Textos sobre Amanh√£

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Textos de amanhã escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Vento que Decidirmos Ser

Uma das mais importantes escolhas que cada um de nós deve fazer é a de escolhermos qual o foco prin-cipal da nossa atenção e cuidado. Se o mundo à nossa volta, a fim de o mudar, ou se o interior de nós mesmos.

Quase todos os bens e males da nossa existência partem do nosso interior, pelo que será aí que importa aperfeiçoar, de forma profunda, tudo o que existe no nosso íntimo.

Um dos trabalhos mais importantes de cada um de nós será o de saber bem o que queremos. O segredo da felicidade pode estar aí: alterar em nós o que nos possa estar a causar desnecessárias ansiedades. Quantas vezes desejamos algo que está fora da nosso controlo?
Existem três tipos de coisas: as que dependem apenas de nós; as que escapam por completo à nossa decisão; e, aquelas sobre as quais temos algum controlo, mas não total.

Se fizermos a nossa alegria depender de algo que não está na nossa mão, então será fácil que nos sinta-mos roubados de algo que, na verdade, nunca foi nosso. Mesmo nos casos em que o conseguimos obter, a ansiedade associada à posse, até pela iminência de o perder da mesma forma que o ganhámos,

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A Irrelev√Ęncia da Escrita Controversa

Suponhamos que amanh√£, como consequ√™ncia de terem lido Henri Miller, todas as pessoas come√ßavam a usar uma linguagem livre, uma linguagem de sarjeta, se quiserem, e a agir de acordo com as suas cren√ßas e convic√ß√Ķes. E ent√£o ? A minha resposta √© que, acontecesse o que acontecesse, seria como nada tivesse ocorrido, nada, insisto, se o compararmos com os efeitos da explos√£o de uma √ļnica bomba at√≥mica. E isto √©, confesso, a coisa mais triste que um indiv√≠duo criador como eu pode admitir. √Č minha convic√ß√£o que estamos hoje a atravessar um per√≠odo a que se poderia chamar de ¬ęinsensibilidade c√≥smica¬Ľ, um per√≠odo em que Deus parece, mais do que nunca, ausente do mundo, e o homem se v√™ condenado a enfrentar o destino que para si pr√≥prio criou. Num momento como este, a quest√£o de saber se um homem √© ou n√£o culpado de usar de uma linguagem obscena em livros impressos parece-me perfeitamente inconsequente. √Č quase como se eu, ao atravessar um prado, descobrisse uma erva coberta de esterco e, curvando-me para a ervilha obscura, lhe dissesse em tom de admoesta√ß√£o: ¬ę

Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros n√£o aparecem como colaboradores, mas como inimigos, n√£o pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma vis√£o mais ampla do mundo; esfor√ßo de vencer, temor de ser vencido; √© j√° todo o temperamento de ¬ęstruggle¬Ľ que se afina na escola e lan√ßar√° amanh√£ sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem n√£o sabe combater ou n√£o tem interesse pela luta ficar√° para tr√°s, entre os piores; e √© certamente esta predomin√Ęncia dada ao esp√≠rito de batalha um dos grandes malef√≠cios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos;

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O Necessário não é Propriamente um Bem

Toda a vida, em meu entender, √© uma mentira: j√° que √©s t√£o engenhoso, critica-a e recondu-la ao caminho da verdade. Ela considera como necess√°rias coisas que em grande parte n√£o passam de sup√©rfluas; e mesmo as que n√£o s√£o sup√©rfluas n√£o contribuem em nada para nos dar bem estar e felicidade. Pelo facto de ser necess√°ria, uma coisa n√£o √©, desde logo, um bem; ou ent√£o degradamos o conceito de ¬ębem¬Ľ, dando este nome ao p√£o, √† polenta e a tudo o mais imprescind√≠vel √† vida. Tudo o que √© bem, √©, por isso mesmo, necess√°rio, mas o que √© necess√°rio n√£o √© for√ßosamente um bem: h√° muita coisa necess√°ria e, simultaneamente, de baixo n√≠vel.
Ninguém é tão ignorante da dignidade do bem que degrade o conceito ao nível dos objectos de uso diário. Pois bem, não seria melhor que te aplicasses antes a mostrar todo o tempo que se perde na busca de superfluidades, a apontar como tanta gente desperdiça a vida na busca do que não passa de meios auxiliares? Observa os indivíduos, considera a sociedade: todos vivem em função do amanhã! Não sabes que mal há nisto? O maior possível. Essa gente não vive, espera viver,

