Passagens de Augusto dos Anjos

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M√°goas

Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores
Da inf√Ęncia nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha inf√Ęncia nunca teve flores!

Volvendo à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita √† Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.

Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar m√°goas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

Infeliz

Alma vi√ļva das paix√Ķes da vida,
Tu que, na estrada da existência em fora,
Cantaste e riste, e na existência agora
Triste soluças a ilusão peerdida;

Oh! Tu, que na grinalda emurchecida
De teu passado de felicidade
Foste juntar os goivos da Saudade
Às flores da Esperança enlanguescida;

Se nada te aniquila o desalento
Que te invade, e o pesar negro e profundo,
Esconde à Natureza o sofrimento,

E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma vi√ļva das paix√Ķes da vida.

Triste Regresso

Uma vez um poeta, um tresloucado,
Apaixonou-se d’uma virgem bela;
Vivia alegre o vate apaixonado,
Louco vivia, enamorado dela.

Mas a P√°tria chamou-o. Era o soldado,
E tinha que deixar p’ra sempre aquela
Meiga visão, olímpica e singela!
E partiu, coração amargurado.

Dos canh√Ķes ao ribombo e das metralhas,
Altivo lutador, venceu batalhas,
Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela,

E voltou, mas a fronte aureolada,
Ao chegar, pendeu triste e desmaiada,
No sepulcro da loura virgem bela.

Amor E Crença

E sê bendita!
H. Sienkiewicz

Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Re√ļne tudo em si, num s√≥ encanto?

Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?!

Ah! Se queres saber a sua grandeza,
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a c√ļp’la do C√©u santa e infinita!

Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a Crença,
ama, pois, cr√™ em Deus, e… s√™ bendita!

A Um Mascarado

Rasga esta máscara ótima de seda
E atira-a √† arca ancestral dos palimpsestos…
√Č noite, e, √† noite, a esc√Ęndalos e incestos
√Č natural que o instinto humano aceda!

Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
H√°s de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!

A sucess√£o de hebd√īmadas medonhas
Reduzir√° os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo…

E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Ter√° somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!

Solilóquio De Um Visionário

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impress√Ķes visuais que eu sinto,
Nas divinas vis√Ķes do √≠ncola et√©reo!

Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais…

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
√Č necess√°rio que inda eu suba mais!

Vozes Da Morte

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podrid√£o, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!

Aos Meus Filhos

Na intermitência da vital canseira,
Sois v√≥s que sustentais ( For√ßa Alta exige-o … )
Com o vosso catalítico prestígio,
Meu fantasma de carne passageira!

Vulcão da bioquímica fogueira
Destruiu-me todo o org√Ęnico fast√≠gio …
Dai-me asas, pois, para o √ļltimo rem√≠gio,
Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!

Culmin√Ęncias humanas ainda obscuras,
Express√Ķes do universo radioativo,
Ions emanados do meu próprio ideal,

Benditos vós, que, em épocas futuras,
Haveis de ser no mundo subjetivo,
Minha continuidade emocional!

Soneto

(Lendo o “Poema de Maio”)

Na rua em funeral ei-la que passa,
A romaria eterna dos aflitos,
A prociss√£o dos tristes, dos proscritos,
Dos romeiros saudosos da desgraça.

E na cho√ßa a lam√ļria que traspassa
O cora√ß√£o, al√©m, √Ęnsias e gritos
De m√£es que arquejam sobre os probrezitos
Filhos que a Fome derrubou na praça.

Entre todos, por√©m, l√Ęnguida e bela,
Da juventude a virginal capela
A lhe cingir de luz a fronte baça,

Vai Corina mendiga e esfarrapada,
A alma saudosa pelo amor vibrada,
РA Stella Matutina da Desgraça!

O Poeta Do Hediondo

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generaliza√ß√£o do Desconforto…

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

Canta No Espaço A Passarada E Canta

Ao meu prezado irm√£o Alexandre J√ļnior pelas nove primaveras que hoje completou.

