Textos sobre Ch√£o

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Textos de chão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Tive um Cavalo de Cart√£o

Mulher. A tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. Um caminho que não me enganou. Enganou-me a luz e os olhos foscos das manhãs revividas. Enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui, a correr pelos campos todo o dia, a medir as searas pelo tamanho dos braços abertos; enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui no teu homem e no teu rosto, no teu filho, nosso. Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe,

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A Ira é uma Loucura Breve

Alguns s√°bios afirmaram que a ira √© uma loucura breve; por n√£o se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obriga√ß√Ķes, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da raz√£o, inquieta-se por causas v√£s, incapaz de discernir o que √© justo e verdadeiro, semelhante √†s ru√≠nas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que est√£o loucos aqueles que est√£o possu√≠dos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, s√£o claros ind√≠cios de loucura a express√£o ardente e amea√ßadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as m√£os trementes, a mudan√ßa de cor, a respira√ß√£o forte e acelerada, ind√≠cios que est√£o tamb√©m presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do cora√ß√£o, os l√°bios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eri√ßam-se, a respira√ß√£o √© ofegante e ruidosa, as articula√ß√Ķes retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreens√≠veis, as m√£os entrechocam-se constantemente, os p√©s batem no ch√£o e todo o corpo se agita amea√ßador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que h√° de pior neste v√≠cio √© ele ser detest√°vel ou t√£o disforme.

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Meu Bebé para Dar Dentadas

Meu Bebé pequeno e rabino:
Cá estou em casa, sozinho, salvo o intelectual que está pondo o papel nas paredes (pudera! havia de ser no tecto ou no chão!); e esse não conta. E, conforme prometi, vou escrever ao meu Bebezinho para lhe dizer, pelo menos, que ela é muito má, excepto numa cousa, que é na arte de fingir, em que vejo que é mestra.
Sabes? Estou-te escrevendo mas ¬ęn√£o estou pensando em ti¬Ľ. Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da ¬ęca√ßa aos pombos¬Ľ; e isto √© uma cousa, como tu sabes, com que tu n√£o tens nada…
Foi agrad√°vel hoje o nosso passeio ‚ÄĒ n√£o foi? Tu estavas bem-disposta, e eu estava bem-disposto, e o dia estava bem-disposto tamb√©m. (O meu amigo, Sr. A.A. Crosse est√° de sa√ļde ‚ÄĒ uma libra de sa√ļde por enquanto, o bastante para n√£o estar constipado.)
N√£o te admires de a minha letra ser um pouco esquisita. H√° para isso duas raz√Ķes. A primeira √© a de este papel (o √ļnico acess√≠vel agora) ser muito corredio, e a pena passar por ele muito depressa; a segunda √© a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto espl√™ndido,

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Fim-de-Semana em Casa

√Č s√°bado. √Č Inverno. √Č dia de acastelar. Sa√≠mos com sacos, ¬ętupper-wares¬Ľ, rolos de notas e troco, listas.
Vamos aos mercados, às lojas, aos restaurantes. O objectivo é enchermo-nos de víveres, jornais e revistas, queijinhos frescos, nozes e avelãs, coentros e beringelas, feijoadas de chocos e caldeiradas, velharias, bolos e pilhas sobressalentes.
S√≥ o bastante para nos acastelarmos em casa, repimp√Ķes, com tudo ao nosso alcance, at√© √† long√≠nqua segunda-feira. Dia em que sa√≠remos – talvez – quando todos os forasteiros e fim-de-semaneiros tiverem voltado para casa deles.
Não temos um fosso ou sequer um ferrolho na porta Рmas corremo-lo à mesma, idealmente, tropeçando de verdade nas cabeças de alhos-porros e nas ramas das beterrabas, protuberando dos sacos de plástico deitados, mortos, no chão da cozinha.
Ser√° a mentalidade medieval do campismo ou o ideal ¬ęhippy¬Ľ da auto-sufici√™ncia? N√£o. Constitui a√ßambarcamento? √Č anti-social? Tamb√©m n√£o. √Č apenas o prazer do ninho. Com ameias.
Quanto pior o tempo, melhor sabe fecharmo-nos no nosso castelinho, seguros que estamos abastecidos, de tudo, para dois dias inteiros, prontos para sobrevivermos alegremente até ao fim do fim-de-semana. Cá nos acastelamos e cá nos vamos arranjando.
Noutra dimensão, graças a compras sabichonas,

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A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Devo à Paisagem as Poucas Alegrias que Tive no Mundo