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Moral Convencional e Moral Verdadeira

A respeitabilidade, a regularidade, a rotina Рtoda a disciplina de ferro forjada na moderna sociedade industrial Рatrofiaram o impulso artístico e aprisionaram o amor de forma tal que não mais pode ser generoso, livre e criador, tendo de ser ou furtivo ou pedante. Aplicou-se controle às coisas que mais deveriam ser livres, enquanto a inveja, a crueldade e o ódio se espraiam à vontade com as bençãos de quase toda a bisparia. O nosso equipamento instintivo consiste em duas partes Рuma que tende a beneficiar a nossa própria vida e a dos nossos descendentes, e outra que tende a atrapalhar a vida dos supostos rivais. Na primeira incluem-se a alegria de viver, o amor e a arte, que psicologicamente é uma consequência do amor. A segunda inclui competição, patriotismo e guerra. A moral convencional tudo faz para suprimir a primeira e incentivar a segunda. A moral verdadeira faria exactamente o contrário.
As nossas rela√ß√Ķes com os que amamos podem ser perfeitamente confiadas ao instinto; s√£o as nossas rela√ß√Ķes com aqueles que detestamos que deveriam ser postas sob o controle da raz√£o. No mundo moderno, aqueles que de facto detestamos s√£o grupos distantes, especialmente na√ß√Ķes estrangeiras. Concebemo-las no abstracto e engodamo-nos para crer que os nossos actos (na verdade manifesta√ß√Ķes de √≥dio) s√£o cometidos por amor √† justi√ßa ou outro motivo elevado.

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Tem-me Custado a Passar o Dia

Ent√£o o rico fochinhinho chegou fixe? A rica fochinhinha est√° mais triste do que a triste noite. O pai chega hoje no comboio da noite e vamos esper√°-lo √† esta√ß√£o. Que pena n√£o ser o meu preto que chega! Mas se Deus quiser… s√°bado a esta hora estou eu bem mais contente do que hoje: Tem-me custado a passar o dia como tu nem calculas; tenho estado deitada a olhar para o mapa, a ler e a bordar para ter o bordado muito adiantado quando o fochinhinho chegar.
Ando como os parvos a olhar para as paredes, mais chateada do que nunca. Então o pirilau está triste e cheio de saudades? Escrevo hoje só meia folha de papel porque ainda não recebi carta tua e não tenho pois que responder a coisa alguma, a não ser dizer-te que estou a achar os dias com 48 horas cada um. Dize-me o que fazes no quartel que é para que eu vá calculando o que tens feito e o que te resta fazer. Vai ao teatro para te distraíres, já que eu não vejo aqui nada. Só quero sair ao passeio e ao teatro quando vier o rico amor meu. Não te esqueças de fazer a fatiota de cotim.

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Luto pela Bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. N√£o excomungarei ningu√©m. N√£o diria, amanh√£, a esse sacerdote: ¬ęVoc√™ n√£o pode baptizar ningu√©m porque √© anticomunista.¬Ľ N√£o diria ao outro: ¬ęN√£o publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque voc√™ √© anticomunista.¬Ľ Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais t√≠tulos al√©m desse, sem trazerem na cabe√ßa uma regra-, uma palavra r√≠gida, um r√≥tulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que n√£o esperem ningu√©m, nunca mais, √† porta do munic√≠pio para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da C√Ęmara Municipal. N√£o quero que ningu√©m fuja em g√īndola, que ningu√©m seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a √ļnica maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta sen√£o como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor sen√£o como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ub√≠qua, extensa, inexaur√≠vel. De tantos encontros entre a minha poesia e a pol√≠cia, de todos esses epis√≥dios e de outros que n√£o contarei porque repetidos,

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O Segredo das Mulheres

Como os homens andam sempre atrasados em relação às mulheres (porque só pensam numa coisa de cada vez e acham que falar acerca das coisas é pior do que fazê-las), quem sabe se não é estudando o comportamento feminino de hoje que poderemos vislumbrar o nosso macaquismo masculino de amanhã?
As mulheres de hoje sabem quem lhes pode fazer mal: são as outras mulheres. Os homens, por muito amados e queridos, nem sequer são considerados competidores. São como são, têm a inteligência e o material que têm Рe que Deus os abençoe por ser assim, como os pêssegos-rosa e os arcos-íris e todos os outros fenómenos naturais que são difíceis de prever e de controlar.

