Textos sobre Sacrifício

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Textos de sacrifício escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Piedade

A piedade √© um sentimento natural, que, moderando em cada indiv√≠duo a actividade do amor de si pr√≥prio, concorre para a conserva√ß√£o m√ļtua de toda a esp√©cie. √Č ela que nos leva sem reflex√£o em socorro daqueles que vemos sofrer; √© ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ningu√©m √© tentado a desobedecer √† sua doce voz; √© ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma crian√ßa fraca ou a um velho enfermo a sua subsist√™ncia adquirida com sacrif√≠cio, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; √© ela que, em vez desta m√°xima sublime de justi√ßa raciocinada, faz a outrem o que queres que te fa√ßam, inspira a todos os homens esta outra m√°xima de bondade natural, bem menos perfeita, por√©m mais √ļtil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal poss√≠vel a outrem. Em uma palavra, √© nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que √© preciso buscar a causa da repugn√Ęncia que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das m√°ximas da educa√ß√£o. Embora possa competir a S√≥crates e aos esp√≠ritos da sua t√™mpera adquirir a virtude pela raz√£o,

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Entendimento L√ļcido do Futuro

Uma diferen√ßa caracter√≠stica e muito frequente na vida di√°ria entre as cabe√ßas comuns e as sensatas √© que as primeiras, na sua pondera√ß√£o e avalia√ß√£o sobre poss√≠veis perigos, querem saber e levam em conta apenas o que de semelhante j√° ter√° acontecido. As outras, pelo contr√°rio, ponderam o que possivelmente poderia acontecer. √Č como se tivessem em mente o prov√©rbio espanhol: ¬ęO que n√£o acontece num ano, acontece num instante¬Ľ. Decerto, a diferen√ßa em quest√£o √© natural, pois, para abarcar com a vista aquilo que pode acontecer, √© preciso entendimento; j√° para ver aquilo que aconteceu, s√£o suficientes os sentidos.
A nossa m√°xima, ent√£o, √©: sacrifica-te aos dem√≥nios malignos. Por outras palavras, n√£o se deve temer uma certa perda de esfor√ßo, tempo, desconforto, transtorno, dinheiro ou priva√ß√£o, para fechar as portas √† possibilidade de uma desgra√ßa. E quanto maior a desgra√ßa, tanto menor, mais remota e improv√°vel a sua possibilidade. O exemplo mais claro desta regra √© o pr√©mio do seguro. Ele √© um sacrif√≠cio p√ļblico oferecido por todos no altar dos dem√≥nios malignos.

Existir Eficazmente

Esta necessidade de estar s√≥, de n√£o sentir que te pedem seja o que for, que te separam de ti pr√≥prio. Este horror a que tenham o m√≠nimo direito sobre ti, de que to fa√ßam sentir… Esta evidente impertin√™ncia dos outros, quando esperam qualquer coisa, quando take for granted alguma coisa de ti.
Tornas-te de s√ļbito distante, apagas-te, ficas r√≠gido, repeles. Incapaz de dizer uma boa palavra. P√Ķes ponto final e afastas-te.
Rancor contra aqueles que tiveste de eliminar dessa maneira e que, por piedade, por espírito de sacrifício, tens de voltar a aceitar.

A sa√ļde interior que d√£o a profiss√£o pol√≠tico-moral e o contacto com as massas n√£o √© diferente da que prov√©m de qualquer ocupa√ß√£o, de qualquer actividade a que um homem se consagre. Quando escreves e te entregas inteiramente √† tua arte, sentes-te sereno, equilibrado, feliz.

Sucesso sem Riqueza

Muita gente confunde sucesso com amealhar dinheiro. Embora o sucesso acabe por levar √† riqueza, √© muito mais que isso. √Č uma atitude mental e espiritual – um estado de consci√™ncia – de que o dinheiro √© um sub-produto acidental. Sucesso √© um modo de viver. Estamos neste mundo para ter sucesso como seres humanos. Uma pessoa bem sucedida tem paz de esp√≠rito, est√° satisfeita com os talentos que Deus lhe deu, e sente-se feliz em us√°-los e aplic√°-los para seu benef√≠cio. A procura de uma vida melhor, e a realiza√ß√£o de um objectivo digno, √© a mais satisfat√≥ria das actividades humanas.
(…) Uma vida bem sucedida n√£o √© f√°cil. √Č constru√≠da sobre qualidades fortes – sacrif√≠cio, dilig√™ncia, lealdade e integridade. A corrida nem sempre √© ganha pelo mais r√°pido nem a batalha pelo mais forte; a vit√≥ria vai muitas vezes para o mais temer√°rio e o mais persistente. O maior obst√°culo no caminho do sucesso n√£o √© a falta de intelig√™ncia, de car√°cter ou de for√ßa de vontade. √Č a incapacidade para levar o trabalho at√© ao fim.

