Textos sobre Oportunidades

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Textos de oportunidades escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

As Bases da Sociedade

Pode dizer-se que h√° quatro coisas b√°sicas e essenciais que a esmagadora maioria do povo de uma sociedade deseja: viver num ambiente seguro, conseguir trabalhar e sustentar-se, ter acesso a boa sa√ļde p√ļblica e s√≥lidas oportunidades educacionais para os filhos. Actualmente, enquanto sociedade, podemos estar a batalhar nestas quatro √°reas, mas temos de permanecer confiantes de que, com o compromisso pessoal de cada um de n√≥s, poderemos e iremos ultrapassar os obst√°culos na via para o desenvolvimento.

O Antagonismo Racial

O elemento puramente instintivo n√£o constitui sen√£o uma pequena parte do √≥dio racial e n√£o √© dif√≠cil de vencer. O medo do que √© estrangeiro, que √© a sua principal ess√™ncia, desaparece com a familiaridade. Se nenhum outro elemento o formasse, toda a perturba√ß√£o desapareceria logo que pessoas de ra√ßas diferentes se habituassem umas √†s outras. Mas h√° sempre pretextos para se odiarem os grupos estrangeiros. Os seus h√°bitos s√£o diferentes dos nossos e portanto (em nossa opini√£o) piores. Se triunfam, √© porque nos roubam as oportunidades; se n√£o triunfam, √© porque s√£o miser√°veis vagabundos. A actual popula√ß√£o do mundo descende dos sobreviventes de longos s√©culos de guerras e por instinto est√° √† espreita de ocasi√Ķes de hostilidade colectiva.

O desejo de ter um inimigo fixa-se no cora√ß√£o desse instinto racista e constr√≥i √† sua volta um edif√≠cio monstruoso de crueldade e de loucura. Tais conflitos representam hoje uma cat√°strofe universal e n√£o j√° somente, como outrora, um desastre para os vencidos: da√≠ as inquieta√ß√Ķes do nosso tempo. √Č por isso que √© mais importante do que nunca conseguir um certo grau de dom√≠nio racional sobre os nossos sentimentos destruidores.

Em geral o ódio racial tem duas origens,

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O Inimigo é Mais Útil que o Amigo

A tua atitude emerge do que costumas dizer: ¬ęAinda sou capaz de utilizar quem √© por mim. Mas prefiro, por comodidade, mandar o meu advers√°rio para o outro campo e abster-me de agir sobre ele, a n√£o ser pela guerra¬Ľ.
Ao proceder assim, n√£o fazes mais que endurecer e forjar o teu advers√°rio.
E eu c√° digo que amigo e inimigo s√£o palavras da tua lavra. √Č certo que especificam qualquer coisa, como definir o que se passar√° se vos encontrardes num campo de batalha, mas um homem n√£o se rege s√≥ por uma palavra. Sei de inimigos que est√£o mais perto de mim ou que me s√£o mais √ļteis ou que me respeitam mais do que os amigos. As minhas faculdades de ac√ß√£o sobre o homem n√£o est√£o ligadas √† sua posi√ß√£o verbal. Direi mesmo que actuo melhor sobre o meu inimigo do que sobre o amigo: quem caminha na mesma direc√ß√£o que eu, oferece-me menos oportunidades de encontro e de troca do que aquele que vem contra mim, disposto a n√£o deixar escapar a m√≠nima palavra ou gestos meus, que lhe podem sair caros.

Quanto Mais Objectos de Interesse um Homem Tem, Mais Ocasi√Ķes Tem Tamb√©m de Ser Feliz

Toda a desilus√£o √© para mim uma doen√ßa que certas circunst√Ęncias podem tornar inevit√°vel, √© verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais r√°pidamente poss√≠vel, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro n√£o gosta; em que √© que o √ļltimo √© superior ao primeiro? N√£o h√° nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta s√£o bons, para quem n√£o gosta s√£o maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro n√£o conhece; sobre este ponto, a sua vida √© mais agrad√°vel e est√° melhor adaptado ao mundo onde ambos t√™m de viver.

