Textos sobre Atitudes

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Textos de atitudes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Inquietação Moderna

Em direc√ß√£o a oeste, a movimenta√ß√£o moderna torna-se cada vez maior, de modo que, para os Americanos, os habitantes da Europa na sua totalidade se apresentam como seres que gostam do sossego e dele usufruem, quando estes mesmos, no entanto, voam em confus√£o como abelhas e vespas. Esta movimenta√ß√£o torna-se t√£o grande que a cultura superior j√° n√£o pode madurar os seus frutos; √© como se as esta√ß√Ķes do ano se seguissem umas √†s outras demasiado depressa. Por falta de sossego, a nossa civiliza√ß√£o vai dar a uma nova barb√°rie. Em nenhuma √©poca, os activos, ou seja, os irrequietos, foram t√£o considerados. Refor√ßar em grande medida o elemento contemplativo faz parte, por conseguinte, das necess√°rias correc√ß√Ķes que se tem de efectuar no car√°cter da humanidade. No entanto, desde j√°, cada indiv√≠duo, que seja calmo e constante de cora√ß√£o e de cabe√ßa, tem o direito de crer que possui n√£o s√≥ um bom temperamento, mas tamb√©m uma virtude de utilidade geral e que, ao conservar essa atitude, at√© cumpre uma miss√£o superior.

O Segredo dos Dias

Quando h√° muito para fazer, que √© sempre, o melhor √© fazer como se nada houvesse para fazer e deixar tudo para o pouco tempo ‚Äď que infelizmente tem de ser medido ‚Äď que resta para faz√™-lo.
Nos dias de maior trabalho, permita-se o maior luxo. N√£o depois, mas antes. Ou melhor: antes para quem sente que roubou um pecado e tem de pag√°-lo e depois para quem sente que merece uma recompensa por ter trabalhado tanto.

Os seres humanos dividem-se entre os castigadores e os recompensadores. Talvez os primeiros sejam mais judeus e cat√≥licos e os segundos mais isl√Ęmicos e protestantes.
Para os castigadores o trabalho é o preço que se paga pelo prazer, pelo adiamento, pelo facto de não ter investido o tempo bastante para tentar urdir um resultado perfeito.
Para os recompensadores primeiro trabalha-se e depois celebra-se o ter trabalhado.

S√≥ agora me ocorre, tarde na vida, que ambas as atitudes s√£o oprimentes, tornando-nos em porquinhos-da-√≠ndia que comem conforme p√Ķem a roda que est√° na jaula em movimento.
√Č um erro equiparar o trabalho ao prazer, seja anterior ou posterior. O trabalho √© sempre um sofrimento, um esfor√ßo, uma coisa que,

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O Sentimento Religioso é o Mais Inconfessável de Todos

A religi√£o, ou o sentimento religioso, √© o mais inconfess√°vel de todos: n√£o por irracional, mas porque √© da sua mais √≠ntima natureza o sil√™ncio da vida f√≠sica do universo, que s√≥ faz barulho por acaso e n√£o para a gente ouvir. Que mais n√£o fosse, acharia rid√≠cula, e acho, a atitude dos ¬ęlibertos¬Ľ, nascidas da cabe√ßa de J√ļpiter, desirmanados de tudo quanto encarnou as dores e as esperan√ßas de uma humanidade dolorosamente em busca do seu pr√≥prio corpo. Mais que rid√≠cula, criminosa, estulta, digna dos raios divinos, se os houvesse. Neste sentido, me √© respeit√°vel a religi√£o considerada na sua ac√ß√£o interior e na sua simb√≥lica aparente; e, como poeta, n√£o posso deixar de ser sens√≠vel ao paganismo que a Igreja Cat√≥lica n√£o sonha – ou sonha at√© – a que ponto herdou. Quando a religi√£o pretende fixar-se, lutar ligada a interesses materiais que geraram muitas das formas que ela tomou, evidentemente que sou contr√°rio a ela, a aquela, porque sei que n√£o h√° eternidade das formas e das conven√ß√Ķes, mas sim da org√Ęnica simb√≥lica que assume uma ou outra forma, segundo o estado social em que se desenvolve.

