Textos sobre Circunst√Ęncias

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Textos de circunst√Ęncias escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

O Pressuposto Indispens√°vel para se Ser um Grande-Escritor

O pressuposto indispens√°vel para se ser um grande-escritor √©, ent√£o, o de escrever livros e pe√ßas de teatro que sirvam para todos os n√≠veis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, √© preciso primeiro produzir efeito: este princ√≠pio √© a base de toda a exist√™ncia como grande-escritor. √Č um princ√≠pio miraculoso, eficaz contra todas as tenta√ß√Ķes da solid√£o, por excel√™ncia o princ√≠pio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos √© prop√≠cio, tudo o resto vir√° por si. Pois quando um escritor come√ßa a ter sucesso d√°-se logo uma transforma√ß√£o significativa na sua vida. O seu editor p√°ra de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista tr√°gico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A cr√≠tica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os cr√≠ticos muitas vezes at√© nem s√£o m√°s pessoas, mas, dadas as circunst√Ęncias epocais pouco prop√≠cias, ex-poetas que precisam de um apoio do cora√ß√£o para poderem p√īr c√° fora os seus sentimentos;s√£o poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que t√™m de aplicar com proveito, e por isso √© perfeitamente compreens√≠vel que escolham o livro de um grande-escritor e n√£o o de um comum escritor.

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A Opini√£o Pura e Elevada

A opini√£o que se emite ou a regra que se estabelece n√£o tem que se importar com as circunst√Ęncias em que se encontram os homens nem com as possibilidades de acolhimento ou recusa que o mundo lhe oferece; o que √© hoje gr√£o seco levanta-se amanh√£ sobre as ondas do campo como a espiga mais alta e mais cheia; o culto da verdade n√£o se compadece com a adora√ß√£o dos deuses que presidem aos dias nem com a v√£ agita√ß√£o que √© de regra no formigueiro humano; cada um tomar√° o que se diz como quiser; a sua atitude, por√©m, s√≥ interessar√° enquanto fen√≥meno base para uma nova legalidade.
N√£o h√° aqui nem indiferen√ßa, nem ego√≠smo; √© mais larga a alma que a par do amor dos homens actuais sente vibrar o amor dos homens do futuro, mais forte o esp√≠rito que se orienta para o eterno; a justi√ßa sempre o ter√° a seu lado armado de todas as armas, n√£o porque sinta para ela um impulso moment√Ęneo mas porque a defende em qualquer tempo; e sempre se h√°-de recusar, sejam quais forem as raz√Ķes, a passar em claro uma injusti√ßa ou a servir-se de qualquer meio, apenas porque tal proceder se aparenta vantajoso aos seus interesses ou aos interesses dos seus amigos.

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Mentir sem Prejudicar

Julgar os discursos dos homens atrav√©s dos efeitos que produzem equivale frequentemente a apreci√°-los mal. Tais efeitos, para al√©m de nem sempre serem sens√≠veis e f√°ceis de conhecer, variam infinitamente, tal como as circunst√Ęncias em que esses discursos s√£o proferidos.
A inten√ß√£o daquele que os profere, por√©m, √© a √ļnica que permite apreci√°-los e que determina o seu grau de mal√≠cia ou de bondade. Proferir afirma√ß√Ķes falsas s√≥ √© mentir quando existe inten√ß√£o de enganar, e mesmo essa inten√ß√£o, longe de se aliar sempre √† de prejudicar, tem por vezes um objectivo oposto. Todavia, para tornar inocente uma mentira, n√£o basta que a inten√ß√£o de prejudicar n√£o seja expressa, √© necess√°rio tamb√©m ter a certeza de que o erro em que se induz aqueles a quem se fala n√£o poder√° prejudic√°-los a eles nem a ningu√©m, seja de que maneira for. √Č raro e dif√≠cil ter-se essa certeza e, por isso, √© dif√≠cil e raro que uma mentira seja perfeitamente inocente.

