Textos sobre Projetos

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Textos de projetos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de ang√ļstia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, √© a desconfian√ßa. O povo, simples e bom, n√£o confia nos homens que hoje t√£o espectaculosamente est√£o meneando a p√ļrpura de ministros; os ministros n√£o confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores n√£o confiam nos seus mandat√°rios, porque lhes bradam em v√£o: ¬ęSede honrados¬Ľ, e v√™em-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposi√ß√£o n√£o confiam uns nos outros e v√£o para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de amea√ßa. Esta desconfian√ßa perp√©tua leva √† confus√£o e √† indiferen√ßa. O estado de expectativa e de demora cansa os esp√≠ritos. N√£o se pressentem solu√ß√Ķes nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discuss√Ķes aparatosas e sonoras; o pa√≠s, vendo os mesmos homens pisarem o solo pol√≠tico, os mesmos amea√ßos de fisco, a mesma gradativa decad√™ncia. A pol√≠tica, sem actos, sem factos, sem resultados, √© est√©ril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discuss√Ķes, as an√°lises reflectidas, as lentas cogita√ß√Ķes, o povo n√£o tem garantias de melhoramento nem o pa√≠s esperan√ßas de salva√ß√£o.

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Viver pela Evidência

Creio que já falei disto. Mas de que é que diabo se não falou já? Se não falámos nós, falaram os outros, que também são gente. E no entanto, de cada vez se fala pela primeira vez, porque o que importa não é o que se sabe mas o que se vê. E ver é ver sempre de outra maneira para aquele que vê. Quantas vezes se falou da morte e da vida e do amor e de mil outras coisas sisudas? Mas volta-se sempre à mesma, porque o saber pela evidência é saber pela primeira vez; e uma dor que nos dói ou uma alegria que nos alegra não doeu nem alegrou senão a nós. De modo que de novo me intriga a extraordinária desproporção entre o complexo de uma vida e a coisa chilra que dela resulta.
Mesmo os grandes homens, que s√£o maiores do que n√≥s, que √© que nos deixaram em testamento? Um livro, uma ideia, uma f√≥rmula. E os que nada nos deixaram? Mas uma vida √© fant√°stica pelo que nela aconteceu. H√° assim um desperd√≠cio extraordin√°rio, uma pura perda do que se amealhou. Rela√ß√Ķes, sentimentos, projectos, ac√ß√Ķes correntes que foram desencadear mil efeitos maus ou √ļteis.

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A Grande Diferença da Vida é o Entusiasmo

A grande diferen√ßa da vida √© o entusiasmo. √Č a for√ßa do vento. O entusiasmo √© o nome feio que chamam √†s pessoas que acham gra√ßa a tudo o que existe na vida.

A vida √© a √ļnica volta que damos. Todos os nossos projectos – de sermos melhores ou mais ego√≠stas, mais corajosos ou comedidos – v√£o contra o facto de n√£o termos tempo para corresponder √†s nossas expectativas.

Somos como somos. Mais vale dizermos como somos, com as palavras que temos, do que morrermos à espera de nos exprimirmos mais bem. Não há nenhuma pessoa viva que possa viver mais do que nós. Existem apenas aquelas pessoas práticas e abusadoras que aproveitam as vidas para fazer avançar tudo o que esperam da vida.

A igualdade n√£o √© uma conquista: √© um facto. Exprimirmo-nos √© mais justo quanto menos jeito tivermos para isso. Falar em p√ļblico n√£o √© um desafio: √© uma prova de proximidade.

O entusiasmo é uma vontade de perder tempo. Nada se aprende sem se querer Рdesejar avidamente Рperder tempo. O entusiasmo é uma coisa dos ventos e os ventos vêm de onde quiserem, quando menos se esperam.