Jorge de Sena, carta a sua noiva Mécia Lopes,

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Vontade de Mudança

Se achas que a situa√ß√£o da tua vida √© insatisfat√≥ria ou at√© mesmo intoler√°vel, s√≥ te rendendo primeiro conseguir√°s quebrar o padr√£o de resist√™ncia inconsciente que perpetua essa situa√ß√£o. Render-se √© perfeitamente compat√≠vel com tomar provid√™ncias, com iniciar uma mudan√ßa ou alcan√ßar metas. Mas no estado de rendi√ß√£o h√° uma energia totalmente diferente, uma qualidade diferente que corre no que fizeres. Ao renderes-te, ligas-te novamente com a energia da fonte do Ser e, se o que fizeres estiver infuso do Ser, tornar-se-√° numa celebra√ß√£o rejubilante da energia da vida, que te levar√° mais profundamente para dentro do Agora. Atrav√©s da n√£o-resist√™ncia, a qualidade da tua consci√™ncia e, por conseguinte, a qualidade de tudo o que fizeres ou criares, ser√° incomensuravelmente real√ßada. Os resultados tomar√£o ent√£o conta de si pr√≥prios e reflectir√£o essa qualidade. Poder√≠amos chamar-lhe “ac√ß√£o rendida”. N√£o √© o trabalho tal como o conhecemos desde h√° milhares de anos. √Ä medida que mais seres humanos forem despertando, a palavra trabalho desaparecer√° do nosso vocabul√°rio, e talvez se crie uma palavra nova em sua substitui√ß√£o.

√Č a qualidade da tua consci√™ncia desse momento que √© o factor determinante do tipo de futuro que vivenciar√°s, pelo que render-te √© a coisa mais importante que podes fazer para provocar uma mudan√ßa positiva.

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Compreender e Unir

J√° s√£o em n√ļmero demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi poss√≠vel tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renova√ß√£o e de √≠ntimo aperfei√ßoamento.
Reservemos para n√≥s a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada cren√ßa n√£o o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abord√°vel, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um m√ļtuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflitamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal,

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A Falta de Cultura √Čtica da Nossa Civiliza√ß√£o

Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educa√ß√£o, em ordem exclusiva ao real e √† pr√°tica, contribuiu para p√īr em perigo os valores √©ticos. N√£o penso propriamente nos perigos que o progresso t√©cnico trouxe directamente aos homens, mas antes no excesso e confus√£o de considera√ß√Ķes humanas rec√≠procas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses pr√°ticos que vem embotando as rela√ß√Ķes humanas.
O aperfei√ßoamento moral e est√©tico √© um objectivo a que a arte, mais do que a ci√™ncia, deve dedicar os seus esfor√ßos. √Č certo que a compreens√£o do pr√≥ximo √© de grande import√Ęncia. Essa compreens√£o, por√©m, s√≥ pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que √© preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de ac√ß√£o √© o que compete √† religi√£o, depois de libertada da supersti√ß√£o. Nesse sentido, a religi√£o toma um papel importante na educa√ß√£o, papel este que s√≥ em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em considera√ß√£o.
O terr√≠vel problema magno da situa√ß√£o pol√≠tica mundial √© devido em grande parte √†quela falta da nossa civiliza√ß√£o. Sem ¬ęcultura √©tica¬Ľ , n√£o h√° salva√ß√£o para os homens.

Somos aquilo que Pensamos

Os nossos pensamentos determinam aquilo que somos. A nossa atitude mental √© o factor X que determina o nosso destino. Emerson disse: ¬ęUm homem √© aquilo em que pensa o dia inteiro¬Ľ. Como poderia ser outra coisa qualquer? Estou convencido, sem qualquer sombra de d√ļvida, que o maior problema que temos de enfrentar – na realidade, trata-se praticamente do √ļnico problema que temos de enfrentar – √© a escolha dos pensamentos certos. Se conseguirmos, estaremos no caminho certo para resolver todos os nossos problemas. Marco Aur√©lio, o grande fil√≥sofo que governou o Imp√©rio Romano, resumiu esta quest√£o em onze palavras ‚ÄĒ onze palavras que podem determinar o seu destino: ¬ęA nossa vida √© aquilo que os nossos pensamentos fazem dela¬Ľ.

√Č verdade, se pensarmos em coisas felizes, seremos felizes. Se pensarmos em desgra√ßas, seremos uns desgra√ßados. Se pensarmos em coisas assustadoras, viveremos com medo. Se pensarmos em doen√ßas, ficaremos provavelmente doentes. Se pensarmos em falhar, √© certo que falhamos. Se ficarmos mergulhados em autocomisera√ß√£o, v√£o todos afastar-se de n√≥s e evitar-nos. Norman Vincent Peale afirmou: ¬ęTu n√£o √©s o que pensas que √©s; tu √©s o que tu pensas¬Ľ.

