Textos de S√łren Kierkegaard

16 resultados
Textos de S√łren Kierkegaard. Conhe√ßa este e outros autores famosos em Poetris.

Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

Continue lendo…

O Irracional no Amor

Se √© rid√≠culo beijar uma mulher feia, tamb√©m √© rid√≠culo dar um beijo a uma beleza. A presun√ß√£o de que amando de uma certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar, n√£o vale mais do que a arrog√Ęncia de certo meio social. Tal soberba n√£o p√Ķe ningu√©m ao abrigo do c√≥mico universal, porque todos os homens se encontram na impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido √©, pretende tamb√©m convenc√™-los de que h√£o-de cumprir fielmente o juramento.
Que um homem rico, muito bem sentado na sua poltrona, acene com a cabe√ßa, ou volte a cara para a direita e para a esquerda, ou bata fortemente com um p√© no ch√£o, e que, uma vez perguntado pela raz√£o de tais actos, me responda: ¬ęn√£o sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento involunt√°rio¬Ľ, compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e as suas atitudes, se me dissesse que em tais actos consistia a sua maior felicidade,

Continue lendo…

A Grandiosidade do Homem Depende da Mulher, mas S√≥ Enquanto n√£o a Possui…

O homem deve √† mulher tudo quanto fez de belo, de insigne, de espantoso, porque da mulher recebeu o entusiasmo; ela √© o ser que exalta. Quantos mo√ßos imberbes, tocadores de flauta, n√£o celebraram j√° o tema? E quantas pastoras ing√©nuas n√£o o ouviram tamb√©m? Confesso a verdade quando digo que a minha alma est√° isenta de inveja e cheia de gratid√£o para com Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher – grandeza imensur√°vel, que encontra a sua felicidade na ilus√£o. Vale mais ser uma realidade, que ao menos possui uma significa√ß√£o precisa, do que ser uma abstrac√ß√£o suscept√≠vel de todas as interpreta√ß√Ķes. √Č, pois, bem verdade: gra√ßas √† mulher √© que a idealidade aparece na vida; que seria do homem, sem ela? Muitos chegaram a ser g√©nios, her√≥is, e outros santos, gra√ßas √†s mulheres que amaram; mas nenhum homem chegou a ser g√©nio por gra√ßa da mulher com quem casou; por essa, quando muito, consegue o marido ser conselheiro de Estado; nenhum homem chegou a ser her√≥i pela mulher que conquistou, porque essa apenas conseguiu que ele chegasse a general; nenhum homem chegou a ser poeta inspirado pela companheira de seus dias, porque essa apenas conseguiu que ele fosse pai;

Continue lendo…

Memória vs Recordação РAs Armas da Juventude e da Velhice

Recordar-se n√£o √© o mesmo que lembrar-se; n√£o s√£o de maneira nenhuma id√™nticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um evento, rememor√°-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recorda√ß√£o. A mem√≥ria n√£o √© mais do que uma condi√ß√£o transit√≥ria da recorda√ß√£o: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recorda√ß√£o. Esta distin√ß√£o torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a mem√≥ria, que geralmente √© de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imagina√ß√£o popular v√™ no velho um profeta, animado pelo esp√≠rito divino. Mas a recorda√ß√£o √© a sua melhor for√ßa, a consola√ß√£o que os sustenta, porque lhe d√° a vis√£o distante, a vis√£o de poeta. Ao inv√©s, o mo√ßo possui a mem√≥ria em alto grau, usa dela com facilidade, mas falta-lhe o m√≠nimo dom de se recordar. Em vez de dizer: ¬ęaprendido na mocidade, conservado na velhice¬Ľ, poder√≠amos propor: ¬ęmem√≥ria na mocidade, recorda√ß√£o na velhice¬Ľ. Os √≥culos dos velhos s√£o graduados para ver ao perto; mas o mo√ßo que tem de usar √≥culos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recorda√ß√£o, que tem por efeito afastar,

Continue lendo…

Lembrar ou Recordar

A recorda√ß√£o n√£o tem apenas que ser exacta; tem que ser tamb√©m feliz; √© preciso que o aroma do vivido esteja preservado, antes de selar-se a garrafa da recorda√ß√£o. Tal como a uva n√£o deve ser pisada em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmag√°-la tem grande influ√™ncia no vinho, tamb√©m o que foi vivido n√£o est√° em qualquer momento ou em qualquer circunst√Ęncia pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na interioridade da recorda√ß√£o.
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.
A diferença é reconhecível logo nas diferentes idades da vida. O ancião perde a memória, que aliás é a primeira capacidade a perder-se. Contudo, o ancião tem em si algo de poético; de acordo com a representação popular ele é profeta, é divinamente inspirado. A recordação é afinal também a sua melhor força, a sua consolação: consola-o com esse alcance da visão poética.
A inf√Ęncia, pelo contr√°rio,

