Textos sobre Vazio

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Textos de vazio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Verdadeiro Rosto da História

O verdadeiro rosto da hist√≥ria afasta-se veloz. S√≥ podemos reter o passado como uma imagem que no instante em que se deixa reconhecer lan√ßa um clar√£o que n√£o voltar√° a ver-se. ¬ęA verdade n√£o nos escapar√°¬Ľ – esta palavra de Gottfried Keller caracteriza com exactid√£o, na concep√ß√£o da hist√≥ria que t√™m os historicistas, o ponto em que o materialismo hist√≥rico realiza o seu avan√ßo atrav√©s dessa imagem. Irrecuper√°vel √©, com efeito, toda a imagem do passado que corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela n√£o se reconheceu. (A feliz not√≠cia trazida pelo ofegante histori√≥grafo do passado sai de uma boca que, talvez no pr√≥prio instante em que se abre, fala j√° no vazio.)

A Religião como Ficção

– A f√© √© uma resposta instintiva a aspectos da exist√™ncia que n√£o podemos explicar de outro modo, seja o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, a pr√≥pria origem das coisas, o sentido da nossa vida ou a aus√™ncia dele. S√£o aspectos elementares e de extrema simplicidade, mas as nossas limita√ß√Ķes impedem-nos de responder de modo inequ√≠voco a essas perguntas e por isso geramos, como defesa, uma resposta emocional. √Č simples e pura biologia.
РEntão, a seu ver, todas as crenças ou ideais não passariam de uma ficção.
– Toda a interpreta√ß√£o ou observa√ß√£o da realidade o √© necessariamente. Neste caso, o problema reside no facto de o homem ser um animal moral abandonado num universo amoral e condenado a uma exist√™ncia finita e sem outro significado que n√£o seja perpetuar o ciclo natural da esp√©cie. √Č imposs√≠vel sobreviver num estado prolongado de realidade, pelo menos para o ser humano. Passamos uma boa parte das nossas vidas a sonhar, sobretudo quando estamos acordados. Como digo, pura biologia.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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O Edifício Metafísico da Sociedade

Pode-se considerar o edifício metafísico da sociedade como um edifício material que seria composto de diferentes nichos ou compartimentos de grandeza mais ou menos considerável. Os lugares com as suas prerrogativas, os seus direitos, etc. formam esses diversos compartimentos, esses diferentes nichos. Eles são duráveis, e os homens passam. Aqueles que os ocupam são ora grandes, ora pequenos, e nenhum ou quase nenhum é feito para o seu lugar. Ali vemos um gigante, curvado ou agachado no seu nicho; lá vemos um anão sob uma arcada: raramente o nicho é feito para a estatura; em torno do edifício circula uma multidão de homens de diversos tamanhos. Todos esperam que haja um nicho vazio para ali se colocarem, qualquer que seja o nicho.

No Fundo Somos Bons Mas Abusam de Nós

O comum das gentes (de Portugal) que eu n√£o chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum √© bom. Mas √© exactamente porque √© bom, que abusam dele. Os pr√≥prios v√≠cios v√™m da sua ingenuidade, que √© onde a bondade tamb√©m mergulha. S√≥ que precisa sempre de lhe dizerem onde aplic√°-la. N√≥s somos por instinto, com intermit√™ncias de consci√™ncia, com uma generosidade e delicadeza incontrol√°veis at√© ao rid√≠culo, astutos, comunic√°veis at√© ao dislate, corajosos at√© √† temeridade, orgulhosos at√© √† petul√Ęncia, humildes at√© √† subservi√™ncia e ao complexo de inferioridade. As nossas virtudes t√™m assim o seu lado negativo, ou seja, o seu v√≠cio. √Č o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. Toda a nossa literatura popular √© disso que vive.
Mas, no fim de contas, que √© que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma ¬ęciviliza√ß√£o planet√°ria¬Ľ? Que significa o regionalismo em face da r√°dio e da TV? O rasoiro que nivela a prov√≠ncia √© o que igualiza as na√ß√Ķes. A anula√ß√£o do indiv√≠duo de facto √© o nosso imediato horizonte. Estruturalismo, lingu√≠stica, freudismo, comunismo, tecnocracia s√£o faces da mesma realidade. Como no Egipto, na Gr√©cia,