Estarei eu a defender uma típica atitude de Pollyanna (clássico de Eleane H.

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A Ilusão da Consistência da Obra do Escritor

O homem n√£o √© permanentemente igual a si mesmo. A velha concep√ß√£o dos car√°cteres rectil√≠neos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imut√°veis abriu fal√™ncia. Tudo muda, no espa√ßo e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista som√°tico – √© transformar-se. Quando come√ßamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, n√£o h√° um n√≥s apenas um escritor; h√°, ou houve, escritores sucessivos, m√ļltiplos e diversos, representando estados de evolu√ß√£o da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabiliza√ß√£o se opera, olhamos para tr√°s, e muitas das nossas pr√≥prias obras parecem-nos escritas por um estranho, t√£o longe se encontram j√°, n√£o apenas dos nossos processos liter√°rios, mas do nosso esp√≠rito, das nossas tend√™ncias, da nossa orienta√ß√£o, dos nossos pontos de vista √©ticos e est√©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos Рobras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixão -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vícios da linguagem, as carências da técnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audácias, as incoerências, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.

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Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

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Atingir a Felicidade

Embora seja poss√≠vel atingir a felicidade, a felicidade n√£o √© uma coisa simples. Existem muitos n√≠veis. O Budismo, por exemplo, refere-se a quatro factores de contentamento ou felicidade: os bens materiais, a satisfa√ß√£o mundana, a espiritualidade e a ilumina√ß√£o. O conjunto destes factores abarca a totalidade da busca pessoal de felicidade. Deixemos de lado, por ora, as aspira√ß√Ķes √ļltimas a n√≠vel religioso ou espiritual, como a perfei√ß√£o e a ilumina√ß√£o, e concentremo-nos unicamente sobre a alegria e a felicidade, tal como as concebemos a n√≠vel mundano. A este n√≠vel, existem certos elementos-chave que n√≥s reconhecemos convencionalmente como contribuindo para o bem-estar e a felicidade. A sa√ļde, por exemplo, √© considerada como um factor necess√°rio para o bem-estar. Um outro factor s√£o as condi√ß√Ķes materiais ou os bens que possu√≠mos. Ter amigos e companheiros, √© outro. Todos n√≥s concordamos que para termos uma vida feliz precisamos de um c√≠rculo de amigos com quem nos possamos relacionar emocionalmente e em quem possamos confiar.

Portanto, todos estes factores s√£o causas de felicidade. Mas para que um indiv√≠duo possa utiliz√°-los plenamente e gozar de uma vida feliz e preenchida, a chave √© o estado de esp√≠rito. √Č crucial. Se utilizarmos as condi√ß√Ķes favor√°veis que possu√≠mos,

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A Essência da Poesia

Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necess√°rias para a forma√ß√£o do poema. Ali me foram dadas as contribui√ß√Ķes da terra e da alma. E penso que a poesia √© uma ac√ß√£o passageira ou solene em que entram em doses medidas a solid√£o e solidariedade, o sentimento e a ac√ß√£o, a intimidade da pr√≥pria pessoa, a intimidade do homem e a revela√ß√£o secreta da Natureza. E penso com n√£o menor f√© que tudo se apoia – o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exerc√≠cio que integrar√° para sempre em n√≥s a realidade e os sonhos,

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Para a Salvação da Democracia

Ora a democracia cometeu, a meu ver, o erro de se inclinar algum tanto para Maquiavel, de ter apenas pluralizado os pr√≠ncipes e ter constitu√≠do em cada um dos cidad√£os um aspirante a opressor dos que ao mesmo tempo declarava seus iguais. Ser esmagada pelos condottieri que disp√Ķem das lan√ßas mercen√°rias ou pela coaliz√£o dos que manejam o boletim de voto √© para a consci√™ncia o mesmo choque violento e o mesmo intoler√°vel abuso; um tirano das ilhas vale os trinta de Atenas e os milhares de espartanos. Pode ser esta a origem de muita reac√ß√£o que parece incompreens√≠vel; h√° almas que se entregaram a outros campos porque se sentiam feridas pela prepot√™ncia de indiv√≠duos que defendiam atitudes morais s√≥ fundadas na utilidade social, na combina√ß√£o pol√≠tica. E de facto, o que se tem realizado √©, quase sempre, um arremedo de democracia sem verdadeira liberdade e sem verdadeira igualdade, exactamente porque se tomou como base do sistema uma rela√ß√£o do homem com o homem e n√£o uma rela√ß√£o do homem com o esp√≠rito de Deus. Por outras palavras: para que a democracia se salve e regenere √© urgente que se busque assent√°-la em fundamentos metaf√≠sicos e se procure a origem do poder n√£o nos caprichos e disposi√ß√Ķes individuais,