Continue lendo…

A Arte da Recordação

A mem√≥ria √© n√£o-mediada, e o que vem em seu aux√≠lio vem directamente; a recorda√ß√£o √© sempre reflectida. √Č por isso que recordar √© uma arte. Como Tem√≠stocles, em vez de lembrar, desejo poder esquecer; por√©m, recordar e esquecer n√£o s√£o opostos. N√£o √© f√°cil a arte de recordar, porque a recorda√ß√£o, no momento em que √© preparada, pode modificar-se, enquanto a mem√≥ria se limita a flutuar entre a lembran√ßa certa e a lembran√ßa errada. Por exemplo, o que √© a saudade? √Č vir √† recorda√ß√£o algo que est√° na mem√≥ria. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto √© preciso estar-se treinado em mat√©ria de ilus√£o. Viver numa ilus√£o, em que o crep√ļsculo √© cont√≠nuo e nunca se faz dia, ou algu√©m ver-se reflectido numa ilus√£o, n√£o √© t√£o dif√≠cil como algu√©m reflectir-se para dentro de uma ilus√£o e ser capaz de deix√°-la agir sobre si, com todo o poder que √© o da ilus√£o, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer at√© si o passado n√£o √© t√£o dif√≠cil como a de fazer desaparecer o que est√° presente em benef√≠cio da recorda√ß√£o.

Continue lendo…

O Efeito do Afastamento no Tempo

O afastamento no tempo engana o sentido do esp√≠rito como o afastamento no espa√ßo provoca o erro dos sentidos. O contempor√Ęneo n√£o v√™ a necessidade do que vem a ser, mas, quando h√° s√©culos entre o vir a ser e o observador, ent√£o ele v√™ a necessidade, como aquele que v√™ √† dist√Ęncia o quadrado como algo redondo.

Fidelidade Feminina

Fala-se muito da fidelidade feminina, mas raras vezes se diz o que convém. Do ponto de vista estritamente estético, ela paira como um fantasma por sobre o espírito do poeta, que vemos atravessar a cena em demanda da sua amada, que é também um fantasma preso à espera do amante Рporque quando ele aparece e ela o reconhece, pronto, a estética já não tem mais que fazer. A infedilidade da mulher, que podemos relacionar directamente com a fidelidade precedente, parece relevar essencialmente da ordem moral, visto já que o cíume toca sempre os aspectos de paixão trágica.
Há três casos em que o exame é favorável à mulher: dois mostram a fidelidade, e um a infedilidade. A fidelidade feminina será enorme, excederá tudo quanto a gente possa pensar, enquanto a mulher não tiver a certeza de ser verdadeiramente amada: será muito grande, ainda que nos pareça incompreensível, quando o amante lhe perdoar; no terceiro caso temos a infedilidade.

O Tédio é a Raiz de Todo o Mal

Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a ideia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta ideia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.

A Inveja é uma Admiração que se Dissimula

A inveja √© uma admira√ß√£o que se dissimula. O admirador que sente a impossibilidade de ser feliz cedendo √† sua admira√ß√£o, toma o partido de invejar. Usa ent√£o duma linguagem diferente, segundo a qual o que no fundo admira deixa de ter import√Ęncia, n√£o √© mais do que patetice ins√≠pida, extravag√Ęncia. A admira√ß√£o √© um abandono de n√≥s pr√≥prios penetrado de felicidade, a inveja, uma reivindica√ß√£o infeliz do eu.

Nada Pior que o Mal-Entendido

Uma bagatela, como se sabe, leva uma vida depreciada e desprezada Рdepois, vinga-se; porque o mal-entendido, sobretudo quando toma uma forma violenta e má, radica naturalmente numa bagatela; senão, não haveria mal-entendido, mas essencialmente discórdia.
O que caracteriza o mal-entendido é o seguinte: aquilo que para um é importante, é insignificante para o outro, mas no sentido de que, no fundo, as duas pessoas estão separadas por uma bagatela; estão desunidas no seu mal-entendido porque não arranjaram tempo para começarem a entender-se.
Pois, no fundo de todo o ¬ędesacordo real¬Ľ, h√° um acordo: ¬ęo mal-entendido¬Ľ sem fundamento reside na falta de compreens√£o pr√©via sem a qual acordo e desacordo s√£o, um e outro, um mal-entendido. Este pode, pois, desaparecer e transformar-se em desacordo real; porque se duas pessoas est√£o em desacordo real n√£o h√° a√≠ um mal-entendido, est√£o precisamente em desacordo real porque se compreendem mutuamente.