A Luta para a Supress√£o Radical das Guerras

A minha participa√ß√£o na produ√ß√£o da bomba at√≥mica consistiu numa √ļnica ac√ß√£o: assinei uma carta dirigida ao presidente Roosevelt, na qual se sublinhava a necessidade de levar a cabo experi√™ncias em grande escala, para investiga√ß√£o das possibilidades de produ√ß√£o duma bomba at√≥mica.
Tive bem consciência do grande perigo que significava para a Humanidade o êxito desse empreendimento. Mas a probabilidade de que os Alemães trabalhassem no mesmo problema e fossem bem sucedidos, obrigou-me a dar este passo. Não tinha outra solução, embora tivesse sido sempre um pacifista convicto. Foi, portanto, uma reacção de legítima defesa.
Enquanto, por√©m, as na√ß√Ķes n√£o estiverem resolvidas a trabalhar em comum para suprimir a guerra, a resolverem os seus conflitos por decis√£o pac√≠fica e a protegerem os seus interesses de maneira legal, v√™em-se obrigadas a preparar-se para a guerra. V√™em-se, mais, obrigadas a preparar todos os meios, mesmo os mais detest√°veis, para n√£o se deixarem ficar para tr√°s, na corrida geral aos armamentos. Este caminho conduz fatalmente √† guerra que, nas condi√ß√Ķes actuais, significa destrui√ß√£o geral.
Nestas condi√ß√Ķes, a luta contra os meios n√£o tem probabilidades de √™xito. S√≥ ainda pode valer a supress√£o radical das guerras e do perigo de guerra.

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A Liberdade da Auto-Suficiência

Quanto mais uma pessoa tem em si, tanto menos os outros podem ser alguma coisa para ela. Um certo sentimento de auto-sufici√™ncia √© o que impede os indiv√≠duos de riqueza e valor intr√≠nseco de fazerem os sacrif√≠cios importantes, exigidos pela vida em comum com os outros, para n√£o falar em procur√°-la √†s custas de uma consider√°vel auto-abnega√ß√£o. O oposto disso √© o que torna os indiv√≠duos comuns t√£o soci√°veis e acomod√°veis: para eles, √© mais f√°cil suportar os outros do que eles mesmo. Acrescente-se a isso que aquilo que possui um valor real n√£o √© apreciado no mundo, e aquilo que √© apreciado n√£o tem valor. A prova e consequ√™ncia disso est√£o no retraimento de todo o homem digno e distinto. Assim sendo, ser√° genu√≠na sabedoria de vida de quem possui algo de justo em si mesmo, se, em caso de necessidade, souber limitar as suas pr√≥prias car√™ncias, a fim de preservar ou ampliar a sua liberdade, isto √©, se souber contentar-se com o menos poss√≠vel para a sua pessoa nas rela√ß√Ķes inevit√°veis com o universo humano.
Por outro lado, o que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.

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O Sentimento de Poder

Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir; porque o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão já na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como nas suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; ficarão mais satisfeitos com a sua situação e mais hostis aos inimigos do nosso poder, mais prontos a combatê-los. O facto de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos actos; mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou a fim de conservar o nosso sentimento de poder.

O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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Na Paz Não Há Verdadeiro Progresso, o Egoísmo Impera

A ci√™ncia e a arte progridem sempre num primeiro per√≠odo imediato a uma guerra. A guerra renova-as, rejuvenesce-as, fomenta, fortalece, as ideias e imprime-lhes certo impulso. Numa larga paz, pelo contr√°rio, sucumbe tamb√©m a ci√™ncia. Indiscutivelmente o culto da ci√™ncia requer valor e at√© esp√≠rito de sacrif√≠cio. Mas quantos s√°bios resistem √† praga da paz? A falsa honra, o ego√≠smo e a √Ęnsia de prazeres superficiais, bestiais, fazem tamb√©m mossa no seu esp√≠rito. Procure o senhor acabar com uma paix√£o como a inveja, por exemplo; √© ordin√°rio e vulgar, mas com tudo isso penetra at√© nas nob√≠lissimas almas dos s√°bios. Tamb√©m o s√°bio acaba por querer ter a sua parte no brilho e esplendores gerais. Que significa, ante o triunfo da riqueza, o triunfo de uma descoberta cient√≠fica, a menos que seja t√£o estrondosa como a descoberta de um novo planeta? Parece-lhe que em tais circunst√Ęncias haver√° ainda muitos escravos do trabalho para o bem geral?