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Controlar a Timidez

Nunca consegui controlar a timidez. Quando tive que enfrentar em carne viva a incumb√™ncia que nos deixou o pai errante, aprendi que a timidez √© um fantasma invenc√≠vel. De cada vez que tinha que solicitar um cr√©dito, mesmo dos combinados de antem√£o em lojas de amigos, demorava horas em redor da casa, reprimindo a vontade de chorar e as contrac√ß√Ķes da barriga, at√© que me atrevia por fim, com as mand√≠bulas t√£o apertadas que n√£o me sa√≠a a voz. Havia sempre algum comerciante sem cora√ß√£o para me atrapalhar ainda mais: ¬ęMi√ļdo parvo, n√£o se pode falar com a boca fechada.¬Ľ Mais de uma vez regressei a casa com as m√£os vazias e uma desculpa inventada por mim. Mas nunca mais tornei a ser t√£o desgra√ßado como da primeira vez que quis falar pelo telefone na loja da esquina. O dono ajudou-me com a operadora, pois ainda n√£o existia o servi√ßo autom√°tico. Senti o sopro da morte quando me deu o auscultador. Esperava uma voz servi√ßal e o que ouvi foi o latido de algu√©m que falava no escuro ao mesmo tempo que eu. Pensei que o meu interlocutor tamb√©m n√£o me ouvia e levantei a voz tanto quanto pude. O outro,

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Suporte Real para a Emoção

Um fidalgo dos nossos, extremamente sujeito √† gota, sendo pressionado pelos m√©dicos a abandonar totalmente o uso das carnes salgadas, acostumara-se a responder muito espirituosamente que desejava ter o que culpar pelos ataques e tormentos do mal e que vituperando e maldizendo ora o salsich√£o, ora a l√≠ngua de boi e o presunto, sentia-se proporcionalmente aliviado. Mas, seriamente, assim como o bra√ßo que √© erguido para bater nos d√≥i se o golpe falhar e ele for ao vento; e assim como para tornar agrad√°vel uma vista √© preciso que ela n√£o esteja perdida e isolada no vazio do ar, mas tenha uma proemin√™ncia para apoi√°-la a razo√°vel dist√Ęncia,

Assim como o vento, se espessas florestas n√£o lhe op√Ķem resist√™ncia, perde as for√ßas e se dissipa no espa√ßo vazio… (Lucano)

Da mesma forma parece que a alma estimulada e posta em movimento se perde em si mesma se não lhe dermos uma presa: é preciso sempre fornecer-lhe um objecto sobre o qual ela se lance e actue.
Diz Plutarco, a prop√≥sito dos que se afei√ßoam a macacos e cachorrinhos, que a parte amorosa que existe em n√≥s, na falta de um alvo leg√≠timo, em vez de ficar in√ļtil forja assim para si um alvo falso e f√ļtil.

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Moral para Psicólogos

N√£o cultivar uma psicologia de bisbilhoteiro! Nunca observar s√≥ por observar! Isso provoca uma √≥ptica falsa, uma perspectiva vesga, algo que resulta for√ßado e que exagera as coisas. O ter experi√™ncias, quando √© um querer-ter-experi√™ncias, ‚ÄĒ n√£o resulta bem. Na experi√™ncia n√£o √© l√≠cito olhar para si mesmo, todo o olhar se converte ent√£o num ¬ęmau-olhado¬Ľ. Um psic√≥logo nato guarda-se, por instinto, de ver por ver; o mesmo se pode dizer do pintor nato. Este n√£o trabalha jamais ¬ęsegundo a natureza¬Ľ, encomenda ao seu instinto, √† sua c√Ęmara escura o crivar e exprimir o ¬ęcaso¬Ľ, a ¬ęnatureza¬Ľ, o ¬ęvivido¬Ľ… At√© √† sua consci√™ncia chega s√≥ o universal, a conclus√£o, o resultado: n√£o conhece esse arbitr√°rio abstrair do caso individual. ‚ÄĒ Que √© que resulta quando se procede de outro modo? Quando se cultiva, por exemplo, uma psicologia de bisbilhoteiro, √† maneira dos romanciers parisienses, grandes e pequenos? Essa gente anda, por assim diz√™-lo, √† espreita da realidade, essa gente leva para casa cada noite um punhado de curiosidades… Por√©m veja-se o que acaba por sair da√≠ ‚ÄĒ um mont√£o de borr√Ķes, um mosaico no melhor dos casos, e de qualquer forma algo que √© o resultado da soma de v√°rias coisas,

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A Liberdade da Auto-Suficiência