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A Lamenta√ß√£o √© Completamente In√ļtil

N√£o h√° d√ļvida de que √© in√ļtil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se n√£o √© igualmente in√ļtil e prejudicial lamentarmo-nos perante n√≥s pr√≥prios. Evidentemente. De facto, ningu√©m se lamentar√° perante si pr√≥prio, a fim de se incitar √† piedade, o que nada significaria, dado que a piedade √©, por defini√ß√£o, o voluptuso encontro de dois esp√≠ritos. Para qu√™, ent√£o? N√£o para obter favores, porque o √ļnico favor que um esp√≠rito pode fazer a si pr√≥prio √© conceder-se indulg√™ncia, e toda a gente percebe quanto √© prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua pr√≥pria e lament√°vel fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.

A Opini√£o Pura e Elevada

A opini√£o que se emite ou a regra que se estabelece n√£o tem que se importar com as circunst√Ęncias em que se encontram os homens nem com as possibilidades de acolhimento ou recusa que o mundo lhe oferece; o que √© hoje gr√£o seco levanta-se amanh√£ sobre as ondas do campo como a espiga mais alta e mais cheia; o culto da verdade n√£o se compadece com a adora√ß√£o dos deuses que presidem aos dias nem com a v√£ agita√ß√£o que √© de regra no formigueiro humano; cada um tomar√° o que se diz como quiser; a sua atitude, por√©m, s√≥ interessar√° enquanto fen√≥meno base para uma nova legalidade.
N√£o h√° aqui nem indiferen√ßa, nem ego√≠smo; √© mais larga a alma que a par do amor dos homens actuais sente vibrar o amor dos homens do futuro, mais forte o esp√≠rito que se orienta para o eterno; a justi√ßa sempre o ter√° a seu lado armado de todas as armas, n√£o porque sinta para ela um impulso moment√Ęneo mas porque a defende em qualquer tempo; e sempre se h√°-de recusar, sejam quais forem as raz√Ķes, a passar em claro uma injusti√ßa ou a servir-se de qualquer meio, apenas porque tal proceder se aparenta vantajoso aos seus interesses ou aos interesses dos seus amigos.

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Conselhos para o Ensino

Vou falar de quest√Ķes que, independentemente do espa√ßo e do tempo, sempre estiveram e sempre estar√£o relacionadas com a educa√ß√£o. Nesta tentativa n√£o posso dizer que sou uma autoridade, particularmente t√£o inteligente e bem-intencionado como os homens que ao longo do tempo trataram dos problemas da educa√ß√£o e que certamente exprimiram repetidas vezes os seus pontos de vista acerca destas mat√©rias. Com que base posso eu, um leigo no √Ęmbito da pedagogia, arranjar coragem para exprimir opini√Ķes sem qualquer fundamento, excepto a minha experi√™ncia pessoal e a minha convic√ß√£o pessoal? Quando se trata de uma mat√©ria cient√≠fica, √© f√°cil uma pessoa sentir-se tentada a ficar calada com base nestas considera√ß√Ķes.
Contudo, tratando-se de assuntos respeitantes ao ser humano, é diferente. Neste caso, o conhecimento apenas da verdade não é suficiente; pelo contrário, este conhecimento deve ser continuamente renovado à custa de um esforço contínuo, sob pena de se perder. Lembra uma estátua de mármore no deserto que está continuamente em perigo de ser enterrada pela areia em movimento. As mãos de serviço têm de estar continuamente a trabalhar para que o mármore continue indefinidamente a brilhar ao sol. A este grupo de mãos também pertencem as minhas.
A escola sempre foi o mais importante meio de transferência da riqueza da tradição de uma geração para a seguinte.

