Textos sobre Surdos

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Textos de surdos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

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Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros n√£o aparecem como colaboradores, mas como inimigos, n√£o pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma vis√£o mais ampla do mundo; esfor√ßo de vencer, temor de ser vencido; √© j√° todo o temperamento de ¬ęstruggle¬Ľ que se afina na escola e lan√ßar√° amanh√£ sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem n√£o sabe combater ou n√£o tem interesse pela luta ficar√° para tr√°s, entre os piores; e √© certamente esta predomin√Ęncia dada ao esp√≠rito de batalha um dos grandes malef√≠cios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos;

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Mais Vale Ser Surdo que Ensurdecido

Antigamente as pessoas queriam criar-se uma reputa√ß√£o: isso j√° n√£o basta, a feira tornou-se demasiado vasta; agora √© necess√°rio vender aos berros. A consequ√™ncia √© que mesmo as melhores gargantas for√ßam a voz e as melhores mercadorias n√£o s√£o oferecidas por org√£os enrouquecidos; j√° n√£o h√° g√©nio, nos nossos dias, sem clamor e sem rouquid√£o. √Čpoca vil para o pensador: devemos aprender a encontrar entre duas barulheiras o sil√™ncio de que se tem necessidade e a fingir de surdo at√© chegar a s√™-lo. Enquanto n√£o se tiver chegado a isso, corre-se o risco de perecer de impaci√™ncia e de dores de cabe√ßa.

Fragmento do Homem

Que tempo √© o nosso? H√° quem diga que √© um tempo a que falta amor. Convenhamos que √©, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsess√£o do lucro foi transformando o homem num objecto com pre√ßo marcado. Estrangeiro a si pr√≥prio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem √† tona √© o mais abomin√°vel dos simulacros. Toda a arte moderna nos d√° conta dessa cat√°strofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa den√ļncia; a sua dignidade, em n√£o pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar m√°scaras e m√°scaras.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogm√°tico √© mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias √† ¬ęsabedoria¬Ľ do corpo, em que o privil√©gio de uns poucos √© utilizado implacavelmente para transformar o indiv√≠duo em ¬ęcad√°ver adiado que procria¬Ľ, como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situa√ß√£o, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde esp√≠rito e sangue ardem no mesmo fogo, est√£o arraigados no pr√≥prio cerne da vida?

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Cerimonial do Amor

Se não houver esperanças de que o teu amor seja recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio. Esse amor proporciona-te então uma direcção que permite aproximares-te, afastares-te, entrares, saíres, encontrares, perderes. Porque tu és aquele que tem de viver. E não há vida se nenhum deus te criou linhas de força.
Se o teu amor n√£o √© recebido, se ele se transforma em s√ļplica v√£ como recompensa da tua fidelidade, se n√£o tens cora√ß√£o para te calares, nessa altura vai ter com um m√©dico para ele te curar. √Č bom n√£o confundir o amor com a escravatura do cora√ß√£o. O amor que pede √© belo, mas aquele que suplica √© amor de criado.
Se o teu amor esbarra com o absoluto das coisas, se por exemplo tem de franquear a impenetrável parede de um mosteiro ou do exílio, agradece a Deus que ela por hipótese retribua o teu amor, embora na aparência se mostre surda e cega. Há uma lamparina acesa para ti neste mundo. Pouco me importa que tu não possas servir-te dela. Aquele que morre no deserto tem a riqueza de uma casa longínqua, embora morra.

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Cada Cabeça, Cada Sentença

A ideia de ningu√©m ter raz√£o (haja ou n√£o haja p√£o) √© portugues√≠ssima. Sobre qualquer assunto, Portugal garante-nos sempre pelo menos dez milh√Ķes de raz√Ķes, cada uma com a sua diferen√ßazinha, cada uma com a sua insolenciazeca do “eu c√° √© que sei”. N√£o h√° neste aben√ßoado territ√≥rio um √ļnico sujeito, seja eu ou ele cego, surdo e mudo, que n√£o reclame a sua inobjectiv√°vel subjectividade. L√° diz o raio do povo, por tratar-se da √ļnica coisa em que o povo todo est√° de acordo, ¬ęCada cabe√ßa, cada senten√ßa¬Ľ. Basta fazer-se uma reuni√£o ou um j√ļri, um governo ou uma comiss√£o, para assistir-se ao milagre da multiplica√ß√£o das opini√Ķes.

Fomos Deixando de Escutar

Me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deix√°mos de escutar as vozes que s√£o diferentes, os sil√™ncios que s√£o diversos. E deix√°mos de escutar n√£o porque nos rodeasse o sil√™ncio. Fic√°mos surdos pelo excesso de palavras, fic√°mos autistas pelo excesso de informa√ß√£o. A natureza converteu-se em ret√≥rica, num emblema, num an√ļncio de televis√£o. Falamos dela, n√£o a vivemos. A natureza, ela pr√≥pria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana √© n√£o ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.

Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita liter√°ria como se fosse um desses velhos contadores n√£o de hist√≥rias mas de sabedorias. E reconheci li√ß√Ķes que j√° nos tinham sido passadas quando ainda n√£o t√≠nhamos sido dados √† luz.

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Nada Vence as Paix√Ķes Profundas de Cada Um

As paix√Ķes op√Ķem-se √†s paix√Ķes, e podem servir de contrapeso umas √†s outras; mas a paix√£o dominante n√£o se pode conduzir sen√£o pelo seu pr√≥prio interesse, real ou imagin√°rio, porque ela reina despoticamente sobre a vontade, sem a qual nada se pode. Contemplo humanamente as coisas, e acrescento nes¬≠se esp√≠rito: nem todo o alimento √© pr√≥prio para todos os cor¬≠pos; nem todos os objetos s√£o suficientes para tocar deter¬≠minadas almas. Quem acredita serem os homens √°rbitros soberanos dos seus sentimentos n√£o conhece a natureza; consiga-se que um surdo se divirta com os sons encantado¬≠res de Mureti, pe√ßa-se a uma jogadora, que est√° a jogar uma grande partida, que tenha a complac√™ncia e a sabedo¬≠ria de se enfadar durante a mesma, nenhuma arte pode faz√™-lo.
Os s√°bios enganam-se quando oferecem a paz √†s paix√Ķes: as paix√Ķes s√£o inimigas dela. Eles elogiam a mo¬≠dera√ß√£o para aqueles que nasceram para a ac√ß√£o e para uma vida agitada; que importa a um homem doente a delicadeza de um festim que lhe repugna? N√≥s n√£o conhecemos os defeitos de nossa alma; mas ainda que pud√©ssemos conhec√™-los, raramente haver√≠a¬≠mos de os querer vencer.
As nossas paix√Ķes n√£o s√£o distintas de n√≥s mesmos; al¬≠gumas delas s√£o todo o fundamento e toda a subst√Ęncia da nossa alma.

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As Ideias dependem das Sensa√ß√Ķes

√Ä primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano, que n√£o apenas escapa a toda autoridade e a todo poder do homem, mas tamb√©m nem sempre √© reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e juntar for¬≠mas e apar√™ncias incongruentes n√£o causam √† imagina√ß√£o mais em¬≠bara√ßo do que conceber os objectos mais naturais e mais familiares. Apesar de o corpo confinar-se num s√≥ planeta, sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade, o pensamento pode transportar-nos num instante √†s regi√Ķes mais distantes do Universo, ou mesmo, al√©m do Universo, para o caos indeterminado, onde se sup√Ķe que a Natureza se encontra em total confus√£o. Pode-se conceber o que ainda n√£o foi visto ou ouvido, porque n√£o h√° nada que esteja fora do poder do pensamento, excepto o que implica absoluta contradi√ß√£o.

Entretanto, embora o nosso pensamento pare√ßa possuir esta liber¬≠dade ilimitada (…) ele est√° realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e todo o poder criador do esp√≠rito n√£o ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experi√™ncia. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas id√©ias compat√≠veis,

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Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas ra√≠zes, nos teus versos. Porqu√™ tantas? √Č verdade. As terras fronteiri√ßas do Chile infiltraram as suas ra√≠zes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida √© uma longa peregrina√ß√£o que anda sempre √†s voltas, que retorna sempre ao bosque austral, √† selva perdida.
Ali, √© certo, as grandes √°rvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furac√£o, ou queimadas pela neve, ou destru√≠das pelo inc√™ndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as √°rvores tit√Ęnicas: o roble que tomba com estrondo de cat√°strofe surda, como se batesse com m√£o colossal √†s portas da terra pedindo sepultura. As ra√≠zes, por√©m, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, √† humidade, aos l√≠quenes, ao aniquilamento progressivo.
Nada mais belo que aquelas grandes m√£os abertas, feridas e queimadas, que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da √°rvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os m√ļsculos profundos do dom√≠nio vegetal. Tr√°gicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: s√£o esculturas da profundidade ‚ÄĒ obras-primas secretas da natureza.

Certa vez, caminhando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques,

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√Č o Fim que Confere o Significado √†s Palavras

Apenas as palavras quebram o sil√™ncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, n√£o ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recome√ßariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, n√£o, nunca, nem um segundo. Tamb√©m choro sem interrup√ß√£o. √Č um fluxo incessante de palavras e l√°grimas. Sem pausa para reflex√£o. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Tamb√©m mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. √Č-me dif√≠cil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as s√≠labas, as l√°grimas, confundo-as, palavras e l√°grimas, as minhas palavras s√£o as minhas l√°grimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se √© o sil√™ncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, n√£o √© assim que acontece, √© sempre o mesmo murm√ļrio, fluindo ininterruptamente, como uma √ļnica palavra infind√°vel e, por isso, sem significado, porque √© o fim que confere o significado √†s palavras.

