Textos sobre Alívio

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Textos de alívio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Perigo da Leitura Excessiva

Quando lemos, outra pessoa pensa por n√≥s: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que est√° a aprender a escrever refaz com a pena as linhas tra√ßadas a l√°pis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar √©-nos subtra√≠do em grande parte. Isso explica o sens√≠vel al√≠vio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar √† leitura. Por√©m, enquanto lemos, a nossa cabe√ßa, na realidade, n√£o passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se v√£o, o que resta? Essa √© a raz√£o pela qual quem l√™ muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo – como algu√©m que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal √© a situa√ß√£o de muitos eruditos: √† for√ßa de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o esp√≠rito mais do que o trabalho manual cont√≠nuo, visto que, na execu√ß√£o deste √ļltimo, √© poss√≠vel entregar-se aos seus pr√≥prios pensamentos.
No entanto, como uma mola que, pela press√£o constante acarretada por meio de um corpo estranho,

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Casar por Amor

Quando eu pensava que n√£o podia ser mais feliz, manh√£ ap√≥s manh√£ era mais, mas s√≥ um bocadinho mais do que o m√°ximo humanamente poss√≠vel; pensava eu ser absolutamente imposs√≠vel que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a pr√≥pria felicidade at√©. Mas, de repente, fui. Muito mais. Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre. E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser t√£o triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor neg√≥cio do s√©culo, por ela. Ela ficou minha. Eu fiquei dela. √Č ou n√£o √© estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livr√°mos de boa e fic√°mos a ganhar? √Č.

√Č sim. A minha mulher √© mais minha do que eu alguma vez fui meu ‚ÄĒ e eu antes n√£o podia ter sido mais para mim, felizmente. Por ter tudo agora para lhe dar. Que al√≠vio. Nunca mais me quero ver na vida.
A n√£o ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto ‚ÄĒ talvez o maior homem que j√° viveu, logo a seguir ao pai dela, claro. √Č um milagre como melhorei tanto.

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O Mal e o Bem em Função da Vaidade

√Č raro o mal, de que n√£o venha a nascer algum bem, nem bem, que n√£o produza algum mal: como s√≥ o presente √© nosso, por isso n√£o nos serve de al√≠vio o bem futuro, nem nos inquieta o mal que ainda n√£o sentimos; um infeliz n√£o se persuade, que a sua sorte possa ter mudan√ßa; um venturoso n√£o cr√™, que possa deixar de o ser; a este a vaidade tira o menor receio; √†quele o abatimento priva de esperan√ßa. Se fizermos reflex√£o, havemos de admirar o pouco que basta para fazer o nosso bem, ou o nosso mal: de um instante a outro mudamos da alegria para a tristeza, e muitas vezes sem outro algum motivo, que o de uma vaidade mais, ou menos satisfeita.
Os homens não são todos igualmente sensíveis ao bem, e ao mal; a uns penetra mais vivamente a dor, a outros só faz uma impressão ligeira; o bem não acha em todos o mesmo grau de contentamento. Nas almas deve de haver a mesma diferença, que há nos corpos: umas mais débeis, e outras mais robustas; por isso em umas obra mais o sentimento, e acha mais resistência em outras; em umas domina a vaidade com império,

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O Elogio do Trabalho

H√° no trabalho, segundo a natureza da obra e a capacidade do trabalhador, todas as grada√ß√Ķes, desde o simples al√≠vio do t√©dio √†s satisfa√ß√Ķes mais profundas. Na maior parte dos casos, o trabalho que as pessoas t√™m de executar n√£o √© interessante, mas ainda em tais circunst√Ęncias oferece grandes vantagens. Em primeiro lugar, preenche uma boa parte do dia sem haver necessidade de decidir sobre o que se h√°-de fazer. A maioria das pessoas, quando est√£o em condi√ß√Ķes de escolher livremente o emprego do seu tempo, t√™m dificuldade em encontrar o que quer que seja suficientemente agrad√°vel para as ocupar. E tudo o que decidam deixa-as atormentadas pela ideia de que qualquer outra coisa seria mais agrad√°vel.
Ser capaz de utilizar inteligentemente os momentos de lazer √© o √ļltimo degrau da civiliza√ß√£o, mas presentemente muito poucas pessoas o atingiram. Al√©m disso, a ac√ß√£o de escolher √© fatigante. Excepto para os indiv√≠duos dotados de extraordin√°rio esp√≠rito de iniciativa, √© muito c√≥modo ser-se informado do que se tem a fazer em cada hora do dia, desde que tais ordens n√£o sejam desagrad√°veis em demasia.

