Textos sobre Est√ļpidos

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Textos de est√ļpidos escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

Um Verdadeiro Amigo

Um verdadeiro amigo √© uma coisa t√£o vantajosa, mesmo para os maiores senhores, para dizer bem deles e os defender mesmo na sua aus√™ncia, que devem fazer tudo para os ter. Mas que escolham bem; pois, se fizerem todos os seus esfor√ßos por est√ļpidos, isso ser-lhes-√° in√ļtil, por muito bem que digam deles; e mesmo n√£o dir√£o bem se se sentirem mais fracos, pois n√£o ter√£o autoridade; e assim dir√£o tamb√©m mal por companhia.

As Saudades Curtas

Tamb√©m as vers√Ķes-formiga dos maiores sentimentos t√™m tanto direito ao respeito como os le√Ķes e as impalas. At√© por serem muito mais numerosas e frequentes, como est√° a multid√£o de insectos para com a pequena minoria dos vertebrados.
A minha formiguinha emocional são as saudades curtas que eu tenho da Maria João. Plenas não posso ter, graças a ela e a Deus, porque são poucos os momentos em que ela não está comigo. Mesmo não sendo muitas, essas faltas, por muito felizmente pequenas e provocadas pela necessidade, são suficientes para incutir em mim a dor, nem que seja por cinco minutos apenas, de estar separado dela.
Parecem est√ļpidas as saudades curtas. S√£o certamente insens√≠veis e solipsistas, perante as saudades longas e profundas, que n√£o t√™m cura nem, por serem insol√ļveis, t√™m a esperan√ßa de, um dia, deixarem de existir.
São saudades de uma hora, de um almoço perdido, de uma tarde interrompida. Parecem irracionais e ingratas, estas saudades curtas, de que sofrem as pessoas apaixonadas e felizes ou infelizes.
Mas n√£o s√£o. Daqui a um X n√ļmero de horas, vou morrer. Daqui a um Y n√ļmero de horas, vai morrer a Maria Jo√£o. Morra quem morra,

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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O Preço da Elevada Conduta

Conduta e carácter do homem vulgar: nunca em si próprio busca proveito ou pena, antes se atém às coisas exteriores. Conduta e carácter do filósofo: todo o proveito e pena surtem do íntimo de si próprio.
Sinais daquele que evolui: não insulta ninguém, não louva ninguém, não se queixa de ninguém, não acusa ninguém, nada diz de si próprio como coisa importante Рe nunca afirma saber o que quer que seja. Quando embaraçado e contrariado, só a si próprio se responsabiliza. Se o louvam, ri-se discretamente de quem o louva Рe se o insultam, de nada se justifica. Comporta-se como os convalescentes, e teme enfraquecer o que se consolida antes de recuperar toda a sua firmeza.
Suprimiu em si qualquer esp√©cie de vontade, e animosidades tamb√©m: s√≥ faz pairar uma e outras sobre as √ļnicas coisas que, contr√°rias √† natureza, dependem de n√≥s. Os seus arrebatamentos quase nunca o s√£o. E caso o tenham na conta de est√ļpido ou ignorante – nenhuma inquieta√ß√£o o toma. Numa palavra: desafia-se a si pr√≥prio como se fora um inimigo de quem temesse v√°rias armadilhas.

Até a Pessoa Amada Voltar

Até ela, a pessoa amada, voltar, o tempo não corre como costuma correr. Atrasa-se e detém-se. Suspende-se e atrapalha-nos. Move-se de um lado para o outro. Arrasta os lugares: aqueles onde ela está e aquele (a nossa casa) onde eu espero por ela.

Esperar é um sofrimento mas também se aprende a esperar. Olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer porque esses quantificadores malévolos são contabilistas automatizados que sabem contar todos os tempos, excepto os tempos de quem ama, espera e tem medo.

N√£o s√£o capazes de contar os tempos de todas as pessoas dotadas de um corpo com cora√ß√£o e alma. Que somos todos, quer queiramos, quer n√£o. Quem √© que quer? Ningu√©m. E de que nos serve? De nada. At√© ela, a pessoa amada, voltar, a √ļnica coisa que podemos fazer √© a que mais nos custa: esperar que ela volte. Mas quando √© que ela volta? Os minutos podem n√£o ser anos mas os quartos-de-hora s√£o semanas inteiras.

