Textos sobre Fantasmas

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Textos de fantasmas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

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Encarar a Morte

√Č talvez sinal de pris√£o ao mundo dos fen√≥menos o terror e a dor ante a chegada da morte ou a serena mas entristecida resigna√ß√£o com que a fizeram os gregos uma doce irm√£ do sono; para o esp√≠rito liberto ela deve ser, como o som e a cor, falsa, exterior e passageira; n√£o morre, para si pr√≥prio nem para n√≥s, o que viveu para a ideia e pela ideia, n√£o √© mais existente, para o que se soube desprender da ilus√£o, o que lhe fere os ouvidos e os olhos do que o puro entender que apenas se lhe apresenta em pensamento; e tanto mais alto subiremos quando menos considerarmos a morte como um enigma ou um fantasma, quanto mais a olharmos como uma forma entre as formas.

Vontade Intuitiva

Devemos tomar como guias das nossas considera√ß√Ķes n√£o as imagens da fantasia, mas sim conceitos claramente pensados. Na maioria das vezes, entretanto, ocorre o contr√°rio. Mediante uma investiga√ß√£o mais minuciosa, descobriremos que, em √ļltima inst√Ęncia, o que decide as nossas resolu√ß√Ķes n√£o s√£o, na maioria das vezes, os conceitos e ju√≠zos, mas uma imagem fantasiosa que representa e substitui uma das alternativas.
(…) Em especial na juventude, a meta da nossa felicidade fixa-se na forma de algumas imagens que pairam diante de n√≥s e am√≠ude persistem pela metade da vida, ou at√© mesmo por toda ela. S√£o verdadeiros fantasmas provocadores: se alcan√ßados, esvaecem-se, e a experi√™ncia ensina-nos que nada realizam do outrora prometido.
(…) √Č bem natural que assim se passe, pois, por ser imediato, o que √© intuitivo faz efeito mais directo sobre a nossa vontade do que o conceito, o pensamento abstracto, que fornece apenas o universal sem o particular. √Č justamente este √ļltimo que cont√©m a realidade: ele s√≥ pode agir indirectamente sobre a nossa vontade. E, no entanto, s√≥ o conceito mant√©m a palavra: portanto, √© √≠ndice de forma√ß√£o cultural confiar apenas nele. Decerto, por vezes precisar√° de elucida√ß√£o e par√°frase mediante certas imagens,

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Tango do Vi√ļvo

Tive dificuldades na minha vida privada. A doce Josie Bliss foi-se convencendo e apaixonando at√© adoecer de ci√ļmes. Se n√£o fosse isso, talvez tivesse continuado indefinidamente ao lado dela. Enterneciam-me os seus p√©s nus, as brancas flores que lhe brilhavam na cabeleira negra. Mas o seu temperamento levava-a at√© paroxismos selvagens. Tinha ci√ļmes e avers√£o √†s cartas que me chegavam de longe; escondia-me os telegramas sem os abrir, olhava com rancor o ar que eu respirava.

Por vezes acordava-me uma luz, um fantasma que se movia por detr√°s da rede do mosquiteiro. Era ela, vestida de branco, brandindo o seu longo e afiado punhal ind√≠gena. Era ela, rondando-me a cama horas inteiras sem se decidir a matar-me. ¬ęQuando morreres, acabar√£o os meus receios¬Ľ, dizia-me. No dia seguinte realizava misteriosos ritos para garantir a minha fidelidade.

Acabaria por me matar. Por sorte, recebi uma mensagem oficial participando-me que fora transferido para Ceilão. Preparei a minha viagem em segredo e um dia, abandonando a minha roupa e os meus livros, saí de casa como de costume e entrei no barco que me levaria para longe.

Deixava Josie Bliss, espécie de pantera birmanesa, na maior dor. Mal o barco começou a mover-se sobre as ondas do golfo de Bengala,

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Um Autêntico Sonho de Amor

Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se olha uma janela e se desflora quem está lá dentro. Depois, não. Depois, sofre-se é pelo homem, é pela estupidez colectiva, é por não se poder continuar alegremente num mundo povoado, e se desejar um deserto de asceta. O ascetismo é a desumanização, é o adeus à vida, e é duro ser uma espécie de fantasma da cultura cercado de areias.