Devo √† paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens s√≥ me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. At√© os mais pr√≥ximos, os mais amigos, me cravaram na hora pr√≥pria um espinho envenenado no cora√ß√£o. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. √Č claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. √Č mesmo um favor que pe√ßo ao destino: que me poupe √† degrada√ß√£o das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do ch√£o onde firmo os p√©s, foram sempre no meu esp√≠rito coisas sagradas e √≠ntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca tamb√©m, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, √© para mim o mesmo que gostar sem l√≠ngua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasi√Ķes, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espect√°culo me d√° semelhante plenitude e cria no meu esp√≠rito um sentido t√£o acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que h√° gente que encontra o mesmo universo no jogo dum m√ļsculo ou na linha dum perfil.

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A Coragem do Sonhador

Sempre que nos assumimos como ‚Äúsonhadores‚ÄĚ, ficamos mais perto de tornar qualquer sonho em realidade e de inspirar quem quer que seja com essa nossa conquista, como tal, √© de louvar quem carrega esta palavra na boca e o seu significado no peito. Sonhar est√° ao alcance de todos, √© um facto, mas poucos o fazem pois poucos s√£o aqueles que o assumem como uma extens√£o de si mesmos. Quantas pessoas afirmam que t√™m um sonho? Poucas, muito poucas, e muitas dessas poucas nem chegam a fazer nada para concretiz√°-lo, ou seja, sobrevivem uma vida inteira sem sonhar, agarrados √† mis√©ria a que a pregui√ßa os obriga. Admiro, particularmente, quem se assume como um sonhador, quem admite que o sonho √© uma realidade na sua vida, quem se permite levantar os p√©s do ch√£o e enveredar por caminhos desconhecidos. Nenhum sonho se encontra no fim de um caminho feito por muita gente; o caminho para o teu sonho est√° c√Ęndido, √† espera das tuas primeiras pegadas, por isso uma coisa te garanto, quanto mais verbalizares esta palavra, mais a tua mente se desmente e se entrega, mais o corpo acredita, mais forma ele ganha e mais sentido encontrar√°s nesta experi√™ncia.

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Aguentar os Desafios

Todos os desafios que enfrentamos t√™m o poder de nos derrotar. Mas ainda mais desconcertante do que o pr√≥prio embate √© o nosso receio de n√£o sermos capazes de o aguentar. Quando sentimos que o nosso ch√£o treme, ficamos em p√Ęnico. Esquecemos tudo o que sabemos e deixamo-nos dominar pelo medo. Basta-nos imaginar o que poderia acontecer para nos desequilibrarmos.

Tenho a certeza de que a √ļnica forma de aguentarmos o terramoto √© adaptarmos a nossa postura. N√£o conseguiremos evitar os tremores di√°rios. Fazem parte de estar vivo. Mas acredito que essas experi√™ncias s√£o d√°divas que nos obrigam a dar um passo para a direita ou para a esquerda, em busca do nosso ponto de gravidade. N√£o os combata. Deixe que o ajudem a ajustar o passo.

O equilíbrio está no presente. Quando sentir a terra a tremer, transporte-se para o agora. Se o fizer, conseguirá lidar com todos os tremores de terra que o momento seguinte lhe possa trazer. Neste momento, você ainda respira. Neste momento, você sobreviveu. Neste momento, você está a descobrir uma forma de passar para o nível seguinte.

O Sentido Tr√°gico do Amor

Todo o homem tende naturalmente para o amor. Acontece que o conceito comum de amor corresponde de forma quase universal a uma ideia genérica, ambivalente e, tantas vezes, errada, porque tão irreal.

Amar √© dar-se. Entregar a pr√≥pria ess√™ncia a um outro, lutando em favor dele. De forma pura e gratuita, sem esperar outra recompensa sen√£o a de saber que se conseguir√° ser o que se √©. Amar, ao contr√°rio do que julgam muitos, n√£o √© uma fonte de satisfa√ß√£o… Amar √© algo s√©rio, arrebatador e tremendamente desagrad√°vel. Quem ama sabe que isso mais se parece com uma esp√©cie de maldi√ß√£o do que com narrativas infantis de final invariavelmente feliz…

Cavaleiros valentes e princesas encantadas são, no entanto, excelentes metáforas que pretendem passar a ideia da coragem e da nobreza de carácter essenciais a quem ama. Ama-se quando se é capaz de se ser quem é, verdadeiramente.
Esta luta heróica pelo valor da essência do outro não está ao alcance de todos. A maior parte das pessoas são egocêntricas, alegram-se a entrançar os seus egoísmos em figuras improvisadas de resultado sempre disforme a que teimam chamar amor. Talvez porque assim consigam disfarçar o vazio que é a prova de quão frustrante,