O segredo das mulheres, que nenhum homem pode perceber, a n√£o ser que seja amado por alguma que se sinta suficientemente amada por um para lhe contar mais do que o suficiente para ele continuar a existir tal como √© (que mais n√£o se lhe pede) √©: os homens n√£o entram na equa√ß√£o. √Č tudo uma quest√£o entre elas.
Elas s√£o espertas. √Č por isso que morrem de medo umas das outras. Conhecem o perigo e sabem quem pode emperig√°-las.

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Dar o que Temos é Pouco

Quem apenas dá o que tem dá sempre pouco. Cada um de nós é muito mais do que aquilo que possui. Assim, mais do que dar o que temos, devemos dar o que somos.

Quem dá o que é irradia o bem da sua existência, semeia-se enquanto bondade… faz-se mais e melhor.

H√° quem tenha tudo e n√£o seja nada. Julgando que o seu valor est√° no que possui, exibe os seus bens como se fossem condecora√ß√Ķes… desprezando n√£o s√≥ o que √©, mas, e ainda mais importante, o que poderia ser.

Quanto às coisas materiais, será melhor merecer o que não se tem do que ter o que não se merece… tal como é preferível ser credor do que devedor.

Nunca é bom depender do que não depende de nós.
Hoje confundem-se desejos com necessidades. Na verdade, n√£o s√£o sequer compar√°veis, na medida em que os desejos buscam uma satisfa√ß√£o inalcan√ß√°vel. Pois assim que se sacia um desejo, logo outro, maior, toma o seu lugar. S√£o vontades estranhas √† nossa paz e capazes de alimentar contra n√≥s uma guerra sem fim. √Č importante que atendamos √†s nossas verdadeiras car√™ncias, mas com o cuidado de afastar da√≠ todos os desejos que querem passar por elas.

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O Egoísmo Pessoal Tapa Todos os Horizontes

O mal e o rem√©dio est√£o em n√≥s. A mesma esp√©cie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-√° amanh√£. Agora vivemos um tempo em que o ego√≠smo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido c√≠vico, que n√£o deve confundir-se nunca com a caridade. √Č um tempo escuro, mas chegar√°, certamente, outra gera√ß√£o mais aut√™ntica. Talvez o homem n√£o tenha rem√©dio, n√£o tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e intermin√°vel caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, n√£o sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade n√£o faz nada… alguma coisa n√£o funciona.

Como te Tens Lembrado Hoje de Mim?

O que tens tu feito, amor? Andar√°s, como segunda-feira, cavaleiro andante a flirtar √†s janelas das ruas do Alto do Pina, com damas de cem anos?… Cem anos, pelo menos… Eu creio mesmo que tu disseste mais alguns… Sempre est√°s uma prenda, um espertalh√£o… Tenho que te educar convenientemente e ensinar-te que damas de cem anos e mulheres que fazem queijadas, n√£o servem, ou pelo menos n√£o devem servir, a quem tem a suprema felicidade de possuir uma mulher como eu, que sou uma p√©rola, ou por outra: um colar de p√©rolas, como ontem gentilmente me chamaste… Est√°s de acordo, n√£o √© verdade?

A tua pequenina fera está há imenso tempo ansiosa que a chuva acabe, para deitar o focinhito fora do covil, ao menos por cinco minutos; mas não há meio, o diabo da chuva continua a cair sem piedade e daqui a pouco a ferazinha sai mesmo com chuva e tudo. Há tanto tempo que não saio! Em horas de concentração de consciência, eu ponho-me a pensar que nunca julguei capaz que um homem pudesse fazer da Miss América, como muita gente me chamava dantes, esta burguezinha pacata, que, detrás dos vidros duma janela, passa a vida a fazer rendas,

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Acredita no Teu Próprio Pensamento