O que √© verdadeiro neste exemplo trivial √© igualmente verdade nas quest√Ķes mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol √© sob esse aspecto supeior ao homem que n√£o gosta. O que aprecia a leitura √© ainda mais superior do que aquele que n√£o a aprecia, pois as oportunidade de ler s√£o mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem,

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A Educação Colectiva Não Funciona

A nossa pol√≠tica educacional baseia-se em duas enormes fal√°cias. A primeira √© a que considera o intelecto como uma caixa habitada por ideias aut√≥nomas, cujos n√ļmeros podem aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhes novas ideias. A segunda fal√°cia, √© que, todas as mentes s√£o semelhantes e podem lucrar como o mesmo sistema de ensino. Todos os sistemas oficiais de educa√ß√£o s√£o sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos m√©todos, para dentro de mentes radicalmente diferentes.
Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio. Mas o eu de um indivíduo será o eu de Shakespeare, o eu de outro será o eu de Flecknoe. Os sistemas de educação prevalecentes não só falham em tornar Flecknoes em Shakespeares (nenhum método de educação fará isso alguma vez);

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A Felicidade é uma Interrupção de Futilidade

√Č nas decis√Ķes f√ļteis, das quais nem a vida nem o estado de esp√≠rito depende, que reside a felicidade.
São estes os dias felizes, que Beckett invoca e amaldiçoa, por terem passado, na peça que tem o mesmo nome. Somos sobressaltados por ninharias, que conseguem fazer-se passar por importantes, como escolher entre uma camisa do verde do mar ou do azul do céu.
As decis√Ķes f√ļteis, quando a cabe√ßa √© desocupada daquilo que a preocupa, para se ocupar de uma ninharia, como decidir entre o ruivo ou o rascasso ou entre a p√™ra -p√©rola e a carapinheira, s√£o o ind√≠cio seguro da felicidade. Se a escolha prim√°ria √© entre continuar a viver e deixar de viver e as escolhas secund√°rias s√£o afluentes da primeira, devemos dar gra√ßas.
São uma sorte temporária e alegre a oportunidade e a ocupação mental que nos permitem pensar mais naquilo que nos interessa, sem interessar, do que naquilo que nos deveria interessar, caso estivéssemos tão aflitos que não conseguíssemos pensar noutra coisa senão sobreviver.
Quanto mais tempo perdermos nas escolhas e nas quest√Ķes de que n√£o dependem as nossas vidas ou as nossas almas – naquelas que n√£o interessam, a bem ver,

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De que Valem a Experiência e o Conhecimento na Velhice?

¬ęEnvelhe√ßo aprendendo sempre¬Ľ – S√≥lon, na sua velhice, repetia muitas vezes este verso. O sentido que esse verso possui permitir-me-ia diz√™-lo tamb√©m na minha; mas √© bem triste o conhecimento que, desde h√° vinte anos, a experi√™ncia me fez adquirir: a ignor√Ęncia ainda √© prefer√≠vel. A adversidade √©, sem d√ļvida, um grande mestre, mas faz pagar caro as suas li√ß√Ķes e muitas vezes o proveito que delas se tira n√£o vale o pre√ßo que custaram. Ali√°s, a oportunidade de nos servirmos desse saber tardio passa antes de o termos adquirido.
A juventude √© o tempo pr√≥prio para se aprender a sabedoria; a velhice √© o tempo pr√≥prio para a praticar. A experi√™ncia instrui sempre, confesso, mas n√£o √© √ļtil sen√£o durante o espa√ßo de tempo que temos √† nossa frente. √Č no momento em que se vai morrer que se deve aprender como se deveria ter vivido?
De que me servem os conhecimentos que t√£o tarde e t√£o dolorosamente adquiri sobre o meu destino e sobre as paix√Ķes alheias de que ele √© o fruto? N√£o aprendi a conhecer os homens sen√£o para melhor sentir a desgra√ßa em que me mergulharam e esse conhecimento, embora me revelasse todas as suas armadilhas,