Quem Vence n√£o Precisa de Dar Satisfa√ß√Ķes

Aten√ß√£o para que as coisas lhe saiam bem. Alguns t√™m mais em mira o rigor da direc√ß√£o que a felicidade de conseguir o intento, por√©m sempre prepondera mais o descr√©dito da infelicidade que o abono da dilig√™ncia. Quem vence n√£o precisa de dar satisfa√ß√Ķes. A maioria n√£o percebe a exactid√£o das circunst√Ęncias, mas apenas os bons ou maus sucessos; e, assim, nunca se perde reputa√ß√£o quando se consegue o intento. O bom fim tudo doura, mesmo que o desmintam os desacertos dos meios. Pois √© arte ir contra a arte quando n√£o se pode conseguir de outro modo a felicidade de sair-se bem.

A Maneira como cada um Pensa Determina a sua Maneira de Viver

A vida n√£o √© governada por actos ou circunst√Ęncias extr√≠nsecos, vindos de fora. Cada um de n√≥s cria a sua pr√≥pria vida pelos pensamentos que tem. Marco Aur√©lio afirmou: – ¬ęA nossa vida √© o que os nossos pensamentos fazem dela.¬Ľ Emerson disse: – ¬ęO homem √© o que pensa ser.¬Ľ Jesus Cristo ensinou: – ¬ęO que um homem pensa no seu cora√ß√£o √© o que ele √©.¬Ľ Um simples pensamento n√£o constr√≥i ou destr√≥i uma vida, mas um h√°bito de pensar pode faz√™-lo. N√£o podemos pensar em derrota e sair vitoriosos. Um h√°bito fixo de esperan√ßa √© a cura para um cora√ß√£o preocupado e perturbado. Podemos fazer mais contra n√≥s ou a nosso fazer que qualquer for√ßa estranha.
A maneira como cada um pensa determina a sua maneira de viver. Todo o pensamento bom contribui com a sua quota-parte para o resultado final da nossa vida. Um simples pensamento tido pela manh√£ pode encher o dia inteiro de alegria e de sol, ou de tristeza e des√Ęnimo. Quantos dias n√£o t√™m sido deprimentes devido a um pensamento inconsiderado ou mal√©volo. Voc√™ nunca poder√° ser melhor ou mais elevado que o seu melhor pensamento.

Talento não é Sabedoria

Deixa-me dizer-te francamente o ju√≠zo que eu formo do homem transcendente em g√©nio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento √© sempre um mau homem. Alguns conhe√ßo eu que o mundo proclama virtuosos e s√°bios. Deix√°-los proclamar. O talento n√£o √© sabedoria. Sabedoria √© o trabalho incessante do esp√≠rito sobra a ci√™ncia. O talento √© a vibra√ß√£o convulsiva de esp√≠rito, a originalidade inventiva e rebelde √† autoridade, a viagem ext√°tica pelas regi√Ķes inc√≥gnitas da ideia. Agostinho, F√©nelon, Madame de Sta√ęl e Bentham s√£o sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron s√£o talentos.
Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os servi√ßos prestados √† humanidade por esses homens, e ter√°s encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque √© mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa espl√™ndida ta√ßa de brilhantes e ouro porque √© que cont√©m o fel, que abrasa os l√°bios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores √† cabe√ßa de uma mulher, ainda mesmo refor√ßada por duas d√ļzias de cabe√ßas acad√©micas !

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A √önica Realidade Social (2)

As qualidades puramente sociais que governam os homens s√£o o ego√≠smo, a socialidade e a vaidade. Por socialidade entendo o instinto greg√°rio; √© ela que ameniza e limita, sem nunca o eliminar nem essencialmente o alterar, o ego√≠smo, qualidade prim√°ria, que se deriva da pr√≥pria circunst√Ęncia de haver um ego. A vaidade √© a consequ√™ncia do ego√≠smo na sua limita√ß√£o pela sociedade; √© a qualidade social humana mais evidente. Todo o homem quer ser mais que outro, todo o homem quer brilhar. Variam, com as √≠ndoles e as aptid√Ķes, as maneiras em que o homem quer destacar-se, mas cada um tem a sua vaidade.
Seria imposs√≠vel a exist√™ncia da sociedade se nela se n√£o reproduzissem estes fen√≥menos da vida do indiv√≠duo. Por isso a sociedade se divide em na√ß√Ķes, e n√£o √© poss√≠vel ¬ęhumanidade¬Ľ em mat√©ria social. Assim como tem que haver um ego√≠smo individual, tem que haver um ego√≠smo colectivo – √© o que se chama o instinto patri√≥tico. Assim como h√° uma vaidade individual – tem que haver uma vaidade colectiva – √© o que se chama imperalismo.