Longe disso, procura-se a gl√≥ria e cai-se no charlatanismo, na procura do efeito, e antes de mais nada no utilitarismo… visto que tamb√©m se quer, ao mesmo tempo, ser rico. Na arte acontece o mesmo que na ci√™ncia: id√™ntica √Ęnsia do efeito,

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O Engodo da Felicidade como Recompensa

Toda essa ideia de uma felicidade como recompensa Рque outra coisa seria, portanto, senão uma ilusão moral: um título de crédito com o qual se compra de ti, homem empírico, os teus prazeres sensíveis de agora, mas que só é pagável quando tu mesmo não precisas mais do pagamento. Pensa sempre nessa felicidade como um todo de prazeres que são análogos aos prazeres sacrificados agora. Ousa, apenas, dominar-te agora; ousa o primeiro passo de criança em direcção à virtude: o segundo já se tornará mais fácil para ti. Se continuares a progredir, notarás com espanto que aquela felicidade que esperavas como recompensa do teu sacrifício, mesmo para ti não tem mais nenhum valor. Foi intencionalmente que se colocou a felicidade num ponto do tempo em que tens de ser suficientemente homem para te envergonhares dela. Envergonhar, digo eu, pois, se nunca chegas a sentir-te mais sublime do que aquele ideal sensível de felicidade, seria melhor que a razão jamais te tivesse falado.
√Č exig√™ncia da raz√£o n√£o precisar mais de nenhuma felicidade como recompensa, t√£o certo quanto √© exig√™ncia tornar-se mais conforme √† raz√£o, mais aut√≥nomo, mais livre. Pois, se a felicidade ainda pode recompensar-nos – a n√£o ser que se interprete o conceito de felicidade contrariamente a todo o uso da linguagem -,

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A Inutilidade de Guerras e Revolu√ß√Ķes

As guerras e as revolu√ß√Ķes – h√° sempre uma ou outra em curso – chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar n√£o horror mas t√©dio. N√£o √© a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrif√≠cio de todos os que morrem batendo-se, ou s√£o mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: √© a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente in√ļtil.
Todos os ideais e todas as ambi√ß√Ķes s√£o um desvairo de comadres homens. N√£o h√° imp√©rio que valha que por ele se parta uma boneca de crian√ßa. N√£o h√° ideal que mere√ßa o sacrif√≠cio de um comboio de lata. Que imp√©rio √© √ļtil ou que ideal prof√≠cuo?
Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma Рvariável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca Рque pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver,

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Os Empreendimentos Comuns

As comunidades costumam ter menor sentido de responsabilidade e menos escr√ļpulos de consci√™ncia que os indiv√≠duos. Quanto sofrimento n√£o causa este facto √† Humanidade, quantas guerras e opress√Ķes de toda a esp√©cie que enchem a terra de dor, gemidos e amargura!
E, no entanto, as obras verdadeiramente preciosas s√≥ podem nascer gra√ßas √† colabora√ß√£o impessoal de muitos indiv√≠duos. Por isso, nada h√° que maior alegria possa trazer a quem ama a Humanidade do que ver surgir, √† custa de grandes sacrif√≠cios, um empreendimento comum, cuja √ļnica finalidade consiste em favorecer a vida e a cultura.

Sociedade Cara e Primitiva

Podemos dizer sem contempla√ß√Ķes √† sociedade que aquilo a que ela chama a sua moral custa mais sacrif√≠cios do que o que vale, e que os seus modos de proceder s√£o falhos tanto de sinceridade como de sabedoria.
(…) Dir-se-ia que basta um grande n√ļmero, que milh√Ķes de homens se encontrem reunidos, para que todas as aquisi√ß√Ķes morais dos indiv√≠duos que os comp√Ķem se desvane√ßam por completo e n√£o restem j√° em seu lugar sen√£o as atitudes ps√≠quicas mais primitivas, mais antigas, mais brutais.

Religi√£o do Medo

Com o homem primitivo √© o medo acima de tudo que evoca no√ß√Ķes religiosas ‚ÄĒ medo da fome, das feras, da doen√ßa, da morte. Como neste estado de exist√™ncia o conhecimento das rela√ß√Ķes causais est√° usualmente pouco desenvolvido, a mente humana cria seres ilus√≥rios mais ou menos semelhantes a si pr√≥pria de cujos desejos e actos dependem esses acontecimentos assustadores. Por isso, tentamos obter o favor destes seres realizando ac√ß√Ķes e oferecendo sacrif√≠cios que, de acordo com as tradi√ß√Ķes passadas de gera√ß√£o em gera√ß√£o, os tornam favor√°veis ou bem dispostos em rela√ß√£o aos mortais. Neste sentido, estou a falar de uma religi√£o do medo. Isto, apesar de n√£o ter sido criado, √© em alto grau estabilizado pela cria√ß√£o de uma casta sacerdotal especial que se institui a si mesma como mediadora entre as pessoas e os seres que elas receiam e ergue uma hegemonia assente nisso. Em muitos casos, um l√≠der, um governante ou uma classe privilegiada, cuja posi√ß√£o assenta noutros factores, combinam as fun√ß√Ķes sacerdotais com a sua autoridade secular, de modo a garantirem mais firmemente a primeira, ou os governantes pol√≠ticos e a casta sacerdotal defendem a mesma causa para defenderem os pr√≥prios interesses.