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O Casamento é a Mais Rica Aventura Humana

Meu caro leitor!
Se não tens tempo nem oportunidade para consagrar uma dezena de anos da tua vida a uma viagem em volta do mundo para observar tudo o que um circunavegador pode aprender; se te falta, por não teres estudado por muito tempo as línguas estrangeiras, os dons e os meios de te iniciar nas mentalidades diversas dos povos que se revelam aos cientistas; se não pensas em descobrir um novo sistema astronómico que suprima o de Copérnico, bem como o de Ptolomeu Рentão, casa-te; e mesmo que tenhas tempo para viajar, dons para os estudos e a esperança de fazer descobertas, casa-te do mesmo modo. Tu não te arrependerás, ainda que isso te impeça de conheceres todo o Globo terrestre, de te exprimires em muitas línguas e de compreenderes o espaço celeste; pois o casamento é e continuará a ser a viagem da descoberta mais importante que o homem pode empreender; qualquer outro conhecimento da vida, comparado ao de um homem casado, é superficial, pois ele e só ele penetrou verdadeiramente na existência.

Um Estado Desacostumado

N√£o √© imposs√≠vel assistir a um desvio anormal no funcionamento latente ou vis√≠vel das leis da natureza. Efectivamente, se qualquer um se der ao engenhoso trabalho de interrogar as diversas fases da sua exist√™ncia (sem esquecer qualquer delas, porque talvez fosse essa a que estava destinada a fornecer a prova do que afirmo), n√£o ser√° sem um certo espanto, que noutras circunst√Ęncias seria c√≥mico, que se recordar√° de que em determinado dia, para come√ßar a falar de coisas objectivas, foi testemunha de qualquer fen√≥meno que parecia ultrapassar, e positivamente ultrapassava, as no√ß√Ķes conhecidas fornecidas pela observa√ß√£o e pela experi√™ncia, como, por exemplo, as chuvas de sapos, cujo m√°gico espect√°culo n√£o foi a princ√≠pio compreendido pelos s√°bios. E de que, noutro dia, para falar em segundo e √ļltimo lugar de coisas subjectivas, a sua alma apresentou ao olhar investigador da psicologia, n√£o vou ao ponto de dizer uma aberra√ß√£o da raz√£o (que, no entanto, n√£o deixaria de ser curiosa; pelo contr√°rio, ainda o seria mais), mas, pelo menos, para n√£o me fazer rogado perante certas pessoas frias, que nunca perdoariam as locubra√ß√Ķes flagrantes do meu exagero, um estado desacostumado, muitas vezes grav√≠ssimo, que significa que o limite concedido pelo bom-senso √† imagina√ß√£o √©,

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O Problema do Pacifismo

Regozijo-me por me haverem dado a oportunidade de proferir algumas palavras sobre o problema do pacifismo. A evolu√ß√£o dos √ļltimos anos mostrou novamente que n√£o √© eficaz deixar a luta contra o armamento e contra o esp√≠rito b√©lico nas m√£os dos governantes. Mas a forma√ß√£o de grandes organiza√ß√Ķes com muitos membros tamb√©m n√£o basta, por si s√≥, para atingirmos essa finalidade. A meu ver o meio mais eficaz √© o que j√° o sarc√°stico Arist√≥fanes, h√° quase tr√™s mil anos preconizava na sua famosa com√©dia sat√≠rica ¬ęLisistrata¬Ľ.
Poderíamos assim conseguir que o problema do pacifismo se tornasse uma questão vital da Humanidade, um verdadeiro combate a que seriam atraídos todos os homens de boa-vontade e personalidade vigorosa. A luta seria árdua, por ter de se travar no campo da ilegalidade, mas no fundo seria legítima, por se travar em nome do verdadeiro direito dos homens, contra dirigentes que, por interesses muitas vezes odiosos, exigem dos seus concidadãos um sacrifício de vida que redunda também num acto criminal por atentar contra um dos mandamentos da Lei de Deus.
Muitos que se consideram bons pacifistas não estarão dispostos a tomar parte num pacifismo tão radical, invocando motivos patrióticos. Com esses não se poderá contar na hora crítica.