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O Inimigo é Mais Útil que o Amigo

A tua atitude emerge do que costumas dizer: ¬ęAinda sou capaz de utilizar quem √© por mim. Mas prefiro, por comodidade, mandar o meu advers√°rio para o outro campo e abster-me de agir sobre ele, a n√£o ser pela guerra¬Ľ.
Ao proceder assim, n√£o fazes mais que endurecer e forjar o teu advers√°rio.
E eu c√° digo que amigo e inimigo s√£o palavras da tua lavra. √Č certo que especificam qualquer coisa, como definir o que se passar√° se vos encontrardes num campo de batalha, mas um homem n√£o se rege s√≥ por uma palavra. Sei de inimigos que est√£o mais perto de mim ou que me s√£o mais √ļteis ou que me respeitam mais do que os amigos. As minhas faculdades de ac√ß√£o sobre o homem n√£o est√£o ligadas √† sua posi√ß√£o verbal. Direi mesmo que actuo melhor sobre o meu inimigo do que sobre o amigo: quem caminha na mesma direc√ß√£o que eu, oferece-me menos oportunidades de encontro e de troca do que aquele que vem contra mim, disposto a n√£o deixar escapar a m√≠nima palavra ou gestos meus, que lhe podem sair caros.

O Homem Honroso

O homem honroso d√° aten√ß√£o especial a nove coisas. Dedica-se a ver bem o que olha, a ouvir bem o que escuta; cuida para ter uma apar√™ncia af√°vel, para ter uma atitude deferente, para ser sincero nas suas palavras, para ser diligente nas suas ac√ß√Ķes; no meio das suas d√ļvidas, tem o cuidado de interrogar; quando est√° descontente, pensa nas consequ√™ncias desastrosas da c√≥lera; frente a um bem a obter, lembra-se da justi√ßa.
(…) Buscar o bem, como se tem√™ssemos n√£o conseguir alcan√ß√°-lo; evitar o mal, como se tiv√©ssemos enfiado a m√£o na √°gua fervente; √© um princ√≠pio que eu vi ser posto em pr√°tica e que aprendi. Viver isolado na busca do seu ideal, praticar a justi√ßa, a fim de realizar a sua Via, √© um princ√≠pio que aprendi, mas ainda n√£o vi ningu√©m segui-lo.

Um Sério Pensamento de Governo

Para n√≥s n√£o h√° acusa√ß√Ķes falsas como arma pol√≠tica, nem factos que n√£o sejam os verificados, nem promessas que n√£o sejam a antecipa√ß√£o de prop√≥sito amadurecido e de plano seguramente realizado.
Se somos contra os abusos, as injusti√ßas, as irregularidades da administra√ß√£o, o favoritismo, a desordem, a imoralidade, isto corresponde a um s√©rio pensamento de governo e n√£o a uma atitude pol√≠tica √† sombra da qual cometamos os mesmos abusos e as mesmas injusti√ßas. Ai dos que fingem abra√ßar estes princ√≠pios de salva√ß√£o nacional, e dizem acompanhar-nos na obra revolucion√°ria, e sabem que queremos ir ousadamente pelas reformas sociais elevando o n√≠vel econ√≥mico e moral do povo, e no fundo pretendem apenas adormecer na esperan√ßa as reivindica√ß√Ķes mais vivas e aproveitar a paz que lhes conquist√°mos para esquecer as exig√™ncias da justi√ßa. Esses n√£o s√£o nossos, nem est√£o connosco.

O Irracional no Amor

Se √© rid√≠culo beijar uma mulher feia, tamb√©m √© rid√≠culo dar um beijo a uma beleza. A presun√ß√£o de que amando de uma certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar, n√£o vale mais do que a arrog√Ęncia de certo meio social. Tal soberba n√£o p√Ķe ningu√©m ao abrigo do c√≥mico universal, porque todos os homens se encontram na impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido √©, pretende tamb√©m convenc√™-los de que h√£o-de cumprir fielmente o juramento.
Que um homem rico, muito bem sentado na sua poltrona, acene com a cabe√ßa, ou volte a cara para a direita e para a esquerda, ou bata fortemente com um p√© no ch√£o, e que, uma vez perguntado pela raz√£o de tais actos, me responda: ¬ęn√£o sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento involunt√°rio¬Ľ, compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e as suas atitudes, se me dissesse que em tais actos consistia a sua maior felicidade,

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