Textos sobre Sol

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Textos de sol escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Qual é a Nossa Puerilidade Actual?

Que se pensar√° de n√≥s daqui a cem anos? Como se sentir√° o que hoje sentimos? Porque tudo envelhece t√£o incrivelmente cedo. Quando se rel√™ uma revista de h√° vinte, trinta anos, n√£o s√£o bem os assuntos que envelheceram mas a maneira como se √© nele, com eles. √Č-se ent√£o ing√©nuo, como n√£o sabemos explicar. Tudo perde ent√£o viabilidade, √© um ser-se infantil, um modo rid√≠culo de relacionamento com a vida. As ideias podem talvez persistir. Mas encarquilharam ao muito sol que apanharam, s√£o quebradi√ßas, fr√°geis no modo de existirem, f√ļteis e pueris como uma moda que passou. √Č a altura de vir ao de cima o que era ent√£o invis√≠vel e √© agora a parcela que lan√ßamos nas nossas contas de homens. √Č a altura de isso se separar do rid√≠culo em que se encarnou e de viver por si na significa√ß√£o que teve.

Vive o Instante que Passa

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente at√© √† √ļltima gota de sangue. √Č um instante banal, nada h√° nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele √© o √ļnico por ser irrepet√≠vel e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele ser√° o mesmo nem tu que o est√°s vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele n√£o seja pois em v√£o no dar-se-te todo a ti. Olha o sol dif√≠cil entre as nuvens, respira √† profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes long√≠nquas de crian√ßas, o ru√≠do de um motor que passa na estrada, o sil√™ncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, s√™ vivo a√≠, pensa-te vivo a√≠, sente-te a√≠. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que √©s. Assim o dom est√ļpido e miraculoso da vida n√£o ser√° a estupidez maior de o n√£o teres cumprido integralmente, de o teres desperdi√ßado numa vida que ter√° fim.

O Significado do Amor

Eu pensava que conhecia o significado do amor. O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda.

O amor √© o sentido de todas as palavras imposs√≠veis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor √© a paz fresca e a combust√£o de um inc√™ndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manh√£, o c√©u a deslizar como um rio. A tarde, o sol como uma certeza. O amor √© feito de claridade e da seiva das rochas. O amor √© feito de mar, de ondas na dist√Ęncia do oceano e de areia eterna. O amor √© feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins et√©reos, a salva√ß√£o √© uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.

Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.

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A Realidade é um Bocado de Sol Simples

√Č preciso criar abismos, para a humanidade que os n√£o sabe saltar se engolfar neles para sempre.
Criar todos os prazeres, os mais artificiais poss√≠vel, os mais est√ļpidos poss√≠vel, para que a chama atraia e queime.
O problema da sobrepovoa√ß√£o, o problema da sobreprodu√ß√£o eliminam-se criando-se focos de elimina√ß√£o humana (por meio de todos os v√≠cios), criando focos de in√©rcia humana (por meio de todas as sedu√ß√Ķes). Fazer suicidas, eis a grande solu√ß√£o sociol√≥gica.
√Č facil ouvir de qualquer megera limpa que ¬ęn√£o cr√™ na Lei de Cristo¬Ľ, √© anim√°-la em seguir a n√£o-lei de Cristo. Em tr√™s anos est√° gasta e finda, e ent√£o descobre que o pior de n√£o seguir a lei de Cristo √© que os outros a n√£o seguem tamb√©m. E o caixote do lixo recebe-a como √†s teorias dos mestres a quem ela ensinou.
√Č nosso dever de soci√≥logos untar o ch√£o, ainda que seja com l√°grimas, para que escorreguem nele os que dan√ßam.
E comunistas, batonnières dos beiços, humanitários, cultos do internacionalismo Рtudo isso colabora ardentemente na eliminação deles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das províncias, onde tomam chá com a família, ou lavram as terras sem teorias nem desejos,

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O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

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Ao Longo da Escrita deste Livro

No ano passado, em outubro, talvez a 27, sei que foi a uma ter√ßa-feira, a minha m√£e incentivou-me a dar um passeio. H√° muito que desistiu de me dissuadir dos livros, tanto l√™s que tresl√™s, mas mant√©m o h√°bito de, cuidadosa, depois de bater √† porta com pouca for√ßa, entrar no meu quarto e perguntar: n√£o te apetece dar um passeio? Na maioria das vezes, n√£o tenho disposi√ß√£o para lhe responder mas, nessa tarde, estava a meio de um cap√≠tulo altru√≠sta e decidi fazer-lhe a vontade. O volante do carro, as minhas m√£os a sentirem todas as pedras quase como se estivesse a desliz√°-las na estrada. Estacionei no campo, a pouca dist√Ęncia de um grupo de homens e mulheres, botas de borracha, que estavam a apanhar azeitona. Espalhavam uma gritaria animada que n√£o se alterou quando sa√≠ do carro e me aproximei, boa tarde. Uma vantagem do meu nome √© que dispenso alcunha. Olha o Livro, boa tarde. O sol estava a p√īr-se. Troquei gra√ßas, enquanto dois homens recolheram os pan√Ķes carregados debaixo da √ļltima oliveira e os levaram √†s costas.
N√£o esque√ßo o que vi a seguir. As mulheres dobraram os pan√Ķes vazios e dispuseram-nos na terra, em forma de corredor.

