Textos sobre Olhos

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Textos de olhos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

N√£o Podemos Ter a Certeza de Nada

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilus√Ķes. As ambi√ß√Ķes que demor√°mos anos a acreditar que alcan√ß√°vamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, n√£o s√£o nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo √© visto da√≠, de onde est√°s. Depois, h√° os olhos que est√£o ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo √© nada. Ou esse tudo √© ainda mais tudo. Ou esse tudo √© mil coisas vezes mil coisas que nos s√£o imposs√≠veis de compreender, apreender, porque s√≥ temos uma √ļnica vida.
‚ÄĒ Porqu√™, pai?
‚ÄĒ N√£o sei. Mas creio que √© assim. S√≥ temos uma √ļnica vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefini√ß√£o, transform√°mos as certezas que constru√≠mos na nossa pr√≥pria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa exist√™ncia dependia delas e que n√£o ser√≠amos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, √© o nosso sangue. Mas, em consci√™ncia absoluta, n√£o podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada,

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A Mulher dos Vinte Poemas

Perguntam-me sempre quem √© a mulher dos ¬ęVinte Poemas¬Ľ. √Č dif√≠cil responder. As duas ou tr√™s que se entrela√ßam nesta melanc√≥lica e ardente poesia correspondem, digamos, a Marisol e Marisombra. Marisol √© o id√≠lio da prov√≠ncia encantada, com imensas estrelas nocturnas e olhos escuros como o c√©u molhado de Temuco. √Č ela que figura, com a sua alegria e a sua vivaz beleza, em quase todas as p√°ginas, rodeada pelas √°guas do porto e pela meia-lua sobre as montanhas. Marisombra √© a estudante da capital. Boina parda, olhos dulc√≠ssimos, o constante aroma a madressilva do errante amor estudantil, o sossego f√≠sico dos apaixonados encontros nos esconderijos da urbe.

A Ira é uma Loucura Breve

Alguns s√°bios afirmaram que a ira √© uma loucura breve; por n√£o se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obriga√ß√Ķes, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da raz√£o, inquieta-se por causas v√£s, incapaz de discernir o que √© justo e verdadeiro, semelhante √†s ru√≠nas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que est√£o loucos aqueles que est√£o possu√≠dos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, s√£o claros ind√≠cios de loucura a express√£o ardente e amea√ßadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as m√£os trementes, a mudan√ßa de cor, a respira√ß√£o forte e acelerada, ind√≠cios que est√£o tamb√©m presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do cora√ß√£o, os l√°bios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eri√ßam-se, a respira√ß√£o √© ofegante e ruidosa, as articula√ß√Ķes retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreens√≠veis, as m√£os entrechocam-se constantemente, os p√©s batem no ch√£o e todo o corpo se agita amea√ßador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que h√° de pior neste v√≠cio √© ele ser detest√°vel ou t√£o disforme.

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O Vento que Decidirmos Ser

Uma das mais importantes escolhas que cada um de nós deve fazer é a de escolhermos qual o foco prin-cipal da nossa atenção e cuidado. Se o mundo à nossa volta, a fim de o mudar, ou se o interior de nós mesmos.

Quase todos os bens e males da nossa existência partem do nosso interior, pelo que será aí que importa aperfeiçoar, de forma profunda, tudo o que existe no nosso íntimo.

Um dos trabalhos mais importantes de cada um de nós será o de saber bem o que queremos. O segredo da felicidade pode estar aí: alterar em nós o que nos possa estar a causar desnecessárias ansiedades. Quantas vezes desejamos algo que está fora da nosso controlo?
Existem três tipos de coisas: as que dependem apenas de nós; as que escapam por completo à nossa decisão; e, aquelas sobre as quais temos algum controlo, mas não total.

Se fizermos a nossa alegria depender de algo que não está na nossa mão, então será fácil que nos sinta-mos roubados de algo que, na verdade, nunca foi nosso. Mesmo nos casos em que o conseguimos obter, a ansiedade associada à posse, até pela iminência de o perder da mesma forma que o ganhámos,