Mesmo saber que ela, a pessoa amada, voltará é difícil. Até acreditamos que queira voltar. Mas preocupamo-nos: e se ela não puder voltar? Pensar nisso é como morrer vivo sem pensar nisso.

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O Ciclo do Progresso

Da sociedade e do luxo que ela engendra, nascem as artes liberais e mec√Ęnicas, o com√©rcio, as letras, e todas essas inutilidades que fazem florescer a ind√ļstria, enriquecem e perdem os Estados. A raz√£o desse deperecimento √© muito simples. √Č f√°cil ver que, pela sua natureza, a agricultura deve ser a menos lucrativa de todas as artes, porque, sendo o seu produto de uso mais indispens√°vel para todos os homens, o pre√ßo deve estar proporcionado √†s faculdades dos mais pobres. Do mesmo princ√≠pio pode-se tirar a regra de que, em geral, as artes s√£o lucrativas na raz√£o inversa da sua utilidade, e de que as mais necess√°rias, finalmente, devem tornar-se as mais negligenciadas. Por ai se v√™ o que se deve pensar das verdadeiras vantagens da ind√ļstria e do efeito real que resulta dos seus progressos. Tais s√£o as causas sens√≠veis de todas as mis√©rias em que a opul√™ncia precipita, finalmente, as na√ß√Ķes mais admiradas.
√Ä medida que a ind√ļstria e as artes se estendem e florescem, o cultivador desprezado, carregado de impostos necess√°rios √† manuten√ß√£o do luxo, e condenado a passar a vida entre o trabalho e a fome, abandona o campo para ir procurar na cidade o p√£o que devia levar para l√°.

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Como Manipular um P√ļblico

Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, s√£o mais est√ļpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, conv√©m que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta j√° n√£o √© t√£o indispens√°vel num debate p√ļblico em que se trata de dispor as massas a nosso favor.

H√° uns anos, um pol√≠tico pagou a figurantes para o aplaudirem numa concentra√ß√£o. Como bom profissional, compreendera que uma claque, embora n√£o melhore o discurso, predisp√Ķe melhor os espectadores a descobrirem os seus m√©ritos. O mimetismo √© a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do √≥dio. Mesmo perante um pequeno p√ļblico de trinta pessoas, h√° sempre algo de religioso que prov√©m da coagula√ß√£o dos sentimentos individuais em express√£o colectiva. No meio de um grupo, √© necess√°ria uma certa energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opini√£o.
Os manipuladores de opinião ou, para utilizar uma palavra mais delicada, os comunicadores, sabem que, para conduzir mentalmente uma assembleia numa determinada direcção, é necessário começar por agir sobre os seus líderes. A primeira tarefa consiste em determinar quem são, apesar de eles próprios não o saberem. Um manipulador não tarda a distinguir o punhado de indivíduos em que pode apoiar-se para influenciar os outros.

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O Homem não é Sempre Igual

Um dos preconceitos mais conhecidos e mais espalhados consiste em crer que cada homem possui como sua propriedade certas qualidades definidas, que h√° homens bons ou maus, inteligentes ou est√ļpidos, en√©rgicos ou ap√°ticos, e assim por diante. Os homens n√£o s√£o feitos assim. Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que est√ļpido, mais frequentemente en√©rgico do que ap√°tico, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que √© bom ou inteligente, e de outro que √© mau ou est√ļpido. No entanto, √© assim que os julgamos. Pois isso √© falso. Os homens parecem-se com os rios: todos s√£o feitos dos mesmos elementos, mas ora s√£o estreitos, ora r√°pidos, ora largos, ora pl√°cidos, claros ou frios, turvos ou t√©pidos.

Amor e Justiça

Porque √© que se sobrestima o amor em detrimento da justi√ßa e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior √†quela? Pois n√£o √© ele visivelmente mais est√ļpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agrad√°vel para todos. Ele √© est√ļpido e possui uma rica cornuc√≥pia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta n√£o os mere√ßa e at√© nem sequer lhe agrade√ßa por isso. √Č imparcial como a chuva, a qual, segundo a B√≠blia e a experi√™ncia, n√£o s√≥ encharca o injusto at√© aos ossos, mas tamb√©m, em determinadas circunst√Ęncias, o justo.