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A Devida Educação

Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário Рou de outra coisa facilmente aprendida pela educação.
A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo.
Rouba-se mais aos que n√£o falam nem escrevem com os meios t√©cnicos de que precisam. Mas tamb√©m s√£o roubados aqueles, adequadamente educados, que n√£o podem ouvir ou ler os milh√Ķes de pessoas que s√≥ n√£o conseguem dizer plenamente o que querem, porque n√£o t√™m as ferramentas que t√™m as pessoas mais novas, com mais sorte.
Mete nojo a ideia de a educação ser uma coisa que se dá. Que o Estado ou o patrão oferece. Não é assim. A educação, de Platão para a frente, é mais uma coisa que se tira. Não educar é negativamente positivo: é como vendar os olhos ou cortar a língua.
O meu pai,

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Captar a Oportunidade no Momento Justo

J√° percebeste que deves subtrair-te a essas tuas ocupa√ß√Ķes ilus√≥rias e nocivas, mas ignoras ainda o modo de o conseguir. Ora h√° coisas que s√≥ estando presente te posso indicar! O m√©dico tamb√©m n√£o pode determinar por carta a hora adequada para a alimenta√ß√£o ou para o banho: tem de tomar o pulso ao doente. Diz um antigo prov√©rbio que o gladiador s√≥ forma o seu plano na arena a partir da observa√ß√£o do rosto do advers√°rio, do modo como move os bra√ßos, da pr√≥pria postura do corpo. Observa√ß√Ķes sobre os costumes, sobre os deveres, √© poss√≠vel faz√™-las de um modo geral e por escrito; s√£o conselhos que se podem dar n√£o s√≥ a ausentes, como at√© √† posteridade. Mas a maneira e a ocasi√£o de tomar uma decis√£o concreta, isso ningu√©m pode aconselh√°-lo √† dist√Ęncia, √© for√ßoso deliberar em face das pr√≥prias circunst√Ęncias.
Para captar a oportunidade no momento justo √© preciso n√£o s√≥ estar presente, como estar atento. P√Ķe-te, por conseguinte na expectativa, e assim que surpreenderes a oportunidade agarra-a com toda a rapidez, com toda a energia, e liberta-te definitivamente desses teus falacciosos deveres! Repara bem no conselho que te dou: em meu entender tens de libertar-te desse tipo de vida,

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O Amor Social

√Č necess√°rio voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. Vivemos j√° muito tempo na degrada√ß√£o moral, baldando-nos √† √©tica, √† bondade, √† f√©, √† honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destrui√ß√£o de todo o fundamento da vida social acaba por nos colocar uns contra os outros, na defesa dos pr√≥prios interesses, provoca o despertar de novas formas de viol√™ncia e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.

O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a p√īr em pr√°tica o pequeno caminho do amor, a n√£o perder a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral √© feita tamb√©m de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a l√≥gica da viol√™ncia, da explora√ß√£o, do ego√≠smo. Pelo contr√°rio, o mundo do consumo exacerbado √©, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas.

