Passagens sobre Calor

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Frases sobre calor, poemas sobre calor e outras passagens sobre calor para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A planície é velha de muito ter visto. Sabe a vida dos pássaros, que larga como mensageiros ao céu; sabe a das cigarras, que acolhe na sua pele para que cantem depois do calor; sabe a vida dos homens, que permite e sepulta piedosamente.

Ambição e Poder

Examinemo-nos no momento em que a ambi√ß√£o nos trabalha, em que lhe sofremos a febre; dissequemos em seguida os nossos ¬ęacessos¬Ľ. Verificaremos que estes s√£o precedidos de sintomas cuirosos, de um calor especial, que n√£o deixa nem de nos arrastar nem de nos alarmar. Intoxicados de porvir por abuso de esperan√ßa, sentimo-nos de s√ļbito respons√°veis pelo presente e pelo futuro, no n√ļcleo da dura√ß√£o, carregada esta dos nossos fr√©mitos, com a qual, agentes de uma anarquia universal, sonhamos explodir. Atentos aos acontecimentos que se passam no nosso c√©rebro e √†s vicissitudes do nosso sangue, virados para o que nos altera, espiamos-lhe e acarinhamos-lhe os sinais. Fonte de perturba√ß√Ķes, de transtornos √≠mpares, a loucura pol√≠tica, se afoga a intelig√™ncia, favorece em contrapartida os instintos e mergulha-os num caos salutar. A ideia do bem e sobretudo do mal que imaginamos ser capazes de cumprir regozijar-nos-√° e exaltar-nos-√°; e o feito das nossas enfermidades, o seu prod√≠gio, ser√° tal que elas nos instituir√£o senhores de todos e de tudo.
À nossa volta, observaremos uma alteração análoga naqueles que a mesma paixão corrói. Enquanto sofrerem o seu império, serão irreconhecíves, presas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre da voz.

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O amor √© o √ļnico rem√©dio que n√£o tem efeito colateral, mas √© a flor que mais rapidamente seca sob o calor das tens√Ķes.

A História é uma Fábula Combinada

Essa verdade hist√≥rica, t√£o implorada, √† qual todos se apressam a apelar, na maioria das vezes n√£o passa de uma palavra: ela √© imposs√≠vel no pr√≥prio momento dos acontecimentos, no calor das paix√Ķes cruzadas; e se, mais tarde, nos pomos de acordo, √© porque para os interessados, os contraditores n√£o existem mais. Mas o que √© ent√£o essa verdade hist√≥rica a maior parte das vezes? Uma f√°bula combinada…

Nunca Competir

Toda a pretens√£o com oposi√ß√£o prejudica o cr√©dito; a competi√ß√£o tira logo a desdourar, para deslustrar. S√£o poucos os que fazem boa guerra. A emula√ß√£o descobre os defeitos que a cortesia esqueceu; muitos viveram acreditados enquanto n√£o tiveram advers√°rios. O calor da contesta√ß√£o aviva ou ressuscita inf√Ęmias mortas, desenterra hediondezas passadas e antepassadas. Come√ßa a competi√ß√£o com manifestos de desdouros, socorrendo-se de tudo o que pode e n√£o deve; e, ainda que √†s vezes, e no mais das vezes, as ofensas n√£o sejam armas proveitosas, delas tira vil satisfa√ß√£o para sua vingan√ßa, e esta sacode com tais ares que faz saltar pelos desares o p√≥ do esquecimento. Sempre foi pac√≠fica a benevol√™ncia e ben√©vola a reputa√ß√£o.

Vieste como um Barco Carregado de Vento

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste t√£o depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que j√° n√£o derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e n√£o existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos,

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A Mulher por quem Esperara tantos Anos

Alguma coisa dentro dele voltou a si. Foi como se, de repente, estivessem efectivamente ali os dois. E, reacendendo a luz, encostou os lábios aos dela e sentiu, enfim, o calor que deles se emitia, e o sabor da sua boca, e o seu cheiro, e teve consciência de que aquela que se deitava na cama consigo não era apenas uma mulher bela, mas uma mulher, a mulher por quem esperara tantos anos.

Tiraram ambos o que lhes restava de roupa, lançando-a ao chão, e tocaram-se suavemente. Havia uma admiração entre eles, como se se descobrissem, e todavia era também tal qual se conhecessem de há muito, as superfícies mais sadias como as primeiras rugosidades dos seus corpos.

Tacteavam-se devagar, atentos às luzes e às sombras de cada recanto que esquadrinhavam, e ao fim de alguns momentos beijavam-se de novo, ele abraçando-a na sua totalidade, açambarcando-a, e ela sorrindo por entre o vento da noite, a chuva e os terramotos sorrindo com ela, e a humidade salgada dos seus peitos, e o mar que se atirava furioso contra aquela terra, e o primeiro suor do seu pescoço.