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A Riqueza de Espírito no Estado de Doença

Considerando como a doen√ßa √© comum, como √© tremenda a mudan√ßa espiritual que traz, como √© espantoso quando as luzes da sa√ļde se apagam, as regi√Ķes por descobrir que se revelam, que extens√Ķes desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precip√≠cios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura exp√Ķe, que antigos e rijos carvalhos s√£o desenraizados em n√≥s pela ac√ß√£o da doen√ßa, como nos afundamos no po√ßo da morte e sentimos as √°guas da aniquila√ß√£o fecharem-se acima da cabe√ßa e acordamos julgando estar na presen√ßa de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos √† superf√≠cie na cadeira do dentista e confundimos o seu ¬ębocheche… bocheche¬Ľ com sauda√ß√£o da divindade debru√ßada no ch√£o do c√©u para nos dar as boas-vindas – quando pensamos nisto, como tantas vezes somos for√ßados a pensar, torna-se realmente estranho que a doen√ßa n√£o tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ci√ļme, por entre os principais temas da literatura.

O Embuste dos Artistas e Escritores

Estamos habituados, perante tudo o que √© perfeito, a omitir a quest√£o do seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presen√ßa, como se ele tivesse sa√≠do do ch√£o por artes m√°gicas. Provavelmente, estamos ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiqu√≠ssimo sentimento mitol√≥gico. Quase nos sentimos ainda (por exemplo, num templo grego como o de Pesto) como se, numa manh√£, um deus, brincando, tivesse constru√≠do a sua morada com t√£o gigantescos fardos. Outras vezes, como se um esp√≠rito tivesse subitamente sido metido por encanto dentro duma pedra e quisesse, agora, falar atrav√©s dela. O artista sabe que a sua obra s√≥ produz pleno efeito, se fizer crer numa improvisa√ß√£o, numa miraculosa instantaneidade da sua cria√ß√£o; e, assim, ele ajuda mesmo a essa ilus√£o, introduzindo na arte, ao come√ßo da sua cria√ß√£o, aqueles elementos de entusi√°stica inquieta√ß√£o, de desordem que tacteia √†s cegas, de sonho atento, como forma de iludir, a fim de dispor o esp√≠rito do espectador ou do ouvinte de modo a que ele creia no s√ļbito brotar da perfei√ß√£o.
A ci√™ncia da arte, como √© evidente, tem de contradizer essa ilus√£o da maneira mais determinada e apontar as conclus√Ķes err√≥neas e os maus h√°bitos do intelecto,

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No Teu Colo

No teu colo cabem todos os meus medos.
E se Deus existir, √© a calma do teus ombros, o sossego divino que vai do teu pesco√ßo ao teu peito. E eu ali, t√£o pequeno que nem me√ßo os cent√≠metros que tenho, e ainda assim t√£o grande que nem o c√©u teria espa√ßo para me guardar assim. Somos criaturas para al√©m do mundo, pares √ļnicos de uma viagem que nem o final dos corpos conseguir√° parar.
Até o pior da vida se acalma quando estou nos teus olhos.
H√° pessoas m√°s, m√£e. Pessoas que n√£o imaginam o que √© resistir por dentro deste corpo, por tr√°s destes ossos, sob os escombros de uma idade por descobrir. H√° pessoas que n√£o sabem que sou uma crian√ßa com medo como todas as crian√ßas (uma pessoa com medo como todas as pessoas: os adultos tamb√©m t√™m medo, n√£o t√™m, m√£e?, toda a gente tem medo, n√£o tem, m√£e?), e ontem um adulto disse-me para crescer e aparecer, e uma crian√ßa menos crian√ßa do que eu agarrou-me pelos cabelos e atirou-me ao ch√£o, a escola toda a olhar e a rir, e o adulto a dizer ¬ęcresce e aparece¬Ľ e a crian√ßa a dizer ¬ętoma l√° que √© para aprenderes¬Ľ.

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A Procura da Sabedoria

Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria. Tinham-lhe dito que para a atingir tinha sempre de aceitar e recusar ao mesmo tempo tudo o que lhe fosse oferecido, dito ou mostrado. Quando perguntava por onde era o melhor caminho e lhe diziam ¬ę√© por ali¬Ľ ela devia seguir imediatamente nesse sentido e depois no sentido contr√°rio. Tendo assim percorrido todas as direc√ß√Ķes indicadas e as n√£o indicadas, sem mais caminhos a percorrer, sentou-se no ch√£o e come√ßou a chorar. Sem saber, tinha chegado.