Controlar a Timidez

Nunca consegui controlar a timidez. Quando tive que enfrentar em carne viva a incumb√™ncia que nos deixou o pai errante, aprendi que a timidez √© um fantasma invenc√≠vel. De cada vez que tinha que solicitar um cr√©dito, mesmo dos combinados de antem√£o em lojas de amigos, demorava horas em redor da casa, reprimindo a vontade de chorar e as contrac√ß√Ķes da barriga, at√© que me atrevia por fim, com as mand√≠bulas t√£o apertadas que n√£o me sa√≠a a voz. Havia sempre algum comerciante sem cora√ß√£o para me atrapalhar ainda mais: ¬ęMi√ļdo parvo, n√£o se pode falar com a boca fechada.¬Ľ Mais de uma vez regressei a casa com as m√£os vazias e uma desculpa inventada por mim. Mas nunca mais tornei a ser t√£o desgra√ßado como da primeira vez que quis falar pelo telefone na loja da esquina. O dono ajudou-me com a operadora, pois ainda n√£o existia o servi√ßo autom√°tico. Senti o sopro da morte quando me deu o auscultador. Esperava uma voz servi√ßal e o que ouvi foi o latido de algu√©m que falava no escuro ao mesmo tempo que eu. Pensei que o meu interlocutor tamb√©m n√£o me ouvia e levantei a voz tanto quanto pude. O outro,

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A Felicidade não Inclui o Êxtase

A sensa√ß√£o de sermos unos com a natureza animal, vegetal e mineral, e a satisfa√ß√£o de mergulhar nessa sensa√ß√£o, n√£o √© de todo degradante. √Č t√£o bom sentir pulsar dentro de n√≥s toda a vida, e simultaneamente buscar aquela exist√™ncia superior cuja realiza√ß√£o s√≥ nos √© poss√≠vel sonhar ou pressentir!
Não permitis que considerem fantasmas os dois grandes pólos do homem, a verdade e a felicidade; quando sonhamos sonhos de felicidade, é certo já a termos conquistado.
A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade.
A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante.

Fidelidade Feminina

Fala-se muito da fidelidade feminina, mas raras vezes se diz o que convém. Do ponto de vista estritamente estético, ela paira como um fantasma por sobre o espírito do poeta, que vemos atravessar a cena em demanda da sua amada, que é também um fantasma preso à espera do amante Рporque quando ele aparece e ela o reconhece, pronto, a estética já não tem mais que fazer. A infedilidade da mulher, que podemos relacionar directamente com a fidelidade precedente, parece relevar essencialmente da ordem moral, visto já que o cíume toca sempre os aspectos de paixão trágica.
Há três casos em que o exame é favorável à mulher: dois mostram a fidelidade, e um a infedilidade. A fidelidade feminina será enorme, excederá tudo quanto a gente possa pensar, enquanto a mulher não tiver a certeza de ser verdadeiramente amada: será muito grande, ainda que nos pareça incompreensível, quando o amante lhe perdoar; no terceiro caso temos a infedilidade.

√Č por ter Esp√≠rito que me Aborre√ßo

√Č preciso esconjurar, da forma que nos for poss√≠vel, este diabo de vida que n√£o sei porque √© que nos foi dada e que se torna t√£o facilmente amarga se n√£o opusermos ao t√©dio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. √Č preciso, numa palavra, agitar este corpo e este esp√≠rito que se delapidam um ao outro na estagna√ß√£o e numa indol√™ncia que se confunde com um torpor. √Č preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho – e reciprocamente: s√≥ assim estes parecer√£o, ao mesmo tempo, agrad√°veis e salutares. Um desgra√ßado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadi√°veis, deve ser, sem d√ļvida, extremamente infeliz, mas um indiv√≠duo que n√£o fa√ßa mais do que divertir-se n√£o encontrar√° nas suas distrac√ß√Ķes nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o t√©dio e que este o prende pelos cabelos – como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detr√°s de cada distrac√ß√£o e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar,

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Assumir a Dor

Quanto mais uma pessoa que foi traída tenta anular a pessoa que a traiu, mais raiva sentirá e, consequentemente, mais a dor da traição será arquivada no centro da sua memória. Quanto mais uma pessoa tentar esquecer a crise financeira que atravessa, mais penetrará nas janelas que financiam a sua hiperpreocupação, mais se perturbará, perderá o sono e descarregará a ansiedade no seu corpo, gerando sintomas psicossomáticos. Essas defesas do Eu não são apenas ineficientes como também aumentam os níveis de stresse.