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Natureza de Escravo

Desde quando √© que se tornou digno de louvor o facto de algu√©m possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os s√≠mbolos do poder terem desaparecido, j√° n√£o tinhas qualquer raz√£o para obedecer, mas continuaste a faz√™-lo. Que for√ßa misteriosa te impelia a obedecer √†s ordens de pessoas t√£o desgra√ßadas como tu, t√£o nuas e miser√°veis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capit√£o: vai buscar lenha, preciso de me aquecer √† fogueira. N√£o, tinhas descoberto uma outra solu√ß√£o; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E ent√£o pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escr√ļpulos, revoltar-me-ei, n√£o abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabe√ßa fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e √© isso que √© desprez√≠vel.

Os Verdadeiros Males

Vejo uma objec√ß√£o a qualquer esfor√ßo para melhorar a condi√ß√£o humana: √© que os homens s√£o talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Cal√≠gula se mantiver irrealiz√°vel e todo o g√©nero humano se n√£o reduzir a uma √ļnica cabe√ßa oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem d√ļvida que o nosso interesse ser√° servi-lo. O meu processo baseava-se numa s√©rie de observa√ß√Ķes feitas desde h√° muito tempo em mim pr√≥prio: toda a explica√ß√£o l√ļcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande aten√ß√£o √†s pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem √© exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, √© como recusar a alimenta√ß√£o necess√°ria a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabund√Ęncia. Quando se tiver diminu√≠do o mais poss√≠vel as servid√Ķes in√ļteis, evitado as desgra√ßas desnecess√°rias, continuar√° a haver sempre, para manter vivas as virtudes her√≥icas do homem, a longa s√©rie de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doen√ßas incur√°veis, o amor n√£o correspondido,

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Grandes Planos de Vida

Uma das maiores e mais frequentes asneiras consiste em fazer grandes planos para a vida, qualquer que seja a sua natureza. Para come√ßar, esses planos pressup√Ķem uma vida humana inteira e completa, que, no entanto, somente pouqu√≠ssimos conseguem alcan√ßar. Al√©m disso, mesmo que estes consigam viver muito, esse per√≠odo de vida ainda √© demasiado curto para tais planos, uma vez que a sua realiza√ß√£o exige sempre muito mais tempo do que se imaginava; esses projectos, ademais, como todas as coisas humanas, est√£o de tal modo sujeitos a fracassos e obst√°culos, que raramente chegam a bom termo. E, mesmo se no final tudo √© alcan√ßado, n√£o se leva em conta o facto de que no decorrer dos anos o pr√≥prio ser humano se modifica e n√£o conserva as mesmas capacidades nem para agir, nem para usufruir:

aquilo que se prop√īs fazer durante a vida toda, na velhice parece-lhe insuport√°vel – j√° n√£o tem condi√ß√Ķes de ocupar a posi√ß√£o conquistada com tanta dificuldade, e portanto as coisas chegaram-lhe tarde demais; ou o inverso, quando ele quis fazer algo de especial e realiz√°-lo, √© ele que chega tarde demais com respeito √†s coisas. O gosto da √©poca mudou, a nova gera√ß√£o n√£o se interessa pelas suas conquistas,

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Os Partidos Forçaram-me à Ditadura

Sinceramente desejei evitar a ditadura, para onde os acontecimentos pareciam querer arrastar-me, e tive para isso de suportar duas crises ministeriais sucessivas. S√£o esses mesmos, os partidos, que me for√ßam agora a ela. Um, recusando-se a colaborar no governo, contra o que eu desejava e devia esperar; o outro, fazendo causa comum nos tumultos da C√Ęmara. N√£o h√°, por agora, outro meio de governar. Chegassem os republicanos ao poder, e teriam de recorrer √† ditadura. Pois bem: se qualquer governo tem de a usar, e sem governo n√£o se passa, ningu√©m com mais direito a faz√™-lo do que voc√™s. Deram uma sess√£o parlamentar ininterrupta de seis meses. Ningu√©m poder√° acus√°-los de fugir do parlamento, onde tiveram os seus melhores dias, e que ainda hoje estaria aberto, se materialmente lho n√£o houvessem impedido. T√™m governado com tal lisura e t√£o firmes prop√≥sitos de acertar, que ganharam a simpatia e a confian√ßa geral. Mostraram larga iniciativa de governo nos numerosos e complexos projectos apresentados nas C√Ęmaras. T√™m, enfim, unidade de vistas, resolu√ß√£o de mando, vontade de governar. Continuem a governar bem, como at√© aqui, e dar-lhes-ei todo o meu apoio.