Felicidade Interiorizada

¬ęPergunta-me onde, neste mundo, se pode encontrar a felicidade?¬Ľ Depois de numerosas experi√™ncias, convenci-me que ela reside apenas na satisfa√ß√£o em rela√ß√£o a n√≥s pr√≥prios. As paix√Ķes n√£o nos conseguem comunicar esse contentamento; desejamos sempre o imposs√≠vel – o que obtemos nunca nos satisfaz. Penso que as pessoas dotadas de uma s√≥lida virtude devem possuir uma grande por√ß√£o dessa satisfa√ß√£o, que me parece imprescind√≠vel para a felicidade; eu, no entanto, como n√£o me sinto suficientemente seguro para me satisfazer comigo pr√≥prio, dessa forma, procuro apoiar-me na verdadeira satisfa√ß√£o que comunica o trabalho.
Este, comunica-nos um bem real e aumenta a nossa indiferen√ßa em rela√ß√£o aos prazeres que s√£o s√≥ de nome e com os quais as pessoas de sociedade se t√™m de contentar. Eis, minha querida amiga, a minha modesta filosofia – a qual, sobretudo quando me encontro bem de sa√ļde, √© de efeito seguro. Isto, contudo, n√£o nos deve afastar das pequenas distrac√ß√Ķes que nos podem ocupar de vez em quando: um pequeno caso sentimental, de circunst√Ęncia, a visita a um belo pa√≠s ou as viagens, de modo geral, podem deixar na nossa mem√≥ria encantadores tra√ßos. Recordamo-nos mais tarde de todas estas emo√ß√Ķes, quando nos encontramos longe ou n√£o conseguimos encontrar outras,

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A Realidade e o Modo

N√£o basta a subst√Ęncia, requer-se tamb√©m a circunst√Ęncia. Um mau modo tudo estraga, at√© a justi√ßa e a raz√£o. O bom tudo supre; doura o n√£o, ado√ßa a verdade e enfeita at√© a velhice. √Č grande o papel do como nas coisas, e o bom jeito √© o essencial das coisas. O bel portar-se √© a gala do viver, desempe√ßo singular de todo o bom termo.

A Distorção do Entendimento

Que dif√≠cil √© propor um problema ao entendimento alheio sem corromper esse entendimento pela maneira de propor! Se dizemos: acho isto belo, acho obscuro, ou outra coisa semelhante, arrastamos a imagina√ß√£o para este ju√≠zo, ou irritamo-la, levando-a ao ju√≠zo contr√°rio. Mais vale nada dizer, e ent√£o o outro julga segundo o que √©, ou segundo o que √© naquele momento, e de acordo com o que as outras circunst√Ęncias, de que n√£o somos respons√°veis, l√° tiverem posto. Mas pelo menos n√≥s n√£o pusemos nada; a n√£o ser que o nosso sil√™ncio tenha tamb√©m o seu efeito, segundo o sentido e a interpreta√ß√£o que ele estiver disposto a atribuir-lhe, ou segundo o que depreende dos movimentos e da express√£o do rosto, ou do tom de voz, conforme for melhor ou pior fisionomista: t√£o dif√≠cil √© n√£o deslocar um entendimento da sua base natural, ou antes, t√£o pouco um entendimento tem de firme e est√°vel!

Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida n√£o √© um vaidoso √† toa. Ele √© o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca √© gratuita, todo o rendimento poss√≠vel. Nos neg√≥cios, na pol√≠tica, no jornalismo, nas letras, nas artes. √Č t√£o capaz de aceitar uma condecora√ß√£o como de rejeit√°-la.