Nunca tente apagar os seus arquivos. N√£o conseguir√°. N√£o gaste energia tentando esquecer as pessoas que o magoaram. O seu desgaste torn√°-las-√° inesquec√≠veis. A melhor t√©cnica, como veremos, √© assumir sempre a dor, recicl√°-la com maturidade, nunca se colocar no lugar de v√≠tima, conversar sem medo com os seus fantasmas, rev√™-los por outros √Ęngulos e reescrever as janelas onde est√£o inscritas.

A Vida é um Sonho um Pouco Menos Inconstante

Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela afectar-nos-ia tanto como os objectos que vemos todos os dias. E, se um artista estivesse seguro de sonhar todas as noites, durante doze horas, que é um rei, creio que seria quase tão feliz como um rei que sonhasse todas as noites, durante doze horas, que era um artista.
Se sonh√°ssemos todas as noites que somos perseguidos por inimigos, e agitados por esses fantasmas penosos, e se pass√°ssemos todos os dias em diversas ocupa√ß√Ķes, como quando se faz uma viagem, sofrer-se-ia quase tanto como se isso fosse verdadeiro, e apreender-se-ia o dormir como se apreende o despertar quando se teme entrar em semelhantes desgra√ßas realmente. E, com efeito, isto faria pouco mais ou menos o mesmo mal que a realidade.
Mas, porque os sonhos s√£o todos diferentes, e porque mesmo um se diversifica, o que se v√™ neles afecta bem menos que o que se v√™ acordado, por causa da continuidade, que n√£o √© contudo t√£o cont√≠nua e igual que n√£o mude tamb√©m, mas menos bruscamente, a n√£o ser raramente, como quando se viaja; e ent√£o diz-se: ¬ęParece-me que sonho¬Ľ; pois a vida √© um sonho um pouco menos inconstante.

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A Sa√ļde da Alma

A c√©lebre forma de medicina moral (a de Ar√≠ston de Chios), ¬ęa virtude √© a sa√ļde da alma¬Ľ, deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utiliz√°vel: ¬ęA tua virtude √© a sa√ļde da tua alma¬Ľ. Porque em n√≥s n√£o existe qualquer sa√ļde, e todas as experi√™ncias que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conhe√ßa o seu objectivo, o seu horizonte, as suas for√ßas, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a sa√ļde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, in√ļmeras sa√ļdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indiv√≠duo, a quem n√£o podemos comparar-nos, que levante a cabe√ßa, mais se desaprender√° o dogma da ¬ęigualdade dos homens¬Ľ, mais necess√°rio ser√° que os nossos m√©dicos percam a no√ß√£o de uma sa√ļde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doen√ßa. Ser√° s√≥ ent√£o que se poder√° talvez reflectir na sa√ļde e na doen√ßa da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta sa√ļde, que corre muito o risco de ser num o contr√°rio do que sucede com outro. Restar√° a grande quest√£o de saber se podemos dispensar a doen√ßa,

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Somos o Mistério

No fim desta √©poca, como se toda a longa viagem tivesse sido in√ļtil, volto a ficar sozinho nos territ√≥rios rec√©m-descobertos. Como na crise do nascimento, como no come√ßo alarmante e alarmado do terror metaf√≠sico donde brota o manancial dos meus primeiros versos, como num novo crep√ļsculo que a minha pr√≥pria cria√ß√£o provocou, entro numa nova agonia e na segunda solid√£o. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e da obscuridade e n√£o encontro sen√£o o vazio que as minhas pr√≥prias m√£os elaboraram com persist√™ncia fatal.

Mas o mais pr√≥ximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalcul√°vel, n√£o apareceria, afinal, sen√£o neste momento no meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos, mas n√£o no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o cora√ß√£o do homem. Sem pensar nos homens, tinha visto cidades, mas cidades vazias. Tinha visto f√°bricas de tr√°gico aspecto, mas n√£o vira o sofrimento debaixo dos tectos, sobre as ruas, em todas as esta√ß√Ķes, nas cidades e no campo.

√Äs primeiras balas que trespassaram as violas de Espanha, quando, em vez de sons, sa√≠ram delas borbot√Ķes de sangue, a minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da ang√ļstia humana e come√ßou a subir por ela uma torrente de ra√≠zes e de sangue.