O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado m√ļtuo, √© tamb√©m civil e pol√≠tico,

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A Política ao Sabor dos Humores Pessoais e Colectivos

Bem quero, mas n√£o consigo alhear-me da com√©dia democr√°tica que substituiu a trag√©dia autocr√°tica no palco do pa√≠s. S√≥ n√≥s! D√° vontade de chorar, ver tanta irreflex√£o. N√£o aprendemos nenhuma li√ß√£o pol√≠tica, por mais eloquente que seja. Cinquenta anos a suspirar sem gl√≥ria pelo fim de um jugo humilhante, e quando temos a oportunidade de ser verdadeiramente livres escravizamo-nos √†s nossas obsess√Ķes. Ningu√©m aqui entende outra voz que n√£o seja a dos seus humores.

√Č humoralmente que elegemos, que legislamos, que governamos. E somos uma comunidade de solid√Ķes impulsivas a todos os n√≠veis da cidadania. Com oitocentos anos de Hist√≥ria, parecemos crian√ßas sociais. Jogamos √†s escondidas nos corredores das institui√ß√Ķes.

A Cultura e a Corrupção

Qualquer um pode ser bom no campo. L√° n√£o h√° tenta√ß√Ķes. √Č por isso que as pessoas que n√£o vivem na cidade s√£o t√£o terrivelmente b√°rbaras. A civiliza√ß√£o n√£o √© de modo nenhum uma coisa f√°cil de atingir. H√° duas maneiras de um homem a alcan√ßar. Uma √© pela cultura e outra √© pela corrup√ß√£o. As pessoas do campo n√£o t√™m qualquer oportunidade de praticar nenhuma delas e, por conseguinte, estagnam.

A Memória da Leitura

N√£o h√° talvez dias da nossa inf√Ęncia que tenhamos t√£o intensamente vivido como aqueles que julg√°mos passar sem t√™-los vivido, aqueles que pass√°mos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afast√°vamos como um obst√°culo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da p√°gina ou a mudar de lugar, as provis√Ķes para o lanche que nos obrigavam a levar e que deix√°vamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabe√ßa, o sol diminu√≠a de intensidade no c√©u azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual s√≥ pens√°vamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o cap√≠tulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contr√°rio gravava em n√≥s uma recorda√ß√£o de tal modo doce (de tal modo mais preciosa no nosso entendimento actual do que o que l√≠amos ent√£o com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora,

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A Conversa Nunca é Imparcial

√Č espantoso qu√£o f√°cil e rapidamente a homogeneidade ou a heterogeneidade de esp√≠rito e de √Ęnimo entre os homens se faz manifesta na conversa√ß√£o: ela torna-se sens√≠vel √† menor situa√ß√£o. Entre duas pessoas de natureza substancialmente heterog√©nea, que conversam sobre os assuntos mais estranhos e indiferentes, cada frase de uma desagradar√° mais ou menos √† outra, em muitos casos irritar√°. Naturezas homog√©neas, pelo contr√°rio, sentem de imediato, em tudo, uma certa concord√Ęncia, que, tratando-se de grande homogeneidade, logo converge para a harmonia perfeita, para o un√≠ssono.
A partir disso, explica-se, em primeiro lugar, porque os tipos ordin√°rios s√£o t√£o soci√°veis e em qualquer lugar encontram boa companhia com tanta facilidade – gente estimada, am√°vel e honesta. Com os indiv√≠duos incomuns acontece o contr√°rio, e tanto mais quanto mais distintos forem, de tal maneira que, de tempos em tempos, no seu isolamento, podem alegrar-se por terem descoberto em algu√©m, uma fibra, por menor que seja, homog√©nea √† sua! De facto, cada um s√≥ pode ser para outrem o que este √© para ele. Esp√≠ritos verdadeiramente eminentes fazem o seu ninho nas alturas, como as √°guias, solit√°rios. Em segundo lugar, isso explica por que os indiv√≠duos de disposi√ß√£o igual se re√ļnem de imediato,