O Egoísmo da Espécie

Os amantes querem pertencer um ao outro, e para toda a eternidade. Exprimem-se de maneira assaz curiosa quando se abra√ßam num instante de profunda intimidade para gozarem assim do m√°ximo prazer e da mais alta felicidade que o amor lhes pode dar. Mas o prazer √© ego√≠sta. N√£o h√° d√ļvida que do prazer dos amantes n√£o se pode dizer que seja ego√≠sta, porque √© rec√≠proco; mas o prazer que ambos sentem na uni√£o √© absolutamente ego√≠sta, se for verdade que nesse abra√ßo j√° se confundem num s√≥ e mesmo ser. Mas est√£o enganados; porque, no mesmo instante, a esp√©cie triunfa sobre os indiv√≠duos; domina-os, rebaixa-os, ao seu servi√ßo.

Julgo isto muito mais ridículo do que a situação considerada cómica por Aristófanes. Porque o cómico desta bipartição reside em ser contraditória, o que Aristófanes não salientou suficientemente. Quem vê um homem, crê ver um ser inteiro e independente, um indivíduo, o que toda a gente admite até que observe que, apoderado pelo amor, ele não passa de uma metade que corre à procura da outra metade.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso,

Continue lendo…

História e Tempo são Sempre Contingentes

Querer predizer o futuro (profetizar) e querer ouvir a necessidade do passado s√£o uma √ļnica e mesma coisa, e √© apenas um problema de gosto se determinada gera√ß√£o acha uma coisa mais plaus√≠vel que a outra.
(…) O distanciamento no tempo engana o sentido do esp√≠rito tal como o afastamento no espa√ßo provoca o erro dos sentidos. O contempor√Ęneo n√£o v√™ a necessidade do que vem a ser, mas, quando h√° s√©culos entre o vir a ser e o observador, este v√™ ent√£o a necessidade, tal como aquele que v√™ √† dist√Ęncia o quadradrado como redondo.
(…) Tudo o que √© hist√≥rico √© contingente, pois justamente pelo facto de acontecer, de se tornar hist√≥rico, recebe o seu momento de conting√™ncia, pois a conting√™ncia √© precisamente o √ļnico factor de tudo o que vem a ser.

A Soma e Subst√Ęncia de Toda a Filosofia

Se te casas, arrependes-te; se n√£o te casa, arrependes-te tamb√©m; cases-te ou n√£o te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das loucuras do mundo e ir√°s arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te tamb√©m; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas ir√°s sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e ir√°s arrepender-te, n√£o acredites nela e arrependes-te tamb√©m; acredites ou n√£o numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; n√£o te enforques, e na mesma te arrependes. √Č esta, meus senhores, a soma e subst√Ęncia de toda a filosofia.

Um Herói não se Declara

Aquele que se exp√Ķe √† morte deve estar √† altura de incutir √† sua √©poca a for√ßa da exaspera√ß√£o. Se, pois, vejo um homem at√© ent√£o completamente desconhecido dos seus contempor√Ęneos aparecer afirmando que est√° pronto a sacrificar a sua vida e a enfrentar a morte, muito tranquilamente ent√£o (…) eu demitiria este profeta. Nunca um tal homem chegaria ao ponto de ser condenado √† morte pela sua √©poca, ainda que, por outro lado, tivesse realmente a coragem de morrer e a isso estivesse disposto. Ele n√£o conhece o segredo; pensa evidentemente que os seus contempor√Ęneos, os mais fortes, se encarregar√£o da execu√ß√£o, quando ele deveria ser de tal modo superior ao seu tempo que n√£o o deixasse, permanecendo ele pr√≥prio passivo, cumprir sozinho o seu trabalho de tal modo superior que n√£o lho indicasse mas livremente o constrangesse a sair-se bem dele.

A Prova da Existência de Deus

N√£o ser√° um empreendimento exc√™ntrico pretender extrair dos actos de Napole√£o a prova da sua exist√™ncia? Porque, se √© verdade que a sua exist√™ncia explica os seus actos, os seus actos n√£o podem provar a sua exist√™ncia, a menos que esta tenha j√° sido implicitamente posta na palavra sua. Al√©m disso, na medida em que Napole√£o n√£o √© sen√£o um indiv√≠duo, n√£o existe entre os seus actos e ele rela√ß√£o absoluta tal que nenhum outro indiv√≠duo seria capaz das mesmas ac√ß√Ķes: √© talvez essa a raz√£o que me impede de concluir dos actos para a exist√™ncia. Com efeito, se digo que os actos s√£o de Napole√£o, ent√£o a prova √© sup√©rflua, pois que j√° me referi a ela; mas se ignoro o nome do seu autor, como provar pelos pr√≥prios actos que eles s√£o efectivamente de Napole√£o? N√£o posso ultrapassar a afirma√ß√£o, inteiramente abstracta, de que procedem de um grande general, etc.
Pelo contrário, entre Deus e os seus actos existe uma relação absoluta, porque Deus não é um nome, mas um conceito, e é talvez por isso que a sua essentia involvit existentiam. Assim, os actos de Deus só Deus pode praticá-los; muito bem; mas quais são então os actos de Deus?

Continue lendo…