A maior parte dos ricos occiosos sofrem de um inexprimível aborrecimento em paga de se terem libertado dum trabalho penoso.

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Depois das Elei√ß√Ķes

Depois de uma campanha eleitoral animada, a grande vantagem de qualquer elei√ß√£o democr√°tica √© a de o povo sair, finalmente, da sala de estar dos pol√≠ticos. √Č uma sensa√ß√£o de al√≠vio que alguns eleitos descrevem como semelhante ao momento em que uma dor intensa, por qualquer raz√£o obscura, termina.
(…) Depois de qualquer elei√ß√£o a sensa√ß√£o dos pol√≠ticos – quer tenham perdido quer tenham ganho – √© a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltar√° apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a elei√ß√£o seguinte.
Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.

Gonçalo M.

A Vaidade no Sofrimento

H√° ocasi√Ķes, em que contra√≠mos a obriga√ß√£o connosco, de n√£o admitirmos al√≠vio nas nossas m√°goas, e nos armamos de rigor, e de aspereza contra tudo o que pode consolar-nos, como querendo, que a const√Ęncia na pena nos justifique, e sirva de mostrar a injusti√ßa da fortuna: parece-nos, que o ser firme a nossa dor, √© prova de ser justa; esta ideia nos inspira a vaidade, menos cuidadosa no sossego do nosso √Ęnimo, do que atenta em procurar a estima√ß√£o dos homens. Uma grande pena admira-se, e respeita-se; √© o que basta para que a vaidade nos fa√ßa persistir no sentimento.

A Felicidade Provém da Plena Posse das Suas Faculdades

O √≥dio √† raz√£o, t√£o frequente nos nossos dias, √© devido em grande parte ao facto dos movimentos da raz√£o n√£o serem concebidos duma forma suficientemente fundamental. O homem dividido contra si mesmo procura est√≠mulos e distrac√ß√Ķes; ama as paix√Ķes fortes, n√£o por raz√Ķes profundas, mas porque moment√Ęneamente elas lhe permitem evadir-se de si pr√≥prio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.
Toda a paix√£o √© para ele uma forma de intoxica√ß√£o, e desde que n√£o pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxica√ß√£o parece-lhe o √ļnico al√≠vio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, √© o sintoma duma doen√ßa de ra√≠zes profundas. Quando n√£o h√° tal doen√ßa, a felicidade prov√©m da plena posse das suas faculdades. √Č nos momentos em que o esp√≠rito est√° mais activo, em que menos coisas s√£o esquecidas que se sentem alegrias mais intensas. Esta √©, sem d√ļvida, uma das melhores pedras de toque da felicidade. A felicidade que exige intoxica√ß√£o de n√£o importa que esp√©cie, √© falsa e n√£o d√° qualquer satisfa√ß√£o. A felicidade que satisfaz verdadeiramente √© acompanhada pelo completo exerc√≠cio das nossas faculdades e pela compreens√£o plena do mundo em que vivemos.

O Mal só nos Afecta na Medida em que o Deixarmos

Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas ideias que têm das coisas, e não pelas próprias coisas. Haveria um grande ponto ganho para o alívio da nossa miserável condição humana se pudéssemos estabelecer essa asserção como totalmente verdadeira. Pois, se os males só entraram em nós pelo nosso julgamento, parece que está em nosso poder desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se entregam à nossa mercê, por que não dispomos delas ou não as moldarmos para vantagem nossa? Se o que denominamos mal e tormento não é nem mal nem tormento por si mesmo, mas somente porque a nossa imaginação lhe dá essa qualidade, está em nós mudá-la. E, tendo essa escolha, se nada nos força, somos extraordinariamente loucos de bandear para o partido que nos é o mais penoso e dar às doenças, à indigência e ao desvalor um gosto acre e mau, se lhes podemos dar um gosto bom e se, a fortuna fornecendo simplesmente a matéria, cabe a nós dar-lhe a forma.
Porém vejamos se é possível sustentar que aquilo que denominamos por mal não o é em si mesmo, ou pelo menos que, seja ele qual for, depende de nós dar-lhe outro sabor e outro aspecto,