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Somos Uma Nação Que Se Regenera

Que somos n√≥s hoje? Uma na√ß√£o que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si pr√≥pria; porque se revolve no loda√ßal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decad√™ncia, e j√° n√£o sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho n√£o desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paix√Ķes pequenas e m√°s que combatem na arena pol√≠tica, deixai flutuar √† luz do sol na superf√≠cie da sociedade esses cora√ß√Ķes cancerosos que a√≠ vedes; deixai erguerem-se, tombar, despeda√ßarem-se essas vagas encontradas e confusas das opini√Ķes! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superf√≠cie. O sarga√ßo imundo, a escuma f√©tida e turva h√£o-de desparecer. Um dia o oceano popular ser√° grandioso, puro e sereno como saiu das m√£os de Deus. A tempestade √© a precusora da bonan√ßa. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse √© que n√£o tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas veze col√©rico, muitas mais mentecapto e rid√≠culo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do √ļltimo ocidente era o cemit√©rio de uma na√ß√£o cad√°ver.

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O Amor Infinito

Da mulher o que nos comove e enleva √© a parte impoluta que ela tem do c√©u; √© a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, n√£o sabido dela, n√£o sabido de n√≥s. Ali h√° mensagem de outras regi√Ķes; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas l√°grimas, h√° um espirar para o alto, um ir-se o cora√ß√£o avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. N√≥s √© que n√£o sabemos nem podemos ver sen√£o o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas gra√ßas do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de s√ļbita embriaguez nos fazem crer que despimos o inv√≥lucro de barro e pairamos alados sobre a regi√£o das l√°grimas.

√Č Deus que n√£o quer ou somos n√≥s que n√£o podemos prorrogar a dura√ß√£o ao sonho? Se Deus, que mal faria √† sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai t√£o r√°pida aquela esta√ß√£o em que o homem √© bom porque ama, e √© caritativo e dadivoso porque tudo sobeja √† sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das inten√ß√Ķes? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgra√ßas estranhas?

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N√£o Penses

N√£o penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar √© trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar √© n√£o ver. Olha apenas, v√™. Est√° um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o fil√≥sofo da ave de Minerva. Mas n√£o agora. H√° alegria bastante para se n√£o pensar, que √© coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de n√≠vel, havia um aviso de ¬ępare, escute, olhe¬Ľ com vistas ao atropelo dos comboios. √Č o aviso que devia haver nestes dias magn√≠ficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos p√°ssaros. N√£o penses, que √© sacril√©gio.

A Memória da Leitura

N√£o h√° talvez dias da nossa inf√Ęncia que tenhamos t√£o intensamente vivido como aqueles que julg√°mos passar sem t√™-los vivido, aqueles que pass√°mos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afast√°vamos como um obst√°culo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da p√°gina ou a mudar de lugar, as provis√Ķes para o lanche que nos obrigavam a levar e que deix√°vamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabe√ßa, o sol diminu√≠a de intensidade no c√©u azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual s√≥ pens√°vamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o cap√≠tulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contr√°rio gravava em n√≥s uma recorda√ß√£o de tal modo doce (de tal modo mais preciosa no nosso entendimento actual do que o que l√≠amos ent√£o com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora,

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O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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O Mundo Avança

O mundo avan√ßa. √Č verdade, disse eu, avan√ßa, mas dando voltas em torno do sol. (…) Os adolescentes da minha gera√ß√£o, alvora√ßados pela vida, esqueceram em corpo e alma as ilus√Ķes do futuro, at√© que a realidade lhes ensinou que o futuro n√£o era como o sonhavam, e descobriram a nostalgia. Ali estavam as minhas cr√≥nicas dominicais, como uma rel√≠quia arqueol√≥gica entre os escombros do passado, e aperceberam-se que n√£o eram s√≥ para velhos mas tamb√©m para jovens que n√£o tivessem medo de envelhecer.

Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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O Amor √© um Acidente, uma Ren√ļncia, um H√°bito, uma Maldi√ß√£o

O amor é um acidente.
Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava. Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal. As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes. Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.
O amor √© uma ren√ļncia. Amar algu√©m √© desistir de amar outros, √© desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convic√ß√Ķes mais profundas. N√£o me queixo!
N√£o sou ing√©nua nem est√ļpida. Quando digo que o amor √© uma ren√ļncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele. Um homem feio, com poder, √© quase bonito. Um homem bonito,

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Posse Cega

Afligir-se com o que se perdeu e não se rejubilar com o que foi salvo é necedade; só uma criança faria berreiro e atiraria fora o restante dos seus brinquedos se um lhe fosse tomado. Assim procedemos nós, quando a Fortuna nos é adversa num particular: tomamos o resto improfícuo com chorar e lamentarmo-nos.
РQue é que possuímos? Рpode-se perguntar.
Que é que não possuímos? Este homem uma reputação, esse uma família, aquele uma esposa, aquele outro um amigo. No seu leito de morte, Antipater de Tarso fez um inventário das boas coisas que lhe haviam sucedido na vida e nele incluiu, mesmo, uma viagem feliz, que fizera de Cilícia a Atenas. As coisas simples não devem ser negligenciadas, mas levadas em conta. Devemo-nos sentir gratos por estarmos vivos, bem, e por nos ser dado ver o sol; por não haver guerra nem revolução; por a terra e o mar estarem ao dispor de quem deseje plantar ou velejar; por nos ser consentido escolher entre falar e agir ou ficar quietos, em paz, gozando do nosso repouso.
A presença destas bençãos aumentará ainda mais o nosso contentamento se imaginarmos como seria se não estivessem presentes;

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N√°ufragos que Navegam Tempestades

As tempestades são sempre períodos longos. Poucas pessoas gostam de falar destes momentos em que a vida se faz fria e anoitece, preferem histórias de praias divertidas às das profundas tragédias de tantos naufrágios que são, afinal, os verdadeiros pilares da nossa existência.

Gente vazia tende a pensar em quem sofre como fraco… quando fracos s√£o os que evitam a qualquer custo mares revoltos, tempestades em que qualquer um se sente min√ļsculo, mas s√≥ os que n√£o prestam o s√£o verdadeiramente. Para a gente de cora√ß√£o pequeno, qualquer dor √© grande. Os homens e mulheres que assumem o seu destino sabem que, mais cedo ou mais tarde, morrer√£o, mas h√° ainda uma decis√£o que lhes cabe: desviver a fugir ou morrer sofrendo para diante.
Da morte saímos, para a morte caminhamos. O que por aqui sofremos pode bem ser a forma que temos de nos aproximarmos do coração da verdade.

Haverá sempre quem seja mestre de conversas e valente piloto de naus alheias, os que sabem sempre tudo, principalmente o que é (d)a vida do outro, e mais especificamente se estiver a passar um mau bocado. Logo se apressam a dizer que depois da tempestade vem a bonança,

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A Tempestade do Destino

Por vezes o destino √© como uma pequena tempestade de areia que n√£o p√°ra de mudar de direc√ß√£o. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atr√°s de ti. Voltas a mudar de direc√ß√£o, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encal√ßo. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma esp√©cie de dan√ßa maldita com a morte ao amanhecer. Porqu√™? Porque esta tempestade n√£o √© uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade √©s tu. Algo que est√° dentro de ti. Por isso, s√≥ te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para n√£o deixar entrar a areia e, passo a passo, atravess√°-la de uma ponta a outra. Aqui n√£o h√° lugar para o sol nem para a lua; a orienta√ß√£o e a no√ß√£o de tempo s√£o coisas que n√£o fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direc√ß√£o ao c√©u. √Č uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(…) E n√£o h√° maneira de escapar √† viol√™ncia da tempestade, a essa tempestade metaf√≠sica, simb√≥lica. N√£o te iludas: por mais metaf√≠sica e simb√≥lica que seja, rasgar-te-√° a carne como mil navalhas de barba.

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Examinai todas as ac√ß√Ķes que se fazem debaixo do sol; na verdade

Examinai todas as ac√ß√Ķes que se fazem debaixo do sol; na verdade, n√£o passam de vaidade e correr atr√°s do vento.

O Sono como Condi√ß√£o de Sa√ļde

Eu presto homenagem √† sa√ļde como a primeira musa, e ao sono como condi√ß√£o de sa√ļde. O sono beneficia-nos principalmente pela sa√ļde que propicia; e tamb√©m ocasionalmente pelos sonhos, em cuja confusa trama uma li√ß√£o divina por vezes se infiltra. A vida d√°-se em breves ciclos ou per√≠odos; depressa nos cansamos, mas rapidamente nos relan√ßamos. Um homem encontra-se exaurido pelo trabalho, faminto, prostrado; ele mal √© capaz de erguer a m√£o para salvar a sua vida; j√° nem pensa. Ele afunda-se no sono profundo e desperta com renovada juventude, cheio de esperan√ßa, coragem, pr√≥digo em recursos e pronto para ousadas aventuras. ¬ęO sono √© como a morte, e depois dele o mundo parece recome√ßar de novo. Pensamentos claros surgem firmes e luminosos, como est√°tuas sob o sol. Refrescada por fontes supra-sens√≠veis, a alma escala a mais clara vis√£o¬Ľ [William Allingham].