Valoriza-se mais o Ter que o Ser

A primeira fase da domina√ß√£o da economia sobre a vida social levou, na defini√ß√£o de toda a realiza√ß√£o humana, a uma evidente degrada√ß√£o do ser em ter. A fase presente da ocupa√ß√£o total da vida social em busca da acumula√ß√£o de resultados econ√≥micos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ¬ęter¬Ľ efectivo perde o seu prest√≠gio imediato e a sua fun√ß√£o √ļltima. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e directamente dependente do poderio social obtido.

(…) O espect√°culo √© o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filos√≥fico ocidental, que foi uma compreens√£o da actividade dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade t√©cnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele n√£o realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. √Č a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.
A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre.

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Não Temos um Projecto de País

Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência Рe nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa? Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além.

Espíritos Dirigentes e seus Instrumentos

Vemos grandes estadistas e, em geral, todos aqueles, que devem servir-se de muitas pessoas para a execu√ß√£o dos seus planos, comportarem-se ora de uma maneira, ora de outra: ou seleccionam muito apurada e cuidadosamente as pessoas que conv√™m aos seus projectos e lhes deixam, depois, uma liberdade relativamente grande, porque sabem que a natureza desses indiv√≠duos escolhidos os impele precisamente para onde eles pr√≥prios querem que eles v√£o; ou, ent√£o, escolhem mal, pegam mesmo no que t√™m √† m√£o, mas formam a partir desse barro algo que serve para os seus fins. Este √ļltimo g√©nero √© o mais violento, tamb√©m o que procura instrumentos mais submissos; o seu conhecimento dos homens √©, habitualmente, muito mais escasso, o seu desprezo pelos homens √© maior do que no caso dos esp√≠ritos mencionados em primeiro lugar, mas a m√°quina, que eles constroem, trabalha melhor, de maneira geral, que a m√°quina sa√≠da da oficina daqueles.

Um Infinito Domingo à Tarde

Regra geral, um ser humano agora vive tanto que acaba por arrastar muito mais penas do que as que lhe dizem respeito, e isso acaba por notar-se-lhe no rosto. Uma das consequ√™ncias da crescente longevidade do habitante das sociedades desenvolvidas, em que, por outro lado, n√£o se costuma pensar demasiado, √© que, contrariamente ao que sucedia h√° algumas d√©cadas, os velhos de hoje t√™m tempo para assistir √† devasta√ß√£o da vida dos filhos, veem-nos praticamente envelhecer, fracassar, cansar-se da luta. Antes, na hora da morte dos pais, os filhos eram ainda fortes, tinham projetos, mulheres bonitas, um futuro aparentemente luminoso. Agora √© f√°cil que um av√ī contemple antes de morrer o div√≥rcio do neto (v√™-o aos domingos sentar-se √† mesa na casa da fam√≠lia, sem um c√™ntimo, com a camisa amarrotada), enquanto no mundo anterior a este, por raz√Ķes de tempo, o neto n√£o era mais do que uma crian√ßa que √†s vezes ia buscar √£ escola, a quem dava a m√£o no regresso a casa e ajudava a conseguir nos alfarrabistas os cromos que lhe faltavam na sua cole√ß√£o de futebolistas. Hoje, o velho que morre n√£o abandona um mundo em marcha cheio de projetos e promessas, como sucedia dantes,

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Este N√£o-Futuro que a Gente Vive

Ser√° que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste n√£o-futuro que a gente vive? (…) Bom, tudo seria mais f√°cil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. √Äs vezes uso, mas √© diferente usar uma gravata no pesco√ßo e us√°-la na cabe√ßa. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a no√ß√£o dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo √† minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A mem√≥ria. (…) N√£o me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. H√° pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manh√£ com muito orvalho, restos de geada‚Ķ De resto, n√£o tenho grandes projectos. Acho que o planeta est√° perdido e que, provavelmente, a hip√≥tese de Ant√≥nio Jos√© Saraiva est√° certa: √© melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas t√™m mais tempo para olhar para os outros.

Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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O Vazio da Pressa e do Dinamismo

A pressa, o nervosismo, a instabilidade, observados desde o surgimento das grandes cidades, alastram-se nos dias de hoje de uma forma t√£o epid√©mica quanto outrora a peste e a c√≥lera. Nesse processo manifestam-se for√ßas das quais os passantes apressados do s√©culo XIX n√£o eram capazes de fazer a menor ideia. Todas as pessoas t√™m necessariamente algum projecto. O tempo de lazer exige que se o esgote. Ele √© planeado, utilizado para que se empreenda alguma coisa, preenchido com vistas a toda esp√©cie de espect√°culo, ou ainda apenas com locomo√ß√Ķes t√£o r√°pidas quanto poss√≠vel. A sombra de tudo isso cai sobre o trabalho intelectual. Este √© realizado com m√° consci√™ncia, como se tivesse sido roubado a alguma ocupa√ß√£o urgente, ainda que meramente imagin√°ria. A fim de se justificar perante si mesmo, ele d√°-se ares de uma agita√ß√£o febril, de um grande af√£, de uma empresa que opera a todo vapor devido √† urg√™ncia do tempo e para a qual toda a reflex√£o ‚ÄĒ isto √©, ele mesmo ‚ÄĒ √© um estorvo. Com frequ√™ncia tudo se passa como se os intelectuais reservassem para a sua pr√≥pria produ√ß√£o precisamente apenas aquelas horas que sobram das suas obriga√ß√Ķes, sa√≠das, compromissos, e divertimentos inevit√°veis.

Tende Piedade de Mim

Tende piedade de mim, pequei at√© ao mais √≠ntimo do meu ser. Mas os meus projectos n√£o eram para desprezar inteiramente; at√© tinha alguns pequenos talentos, dissipei-os, criatura louca que fui, estou agora perto do fim precisamente quando tudo exteriormente pode acabar por ser em meu favor. N√£o me deitem fora entre os perdidos. Sei que √© o meu rid√≠culo amor-pr√≥prio que est√° a falar, rid√≠culo, quer seja visto √† dist√Ęncia, quer de bem perto; mas, como estou vivo, tamb√©m tenho o amor da vida pela vida, e se a vida n√£o √© rid√≠cula, as suas manifesta√ß√Ķes inevit√°veis n√£o o podem ser tamb√©m.

√ďdios e Rancores

Recusa ser testemunha em processos: serias necessariamente alvo do rancor de uma das partes. Nunca forne√ßas informa√ß√Ķes acerca de um homem que n√£o seja bem nascido – e menos ainda se √© de baixa extrac√ß√£o -, e faz como se tudo ignorasses a seu respeito. Se, em conversa, resolveres lan√ßar uma ofensa contra algu√©m, sobretudo n√£o tomes um ar pesado, mas continua a falar como se nada fosse. Em presen√ßa de terceiros, n√£o manifestes a ningu√©m favores especiais, pois considerar-se-ia que desprezas os outros e serias votado a um √≥dio constante.
Evita avan√ßar na carreira de modo demasiado r√°pido ou vistoso. √Č necess√°rio que, perante uma luz que se torna cada vez mais brilhante, os olhos se habituem a pouco e pouco; caso contr√°rio, desviam-se. Nunca v√°s contra o que agrada √† gente do povo, quer se trate de simples tradi√ß√Ķes ou mesmo de h√°bitos que te repugnam.
Se és forçado a admitir que cometeste uma acção odiosa, não atices o ódio que desperta dando a impressão que não a lastimas ou, pior ainda, troçando das tuas vítimas, ou orgulhando-te do que fizeste: serias odiado duas vezes mais. O melhor é ausentares-te, deixares agir o tempo e não te manifestares.

