba à Eternidade
Velado pelo círio da Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos idos!

A Obsess√£o Do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horr√≠vel! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente n√£o podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da vis√£o alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu v√≠sceras vermelhas pelo ch√£o …

E amou, com um berro b√°rbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhid√£o!

No Campo

Tarde. Um arroio canta pela umbrosa
Estrada; as águas límpidas alvejam
Com cristais. Aragem suspirosa
Agita os roseirais que ali vicejam.

No alto, entretanto, os astros rumorejam
Um press√°gio de noute luminosa
E ei-la que assoma – a Louca tenebrosa,
Branca, emergindo às trevas que a negrejam.

Chora a corrente m√ļrmura, e, √† dolente
Unção da noute, as flores também choram
Num chuveiro de pétalas, nitente,

Pendem e caem – os roseirais descoram
E elas bóiam no pranto da corrente
Que as rosas, ao luar, chorando enfloram.

A Meu Pai Morto

Madrugada de Treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, M√£e, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma n√©voa no estrelado v√©u…

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!