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Fim-de-Semana em Casa

√Č s√°bado. √Č Inverno. √Č dia de acastelar. Sa√≠mos com sacos, ¬ętupper-wares¬Ľ, rolos de notas e troco, listas.
Vamos aos mercados, às lojas, aos restaurantes. O objectivo é enchermo-nos de víveres, jornais e revistas, queijinhos frescos, nozes e avelãs, coentros e beringelas, feijoadas de chocos e caldeiradas, velharias, bolos e pilhas sobressalentes.
S√≥ o bastante para nos acastelarmos em casa, repimp√Ķes, com tudo ao nosso alcance, at√© √† long√≠nqua segunda-feira. Dia em que sa√≠remos – talvez – quando todos os forasteiros e fim-de-semaneiros tiverem voltado para casa deles.
Não temos um fosso ou sequer um ferrolho na porta Рmas corremo-lo à mesma, idealmente, tropeçando de verdade nas cabeças de alhos-porros e nas ramas das beterrabas, protuberando dos sacos de plástico deitados, mortos, no chão da cozinha.
Ser√° a mentalidade medieval do campismo ou o ideal ¬ęhippy¬Ľ da auto-sufici√™ncia? N√£o. Constitui a√ßambarcamento? √Č anti-social? Tamb√©m n√£o. √Č apenas o prazer do ninho. Com ameias.
Quanto pior o tempo, melhor sabe fecharmo-nos no nosso castelinho, seguros que estamos abastecidos, de tudo, para dois dias inteiros, prontos para sobrevivermos alegremente até ao fim do fim-de-semana. Cá nos acastelamos e cá nos vamos arranjando.
Noutra dimensão, graças a compras sabichonas,

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Sobre a Reforma

Lan√ßar-me-ia num discurso demasiado longo se referisse aqui em particular todas as raz√Ķes naturais que levam os velhos a retirarem-se dos neg√≥cios do mundo: as mudan√ßas de humor, de condi√ß√Ķes f√≠sicas e o enfraquecimento org√Ęnico levam as pessoas e a maior parte dos animais, a afastarem-se pouco a pouco dos seus semelhantes. O orgulho, que √© insepar√°vel do amor-pt√≥prio, substitui-se-lhes √† raz√£o: j√° n√£o pode ser lisonjeado pela maior parle das coisas que lisonjeiam os outros, porque a experi√™ncia lhe fez conhecer o valor do que todos os homens desejam na juventude e a impossibilidade de o continuar a disfrutar; as diversas vias que parecem abertas aos jovens para alcan√ßar grandeza, prazeres, reputa√ß√£o e tudo o mais que eleva os homens, est√£o-lhes vedadas, quer pela fortuna ou pela sua conduta, quer pela inveja ou pela injusti√ßa dos outros; o caminho de reingresso nessas vias √© demasiado longo e demasiado √°rduo para quem j√° se perdeu nelas; as dificuldades parecem-lhes imposs√≠veis de ultrapassar e a idade j√° lhes n√£o permite tais pretens√Ķes. Tornam-se insens√≠veis √† amizade, n√£o s√≥ porque talvez nunca tenham encontrado nenhuma verdadeira, mas tamb√©m porque viram morrer grande n√ļmero de amigos que ainda n√£o tinham tido tempo nem ocasi√£o de desiludir a sua amizade e,

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As Coisas Têm um Preço em Função da Nossa Opinião

Que a nossa opini√£o atribui um pre√ßo √†s coisas, v√™-se por aquelas, em grande n√ļmero, em que nos fixamos por estimarmos n√£o a elas mas sim a n√≥s; e n√£o consideramos nem as suas qualidades nem as suas utilidades, mas somente o que nos custa a obt√™-las, como se isso fosse uma parte da sua subst√Ęncia; e chamamos de valor n√£o ao que elas trazem mas sim ao que lhes colocamos. Daqui depreendo que somos grandes administradores do nosso investimento. Ele vale tanto quanto pesa, justamente porque pesa. A nossa opini√£o nunca o deixa correr sem carga √ļtil. A compra d√° valor ao diamante, e a dificuldade √† virtude, e a dor √† devo√ß√£o, e o amargor ao medicamento.
Houve um s√≥ que, para chegar √† pobreza, atirou os seus escudos nesse mesmo mar que tantos outros esquadrinham por todos os lados para pescar riquezas. Epicuro diz que ser rico n√£o √© al√≠vio e sim mudan√ßa de dificuldades. Na verdade, n√£o √© a pen√ļria, √© antes a abund√Ęncia que produz a avareza.