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Quanto Mais Objectos de Interesse um Homem Tem, Mais Ocasi√Ķes Tem Tamb√©m de Ser Feliz

Toda a desilus√£o √© para mim uma doen√ßa que certas circunst√Ęncias podem tornar inevit√°vel, √© verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais r√°pidamente poss√≠vel, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro n√£o gosta; em que √© que o √ļltimo √© superior ao primeiro? N√£o h√° nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta s√£o bons, para quem n√£o gosta s√£o maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro n√£o conhece; sobre este ponto, a sua vida √© mais agrad√°vel e est√° melhor adaptado ao mundo onde ambos t√™m de viver.

O que √© verdadeiro neste exemplo trivial √© igualmente verdade nas quest√Ķes mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol √© sob esse aspecto supeior ao homem que n√£o gosta. O que aprecia a leitura √© ainda mais superior do que aquele que n√£o a aprecia, pois as oportunidade de ler s√£o mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem,

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A Democracia Política Conduz à Ineficiência e Fraqueza de Direcção

Os defeitos da democracia pol√≠tica como sistema de governo s√£o t√£o √≥bvios, e t√™m sido tantas vezes catalogados, que n√£o preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia pol√≠tica foi criticada porque conduz √† inefici√™ncia e fraqueza de direc√ß√£o, porque permite aos homens menos desej√°veis obter o poder, porque fomenta a corrup√ß√£o. A inefici√™ncia e fraqueza da democracia pol√≠tica tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando √© preciso tomar e cumprir decis√Ķes rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milh√Ķes de eleitores em poucas horas √© uma impossibilidade f√≠sica. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decis√£o aos eleitores – em cujo caso todo o princ√≠pio da democracia pol√≠tica ter√° sido tratado com o desprezo que em circunst√Ęncias cr√≠ticas ela merece; ou ent√£o o povo √© consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequ√™ncias fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia pol√≠tica foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.

O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.

O Que é a Inspiração?

Eu n√£o sei o que √© a inspira√ß√£o. Mas tamb√©m a verdade √© que √†s vezes n√≥s usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos l√° a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do racioc√≠nio sobre esse tema, at√© chegar a uma certa conclus√£o. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajecto, mas tamb√©m pode acontecer que a raz√£o, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser raz√£o, avan√ßar t√£o rapidamente que eu n√£o me aperceba disso, ou s√≥ me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunst√Ęncias diferentes, s√≥ chegaria depois de ter passado por todas essas fases.
Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo,

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O Declínio da Natalidade

A mudan√ßa de rela√ß√Ķes entre pais e filhos √© um exemplo t√≠pico da expans√£o geral da democracia. Os pais j√° n√£o est√£o muito seguros dos seus direitos sobre os filhos, os filhos j√° n√£o sentem que devem respeito aos pais. A virtude da obedi√™ncia, que era outrora exigida sem discuss√£o, passou de moda e com certa raz√£o.
A psican√°lise aterrorizou os pais cultos com o medo de causarem, sem querer, mal aos filhos. Se os beijam, podem provocar o complexo de √Čdipo; se n√£o os beijam, podem provocar crises de ci√ļmes. Se os repreeendem em qualquer coisa, podem fazer nascer neles o sentimento do pecado; se n√£o o fazem, os filhos adquirem h√°bitos que os pais consideram indesej√°veis. Quando v√™em as crian√ßas a chupar no polegar, tiram disso toda a esp√©cie de conclus√Ķes terr√≠veis, mas n√£o sabem o que fazer para o evitar. O uso dos direitos dos pais que era antigamente uma manifesta√ß√£o triunfante da autoridade, tornou-se t√≠mido, receoso e cheio de escr√ļpulos.

Perderam-se as antigas alegrias simples e isto é tanto mais grave quanto é certo que, devido à nova liberdade das mulheres solteiras, a mãe tem de fazer muito mais sacrifícios do que antigamente ao optar pela maternidade.