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Antes de Vivermos, a Vida é Coisa Nenhuma

O homem come√ßa por existir, isto √©, o homem √© de in√≠cio o que se lan√ßa para um futuro e o que √© consciente de se projectar no futuro. O homem √© primeiro um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser musgo, podrid√£o ou couve-flor; nada existe previamente a esse projecto; nada existe no c√©u inintelig√≠vel, e o homem ser√° em primeiro lugar o que tiver projectado ser. N√£o o que tiver querido ser. Porque o que n√≥s entendemos ordinariamente por querer √© uma decis√£o consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto √© manifesta√ß√£o de uma escolha mais original mais espont√Ęnea do que se denomina por vontade.
(…) Escreveu Dostoievsky: ¬ęSe Deus n√£o existisse, tudo seria permitido.¬Ľ √Č esse o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo √© permitido se Deus n√£o existe, e, por conseguinte, o homem encontra-se abandonado, porque n√£o encontra em si, nem fora de si, a que agarrar-se. Ao come√ßo n√£o tem desculpa. Se, na verdade, a exist√™ncia precede a ess√™ncia, n√£o √© poss√≠vel explica√ß√£o por refer√™ncia a uma natureza humana dada e hirta;

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Virtudes dos Jovens e dos Velhos

Os jovens são mais aptos para inventar do que para julgar, para executar do que para aconselhar, para os novos projectos do que os negócios estabilizados. Porque a experiência da idade, nas coisas que quadram os velhos, dirige-os, mas engana-os nas coisas que aparecem de novo. Os erros dos jovens causam a ruína dos negócios; mas os erros dos velhos limitam-se ao que deveria ser feito de novo, ou mais cedo.
Os jovens, na condução e na economia dos negócios, têm ampla visão das coisas que não podem dominar, agitam mais do que apaziguam, voam rapidamente para os fins sem consideração dos meios e dos graus; conduzem os poucos princípios, que por acaso acolheram, até ao absurdo; não receiam inovar, o que traz desconhecidos inconvenientes, usam de princípio os remédios extremos, e, o que duplica todos os erros, não querem reconhecer-se nem retratar-se, como o cavalo mal ensinado que não quer parar nem retroceder.
Os homens de idade objectam muito, consultam muito, aventuram-se pouco, arrependem-se depressa, raras vezes conduzem os negócios ao grau de plenitude, porque se contentam com a mediocridade no êxito.
Certamente, é proveitoso combinar o emprego de novos e velhos: será vantajoso para o presente,

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O Perigo da Extinção do Individualismo

Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomera√ß√Ķes de seres humanos, que v√£o e v√™m pelas suas ruas ou se concentram em festivais e manifesta√ß√Ķes pol√≠ticas, incorpora-se em mim, obsedante, este pensamento: pode hoje um homem de vinte anos formar um projecto de vida que tenha figura individual e que, portanto, necessitaria realizar-se mediante as suas iniciativas independentes, mediante os seus esfor√ßos particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem na sua fantasia, n√£o notar√° que √©, sen√£o imposs√≠vel, quase improv√°vel, porque n√£o h√° √† sua disposi√ß√£o espa√ßo em que possa aloj√°-la e em que possa mover-se segundo o seu pr√≥prio ditame? Logo advertir√° que o seu projecto trope√ßa com o pr√≥ximo, como a vida do pr√≥ximo aperta a sua. O des√Ęnimo leva-lo-√° com a facilidade de adapta√ß√£o pr√≥pria da sua idade a renunciar n√£o s√≥ a todo o acto, como at√© a todo o desejo pessoal e buscar√° a solu√ß√£o oposta: imaginar√° para si uma vida standard, composta de desideratos comuns a todos e ver√° que para consegui-la tem de a solicitar ou exigir em coletividade com os demais. Da√≠ a ac√ß√£o em massa.
A coisa é horrível, mas não creio que exagera a situação efectiva em que se vão achando quase todos os europeus.

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Existimos em Função do Futuro

Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê Рque se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.
O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro.