Citação de

O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba? Desprendidas de n√£o sei que limbo, as primeiras s√≠labas surgem, tr√©mulas, inseguras, tacteando no escuro, como procurando um t√©nue, dif√≠cil amanhecer. Uma palavra de s√ļbito brilha, e outra, e outra ainda. Como se umas √†s outras se chamassem, come√ßam a aproximar-se, d√≥ceis; o ritmo √© o seu leito; ali se fundem num encontro nupcial, ou mal se tocam na troca de uma breve confid√™ncia, quando n√£o se repelem, crispadas de √≥dio ou avers√£o, para regressarem √† noite mais opaca. Uma m√ļsica, sem nome ainda, come√ßa a subir, qualquer coisa principia a tomar corpo e figura, a respirar, a movimentar-se, a afirmar a sua exist√™ncia e a do poeta com ela, a erguerem-se ambos a uma comum transpar√™ncia, at√© serem canto claro e fundo ‚ÄĒ voz do homem. Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais ef√©mera das exist√™ncias; s√£o as palavras, a luz e o calor que de umas √†s outras se comunicam, que o v√£o por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis ‚ÄĒ a de que se extinga para dar lugar √† fulgura√ß√£o do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao cora√ß√£o dos homens.