Quanto mais uma pessoa tem em si, tanto menos os outros podem ser alguma coisa para ela. Um certo sentimento de auto-sufici√™ncia √© o que impede os indiv√≠duos de riqueza e valor intr√≠nseco de fazerem os sacrif√≠cios importantes, exigidos pela vida em comum com os outros, para n√£o falar em procur√°-la √†s custas de uma consider√°vel auto-abnega√ß√£o. O oposto disso √© o que torna os indiv√≠duos comuns t√£o soci√°veis e acomod√°veis: para eles, √© mais f√°cil suportar os outros do que eles mesmo. Acrescente-se a isso que aquilo que possui um valor real n√£o √© apreciado no mundo, e aquilo que √© apreciado n√£o tem valor. A prova e consequ√™ncia disso est√£o no retraimento de todo o homem digno e distinto. Assim sendo, ser√° genu√≠na sabedoria de vida de quem possui algo de justo em si mesmo, se, em caso de necessidade, souber limitar as suas pr√≥prias car√™ncias, a fim de preservar ou ampliar a sua liberdade, isto √©, se souber contentar-se com o menos poss√≠vel para a sua pessoa nas rela√ß√Ķes inevit√°veis com o universo humano.
Por outro lado, o que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.

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Abra√ßa o Conte√ļdo e N√£o a Forma

√Äs vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequ√™ncias do comportamento leviano quer de um quer do outro. Porque s√≥ √© poss√≠vel amar atrav√©s da mulher e n√£o a mulher. Atrav√©s do poema e n√£o o poema. Atrav√©s da paisagem entrevista do alto das montanhas. E a licenciosidade nasce da ang√ļstia de n√£o se conseguir ser. Quando uma pessoa anda com ins√≥nias, volta-se e torna-se a voltar na cama, √† procura do fresco ombro do leito. Mas basta toc√°-lo, para ele se tornar t√©pido e recusar-se. E ele procura noutro s√≠tio uma fonte dur√°vel de frescura. Mas n√£o consegue dar com ela, porque mal lhe toca a provis√£o esvai-se.
O mesmo se passa com aquele ou com aquela que se fica no vazio dos seres. N√£o passam de vazios os seres que n√£o s√£o janelas ou frestas para Deus. √Č por isso que, no amor vulgar, s√≥ amas o que te foge. De outra maneira, v√™s-te saciado e descoro√ßoado com a tua satisfa√ß√£o.

A Felicidade Encontra-se Fora de Nós

Estamos cheios de coisas que nos lan√ßam para fora. O nosso instinto faz-nos sentir que √© preciso procurar a nossa felicidade fora de n√≥s. As nossas paix√Ķes levam-nos para fora, mesmo quando os objectos se n√£o oferecessem para as excitar. Os objectos de fora tentam-nos por si pr√≥prios e chamam-nos, ainda quando n√£o pensamos neles. E assim, mesmo que os fil√≥sofos digam: ¬ęReco-lhei-vos em v√≥s mesmos, a√≠ encontrareis o vosso bem¬Ľ, n√£o se acredita neles; e aqueles que acreditam s√£o os mais vazios e mais tolos.

O Adoçamento da Pílula Vocabular

√Č curioso verificar atrav√©s da l√≠ngua ‚ÄĒ espelho fiel de cada sociedade e de cada √©poca ‚ÄĒ como em certos aspectos essenciais da vida n√£o houve pr√°ticamente progresso nenhum, consistindo tudo quanto se fez num puro e vazio eufemismo de designa√ß√£o. Escravo, servo, criado, empregado, assalariado … ; demon√≠aco, possesso, maluco, doido, doente, nevrosado…

Meu Deus

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

Só Sente Ansiedade pelo Futuro aquele cujo Presente é Vazio

O principal defeito da vida √© ela estar sempre por completar, haver sempre algo a prolongar. Quem, todavia, quotidianamente der √† pr√≥pria vida “os √ļltimos retoques” nunca se queixar√° de falta de tempo; em contrapartida, √© da falta de tempo que prov√©m o temor e o desejo do futuro, o que s√≥ serve para corroer a alma. N√£o h√° mais miser√°vel situa√ß√£o do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o esp√≠rito inquieto debate-se com o inelut√°vel receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? H√° um apenas: que a nossa vida n√£o se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma. S√≥ sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente √© vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu esp√≠rito, em perfeito equil√≠brio, souber que me √© indiferente viver um dia ou viver um s√©culo, ent√£o poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que esp√©cie de perturba√ß√£o nos poder√° causar a variedade e instabilidade da vida humana se n√≥s estivermos firmes perante a instabilidade?