Respeito Muito o Homem que Chora

H√° um tipo de choro bom e h√° outro ruim. O ruim √© aquele em que as l√°grimas correm sem parar e, no entanto, n√£o d√£o al√≠vio. S√≥ esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, ent√£o, se n√£o seria esse choro como o de uma crian√ßa com a ang√ļstia da fome. Era. Quando se est√° perto desse tipo de choro, √© melhor procurar conter–se: n√£o vai adiantar. √Č melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. √Č dif√≠cil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta √†s vezes in√ļtil. Respeito muito o homem que chora. Eu j√° vi homem chorar.

O Que Devemos Sentir

Todas as pessoas devem ter experimentado a sensa√ß√£o desagrad√°vel que se tem nas esta√ß√Ķes de caminho de ferro. Vamos despedir-nos de algu√©m. A pessoa j√° entrou no comboio, mas ele demora a partir. Ali ficam as duas pessoas, uma na plataforma e a outra √† janela, esfor√ßando-se por conversar, mas de repente n√£o t√™m nada para dizer.
Isto, evidentemente, resulta de n√£o podermos sentir o que queremos. A situa√ß√£o imp√Ķe-nos um determinado sentimento. E quem n√£o experimentou aquele tremendo al√≠vio quando o comboio finalmente parte?
Ou nos funerais. Quando algu√©m morre ou adoece, quando surgem as desilus√Ķes, espera-se sempre que sintamos determinadas coisas.
Em todas as situa√ß√Ķes, excepto as mais quotidianas, as mais neutras, h√° uma press√£o que se exerce sobre n√≥s, que nos dita a forma como devemos conduzir-nos, aquilo que devemos sentir, E se examinarmos bem o fen√≥meno, verificamos, n√£o raras vezes, que esses pap√©is nos s√£o atribu√≠dos por romances, filmes ou pe√ßas de teatro que vimos h√° muito tempo.
Quando somos realmente confrontados com situa√ß√Ķes invulgares (por exemplo, rivalidades que prev√≠amos e n√£o se verificam, e em vez disso se transformam num amor que nos deixa s√≥s), a primeira coisa a que nos agarramos s√£o esses padr√Ķes sentimentais livrescos.

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Em Nada Podemos Estar Firmes

Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revolu√ß√Ķes diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa const√Ęncia; tudo consiste em representa√ß√£o que come√ßa, n√£o para existir, mas para acabar; menos para ser, que para ter sido. Vimos ao mundo a mostrar-nos, e a fazer parte da diversidade dele; as cousas parece que nos v√£o fugindo, at√© que n√≥s vimos a desaparecer tamb√©m. Somos formados de inclina√ß√Ķes opostas entre si, e temos em n√≥s uma propens√£o oculta, que sobre a apar√™ncia de buscar os objectos, s√≥ procura neles a mudan√ßa.
A inconst√Ęncia nos serve de al√≠vio, e desoprime, porque a firmeza √© como um peso, que n√£o podemos suportar sempre, por mais que seja leve; e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se n√≥s sempre vamos sendo outros? Tudo nos √© dado por um certo tempo; em breves dias, e em breves horas se desvanece a raz√£o da novidade, que nos fazia apetecer; fica invis√≠vel aquele agrado, que nos tinha induzido para desejar. Quantas vezes esperamos as sombras da noite com mais fervor do que as luzes do dia; n√£o por v√≠cio do desejo, mas porque n√£o temos for√ßas para suportar o bem,

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Quando √Čs Atencioso e Comovente, Perco a Cabe√ßa

Henry,

Acabaste de sair. Disse ao Hugh que tinha de acrescentar algo ao meu trabalho. Tive de voltar para cima, para o meu quarto, outra vez, e ficar s√≥. Estava t√£o cheia de ti que tinha medo de mostrar a minha cara. Henry, nenhuma partida tua me deixou t√£o abalada. N√£o sei o que foi hoje que me atraiu a ti, que me fez fren√©tica por estar perto de ti, para dormir contigo, para te abra√ßar… Uma ternura louca e terr√≠vel… Um desejo de cuidar de ti… Foi uma grande dor para mim teres ido embora. Quando falas da maneira como falaste das M√§dchen [in Uniform] , quando √©s atencioso e comovente, perco a cabe√ßa.

