Passagens de Augusto dos Anjos

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O L√°zaro Da P√°tria

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de √ļlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes,

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefant√≠asis dos dedos…
H√° um cansa√ßo no Cosmos… Anoitece,

Riem as meretrizes no Casino,
E o L√°zaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

A Nau

A Heitor Lima

S√īfrega, al√ßando o hirto espor√£o guerreiro,
Zarpa. A √≠ngreme cordoalha √ļmida fica. …
Lambe-lhe a quilha a esp√ļmea onda impudica
E √©brios trit√Ķes, babando, haurem-lhe o cheiro

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o éter indica,
E estende os braços de madeira rica
Para as popula√ß√Ķes do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentr√Ęncia de angra horrenda
P√°ra e, a amarra agarrada √† √Ęncora, sonha!
M√°goas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as…

E n√£o haver uma alma que lhe entenda
A ang√ļstia transoce√Ęnica medonha
No rangido de todas as enx√°rcias!

O Lamento Das Coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ou√ßo, em sons subterr√Ęneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

√Č a dor da For√ßa desaproveitada
РO cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milh√Ķes de mundos,
jazem ainda na est√°tica do Nada!

√Č o solu√ßo da forma ainda imprecisa…
Da transcend√™ncia que se n√£o realiza…
Da luz que n√£o chegou a ser lampejo…

E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

Ambiciono que o idioma em que eu te falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo.

O Coveiro

Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.

L√° encontrei um p√°lido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: “Eterno companheiro

Da morte, que matou-te o cora√ß√£o?”
Ele apontou para uma cruz no ch√£o,
Ali jazia o seu amor primeiro!

Depois, tomando a enxada gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente: –
“Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!”

Hino À Dor

Dor, sa√ļde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das gl√Ęndulas do choro
De onde todas as l√°grimas emanam..

√Čs suprema! Os meus √°tomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corp√ļsculos m√°gicos do tacto
Prendo a orquestra de chamas que executas…

E, assim, sem convuls√£o que me alvorece,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!

Lirial

Por que choras assim, tristonho lírio,
Se eu sou o orvalho eterno que te chora,
P’ra que pendes o c√°lice que enflora
Teu seio branco do palor do círio?!

Baixa a mim, irm√£ p√°lida da Aurora,
Estrela esmaecida do Martírio;
Envolto da tristeza no delírio,
Deixa beijar-te a face que descora!

Fosses antes a rosa purpurina
E eu beijaria a pétala divina
Da rosa, onde n√£o pousa a desventura.

Ai! que ao menos talvez na vida escassa
Não chorasses à sombra da desgraça,
Para eu sorrir à sombra da ventura!

Ouvi, Senhora, O C√Ęntico Sentido

Ouvi, senhora, o c√Ęntico sentido
Do cora√ß√£o que geme e s’estertora
N’√Ęnsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, p√°lidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.

E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,

Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!

Mater Originalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quase impalp√°vel gelatina,
Nos estados prodr√īmicos da vida;

O hierofante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota uni√£o ou nenhum nexo
A conting√™ncia org√Ęnica do sexo
A tua estacion√°ria alma prendeu…

Ah! de ti foi que, aut√īnoma e sem normas,
Oh! M√£e original das outras formas,
A minha forma l√ļgubre nasceu!

A Dança Da Psiquê

A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!

√Č ent√£o que a vaga dos instintos presos
– M√£e de esterilidades e cansa√ßos –
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emo√ß√Ķes extraordin√°rias sinto…

Arranco do meu cr√Ęnio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

Revelação

I

Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
-Mãe promíscua do amor e do ódio insano!

Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,
Por um poder de ac√ļstica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!

No abstrato abismo equóreo, em que me Inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a ódio dos cérebros medonhos,

Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminui√ß√£o din√Ęmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

√Č a subvers√£o universal que amea√ßa
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E p√Ķe todos os astros na desgra√ßa!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federa√ß√Ķes sid√©ricas quebradas…
E eu s√≥, o √ļltimo a ser, pelo orbe adeante,

Espião da cataclísmica surpresa
A √ļnica luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!