O Triunfo dos Imbecis

N√£o nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes t√™m por vezes de lutar contra si pr√≥prios e, como se isso n√£o bastasse, contra todos os med√≠ocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que v√°, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irm√£os e √©, por esp√≠rito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O est√ļpido s√≥ profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que √© imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o g√©nio tem o v√≠cio ter√≠vel de se contrapor √†s opini√Ķes dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis s√£o t√£o abundante e solicitamente louvadas – os ju√≠zes s√£o, quase na totalidade, do mesmo n√≠vel e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paix√Ķes med√≠ocres, expressas por algu√©m um pouco menos med√≠ocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares,

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O Conceito de Nós Próprios

Cada homem, desde que sai da nebulose da inf√Ęncia e da adolesc√™ncia, √© em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Pode dizer-se sem exagero mais que verbal, que temos duas esp√©cies de pais: os nossos pais, propriamente ditos, a quem devemos o ser f√≠sico e a base heredit√°ria do nosso temperamento; e, depois, o meio em que vivemos, e o conceito que formamos de n√≥s pr√≥prios – m√£e e pai, por assim dizer, do nosso ser mental definitivo.
Se um homem criar o h√°bito de se julgar inteligente, n√£o obter√° com isso, √© certo, um grau de intelig√™ncia que n√£o tem; mas far√° mais da intelig√™ncia que tem do que se julgar est√ļpido. E isto, que se d√° num caso intelectual, mais marcadamente se d√° num caso moral, pois a plasticidade das nossas qualidades morais √© muito mais acentuada que a das faculdades da nossa mente.
Ora, ordinariamente, o que é verdade da psicologia individual Рabstraindo daqueles fenómenos que são exclusivamente individuais Рé também verdade da psicologia colectiva. Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.
O primeiro passo passou para uma regeneração,

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Amor como Deprava√ß√£o do Nervo √ďptico

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, √© uma deprava√ß√£o do nervo √≥ptico. A imagem objectiva, que fere o √≥rg√£o visual no estado patol√≥gico, adquire atributos fict√≠cios. A alma recebe a impress√£o quim√©rica tal como sens√≥rio lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excel√™ncias que a mais esmerada natureza denega √†s suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da defini√ß√£o v√™m a ser aqueles em que o bom senso n√£o pode atinar com o porqu√™ dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e est√ļpidas que nos enchem de espanto, quando nos n√£o fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida deprava√ß√£o do nervo que preside √†s fun√ß√Ķes da vista quanto a alma da pessoa enferma, v√≠tima de sua ilus√£o, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e m√©ritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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O Riso é o Melhor Indicador da Alma

Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como n√£o sabe (ningu√©m sabe, ali√°s) a cara que faz quando dorme. H√° quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros h√° que, embora inteligentes, fazem uma cara t√£o est√ļpida a dormir que se torna rid√≠cula.
Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.
Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade,

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O Segredo das Mulheres

Como os homens andam sempre atrasados em relação às mulheres (porque só pensam numa coisa de cada vez e acham que falar acerca das coisas é pior do que fazê-las), quem sabe se não é estudando o comportamento feminino de hoje que poderemos vislumbrar o nosso macaquismo masculino de amanhã?
As mulheres de hoje sabem quem lhes pode fazer mal: são as outras mulheres. Os homens, por muito amados e queridos, nem sequer são considerados competidores. São como são, têm a inteligência e o material que têm Рe que Deus os abençoe por ser assim, como os pêssegos-rosa e os arcos-íris e todos os outros fenómenos naturais que são difíceis de prever e de controlar.

O segredo das mulheres, que nenhum homem pode perceber, a n√£o ser que seja amado por alguma que se sinta suficientemente amada por um para lhe contar mais do que o suficiente para ele continuar a existir tal como √© (que mais n√£o se lhe pede) √©: os homens n√£o entram na equa√ß√£o. √Č tudo uma quest√£o entre elas.
Elas s√£o espertas. √Č por isso que morrem de medo umas das outras. Conhecem o perigo e sabem quem pode emperig√°-las.