Para ficar contigo por uma noite eu daria toda a minha vida, sacrificaria cem pessoas, deitaria fogo a Louveciennes, seria capaz de tudo. Isto não é para te preocupar, Henry, é só porque não consigo impedir-me de o dizer, que estou a transbordar, desesperadamente enamorada por ti como nunca estive por alguém. Mesmo que fosses embora amanhã de manhã, a ideia de estares a dormir na mesma casa teria sido um doce alívio do tormento que suporto esta noite, o tormento de ser cortada ao meio quando fechaste o portão atrás de ti.

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A Mais Cruel das Torturas

Seria dif√≠cil conceber castigo mais demon√≠aco, pudesse uma tal coisa ser posta em pr√°tica, do que abandonar uma pessoa √† deriva na sociedade por forma a passar despercebida a todos os seus membros. Se ningu√©m se voltasse para n√≥s ao ver-nos entrar em casa, se ningu√©m nos respondesse quando n√≥s fal√°ssemos, ou se preocupasse com o que n√≥s fiz√©ssemos, mas se toda a gente que conhec√™ssemos nos ¬ędesligasse do mundo¬Ľ e agisse como se f√īssemos entidades inexistentes, n√£o tardar√≠amos a ser tomados de uma esp√©cie de desespero de raiva e impot√™ncia, de que a mais cruel das torturas corporais seria um al√≠vio.

Os Anos Perdidos por Vir

O pior n√£o era compreender de repente que aquela que eu considerara durante tanto tempo a pe√ßa mais importante no quebra-cabe√ßas da minha biografia se desprendera de mim naturalmente, da noite para o dia, com essa facilidade que fere, mas entrever pela primeira vez que quando algo ou algu√©m nos d√° mesmo cabo da vida isso √© definitivo: costumamos pensar nos anos perdidos sempre em rela√ß√£o ao tempo que ficou para tr√°s, mas o verdadeiramente terr√≠vel s√£o os anos perdidos por vir. Venha o que vier, vir√° mais p√°lido e mais fraco, se √© que n√£o nascer√° j√° morto. Agora via claramente a enorme fragilidade do que at√© pouco antes se apresentava aos meus olhos como indestrut√≠vel. N√£o me do√≠a estar s√≥ mas a certeza de que, de uma maneira ou de outra, o estaria sempre dali em diante, na medida em que qualquer mulher que no futuro quisesse aproximar-se de mim, por muito nua que viesse, por transparente que fosse o seu olhar, eu n√£o conseguiria v√™-la sen√£o como a desconhecida indiferente e desmemoriada que sem d√ļvida se tornaria, mais tarde ou mais cedo, uma estranha fingindo que tanto fazia, que eu nunca fora nada, caminhando por passeios opostos na minha pr√≥pria cidade,

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O Problema da Sinceridade do Poeta

O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta m√©dio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir. Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ningu√©m sabe o que verdadeiramente sente: √© poss√≠vel sentirmos al√≠vio com a morte de algu√©m querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque √© isso que se deve sentir nessas ocasi√Ķes. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que n√£o sente √© com qualquer esp√©cie ou grau de sinceridade intelectual, e essa √© que importa no poeta. Tanto assim √© que n√£o creio que haja, em toda a j√° longa hist√≥ria da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e n√£o s√≥ efectivamente, sentiam. H√° alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer. Quando muito h√°, em certos poetas, momentos em que dizem o que sentem.
Aqui e ali o disse Wordsworth. Uma ou duas vezes o disse Coleridge; pois a Rima do Velho Nauta e Kubla Khan são mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare. Há apenas uma reserva com respeito a Shakespeare: é que Shakespeare era essencial e estruturalmente factício;

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Amar Alguém

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho Рmas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.

Amar √© um casamento de solid√Ķes que, gozando o prazer da juntid√£o, mesmo assim n√£o prescinde dos prazeres de duas solid√Ķes juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.

Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.

Amar e ser amado √© a melhor sorte que se pode ter. N√£o s√£o milagres que aconte√ßam por acaso. √Č preciso trabalhar com leviandade – por muito cheio de amor que o cora√ß√£o esteja – para que esses milagres, fac√≠limos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.

Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.

Amar alguém é um baluarte contra o mundo,

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