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√Č Preciso Aprender a Amar

Que se passa para n√≥s no dom√≠nio musical? Devemos em primeiro lugar aprender a ouvir um motivo, uma √°ria, de uma maneira geral, a perceb√™-lo, a distingui-lo, a limit√°-lo e isol√°-lo na sua vida pr√≥pria; devemos em seguida fazer um esfor√ßo de boa vontade ‚ÄĒ para o suportar, mau-grado a sua novidade ‚ÄĒ para admitir o seu aspecto, a sua express√£o fision√≥mica ‚ÄĒ e de caridade ‚ÄĒ para tolerar a sua estranheza; chega enfim o momento em que j√° estamos afeitos, em que o esperamos, em que pressentimos que nos faltaria se n√£o viesse; a partir de ent√£o continua sem cessar a exercer sobre n√≥s a sua press√£o e o seu encanto e, entretanto, tornamo-nos os seus humildes adoradores, os seus fi√©is encantados que n√£o pedem mais nada ao mundo, sen√£o ele, ainda ele, sempre ele.
N√£o sucede assim s√≥ com a m√ļsica: foi da mesma maneira que aprendemos a amar tudo o que amamos. A nossa boa vontade, a nossa paci√™ncia, a nossa equanimidade, a nossa suavidade com as coisas que nos s√£o novas acabam sempre por ser pagas, porque as coisas, pouco a pouco, se despojam para n√≥s do seu v√©u e apresentam-se a nossos olhos como indiz√≠veis belezas: √© o agradecimento da nossa hospitalidade.

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Um Homem Possui Tr√™s Est√īmagos

– H√° muitos tipos dc comida ‚ÄĒ disse o coronel M√Ķller enquanto abanava o filho.- Um homem possui tr√™s est√īmagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabe√ßa. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respira√ß√£o, que √© a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem √°gua e p√£o. E por fim h√° o est√īmago da cabe√ßa, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois est√īmagos do homem alimentam-se atrav√©s da boca c do nariz, ao passo que o terceiro est√īmago se alimenta principalmente atrav√©s dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto dc um modo mais subtil.
‚ÄĒ Para mim ‚ÄĒ disse o mordomo ‚ÄĒ, as palavras s√£o uma grande palermice.

Supreender-se é Começar a Entender

Surpreender-se, estranhar, √© come√ßar a entender. √Č o desporto e o luxo espec√≠fico do intelectual. Por isso o seu gesto gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo √© estranho e √© maravilhoso para um par de pupilas bem abertas.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo t√£o real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete t√£o terr√≠vel e fastidiosamente. Isso tamb√©m √© velhice. Quando j√° sabe que um corpo n√£o √© mais que um corpo. E um homem, coitado, n√£o √© mais que um homem, um ser mortal, fa√ßa o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, n√£o, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o est√īmago, ou o cora√ß√£o. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, come√ßa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decr√©pito que seja o corpo, a alma ainda est√° repleta de desejos e de recorda√ß√Ķes, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recorda√ß√Ķes, ou a vaidade; e ent√£o √© que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: j√° n√£o sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactid√£o: a Primavera ou o Inverno, os cen√°rios habituais, o tempo, a ordem da vida. N√£o pode acontecer nada de inesperado: n√£o te surpreeende nem o imprevisto,

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A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

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A Auto-Destruição da Justiça

√Ä medida que aumenta o poderio de uma sociedade, assim esta d√° menos import√Ęncia √†s faltas dos seus membros, porque j√° lhes n√£o parecem perigosas nem subversivas; o malfeitor j√° n√£o est√° reduzido ao estado de guerra, n√£o pode nele cevar-se a c√≥lera geral; mais ainda: defendem-no contra essa c√≥lera.
O aplacar a c√≥lera dos prejudicados, o localizar o caso para evitar dist√ļrbios, e procurar equival√™ncias para harmonizar tudo (compositio) e principalmente o considerar toda a infrac√ß√£o como expi√°vel e isolar portanto o ulterior desenvolvimento do direito penal. √Ä medida, pois, que aumenta numa sociedade o poder e a consci√™ncia individual, vai-se suavizando o direito penal, e, pelo contr√°rio, enquanto se manifesta uma fraqueza ou um grande perigo, reaparecem a seguir os mais rigorosos castigos.

Isto √©, o credor humanizou-se conforme se foi enriquecendo; como que no fim, a sua riqueza mede-se pelo n√ļmero de preju√≠zos que pode suportar. E at√© se concebe uma sociedade com tal consci√™ncia do seu poderio, que se permite o luxo de deixar impunes os que a ofendem. ¬ęQue me importam a mim esses parasitas? Que vivam e que prosperem; eu sou forte bastante para me inquietar por causa deles…¬Ľ A justi√ßa,

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Os Artistas Verdadeiros não Têm Ideologia

Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome org√Ęnica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do esp√≠rito. Tisnados de sa√ļde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doen√ßa, olho-os tamb√©m. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes d√° raz√£o. Mas da mesma maneira que eles, sem que ningu√©m lhes pe√ßa sardinha, se metem √†s ondas, tamb√©m eu, sem que ningu√©m me pe√ßa poesia, me lan√ßo a este mar da cria√ß√£o. H√° uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: √© a sua consci√™ncia de que s√£o t√£o fundamentais √† vida como o p√£o. Podem acus√°-los de servirem esta ou aquela classe. Pura cal√ļnia. √Č o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo n√£o pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e as n√£o podem ver, a trai√ß√£o n√£o √© delas, mas dos olhos, ou de quem os mant√©m cegos e incultos.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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Encarar a Morte

√Č talvez sinal de pris√£o ao mundo dos fen√≥menos o terror e a dor ante a chegada da morte ou a serena mas entristecida resigna√ß√£o com que a fizeram os gregos uma doce irm√£ do sono; para o esp√≠rito liberto ela deve ser, como o som e a cor, falsa, exterior e passageira; n√£o morre, para si pr√≥prio nem para n√≥s, o que viveu para a ideia e pela ideia, n√£o √© mais existente, para o que se soube desprender da ilus√£o, o que lhe fere os ouvidos e os olhos do que o puro entender que apenas se lhe apresenta em pensamento; e tanto mais alto subiremos quando menos considerarmos a morte como um enigma ou um fantasma, quanto mais a olharmos como uma forma entre as formas.

Declaração de Amor

Quem é que tem a sorte de ter um amor dele ou dela que ama ou que tem, seja amado ou amada? Tenho eu e conheço muitas pessoas que já têm ou que vão ter. Mas, tal como todos os outros apaixonados e todas as outras apaixonadas, desconfio, com calor na alma, que ninguém tem o amor que eu tenho pela Maria João, meu amor, minha mulher, minha salvação.
O amor sai caro Рmedo de perdê-la, medo do tempo a passar, medo do futuro Рmas paga-se sem se dar por isso. Mentira. Dá-se por isso só nos intervalos de receber, receber, receber e dar, dar, dar.
Basta uma pequena zanga para parecer que todo aquele amor desmoronou: “Onde est√° esse teu apregoado amor por mim (de m√£os nas ancas), agora que eu preciso dele?”
Quanto maior o amor, mais frágil parece. Quanto maior o amor, mais pequeno é o gesto que parece traí-lo. Mas com que alegria nos habituamos a viver nesse regime de tal terror!
Maria João, meu amor: o barulho que faz a felicidade é ouvires-me a perder tempo a resmungar e a pedir que tudo continue exactamente como está, para sempre.

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F√°bula

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seio de Maria ca√≠am nus da blusa. Uma das m√£os do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo d√® homem: r√≠gido e fremente, ao mesmo tempo, √† for√ßa de concentrar todo o √≠mpeto nas n√°degas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante ‚ÄĒ os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espa-lhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o c√©u branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante.

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O Ciclo do Progresso

Da sociedade e do luxo que ela engendra, nascem as artes liberais e mec√Ęnicas, o com√©rcio, as letras, e todas essas inutilidades que fazem florescer a ind√ļstria, enriquecem e perdem os Estados. A raz√£o desse deperecimento √© muito simples. √Č f√°cil ver que, pela sua natureza, a agricultura deve ser a menos lucrativa de todas as artes, porque, sendo o seu produto de uso mais indispens√°vel para todos os homens, o pre√ßo deve estar proporcionado √†s faculdades dos mais pobres. Do mesmo princ√≠pio pode-se tirar a regra de que, em geral, as artes s√£o lucrativas na raz√£o inversa da sua utilidade, e de que as mais necess√°rias, finalmente, devem tornar-se as mais negligenciadas. Por ai se v√™ o que se deve pensar das verdadeiras vantagens da ind√ļstria e do efeito real que resulta dos seus progressos. Tais s√£o as causas sens√≠veis de todas as mis√©rias em que a opul√™ncia precipita, finalmente, as na√ß√Ķes mais admiradas.
√Ä medida que a ind√ļstria e as artes se estendem e florescem, o cultivador desprezado, carregado de impostos necess√°rios √† manuten√ß√£o do luxo, e condenado a passar a vida entre o trabalho e a fome, abandona o campo para ir procurar na cidade o p√£o que devia levar para l√°.

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Ver e n√£o Ver

Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte, e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido, ou na conversação, ou em algum cuidado, não dar fé das mesmas coisas que estais vendo? Pois esse é o modo e a razão porque naturalmente, e sem milagre, podemos ver e não ver juntamente. Vemos as coisas, porque as vemos: e não vemos essas mesmas coisas, porque as vemos divertidos.

Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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