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Dignidade Perdida

A medita√ß√£o perdeu toda a sua dignidade exterior; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; j√° n√£o se poderia continuar a suportar um sages da velha escola. Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de neg√≥cios de toda a esp√©cie, mesmo quando se trate das coisas mais graves; temos apenas necessidade de pouca prepara√ß√£o, e at√© de pouco sil√™ncio: tudo se passa como se tiv√©ssemos na cabe√ßa uma m√°quina que girasse incessantemente e que prosseguisse o seu trabalho, mesmo nas piores circunst√Ęncias. Outrora, quando algu√©m se queria p√īr a pensar – era uma coisa excepcional! – era coisa que se notava imediatamente ; notava-se que queria tornar-se mais s√°bio e que se preparava para uma ideia: o seu rosto ganhava uma express√£o como em ora√ß√£o; o homem detinha-se na sua marcha; ficava at√© im√≥vel durante horas na rua, apoiado numa perna ou nas duas, quando a ideia lhe ¬ęsurgia¬Ľ. A coisa ¬ęvalia¬Ľ ent√£o ¬ęesse trabalho¬Ľ.

O Prazer e a Dor

O prazer e a dor n√£o conhecem a dura√ß√£o. A sua natureza √© dissiparem-se rapidamente e, por conseguinte, s√≥ existirem sob a condi√ß√£o de ser intermitente. Um prazer prolongado cessa logo de ser um prazer e uma dor continua logo se atenua. A sua diminui√ß√£o pode mesmo, por confronto, tornar-se um prazer. O prazer s√≥ √©, pois, um prazer sob a condi√ß√£o de ser descont√≠nuo. O √ļnico prazer um pouco dur√°vel √© o prazer n√£o realizado, ou desejo.
O prazer somente √© avali√°vel pela sua compara√ß√£o com a dor. Falar de prazer eterno √© um contra-senso, como justamente observou Plat√£o. Ignorando a dor, os deuses n√£o podem, segundo Plat√£o, ter prazer. A descontinuidade do prazer e da dor representa a conseq√ľ√™ncia dessa lei fisiol√≥gica: ‚ÄúA mudan√ßa √© a condi√ß√£o da sensa√ß√£o‚ÄĚ. N√£o percebemos os estados cont√≠nuos, por√©m as diferen√ßas entre estados simult√Ęneos ou sucessivos. O tique-taque do rel√≥gio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por n√£o ser mais ouvido, e o moleiro n√£o ser√° despertado pelo ru√≠do das rodas do seu moinho, mas pelo seu parar.

√Č em virtude dessa descontinuidade necess√°ria que o prazer prolongado cessa logo de ser um prazer, por√©m uma coisa neutra,

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O Individual como Base do Colectivo

Tudo quanto é apenas colectivo é desordem. A ordem vem da composição individual. Mas a composição individual para formar em si a ordem necessita de que esta também se projecte no colectivo.
A express√£o do colectivo √© o p√Ęnico. O terror s√≥ se submete pelo terror. O p√Ęnico tem duas express√Ķes de terror: a centr√≠fuga e a centr√≠peta. A express√£o que se desfaz a si mesma e a que permanece est√°tica e se adentra.

A √ļnica maneira de aparentar a ordem no colectivo √© manejar o p√Ęnico. Mas como todo o estado ps√≠quico, por mais inteiro que se apresente tende a suavizar-se se era violento e a tornar-se violento se era suave, √© necess√°rio para manter o estado de p√Ęnico, que se lhe estabele√ßam tantas modalidades diferentes e sucessivas que consigam realmente fazer desviar as aten√ß√Ķes da sua insist√™ncia. Por√©m, este processo n√£o tem fim. √Č o processo da m√≠stica colectiva. Filha do desespero individual, a m√≠stica colectiva n√£o faz alterar a realidade mas consegue tempor√°riamente submeter todos os indiv√≠duos √†s mesmas circunst√Ęncias. E at√© que se formem as novas √©lites as m√≠sticas colectivas s√£o espera.
Ao vermos os grandes exércitos, reluzentes nas paradas ou disfarçados com a própria cor da terra das batalhas,

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