Saber Ler um Poema

– O poema est√° ent√£o centrado em si mesmo, monstruosamente solit√°rio?
– N√£o tem pressa, pode bem esperar que o arranquem da sua solid√£o, possui for√ßas expansivas bastantes, fa√ßam-no sair dali. Mas ou levam-no inteiro com o centro no centro e armado √† vo]ta como um corpo vivo ou n√£o levam nada, nem um fragmento. E o que muitas vezes se faz √© contrabandear bocados: leva-se a parte errada dele na parte errada de n√≥s para qualquer parte errada: filosofia, moral, politica, psican√°lise, lingu√≠stica, simbologia, literatura. Onde est√£o o corpo e a vida dele e a sua integridade? Onde, a solid√£o para escutar a solid√£o daquela voz? Porque √© obrigat√≥rio diz√©-lo: pouca gente tem ouvidos puros. Ou m√£os limpas. Ler um poema √© poder faz√™-lo, refaz√™-lo: eis o espelho, o m√°gico objecto do reconhecimento, o objecto activo de cria√ß√£o do rosto. O eco visual se quanto a rostos fosse apenas l√™-los fora e ver. Porque o mostrado e o visto s√£o a totalidade daquilo que se mostra e v√™ ‚ÄĒ o nome: a revela√ß√£o.
‚ÄĒ N√£o √© um destino assegurado.
‚ÄĒ S√≥ √© seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa transl√ļcida,

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As M√°scaras e a Guerra

… A minha casa ficou entre os dois sectores… De um lado avan√ßavam mouros e italianos… Do outro lado avan√ßavam, retrocediam ou aguentavam-se os defensores de Madrid… Pelas paredes tinham entrado as granadas da artilharia… As janelas desfizeram-se em estilha√ßos… Encontrei restos de chumbo no ch√£o, entre os meus livros… Mas as minhas m√°scaras tinham desaparecido… As minhas m√°scaras trazidas do Si√£o, de Bali, de Samatra, do arquip√©lago malaio, de Bandung. Douradas, cinzentas, cor de tomate, com sobrancelhas prateadas ou azuis, infernais, ensimesmadas, as minhas m√°scaras eram a √ļnica lembran√ßa daquele primeiro Oriente aonde cheguei solit√°rio e que me tinha acolhido com o seu odor de ch√°, de esterco, de √≥pio, de suor, de jasmins intensos, de frangipana, de fruta podre pelas ruas… Aquelas m√°scaras, mem√≥ria de pur√≠ssimas dan√ßas, dos bailes defronte do templo… Gotas de madeira coloridas pelos mitos, restos daquela floral mitologia que tra√ßava no ar sonhos, costumes, dem√≥niosi mist√©rios incompat√≠veis com a minha natureza americana… E ent√£o… Talvez os militantes tenham assomado √†s janelas da minha casa com as m√°scaras postas, talvez tenham assustado os mouros entre dois disparos… Muitas deles ficaram em estilhas e sangrentas, ali mesmo… Outras teriam rolado desde o meu quinto andar, arrancadas por um tiro…

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O Espírito em Transe

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade.

Escravizados ao Além

Acabar com a morte como agonia di√°ria da humanidade √© talvez o maior bem que se pode fazer hoje ao homem. O cristianismo transformou a vida numa cruz, porque lhe p√īs a consci√™ncia da morte √† cabeceira. E crentes e ateus vivem no mesmo terror. Ora a ideia terr√≠fica do fim n√£o √© uma condi√ß√£o fisiol√≥gica, nem mesmo intelectual do homem. Nem os Gregos, nem os Romanos, por exemplo, sentiam a morte com a irrepar√°vel ang√ļstia que nos r√≥i. √Č for√ßoso, pois, que se arranquem as ra√≠zes desta dor, custe o que custar. Escravizados ao al√©m, os nossos dias aqui n√£o podem ter liberdade nem alegria. Qualquer doutrina que nega ao homem o direito de ser pleno na sua f√≠sica dura√ß√£o, √© uma doutrina de castra√ß√£o e de aniquilamento. Ir buscar ao post-mortem as leis que devem limitar a expans√£o abusiva da personalidade, √© o artif√≠cio mais desgra√ßado que se podia inventar. Pregue-se e exija-se do indiv√≠duo medida e disciplina, mas que nas√ßam da sua pr√≥pria harmonia. Institua-se uma √©tica com ra√≠zes no mesmo ch√£o onde o homem caminha.