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Ideias de Esquerda

Nunca disse que a esquerda era definitivamente est√ļpida, disse, sim, que agora mesmo n√£o vejo nada mais est√ļpido que a esquerda. Porqu√™? Porque h√° mais de cinquenta anos que n√£o produz uma √ļnica ideia que se diga de esquerda, porque, at√© quando parecia t√™-las, n√£o estava a fazer mais que remastigar ideias do passado sem se dar ao trabalho elementar de as fazer viver sob a luz da actualidade e das suas transforma√ß√Ķes. A esquerda tamb√©m √© est√ļpida porque √© incapaz de resistir √† tenta√ß√£o m√≥rbida que a leva a dividir-se e a subdividir–se sem parar.

O Método é Necessário para a Procura da Verdade

Os mortais s√£o dominados por uma curiosidade t√£o cega que, muitas vezes, envenenam o esp√≠rito por caminhos desconhecidos, sem qualquer esperan√ßa razo√°vel, mas unicamente para se arriscarem a encontrar o que procuram: √© como se algu√©m, incendiado pelo desejo t√£o est√ļpido de encontrar um tesouro, vagueasse sem cessar pelas pra√ßas p√ļblicas para ver se, casualmente, encontrava algum perdido por um transeunte. (…) n√£o nego que tenham por vezes muita sorte nos seus caminhos errantes e encontrem alguma verdade; contudo, n√£o estou de acordo que sejam mais competentes, mas apenas mais afortunados. Ora, vale mais nunca pensar em procurar a verdade de alguma coisa que faz√™-lo sem m√©todo: √© cert√≠ssimo, pois, que os estudos feitos desordenadamente e as medita√ß√Ķes confusas obscurecem a luz natural e cegam os esp√≠ritos. Quem se acostuma a andar assim nas trevas enfraquece de tal modo a acuidade do olhar que, depois, n√£o pode suportar a luz do pleno dia.

√Č a experi√™ncia que o diz: vemos muitissimas vezes os que nunca se dedicaram √†s letras julgar o que se lhes depara com muito maior solidez e clareza do que aqueles que sempre frequentaram as escolas. Entendo por m√©todo regras certas e f√°ceis, que permitem a quem exactamente as observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso,

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A Inépcia é Pior que a Falsidade

Toda a gente pode falar com verdade; mas falar com ordem, com prud√™ncia e capazmente, poucos o podem. Por isso, a falsidade que vem da ignor√Ęncia n√£o me ofende; a in√©pcia, sim. Quebrei v√°rias negocia√ß√Ķes que me eram √ļteis, por causa da estupidez que punham nas discuss√Ķes aqueles com quem negociava. Nem uma vez por ano me irrito com as faltas dos meus subordinados; mas, no que respeita √† idiotice e teimosia das suas alega√ß√Ķes, √†s desculpas e defesas asininas e brutas, andamos todos os dias √†s turras. N√£o entendem nem o que se lhes diz nem a raz√£o das coisas e respondem na mesma; √© de desesperar.
S√≥ outra cabe√ßa √© capaz de impressionar fortemente a minha e acomodo-me melhor com os erros dos meus do que com a sua leviandade, impertin√™ncia e estupidez. Que fa√ßam menos, contanto que fa√ßam bem alguma coisa; vive-se na esperan√ßa de lhes excitar a vontade, mas de est√ļpidos n√£o h√° que esperar nem que lucrar coisa que valha.

Breve Explicação do Sentido da Vida

Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar j√° n√£o sei em quantos livros? A vida √© um valor desconcertante pelo contraste entre o prod√≠gio que √© e a sua nula significa√ß√£o. Toda a ¬ęfilosofia da vida¬Ľ tem de aspirar √† m√ļtua integra√ß√£o destes contr√°rios. Com uma transcend√™ncia divina, a integra√ß√£o era f√°cil. Mas mais dif√≠cil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcend√™ncia. H√° v√°rias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais f√°cil precisamente a mais est√ļpida, que √© a de ignor√°-lo.
Mas se √© a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insol√ļveis – √†s vezes ou normalmente, pelo seu abandono – n√≥s podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz √© enfrent√°-lo e debat√™-lo at√© o gastar… Porque tudo se gasta: a m√ļsica mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para j√° de um desgaste que promovemos e ainda n√£o operamos? N√£o vejo que possa ser outra coisa al√©m da aceita√ß√£o, n√£o em plenitude – que a n√£o h√° ainda – mas em resigna√ß√£o. Filosofia da velhice, dir-se-√°. Com a diferen√ßa, por√©m, de que a velhice quer repouso e n√≥s ainda nos movemos bastante.

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