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O Interior da Alma

O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espectáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma.
Fazer o poema da consci√™ncia humana, mas que n√£o fosse sen√£o a respeito de um s√≥ homem, e ainda nos homens o mais √≠nfimo, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva. A consci√™ncia √© o caos das quimeras, das ambi√ß√Ķes e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: √© o pandem√≥nio dos sofismas, √© o campo de batalha das paix√Ķes. Penetrai, a certas horas, atrav√©s da face l√≠vida de um ser humano, e olhai por tr√°s dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. H√° ali, sob a superf√≠cie l√≠mpida do sil√™ncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de drag√Ķes e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais vision√°rias como em Dante.

A Armadilha do Imediato

Como guia das nossas pr√≥prias aspira√ß√Ķes n√£o devemos tomar imagens da fantasia, mas conceitos. Geralmente ocorrer o inverso. Na juventude, em especial, a meta da nossa felicidade fixa-se na forma de algumas imagens que se implantam na nossa mente, frequentemente pela vida inteira ou por metade dela, mas na realidade n√£o passam de fantasmas que zombam de n√≥s: pois, no momento em que as alcan√ßamos, desfazem-se no nada, e vemos que n√£o cumprem nada daquilo que prometem.
Enquadram-se aqui determinadas cenas da vida dom√©stica, citadina, campestre, imagens da casa, do ambiente, etc. Chaque fou a sa marotte [cada louco com sua mania]. √Č comum tamb√©m fazer parte disso a imagem da amada. √Č natural que seja assim: pois o que √© evidente, justamente por ser imediato, tamb√©m age sobre a nossa vontade de modo mais directo do que o conceito, o pensamento abstracto, que fornece somente o universal, n√£o o detalhe, e tem uma rela√ß√£o apenas indirecta com a vontade. Em contrapartida, o conceito mant√©m a palavra. √Č ele que deve sempre guiar-nos e orientar-nos, embora seja certo que sempre necessitar√° da ilustra√ß√£o e da par√°frase por meio de imagens.

A Imortalidade

Ser imortal √© coisa sem import√Ęncia. Excepto o homem, todas as criaturas o s√£o, porque ignoram a morte. O divino, o terr√≠vel, o incompreens√≠vel, √© considerar-se imortal. J√° notei que, embora desagrade √†s religi√Ķes, essa convic√ß√£o √© rar√≠ssima. Israelitas, crist√£os e mu√ßulmanos professam a imortalidade, mas a venera√ß√£o que dedicam ao primeiro s√©culo prova que apenas cr√™em nele, e destinam todos os outros, em n√ļmero infinito, para o premiar ou para o castigar.

Mais razo√°vel me parece o c√≠rculo descrito por certas religi√Ķes do Indost√£o. Nesse c√≠rculo, que n√£o tem princ√≠pio nem fim, cada vida √© uma consequ√™ncia da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto… Doutrinada por um exerc√≠cio de s√©culos, a rep√ļblica dos homens imortais tinha conseguido a perfei√ß√£o da toler√Ęncia e quase do desd√©m. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem √© credor de toda a bondade, mas tamb√©m de toda a trai√ß√£o pelas suas inf√Ęmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e √≠mpares permitem o equil√≠brio, assim tamb√©m se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.

(…) Ningu√©m √© algu√©m,

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A Alegoria da Caverna

– Imagina agora o estado da natureza humana com respeito √† ci√™ncia e √† ignor√Ęncia, conforme o quadro que dele vou esbo√ßar. Imagina uma caverna subterr√Ęnea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a inf√Ęncia, de tal modo que n√£o possam mudar de lugar nem volver a cabe√ßa devido √†s cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo t√£o-s√≥ ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa dist√Ęncia e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acess√≠vel. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlat√£es de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
– Estou a imaginar tudo isso.
РImagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros,

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Conhecer-se a Si Próprio

Conhece-te a ti pr√≥prio – eis o que √© dif√≠cil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo n√£o consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros fa√ßo ideia mais ou menos aproximada, de mim n√£o fa√ßo ideia nenhuma.
H√° uma disparidade entre mim e mim. H√° em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que l√° dentro sonha, grita e √© capaz, por insignific√Ęncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma cat√°strofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que √© razo√°vel – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser n√£o √© aquele que compus, recalcando l√° para o fundo os instintos e as paix√Ķes; o meu verdadeiro ser √© uma √°rvore desgrenhada – √© o fantasma que nos momentos de exalta√ß√£o me leva a rasto para actos que reprovo. S√≥ a custo o contenho. Parece que est√° morto, e est√° mais vivo que o histri√£o que represento. Asseguro este simulcaro at√© √† cova com os h√°bitos de compress√£o que adquiri. N√£o sei se a maior parte dos homens √© assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

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