Anseio

Que sou eu, neste erg√°stulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
– Trinta trili√Ķes de c√©lulas vencidas,
Nutrindo uma efeméride inferior.

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,
A √°urea m√£o taumit√ļrgica do Amor
Traça, nas minhas formas carcomidas,
A estrutura de um mundo superior!

Alta noite, esse mundo incoerente
Essa elementaríssima semente
Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal…

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,
E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto
N√£o poder dar-lhe vida material!

Sofredora

Cobre-lhe a fria palidez do rosto
O sendal da tristeza que a desola;
Chora – o orvalho do pranto lhe perola
As faces maceradas de desgosto.

Quando o ros√°rio de seu pranto rola,
Das brancas rosas do seu triste rosto
Que rolam murchas como um sol j√° posto
Um perfume de l√°grimas se evola.

Tenta às vezes, porém, nervosa e louca
Esquecer por momento a m√°goa intensa
Arrancando um sorriso à flor da boca.

Mas volta logo um negro desconforto,
Bela na Dor, sublime na Descrença.
Como Jesus a soluçar no Horto!

Noivado

Os namorados ternos suspiravam,
Quando h√° de ser o venturoso dia?!
Quando h√° de ser!? O noivo ent√£o dizia
E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.

E a mesma frase o noivo repetia;
Fora no campo p√°ssaros trinavam,
Quando h√° de ser!? E os p√°ssaros falavam;
H√° de chegar, a brisa respondia.

Vinha rompendo a aurora majestosa,
Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo
E a luz do sol vibrava esplendorosa.

Chegara enfim o dia desejado,
Ambos unidos soluçara um beijo,
Era o supremo beijo de noivado!

Guerra

Guerra √© esfor√ßo, √© inquietude, √© √Ęnsia, √© transporte…
E a dramatização sangrenta e dura
Vir Deus num simples gr√£o de argila errante,
Da avidez com que o Espírito procura

√Č a Subconsci√™ncia que se transfigura
Em voli√ß√£o conflagradora… E a coorte
Das raças todas, que se entrega à morte
Para a felicidade da Criatura!

√Č a obsess√£o de ver sangue, √© o instinto horrendo
De subir, na ordem cósmica, descendo
A irracionalidade primitiva…

√Č a Natureza que, no seu arcano,
Precisa de encharcar-se em sangue humano
Para mostrar aos homens que est√° viva!

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva f√ļlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradia√ß√Ķes intensas
Cintila√ß√Ķes de l√Ęmpadas suspensas
E as ametistas e os flor√Ķes e as pratas.

Como os velhos Templ√°rios medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gl√°dios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Caput Immortale

Na din√Ęmica aziaga das descidas,
Aglomeradamente e em turbilh√£o
Solucem dentro do Universo anci√£o,
Todas as urbes siderais vencidas!

Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas,
Sobre a pancosmológica exaustão
Reste apenas o acervo √°rido e v√£o
Das muscularidades consumidas!

Ainda assim, a animar o cosmos ermo,
Morto o comércio físico nefando,
Oh! Nauta aflito do Subliminal,

Como a √ļltima express√£o da Dor sem termo,
Tua cabeça há de ficar vibrando
Na negatividade universal!

O Sarcófago

Senhor da alta hermenêutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… √Č frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente.
Que o sarcófago, ereto e imóvel sente
Em sua própria sombra sepultado!

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível
Que em toda a sua m√°scara se expande,
√Ä humana como√ß√£o impondo-a, inteira…

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!

Versos A Um C√£o

Que for√ßa pode, adstricta a ambri√Ķes informes,
Tua garganta est√ļpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solid√Ķes enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.

C√£o! – Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais. . .

E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da ang√ļstia heredit√°ria dos seus pais!