Textos sobre Ato

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Textos de ato escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

As Coisas Efémeras são as Mais Necessárias

Das coisas tang√≠veis, as menos dur√°veis s√£o as necess√°rias ao pr√≥prio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produ√ß√£o; no dizer de Locke, todas essas ¬ęboas coisas¬Ľ que s√£o ¬ęrealmente √ļteis √† vida do homem¬Ľ, √† ¬ęnecessidade de subsistir¬Ľ, s√£o ¬ęgeralmente de curta dura√ß√£o, de tal modo que – se n√£o forem consumidas pelo uso – se deteriorar√£o e perecer√£o por si mesmas¬Ľ.
Após breve permanência neste mundo, retomam ao processo natural que as produziu, seja através de absorção no processo vital do animal humano, seja através da decomposição; e, sob a forma que lhes dá o homem, através da qual adquirem um lugar efémero no mundo das coisas feitas pelas mãos do homem, desaparecem mais rapidamente que qualquer outra parcela do mundo.

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma c√ļpula pol√≠tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu pr√≥prio destino, ainda havia ali, no pa√≠s, naquele espantoso ver√£o de 1955, uma consider√°vel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indiv√≠duo, ainda mais possu√≠do do gozo pleno de um extraodin√°rio senso l√ļdico tropical. Est√°vamos, poder√≠amos nos considerar como estando, num dos √ļltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, n√£o, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um solu√ßo. A densa nuvem desceria, n√£o, como todos pensavam, feita de mol√©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, v√≠tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo come√ßou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouri√ßo e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa gra√ßa da vida se dirigia apenas √† barriga dos gordos, √† tripa dos porcos, ou, no m√°ximo de finura e eleg√Ęncia,

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A Realidade Histórica é Equívoca e Inesgotável

O historiador pertence ao devir que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma evolução. A ciência histórica é uma forma de consciência que uma comunidade toma de si mesma, um elemento da vida colectiva, como o conhecimento de si um aspecto da consciência pessoal, um dos factores do destino individual. Não é ela função simultaneamente da situação actual, que por definição muda com o tempo, e da vontade que anima o sábio, incapaz de se destacar de si mesmo e do seu objecto?
Mas, por outro lado, ao contr√°rio, o historiador busca penetrar a consci√™ncia de outrem. √Č, em rela√ß√£o ao ser hist√≥rico, o outro. Psic√≥logo, estratega ou fil√≥sofo, observa sempre do exterior. N√£o pode nem pensar o seu her√≥i, como este se pensa a si mesmo, nem ver a batalha como o general a viu ou viveu, nem compreender uma doutrina do mesmo modo que o criador.
Finalmente, quer se trate de interpretar um acto ou uma obra, devemos reconstu√≠-los conceptualmente. Ora n√≥s temos sempre de escolher entre m√ļltiplos sistemas, pois a ideia √© ao mesmo tempo imanente e transcendente √† vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num universo espiritual, a l√≥gica jur√≠dica e econ√≥mica √© interna √† realidade social e superior √† consci√™ncia individual.

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Abster-se e Suportar

Limitar os nossos desejos, refrear a nossa cobi√ßa, domar a nossa c√≥lera, tendo sempre em mente que s√≥ podemos alcan√ßar uma parte infinitamente pequena das coisas desej√°veis, enquanto males m√ļltiplos nos v√£o ferindo; em suma: abster-se e suportar (Epticteto), √© uma regra que, caso n√£o seja observada, nem riqueza nem poder podem impedir que nos sintamos miser√°veis. A esse prop√≥sito, diz Hor√°cio, nas Ep√≠stolas:

Em todos os teus actos, lê e pergunta aos doutos
Procurando assim conduzir serenamente a tua vida;
Que não sejas atormentado pela cobiça sempre insaciável,
Nem pelo temor e pela esperança de bens de pouca utilidade.

O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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Desconfiança da Virtude Formal

Desconfiança da virtude formal Рeis a explicação deste mundo. Os que sentiram uma vez esta desconfiança em relação a si próprios e passaram a tê-la em relação a todos os outros, ganharam uma susceptibilidade incessante relativamente a toda a virtude declarada. Daí a suspeitar da virtude em acto vai apenas um passo. Optaram pois por chamar virtude a quanto sirva ao advento da sociedade que eles desejam. O móbil profundo (esta desconfiança) é nobre. Mas estará o raciocínio certo, eis a questão.