Acredita no teu pr√≥prio pensamento; crer que o que √© certo para ti, no teu cora√ß√£o, o √© tamb√©m para todos os homens – isso √© o g√©nio. Expressa a tua convic√ß√£o latente e ela ser√° o ju√≠zo universal; pois sempre o mais √≠ntimo se converte no mais externo, e o nosso primeiro pensamento √©-nos devolvido pelas trombetas do Ju√≠zo Final. A voz da mente √© familiar a cada um; o maior m√©rito que atribu√≠mos a Mois√©s, Plat√£o e Milton √© o de terem reduzido a nada livros e tradi√ß√Ķes, e dito o que pensavam eles pr√≥prios, n√£o o que pensavam os homens. Um homem deveria aprender a distinguir e contemplar esse raio de luz que brilha atrav√©s da sua mente, vindo do interior, melhor do que o brilho do firmamento de bardos e s√°bios. E, no entanto, expulsa o seu pensamento, sem lhe dar import√Ęncia, apenas porque √© o seu.
Em toda a obra de g√©nio, reconhecemos os nossos pr√≥prios pensamentos rejeitados; s√£o-nos devolvidos com uma certa majestade alienada. As grandes obras de arte n√£o nos oferecem li√ß√£o mais impressionante do que essa. Elas ensinam-nos a aceitar, com bem humorada inflexibilidade, as nossas impress√Ķes espont√Ęneas, especialmente quando todo o clamor das vozes esteja do lado oposto.

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Envolvê-la nos Meus Braços

Tr√™s minutos depois de voc√™ ter partido. N√£o, n√£o consigo reprimi-lo. Digo-lhe o que j√° sabe: amo-a. √Č isto que destru√≠ vezes sem conta. Em Dijon, escrevi-lhe cartas longas e apaixonadas (se voc√™ tivesse permanecido na Su√≠√ßa ter-lhas-ia enviado), mas como posso eu envi√°-las para Louveciennes?

Anais, n√£o posso dizer muito agora – encontro-me demasiado alterado. Quase n√£o consegui conversar consigo, porque estava continuamente prestes a levantar-me e a envolv√™-la nos meus bra√ßos. Tinha esperan√ßas de que voc√™ n√£o tivesse de ir jantar a casa… De que pud√©ssemos ir a algum lado jantar e dan√ßar. Voc√™ dan√ßa… J√° sonhei com isso vezes sem conta… Eu a dan√ßar consigo, ou voc√™ a dan√ßar sozinha com a cabe√ßa inclinada para tr√°s e os olhos semicerrados. Algum dia tem de dan√ßar para mim dessa maneira. Esse √© o seu Eu espanhol, o tal sangue andaluz destilado.

Estou sentado no seu lugar e j√° levei aos l√°bios o copo onde voc√™ bebeu. Mas n√£o sei o que dizer. O que voc√™ me leu p√īs-me a cabe√ßa √†s voltas. A sua linguagem √© ainda mais avassaladora do que a minha. Comparado consigo, n√£o passo de um petiz… porque, quando o √ļtero que h√° em si fala,

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Uma Vida Calma e Tranquila

A primeira pergunta que Di√≥genes fez a Alexandre √© a primeira pergunta que qualquer pessoa inteligente deve fazer a si pr√≥pria. Di√≥genes n√£o desperdi√ßou um √ļnico momento.
РAlexandre, estás a tentar conquistar o mundo inteiro. Então e tu? Terás tempo suficiente, depois de conquistares o mundo, para te conheceres a ti próprio? Tens certezas sobre o amanhã ou sobre o próximo momento?
Alexandre nunca tinha conhecido um homem assim. Ele já tinha vencido grandes reis e imperadores, mas percebeu que Diógenes era um homem muito poderoso. Baixando os olhos, Alexandre respondeu:
– N√£o te posso dizer que esteja certo sobre o momento seguinte. Mas posso prometer-te uma coisa: quando tiver conquistado o mundo, vou desejar descansar e viver uma vida calma, tal como tu.
Di√≥genes estava a gozar um banho de sol matinal junto a um rio, rodeado por bonitas √°rvores. Ele riu-se… por vezes penso que o seu riso ainda deve continuar a ecoar.
Pessoas como Diógenes pertencem à eternidade. As suas assinaturas não são feitas na água.
Alexandre sentiu-se ofendido e perguntou-lhe porque se estava a rir.
– √Č muito simples! – respondeu Di√≥genes. – Se eu posso descansar e viver uma vida calma sem ter conquistado o mundo,

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O Mais F√°cil de Resolver

De quanta imagina√ß√£o n√£o √© feita uma vida para se compensar o que se n√£o realizou! J√° todos o sabemos e nunca ningu√©m o sabe. Se fosse coisa de se saber, n√£o havia man√≠acos da droga, do fumo ou do √°lcool. Projecta-se milimetricamente uma reac√ß√£o a ter, uma ofensa a vingar, uma desconsidera√ß√£o a menosprezar, uma conquista a fazer. E sai sempre outra coisa: nem nos vingamos porque se interp√īs uma fraqueza, nem menosprez√°mos a desconsidera√ß√£o porque nos menosprezaram o nosso menosprezo, nem conquist√°mos nada porque amanh√£ √© que √©. Mas falhada a nossa reac√ß√£o, logo congeminamos de novo efectiv√°-la e com acr√©scimo de efeito. At√© que o tempo e a morte tudo decidam irremediavelmente por n√≥s. E acabamos por achar que decidiu bem, porque o mais f√°cil de resolver √© sempre o n√£o resolver.