A Glória Mais Genuína

A glória mais genuína, a póstera, nunca é ouvida por quem é seu objecto e, no entanto, ele é tido por feliz. Assim, a sua felicidade consistiu propriamente nas grandes qualidades que lhe conferiram a sua glória e no facto de que encontrou oportunidade para desenvolvê-las; logo, foi-lhe permitido agir como era adequado, ou praticar aquilo que praticava com prazer e amor. Pois só as obras assim nascidas alcançam glória póstera. A sua felicidade consistiu, pois, no grande coração, ou também na riqueza de um espírito cuja estampa, nas suas obras, recebe a admiração dos séculos vindouros. Tal felicidade consistiu nos seus próprios pensamentos, cuja meditação será a ocupação e o gozo dos espíritos mais nobres de um imenso futuro. O valor da glória póstera reside, portanto, em merecê-la, e isso é a sua recompensa verdadeira.
Se chegou a haver obras que adquiriram gl√≥ria na posteridade e que tamb√©m a obtiveram entre os seus contempr√Ęneos, tratam-se de circunst√Ęncias fortuitas, sem grande import√Ęncia. Pois, como os homens, via de regra, s√£o privados de ju√≠zo pr√≥prio e, sobretudo, n√£o t√™m capacidade alguma para apreciar as realiza√ß√Ķes elevadas e dif√≠ceis, acabam sempre por seguir nesse dom√≠nio a autoridade alheia, e a gl√≥ria de g√©nero superior,

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Somos Irracionais

No meu tempo de escola prim√°ria, algumas cr√©dulas e ing√©nuas pessoas, a quem d√°vamos o respeitoso nome de mestres, ensinaram-me que o homem, al√©m de ser um animal racional, era, tamb√©m, por gra√ßa particular de Deus, o √ļnico que de tal fortuna se podia gabar. Ora, sendo as primeiras li√ß√Ķes aquelas que mais perduram no nosso esp√≠rito, ainda que, muitas vezes, ao longo da vida, julguemos t√™-las esquecido, vivi durante muitos anos aferrado √† cren√ßa de que, apesar de umas tantas contrariedades e contradi√ß√Ķes, esta esp√©cie de que fa√ßo parte usava a cabe√ßa como aposento e escrit√≥rio da raz√£o. Certo era que o pintor Goya, surdo e s√°bio, me protestava que √© no sono dela que se engendram os monstros, mas eu argumentava que, n√£o podendo ser negado o surgimento dessas avantesmas, tal s√≥ acontecia quando a raz√£o, pobrezinha, cansada da obriga√ß√£o de ser razon√°vel, se deixava vencer pela fadiga e mergulhava no esquecimento de si pr√≥pria. Chegado agora a estes dias, os meus e os do mundo, vejo-me diante de duas probabilidades: ou a raz√£o, no homem, n√£o faz sen√£o dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, √©, tamb√©m indubitavelmente, o mais irracional de todos eles.

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A Vulgaridade Intelectual

Hoje, (…) o homem m√©dio tem as ¬ęideias¬Ľ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audi√ß√£o. Para qu√™ ouvir, se j√° tem dentro de si o que necessita? J√° n√£o √© √©poca de ouvir, mas, pelo contr√°rio, de julgar, de sentenciar, de decidir. N√£o h√° quest√£o de vida p√ļblica em que n√£o intervenha, cego e surdo como √©, impondo as suas ¬ęopini√Ķes¬Ľ.
Mas n√£o √© isto uma vantagem? N√£o representa um progresso enorme que as massas tenham ¬ęideias¬Ľ, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As ¬ęideias¬Ľ deste homem m√©dio n√£o s√£o autenticamente ideias, nem a sua posse √© cultura. A ideia √© um xeque-mate √† verdade. Quem queira ter ideias necessita antes de dispor-se a querer a verdade, e aceitar as regras do jogo que ela imponha. N√£o vale falar de ideias ou opini√Ķes onde n√£o se admite uma inst√Ęncia que as regula, uma s√©rie de normas √†s quais na discuss√£o cabe apelar. Estas normas s√£o os princ√≠pios da cultura. N√£o me importa quais s√£o. O que digo √© que n√£o h√° cultura onde n√£o h√° normas. A que os nossos pr√≥ximos possam recorrer.
Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar.

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Coração Mais Forte que o Dever

Nas alturas em que o meu dever e o meu coração estavam em contradição, o primeiro raramente saiu vitorioso, a menos que bastasse eu abster-me; então, na maioria das vezes, eu era forte, mas sempre me foi impossível agir contra o meu feitio. Quer sejam os homens, o dever, ou mesmo a fatalidade quem comanda, sempre que o meu coração se cala, a minha vontade fica surda, e eu não sou capaz de obedecer. Vejo o mal que me ameaça e deixo-o chegar, em vez de agir para o evitar. Começo por vezes com esforço, mas esse esforço cansa-me e depressa me esgota, e não sou capaz de continuar. Em todas as coisas imagináveis, aquilo que não faço com prazer logo se me torna impossível de levar a cabo.

O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba?

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Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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