N√£o se Reconquista o Amor com Argumentos

Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. Julgas que me deixarei determinar por argumentos? Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos.
Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de um processo em que ela prova que tem razão? O processo irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa já tu a não amas. Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio, teve a ideia de cantar a mesma canção triste que cantava quando noiva. Essa canção triste ainda tornou o homem mais furioso.
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal como ele era quando a amava. Mas para isso precisaria de um génio criador, porque teria de carregar o homem de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego de uma inclinação para o mar que fará dele construtor de navios. Só assim cresceria essa árvore que depois se iria diversificando. E ele havia de pedir de novo a canção triste.
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento,

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Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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Não há Descoberta sem Violência

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção. Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para, desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade: terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário, escolho a aventura de um papel histórico,

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A Censura Existe Em Todo o Lado

Eu acho que a censura existiu sempre e provavelmente vai existir sempre. Porque a censura para o ser n√£o necessita de ter claramente uma porta aberta com um letreiro, onde se diga que ali h√° pessoas que l√™em livros ou v√£o ver espect√°culos. N√£o! A censura existe de todas as maneiras, porque todas as pessoas, nos diferentes n√≠veis de interven√ß√£o em que se encontram, por boas ou m√°s raz√Ķes, seleccionam, escolhem, apagam, fazem sobressair. E isso s√£o actos de oculta√ß√£o ou de evidencia√ß√£o que, no fundo, em alguns casos, s√£o actos formais de censura.
(Quanto √† censura oficial dos tempos de ditadura) Aquilo que a censura demonstrou e demonstra, em qualquer caso, √© que felizmente os escritores, dependendo das situa√ß√Ķes em que se encontram, s√£o muito mais ricos de meios, de processos de fazer chegar aquilo que querem dizer aos outros, do que se imagina. Evidentemente, numa situa√ß√£o de censura, o escritor √© obrigado a usar a escrita para comunicar isto ou aquilo ou aqueloutro, de uma maneira disfra√ßada, subterr√Ęnea, oculta; mas o que √© importante n√£o √© que a censura o esteja a obrigar a fazer isso. O que √© importante √© que ele seja capaz de o fazer.

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O Paradoxo da Liberdade

√Č porque eu sou a minha voz, √© porque ela existe minha no instante em que a estou erguendo, que me escapa a sua intelec√ß√£o. E todo o equ√≠voco do problema da liberdade est√° a√≠. Porque a liberdade experimenta-se e nada a pode demonstrar. Demonstr√°-la exigiria que estiv√©ssemos fora de n√≥s, porque na pr√≥pria demonstra√ß√£o estamos sendo o homem livre cuja liberdade desej√°vamos provar. Assim essa tentativa, como disse, √© t√£o absurda como pretender a intelec√ß√£o de uma l√≠ngua fora de uma qualquer l√≠ngua. Porque enquanto entendo uma l√≠ngua, estou sendo aquela l√≠ngua dentro da qual estou entendendo a outra. Quanto estou tentando entender a minha liberdade estou sendo quem sou na intelec√ß√£o disso que sou. Eis-nos pois remetidos para o limiar de n√≥s pr√≥prios, para o absoluto da escolha antes da escolha, para a identidade incompreens√≠vel entre o ser que √© o nosso e a escolha desse ser.
Que tem que fazer aqui a razão? Somos livres, como sabemos na consciente vivência do acto de ser consciente. Somos livres, como o sabemos da possibilidade de se ser e de se saber que se é, da infinita e infinitesimal diferença entre mim e mim, entre ser-se o que se é e o saber-se que se é esse ser,

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O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.

A Luta para a Supress√£o Radical das Guerras

A minha participa√ß√£o na produ√ß√£o da bomba at√≥mica consistiu numa √ļnica ac√ß√£o: assinei uma carta dirigida ao presidente Roosevelt, na qual se sublinhava a necessidade de levar a cabo experi√™ncias em grande escala, para investiga√ß√£o das possibilidades de produ√ß√£o duma bomba at√≥mica.
Tive bem consciência do grande perigo que significava para a Humanidade o êxito desse empreendimento. Mas a probabilidade de que os Alemães trabalhassem no mesmo problema e fossem bem sucedidos, obrigou-me a dar este passo. Não tinha outra solução, embora tivesse sido sempre um pacifista convicto. Foi, portanto, uma reacção de legítima defesa.
Enquanto, por√©m, as na√ß√Ķes n√£o estiverem resolvidas a trabalhar em comum para suprimir a guerra, a resolverem os seus conflitos por decis√£o pac√≠fica e a protegerem os seus interesses de maneira legal, v√™em-se obrigadas a preparar-se para a guerra. V√™em-se, mais, obrigadas a preparar todos os meios, mesmo os mais detest√°veis, para n√£o se deixarem ficar para tr√°s, na corrida geral aos armamentos. Este caminho conduz fatalmente √† guerra que, nas condi√ß√Ķes actuais, significa destrui√ß√£o geral.
Nestas condi√ß√Ķes, a luta contra os meios n√£o tem probabilidades de √™xito. S√≥ ainda pode valer a supress√£o radical das guerras e do perigo de guerra.

