Cita√ß√Ķes de E√ßa de Queir√≥s

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de E√ßa de Queir√≥s para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Contar hist√≥rias √© uma das mais belas ocupa√ß√Ķes humanas: e a Gr√©cia assim o compreendeu, divinizando Homero que n√£o era mais que um sublime contador de contos da carochinha. Todas as outras ocupa√ß√Ķes humanas tendem mais ou menos a explorar o homem; s√≥ essa de contar hist√≥rias se dedica amoravelmente a entret√™-lo, o que tantas vezes equivale a consol√°-lo. Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os seus contos por os encherem de literatura, de tanta literatura que nos sufoca a vida!

Em Portugal quem emigra são os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e um país de fracos e de indolentes padece um prejuízo incalculável, perdendo as raras vontades firmes e os poucos braços viris.

O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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Em arte, a copiosa, exuberante, luxuosa e florida fantasia cansa, esquece e passa Рe só há eternidade para a beleza pura e simples.

Em pol√≠tica a caricatura √© de boa guerra. √Č uma arma terr√≠vel, mas n√£o desleal, porque, se exagera o falso, √© para impedir que haja algu√©m que caia nele; a caricatura diz de mais para que n√≥s digamos apenas o suficiente.

Um livro de contos √© um livro ligeiro de emo√ß√Ķes curtas: deve portanto ser leve, port√°til, f√°cil de se levar na algibeira para debaixo de uma √°rvore, e confort√°vel para se ter √† cabeceira da cama. N√£o pode ter o formato dum relat√≥rio, que, sendo destinado em definitivo a embrulhar objectos, deve ter de antem√£o o tamanho c√≥modo do papel de embrulho; nem pode ter o volume dum calhama√ßo de erudi√ß√£o hist√≥rica, impresso com o fim de ornamentar uma biblioteca.

As obras de arte devem falar ¬ępor si mesmas¬Ľ, explicar-se ¬ępor si mesmas¬Ľ, sem terem necessidade de p√īr ao lado um cicerone. Acompanhar um livro de versos de cr√≠tica ¬ęj√° feita¬Ľ √© querer impor um guia √† emo√ß√£o do leitor. O leitor detesta isso.

A Fraqueza do Idealismo

A arte idealista esquece que h√° no homem – nervos, fatalidades heredit√°rias, sujei√ß√Ķes √†s influ√™ncias determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc; irresist√≠veis teimas f√≠sicas, tend√™ncias de carnalidade fatais; resultantes l√≥gicas de educa√ß√£o; ac√ß√Ķes determinantes ao meio, etc,etc; a arte convencional, enfim, mutila o homem moral – como a ci√™ncia convencional mutila o homem f√≠sico; s√£o ambas aprovadas pelos Monsenhores arcebispos de Paris e dadas em leitura nos col√©gios; mas uma ensina falso, como a outra educa falso: ambas nocivas portanto.

Para ter um gosto pr√≥prio e julgar com alguma finura das coisas de arte √© necess√°ria uma prepara√ß√£o, uma cultura adequada. E onde tem o homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para esse complicada educa√ß√£o, que exige viagens, mil leituras, a longa frequenta√ß√£o dos museus, todo um afinamento particular do esp√≠rito? Os pr√≥prios ociosos n√£o t√™m tempo ‚Äď porque, como se sabe, n√£o h√° profiss√£o mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses, os neg√≥cios, a loja, a reparti√ß√£o, a fam√≠lia, a profiss√£o liberal, os prazeres n√£o deixam um momento para as exig√™ncias de uma inicia√ß√£o art√≠stica.

A ci√™ncia realmente s√≥ tem alcan√ßado tornar mais intensa e forte uma certeza: – a velha certeza socr√°tica da nossa irrepar√°vel ignor√Ęncia. De cada vez sabemos mais – que n√£o sabemos nada.

Eu tenho a paix√£o de ser ¬ęleccionado¬Ľ: e basta darem-me a entender o bom caminho para eu me atirar a ele. Mas a cr√≠tica, ou o que em Portugal se chama a cr√≠tica, conserva sobre mim um sil√™ncio desdenhoso.

A separa√ß√£o (tempor√°ria) tem isto de bom – que p√Ķe em relevo e torna interessantes mil pequenas coisas da vida daqueles que amamos – que at√© a√≠, todos os dias vistas, quase se n√£o percebiam.

Com o longo volver dos tempos, os nobres génios que fizeram vibrar mais fortemente a alma do seu tempo, passam pouco a pouco a ser apenas Рo estudo dos comentadores.

Dependência do Governo

Diz-se geralmente que, em Portugal, o p√ļblico tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclus√£o que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independ√™ncia. A nossa pobreza relativa √© atribu√≠da a este h√°bito pol√≠tico e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as m√£os e os olhos para ele como para uma Provid√™ncia sempre presente.

N√£o, positivamente n√£o h√° nada neste mundo ¬ęworth to live for¬Ľ sen√£o um cantinho de fog√£o dom√©stico, muito Amor junto dele, e muita Arte em torno, para tornar a vida interessante, po√©tica e distinta. Possa Deus, na sua infinita bondade, permitir que seja esse o nosso Destino. Arte e Amor – com A grande! Eles merecem-no; s√£o as duas express√Ķes supremas da vida, completam-se um pelo outro, e fora deles tudo √© nada!

Esta express√£o ¬ęLeitura¬Ľ, h√° cem anos, sugeria logo a imagem de uma livraria silenciosa, com bustos de Plat√£o e de S√©neca, uma ampla poltrona almofadada, uma janela aberta sobre os aromas de um jardim: e neste retiro austero de paz estudiosa, um homem fino, erudito, saboreando linha a linha o seu livro, num recolhimento quase amoroso. A ideia da leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando p√°ginas √† pressa, no rumor de uma pra√ßa.