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Vou Voltar para Mim Mesma

Minha vida √© um grande desastre. √Č um desencontro cruel, √© uma casa vazia. Mas tem um cachorro dentro latindo. E eu ‚ÄĒ s√≥ me resta latir para Deus. Vou voltar para mim mesma. √Č l√° que eu encontro uma menina morta sem pec√ļlio. Mas uma noite vou √† Sec√ß√£o de Cadastro e ponho fogo em tudo e nas identidades das pessoas sem pec√ļlio. E s√≥ ent√£o fico t√£o aut√≥noma que s√≥ pararei de escrever depois de morrer. Mas √© in√ļtil, o lago azul da eternidade n√£o pega fogo. Eu √© que me incineraria at√© meus ossos. Virarei n√ļmero e p√≥. Que assim seja. Am√©n. Mas protesto. Protesto √† toa como um c√£o na eternidade da Se√ß√£o de Cadastro.

Não Há Comunicação Sem Envolvimento

S√≥ atrav√©s de um cerimonial consegues comunicar. Se ouvires distra√≠do essa m√ļsica e considerares distra√≠damente esse templo, n√£o nascer√° nada em ti, nem ser√°s alimentado. O √ļnico meio de que disponho para te explicar a vida a que te convido √©, por conseguinte, que tu te comprometas pela for√ßa e te deixes amamentar por ela. Como te havia eu de explicar essa m√ļsica que ouvi-la n√£o basta, se n√£o te achas preparado para te deixares formular por ela? T√£o prestes vejo a morrer em ti a imagem da propriedade, que dela pouco mais resta do que gravatos. A palavra ir√≥nica √© pr√≥pria mas √© do cancro; um sono mau, um barulho que perturba, e a√≠ est√°s tu privado de Deus. E recusado. Vejo-te sentado no portal, tendo atr√°s de ti a porta da tua casa fechada, totalmente separado do mundo, que n√£o passa do somat√≥rio de objectos vazios. Porque tu n√£o comunicas com os objectos, mas com os la√ßos que os ligam.

O Nascimento de um Poema

Escreve-se um poema devido √† suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formid√°vel, algo que nos transformar√°, que transformar√° tudo. Como na inf√Ęncia, quando se fica √† porta de um quarto obscuro e vazio. Fica-se durante um minuto uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma ilumina√ß√£o talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do an√ļncio suspenso e amea√ßador: n√£o acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. As vezes p√°ra-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. S√£o variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: n√£o acontece na¬¨da. A suspeita apenas de que nos aguarda uma esp√©cie de gra√ßa reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, algu√©m que se ama, um ser imediato; ou ent√£o um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: √© uma vida nova, uma for√ßa nova e profunda, √© uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para n√≥s perdida nas perspectivas inquietas da nossa contempla√ß√£o. E recome√ßa-se. O mesmo, sempre. Nada. Por isso surpreendeu-me a, diga¬¨mos, coer√™ncia vertical do volume, e o seu comprimento de onda,

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Envolvê-la nos Meus Braços

Tr√™s minutos depois de voc√™ ter partido. N√£o, n√£o consigo reprimi-lo. Digo-lhe o que j√° sabe: amo-a. √Č isto que destru√≠ vezes sem conta. Em Dijon, escrevi-lhe cartas longas e apaixonadas (se voc√™ tivesse permanecido na Su√≠√ßa ter-lhas-ia enviado), mas como posso eu envi√°-las para Louveciennes?

Anais, n√£o posso dizer muito agora – encontro-me demasiado alterado. Quase n√£o consegui conversar consigo, porque estava continuamente prestes a levantar-me e a envolv√™-la nos meus bra√ßos. Tinha esperan√ßas de que voc√™ n√£o tivesse de ir jantar a casa… De que pud√©ssemos ir a algum lado jantar e dan√ßar. Voc√™ dan√ßa… J√° sonhei com isso vezes sem conta… Eu a dan√ßar consigo, ou voc√™ a dan√ßar sozinha com a cabe√ßa inclinada para tr√°s e os olhos semicerrados. Algum dia tem de dan√ßar para mim dessa maneira. Esse √© o seu Eu espanhol, o tal sangue andaluz destilado.

Estou sentado no seu lugar e j√° levei aos l√°bios o copo onde voc√™ bebeu. Mas n√£o sei o que dizer. O que voc√™ me leu p√īs-me a cabe√ßa √†s voltas. A sua linguagem √© ainda mais avassaladora do que a minha. Comparado consigo, n√£o passo de um petiz… porque, quando o √ļtero que h√° em si fala,

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