Ser Português é Difícil

Os Portugueses t√™m algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso pa√≠s e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ¬ęculpa de sermos portugueses¬Ľ. N√£o queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta mis√©ria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses t√™m o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor pa√≠s do mundo. Se lhes perguntarmos ‚ÄúQual √© actualmente o melhor e o maior pa√≠s do mundo?‚ÄĚ, n√£o arranjam resposta. Nem dizem que √© a Uni√£o Sovi√©tica nem os Estados Unidos nem o Jap√£o nem a Fran√ßa nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem s√≥, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ¬ęPodia ter sido Portugal…¬Ľ E isto que vai salvando os Portugueses: t√™m vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ¬ętamb√©m n√£o v√£o ao ponto de quererem ser outra coisa¬Ľ.

Revela-se aqui o que n√≥s temos de mais insuport√°vel e de comovente: s√≥ nos custa sermos portugueses por n√£o sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo n√£o √© aquele de quem diz ‚ÄúPortugal √© o melhor pa√≠s do mundo‚ÄĚ (esse √© simplesmente parvo ou parvamente simples),

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Felicidade com Poucos Bens

Embora a experi√™ncia me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior propor√ß√£o nos desertos, nos mosteiros e no sacrif√≠cio do que entre os sedent√°rios dos o√°sis f√©rteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse √† natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens s√£o em maior n√ļmero, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto √† natureza das suas alegrias: elas, efectivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal imp√©rio ou em tal morada ou em tal propriedade. Para j√°, pode acontecer que eles, na abastan√ßa, se enganem com maior facilidade e fa√ßam circular mais vezes riquezas v√£s. Como os homens do deserto ou do mosteiro n√£o possuem nada, sabem muito bem donde lhes v√™m as alegrias e √©-lhes assim mais f√°cil salvarem a pr√≥pria fonte do seu fervor.

Ideais Insanos

Um homem louco √© aquele cuja maneira de pensar e agir n√£o se coaduna com a maioria dos seus contempor√Ęneos. A sanidade mental √© uma quest√£o de estat√≠stica. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e per√≠odo √© a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta √© a defini√ß√£o de sanidade mental na qual baseamos a nossa pr√°tica social. Para n√≥s, aqui e agora, s√£o muitos os de mentalidade s√£ e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, s√£o por sua natureza provis√≥rios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a n√≥s, porque √© o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem √© preciso invocar a eternidade como testemunho. A Hist√≥ria √© suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente s√£, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e ac√ß√Ķes de inumer√°veis mortos, uma escassa m√£o-cheia de lun√°ticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psic√≥logo pode chegar √† mesma conclus√£o. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos em conta. Se um homem tenta viver como se certos destes elementos constituintes do seu ser n√£o existissem,

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O Homem Pensador e a Mulher Faladora

O homem pensador √© necessariamente taciturno. A mulher faladora n√£o consegue atordoar-lhe o esp√≠rito, mas faz-lhe nos ouvidos a traquinada intoler√°vel de uma matraca. A matraca afuguenta do cora√ß√£o todas as quimeras do amor. N√£o vos caseis com homem pensador, mulheres que falais um momento antes de pensar o que direis. O amor ‚ÄĒse vo-lo pode inspirar tal homem‚ÄĒfar√° que n√£o fecheis olhos velando-lhe a doen√ßa; far√° que lhe sacrifiqueis os haveres, a reputa√ß√£o e a vida; far√° tudo que humanamente pode fazer um anjo de sacrif√≠cio, mas n√£o vos far√° calar. O feudo mais pesado que uma tal mulher p√īde imp√īr a um homem √© ‚ÄĒ a obriga√ß√£o de ouvi-la.

A ofensa que tal mulher nunca perdoa √© ‚ÄĒ a insol√™ncia de ouvi-la, sem escut√°-la. Vejam num dicion√°rio a diferen√ßa das duas palavras. Escutar √© querer ouvir. Uma bela mulher, capaz de extremos, tentou a franqueza do amante que, em v√©speras de matrimonio, lhe disse: ¬ęn√£o faltes tanto.¬Ľ A noiva pesou estas palavras, reflectiu, calculou as suas for√ßas, chorou, atormentou-se, e disse: ¬ęn√£o me casarei: √© imposs√≠vel calar-me.¬Ľ Para que me n√£o tomem isto como anedota, √© preciso dizer-lhes que esta mulher foi acerbamente ferida no seu orgulho.

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