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Saber Resolver Problemas

Há pessoas que têm dificuldade em identificar os seus problemas. Usando de uma grande capacidade de adaptação, vão-se habituando a que as coisas lhes estejam a correr menos bem, sem conseguirem perceber exactamente qual o ou os problemas que os apoquentam.
Mas também existe quem tenha tendência para pensar que o problema não é seu. Percebem que ele existe, identificam-no, mas comportam-se com alguma indiferença, como se o problema fosse dos outros, não assumindo a sua responsabilidade.
H√° ainda quem fique √† espera que os problemas se resolvam por si, ou que algu√©m lhos resolva. Embora consigam identific√°-los e reconhec√™-los como seus, parecem considerar que compete a outros ‚ÄĒ familiares, amigos, colegas ‚ÄĒ ou √† sociedade em geral resolv√™-los.
Assim como existe quem, em vez de se dedicar a procurar solução para os seus problemas, concentrando neles a sua atenção e canalizando para a sua resolução a energia possível, prefira desenvolver práticas místicas, pretendendo que uma ou várias entidades mais ou menos divinas façam o que afinal lhes compete a eles próprios fazer.

Um problema √© uma coisa dif√≠cil de compreender, explicar ou resolver. √Č tudo aquilo que resiste √† penetra√ß√£o da intelig√™ncia, constituindo uma inc√≥gnita ou dificuldade a resolver.

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N√°ufragos que Navegam Tempestades

As tempestades são sempre períodos longos. Poucas pessoas gostam de falar destes momentos em que a vida se faz fria e anoitece, preferem histórias de praias divertidas às das profundas tragédias de tantos naufrágios que são, afinal, os verdadeiros pilares da nossa existência.

Gente vazia tende a pensar em quem sofre como fraco… quando fracos s√£o os que evitam a qualquer custo mares revoltos, tempestades em que qualquer um se sente min√ļsculo, mas s√≥ os que n√£o prestam o s√£o verdadeiramente. Para a gente de cora√ß√£o pequeno, qualquer dor √© grande. Os homens e mulheres que assumem o seu destino sabem que, mais cedo ou mais tarde, morrer√£o, mas h√° ainda uma decis√£o que lhes cabe: desviver a fugir ou morrer sofrendo para diante.
Da morte saímos, para a morte caminhamos. O que por aqui sofremos pode bem ser a forma que temos de nos aproximarmos do coração da verdade.

Haverá sempre quem seja mestre de conversas e valente piloto de naus alheias, os que sabem sempre tudo, principalmente o que é (d)a vida do outro, e mais especificamente se estiver a passar um mau bocado. Logo se apressam a dizer que depois da tempestade vem a bonança,

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A Força da Vontade

Tudo vence uma vontade obstinada, todos os obst√°culos abate o homem que integrou na sua vida o fim a atingir e que est√° disposto a todos os sacrif√≠cios para cumprir a miss√£o que a si pr√≥prio se imp√īs. Atento ao mundo exterior, para que n√£o falte nenhuma oportunidade de p√īr em pr√°tica o pensamento que o anima, n√£o deixa que ele o distraia da tens√£o interna que lhe h√°-de dar a vit√≥ria; tem os dotes do pol√≠tico e os dotes do artista, quer modelar o mundo segundo o esquema que ideou. N√£o se trata, claro, de um triunfo pessoal; em hist√≥ria da cultura n√£o h√° triunfos pessoais; ou a vontade √© pura e generosa, nitidamente orientada ao bem geral, ou mais cedo, mais tarde, se h√°-de quebrar contra vontades de progresso mais fortes que ela. Que o querer tenha sua origem e seu apoio em cora√ß√£o aberto √† nobreza, √† beleza e √† justi√ßa; de outro modo √© apenas gume fino e duro de faca; por isso mesmo fr√°gil, na sua aparente penetra√ß√£o e resist√™ncia. Vontade inteligente, e n√£o manhosa, altru√≠sta, e n√£o virada ao sujeito, pedag√≥gica, e n√£o sedenta de dom√≠nio; a esta pertencem os s√©culos por vir: √© a voz a que surgem;

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