Canta no espaço a passarada e canta
Dentro do peito o coração contente.
Tu’alma ri-se descuidosamente,
Minh’alma alegre no teu rir s’encanta.

Irm√£o querido, bom Pap√°, consente
Que neste dia de ventura tanta
Vá, num abraço de ternura santa,
Mostrar-te o afeto que meu peito sente.

Somente assim festejarei teus anos;
Enquanto outros que podem, d√£o-te enganos,
Jóias, bonecos de formoso busto,

Eu só encontro no primor de rima
A justa oferta, a jóia que te exprima
O amor fraterno do teu mano Augusto.

O Mar

O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela im√°cula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.

Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a c√Ęndida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solid√£o das fragas,
Onde a quebrar-se t√£o fugaz se esfuma.

Reflete a luz do sol que j√° n√£o arde,
Treme na treva a p√ļrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!

Homo Infimus

Homem, carne sem luz, criatura cega,
Realidade geogr√°fica infeliz,
O Universo calado te renega
E a tua própria boca te maldiz!

O n√īumeno e o fen√īmeno, o alfa e o omega
Amarguram-te. Hebd√īmadas hostis
Passam… Teu cora√ß√£o se desagrega,
Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!

Fruto injustific√°vel dentre os frutos,
Mont√£o de estercor√°ria argila preta,
Excrescência de terra singular.

Deixa a tua alegria aos seres brutos,
Porque, na superfície do planeta,
Tu só tens um direito: Рo de chorar!

Decadência

Iguais às linhas perpendiculares
Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
Nas suas 33 vértebras gastas
Quase todas as pedras tumulares!

A frialdade dos círculos polares,
Em sucessivas atua√ß√Ķes nefastas,
Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,
Estragara-lhe os centros medulares!

Como quem quebra o objeto mais querido
E começa a apanhar piedosamente
Todas as microscópicas partículas,

Ele hoje vê que, após tudo perdido,
S√≥ lhe restam agora o √ļltimo dente
E a armação funerária das clavículas!

A Aeronave

Cindindo a vastid√£o do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.

E na esteira sem fim da az√ļlea esfera
Ei-la embalada n’amplid√£o dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera.

Voa, se eleva em busca do infinito,
√Č como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência.

Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.

Os Doentes

Como uma cascavel que se enroscava
A cidade dos l√°zaros dormia…
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabe√ßa aut√īnoma pensava!

Mordia-me a obsess√£o m√° de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de órfã que gemia!

Tentava compreender com as conceptivas
Fun√ß√Ķes do enc√©falo as subst√Ęncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckei compreenderam…

E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de bili√Ķes de ra√ßas
Que h√° muitos anos desapareceram!

O L√°zaro Da P√°tria

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de √ļlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes,

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefant√≠asis dos dedos…
H√° um cansa√ßo no Cosmos… Anoitece,

Riem as meretrizes no Casino,
E o L√°zaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

A Nau

A Heitor Lima

S√īfrega, al√ßando o hirto espor√£o guerreiro,
Zarpa. A √≠ngreme cordoalha √ļmida fica. …
Lambe-lhe a quilha a esp√ļmea onda impudica
E √©brios trit√Ķes, babando, haurem-lhe o cheiro

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o éter indica,
E estende os braços de madeira rica
Para as popula√ß√Ķes do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentr√Ęncia de angra horrenda
P√°ra e, a amarra agarrada √† √Ęncora, sonha!
M√°goas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as…

E n√£o haver uma alma que lhe entenda
A ang√ļstia transoce√Ęnica medonha
No rangido de todas as enx√°rcias!

O Lamento Das Coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ou√ßo, em sons subterr√Ęneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

√Č a dor da For√ßa desaproveitada
РO cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milh√Ķes de mundos,
jazem ainda na est√°tica do Nada!

√Č o solu√ßo da forma ainda imprecisa…
Da transcend√™ncia que se n√£o realiza…
Da luz que n√£o chegou a ser lampejo…

E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!