A partir daí, o mundo desapareceu. E havia medo e alegria,

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Esqueço do Quanto me Ensinaram

Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.

Tenho Saudades do Calor ó Mãe

Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
√ď m√£e que me cortas o cabelo ‚ÄĒ o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis

Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma por√ß√£o do teu corpo glorioso ‚ÄĒ n√£o o que j√° tenho ‚ÄĒ
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto t√£o alto quando calculo os corpos celestes

√ď infinita √≥ infinita m√£e

Barganha

Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gib√£o de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fog√£o de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de l√°grima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela sua reflectida
na escurid√£o das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminh√£o de pedra
por um port√£o de peroba.

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A Luz do Teu Amor

Oh! Sim que és linda! a inocência
Em tua fronte serena
Com tal do√ßura reluz!…
Tanta e tanta… que a a√ßucena
Tão esplêndida a existência
Não lha doura assim à luz!
Oh! que √©s linda, e mais… e mais
Quando um traço melancólico
Te diviso no semblante
Nos teus olhos virginais!
Que doçura não existe
Ai! ó virgem, nesse instante
Na poética beleza
Desse traço de tristeza
Que te vem tornar mais bela
Mal em teu rosto pousou!
E eu te quero assim, ó estrela,
Que se inspira em mim a crença
Triste… triste, que √©s mais linda,
Mas dessa beleza infinda
Das fic√ß√Ķes da renascen√ßa
Que a poesia perfumou!

Fita agora os olhos l√Ęnguidos
Na estrela que te ilumina,
Eu n√£o sei que luz divina
De amor nos fala em teu rosto!
Eu n√£o sei, nem tu… ningu√©m!…
Que a vaga luz do sol posto,
Que a palidez da cecém,
Que a meiguice dos amores,
E que o perfume das flores
N√£o respiram a harmonia
Desse toque leve…

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As M√£os

Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço
de um revérbero no eixo dos ventos, usura
das m√°scaras que, sucessivamente, as transformam

de consciência em cal ou metal obscuro.
E já não é por si que a presença existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e n√£o s√£o remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
à água, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da m√ļsica o luto do sil√™ncio.

A praça, a praça é do Povo!
Como o céu é do Condor!
√Č antro onde a liberdade
Cria a √°guia ao seu calor!

O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

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Os Amantes de Novembro

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes s√£o sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados t√£o engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma est√°tua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

A Casa Branca Nau Preta

Estou reclinado na poltrona, √© tarde, o Ver√£o apagou-se…
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu c√©rebro…
N√£o existe manh√£ para o meu torpor nesta hora…
Ontem foi um mau sonho que algu√©m teve por mim…
H√° uma interrup√ß√£o lateral na minha consci√™ncia…
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…
Sigo sem aten√ß√£o as minhas sensa√ß√Ķes sem nexo,
E a personalidade que tenho est√° entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver s√≥ dois…
Um quarto estado pra alma, se s√£o tr√™s os que ela tem…
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
D√≥i-me por detr√°s das costas da minha consci√™ncia de sentir…

As naus seguiram,
Seguiram viagem n√£o sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das can√ß√Ķes mortas do marinheiro de sonho…

√Ārvores paradas da quinta, vistas atrav√©s da janela,
√Ārvores estranhas a mim a um ponto inconceb√≠vel √† consci√™ncia de as estar vendo,

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O Amor Infinito

Da mulher o que nos comove e enleva √© a parte impoluta que ela tem do c√©u; √© a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, n√£o sabido dela, n√£o sabido de n√≥s. Ali h√° mensagem de outras regi√Ķes; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas l√°grimas, h√° um espirar para o alto, um ir-se o cora√ß√£o avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. N√≥s √© que n√£o sabemos nem podemos ver sen√£o o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas gra√ßas do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de s√ļbita embriaguez nos fazem crer que despimos o inv√≥lucro de barro e pairamos alados sobre a regi√£o das l√°grimas.

√Č Deus que n√£o quer ou somos n√≥s que n√£o podemos prorrogar a dura√ß√£o ao sonho? Se Deus, que mal faria √† sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai t√£o r√°pida aquela esta√ß√£o em que o homem √© bom porque ama, e √© caritativo e dadivoso porque tudo sobeja √† sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das inten√ß√Ķes? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgra√ßas estranhas?

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Minha Vida!

Tu estás doente meu amor, porquê?
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus bra√ßos, mais √Ęnsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente…
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

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Anda vem…

Anda vem…, porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha – rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

D√°-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
– Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!… D√°-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos…
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!