Nós Nunca Nos Entendemos

Após uma boa hora de conversa, entendemo-nos perfeitamente. Amanhã vem ter comigo com as mãos na cabeça, gritando:
РComo é possível? O que é que você percebeu? Não me disse isto e isto?
Isto e isto, perfeitamente. Mas o problema é que você, meu caro, nunca saberá nem eu lhe poderei nunca dizer como se traduz, em mim, aquilo que você me disse. Não falou turco, não. Eu e você usámos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, meu caro. Ao dizê-las a mim, você preenche-as com o seu sentido; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pensámos que nos entendíamos; de facto, não nos entendemos.
E conto velho também é o facto de o sabermos. Eu não pretendo dizer nada de novo. Apenas volto a perguntar-lhe:
РPorque continua, então, a proceder como se não o soubesse? Porque continua a falar-me de si se sabe que para ser para mim como é para você mesmo e para eu ser, para si, como sou para mim, seria preciso que eu, dentro de mim, lhe desse a mesma realidade que você dá a si mesmo,

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O Oportunismo

O oportunismo √©, porventura, a mais poderosa de todas as tenta√ß√Ķes; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solu√ß√£o √© levado a querer realiz√°-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais r√≠gidas regras de moral; e a gravidade do perigo √© tanto maior quanto √© certo que se n√£o √© movido por um lado inferior do esp√≠rito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz.
Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.
Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava,

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O Conhecimento de nada Serve no Amor

O ¬ęconhece-te!¬Ľ do fil√≥sofo antigo, √© uma tolice. Quem √© que se conhece? Quem pode responsabilizar-se pelos seus actos de amanh√£? N√£o est√° definida a virtude nem o crime. Tu hoje levantas uma mulher do nada com o entusiasmo de um inspirado do c√©u; amanh√£ arrojas essa mulher ao nada com a for√ßa de um instrumento, que obedece ao bra√ßo imperioso de uma vontade superior. N√£o sabes se foste ontem, ou √©s hoje virtuoso… Somos lament√°veis, meu caro Guilherme. A deprava√ß√£o da ra√ßa humana prova-se em ti, e em mim, nesses que julgam beber mais puras as √°guas da fonte da ci√™ncia. A intelig√™ncia √© a corrup√ß√£o ostentando-se em toda a sua luz.

Um Clímax Duplo

Meu Amor,

Hoje vou buscar as minhas p√©rolas! Vou j√° √† loja de fotografias e terei os instant√Ęneos para ti amanh√£ √† noite. Estou livre amanh√£ √† noite. Onde queres que te encontre?

A mulher do Allendy teve uma atitude desesperada, e ele deu um pulo at√© √† Bretanha por uns tempos. Tivemos uma cena linda que te relatarei… Profundamente interessante… Aqui mesmo em Louveciennes, h√° uma hora. Ent√£o vou trabalhar noutras coisas. O teu livro incha dentro de mim como o meu pr√≥prio ‚ÄĒ mais jovialmente ainda do que o meu, porque o teu livro √© para mim uma fecunda√ß√£o, ao passo que o meu √© um acto de narcisismo. Eu digo: deixem uma mulher escrever livros, mas deixem-na acima de tudo permanecer fecund√°vel por outros livros!

Entendes-me? Regozijo nos teus planos imensos, nas tuas ideias… Essas nossas conversas, Henry, como ressaltam, s√£o t√£o firmes… Henry, nunca haver√° momentos mortos, porque em n√≥s ambos existe sempre movimento, renova√ß√£o, surpresas. Nunca conheci a estagna√ß√£o. Nem mesmo a introspec√ß√£o tem sido uma experi√™ncia est√°tica… Mesmo em nada leio maravilhas, e no mero acto de esburacar a terra, em vez de minas de ouro, consigo gerar entusiasmo.

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