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A Fidelidade a Nós Próprios

De certo modo, o homem √© um ser que nos est√° intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suport√°-lo. Mas desde que alguns deles me impe√ßam de praticar os actos que est√£o em rela√ß√£o √≠ntima comigo mesmo, o homem passa √† categoria dos seres que me s√£o indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz. √Č certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espont√Ęneo, as minhas disposi√ß√Ķes interiores n√£o conhecem entraves, gra√ßas ao poder de agir sob condi√ß√£o e de derrubar os obst√°culos. Com efeito, a intelig√™ncia derruba e p√Ķe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obst√°culo √† sua actividade. O que lhe embara√ßava a ac√ß√£o favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir.

Moral Convencional e Moral Verdadeira

A respeitabilidade, a regularidade, a rotina Рtoda a disciplina de ferro forjada na moderna sociedade industrial Рatrofiaram o impulso artístico e aprisionaram o amor de forma tal que não mais pode ser generoso, livre e criador, tendo de ser ou furtivo ou pedante. Aplicou-se controle às coisas que mais deveriam ser livres, enquanto a inveja, a crueldade e o ódio se espraiam à vontade com as bençãos de quase toda a bisparia. O nosso equipamento instintivo consiste em duas partes Рuma que tende a beneficiar a nossa própria vida e a dos nossos descendentes, e outra que tende a atrapalhar a vida dos supostos rivais. Na primeira incluem-se a alegria de viver, o amor e a arte, que psicologicamente é uma consequência do amor. A segunda inclui competição, patriotismo e guerra. A moral convencional tudo faz para suprimir a primeira e incentivar a segunda. A moral verdadeira faria exactamente o contrário.
As nossas rela√ß√Ķes com os que amamos podem ser perfeitamente confiadas ao instinto; s√£o as nossas rela√ß√Ķes com aqueles que detestamos que deveriam ser postas sob o controle da raz√£o. No mundo moderno, aqueles que de facto detestamos s√£o grupos distantes, especialmente na√ß√Ķes estrangeiras. Concebemo-las no abstracto e engodamo-nos para crer que os nossos actos (na verdade manifesta√ß√Ķes de √≥dio) s√£o cometidos por amor √† justi√ßa ou outro motivo elevado.

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Instinto de Rebanho

Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avalia√ß√£o e uma classifica√ß√£o hier√°rquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classifica√ß√Ķes e essas avalia√ß√Ķes s√£o sempre a express√£o das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: √© aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe √© √ļtil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve tamb√©m de medida suprema do valor de qualquer indiv√≠duo. A moral ensina a este a ser fun√ß√£o do rebanho, a s√≥ atribuir valor em fun√ß√£o deste rebanho. Variando muito as condi√ß√Ķes de conserva√ß√£o de uma comunidade para outra, da√≠ resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transforma√ß√Ķes essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades s√£o ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haver√° ainda morais muito divergentes. A moralidade √© o instinto greg√°rio no indiv√≠duo.

O Empolar dos Conflitos

A maior parte dos conflitos s√£o forjados, baseados em falsas suspei√ß√Ķes ou exageram coisas sem import√Ęncia. Umas vezes, a ira vem at√© n√≥s, outras somos n√≥s que vamos ao seu encontro. Nunca devemos invocar a ira e, mesmo quando ela surge, devemos afast√°-la. Ningu√©m diz para si mesmo: ¬ęJ√° fiz ou poderei vir a fazer o que me est√° agora a causar ira¬Ľ; ningu√©m tem em conta a inten√ß√£o do autor, mas apenas o acto em si. Ora, √© o autor que se deve ter em conta: teve ele inten√ß√£o de fazer o que fez ou f√™-lo sem querer, foi coagido ou estava enganado, seguiu o √≥dio ou procurou lucrar com o seu acto, f√™-lo por sua conta ou prestou um servi√ßo a algu√©m? A idade de quem errou e a sua situa√ß√£o devem ser ponderadas, para que saibamos se devemos suportar e perdoar a sua ofensa com benevol√™ncia ou com humildade.
Coloquemo-nos no lugar daquele que nos suscita ira: então, percebemos que o que nos torna iracundos é uma má avaliação de nós mesmos e não queremos sofrer algo que nós próprios queremos fazer. Ninguém faz uma pausa: ora, a pausa é o maior remédio para a ira,

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O Sentimento de Poder

Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir; porque o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão já na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como nas suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; ficarão mais satisfeitos com a sua situação e mais hostis aos inimigos do nosso poder, mais prontos a combatê-los. O facto de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos actos; mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou a fim de conservar o nosso sentimento de poder.